
Neste momento compreendo. Trata-se de uma novela escrita há noventa anos, quando era ainda criança.
Muita gente, ao cumprimentar um artista faz essa maldade: a de louvar não suas obras recentes, que são realmente suas, mas trabalhos velhíssimos, cujo verdadeiro autor já não existe mais. Porque o eu de de vinte anos atrás é para mim um estranho com o qual tenho muito pouca coisa em comum. E se escreveu alguma coisa boa, tenho quase raiva. O eu a quem quero bem é o de hoje, no máximo o de ontem, de anteontem. Mais longe, é um estrangeiro desconhecido cujos méritos me são indiferentes.
(Dino Buzzati, em "Naquele Exato Momento". Nova Fronteira, 2004).