Polarizações, interesses e convergências - II

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  • terça-feira, 8 de junho de 2010
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  • Ilustração de Liberati

    Depois do primeiro debate, publicado no post anterior, Gisele Araújo escreveu novamente, uma réplica, em O Pasmado (www.opasmado.blogspot.com). Dei minha resposta. Os dois textos seguem abaixo.
    Continua de pé o convite para que eventuais leitores se animem e agreguem suas análises e considerações. O tema é quente!

    Gisele Araújo: PT e PSDB: "organismos em desconstrução" ou em construção?
    Marco, como te disse, o seu comentário no "post" abaixo me gratifica muito. É generoso, elegante, inteligente. Além de abrir várias frentes de diálogo, vc. o faz de forma altiva, e qualquer resposta necessita de forte elaboração para pretender dialogar no mesmo tom. Eu me detive - veja só - apenas numa frase de seu primeiro parágrafo. E coloco aqui mais hipóteses que afirmações. Publico neste estado rudimentar mesmo, sem peias, porque talvez aí possamos identificar o "meta-problema" teórico sobre o qual dissertamos e poderíamos quem sabe aproveitar o debate conjuntural para pôr em questão a teoria política (sobre outros aspectos, comentarei depois, como, por exemplo, sobre o suposto viés estatista do Serra, que seria uma aproximação possível entre o atual PT e o candidato da oposição. Na minha opinião, este viés inexiste, dado o projeto serrista - programático antes, talvez pragmático agora - de privatizações generalizadas, inclusive da Petrobrás (sobre isso, há vídeos e entrevistas que não me deixam mentir).
    Detive-me no seguinte tema: Sobre os dois alinhamentos partidários (PT e PSDB) como "organismos em desconstrução, corroídos pelo pragmatismo e pela disputa de território", como você coloca.
    1. Será que todos os partidos políticos que entram nas disputas eleitorais (e com isso seguem as chamadas “regras do jogo” da democracia representativa) não estão sempre fadados ao pragmatismo (a busca por sucesso eleitoral que vincula, em certa medida, o “sucesso” (sic) na atuação governamental, leia-se, aprovação do governo)?
    2. Nesse sentido, será que “aceitar” os limites da democracia representativa sempre leva a uma desconstrução?
    3. O próprio termo “desconstrução” não subentende de forma um tanto apressada que algo orgânico existia no passado? Será mesmo que existia? O PSDB nasce de uma dissidência – não muito clara do ponto de vista ideológico – do PMDB. E o PT nasce de uma conjunção também pouco orgânica, pode-se dizer, entre perspectivas sindicais (ABC), religiosas (comunidades católicas de base), estatistas (funcionalismo público) e intelectuais (São Paulo!). Terá sido esse início orgânico? E essa questionável organicidade, pode-se dizer que se desconstrói com a entrada firme na disputa pelo(s) governo(s)?
    4. Talvez nós tenhamos uma teoria política “ainda” (sic) romântica para tratar das instituições da democracia representativa. Talvez os partidos políticos no final do século XX não tenham nascido de forma orgânica, mas de conjunturas e interesses que os vinculam desde o início à disputa de território. E, em sendo assim (os partidos, desde que ligados à concorrência eleitoral, não estão sempre disputando território, como concordamos?), será que eles não firmam sua identidade ao longo destas mesmas disputas, e sempre em relação uns com os outros?
    5. Se isso puder ser sustentado, será que PT e PSDB não se definem exatamente pelos seus governos (decerto distintos regional e temporalmente, e claro, vinculados aos sabores externos) e não pelas suas origens suposta e romanticamente orgânicas?
    6. E, seguindo este raciocínio, o mérito do PT no governo federal não foi ter se diferenciado do governo do PSDB (ainda que isso tenha sido feito na esteira do mensalão, da mudança no cenário mundial, e, coerente com o meu argumento, no próprio andamento do exercício de governar, definindo sua identidade, mesmo temporária, pela distinção pragmática com relação ao PSDB)?
    7. Enfim... isso não os torna hoje, conjunturalmente que seja (e portanto, sem fixidez), partidos com projetos opostos de país? Um, de viés neoliberal e o outro social-democrata? Essa polarização não expressa internamente um embate vivo no cenário mundial? Por exemplo: a crise da Grécia. O que fazer? Cortar gastos públicos ou ampliar o consumo interno de forma subsidiada para “fazer rodar” a economia? Não são estas fórmulas distintas em disputa lá e também aqui? Quando da crise dos EUA, não se disse que o governo do PT tomou medidas econômicas anticíclicas? Ao invés de ouvir a Miriam Leitão (sic), ou quem sabe o Palocci, e enxugar investimentos, o governo não optou exatamente pela redução dos IPIs em áreas específicas de modo a manter a expansão do consumo e um vigor mínimo na expansão econômica?
    8. Será que estes nossos partidos protagonistas da disputa eleitoral não são, ao invés de organismos em desconstrução, estratégias pragmáticas e "territoriais" em construção permanente? Bom, isso pode ser ruim do ponto de vista ideológico, claro. E do ponto de vista de projetos, digamos assim, mais audaciosos, mais questionadores da ordem, mais democráticos. Mas pode ser uma constatação sociológica válida, e esta não é sempre um freio frustrante nos nossos 'wishful thinkings'? Dizendo em outras palavras, podem os partidos que se pautam pelo calendário eleitoral (regras do jogo da democracia representativa) terem projetos arrojadamente questionadores da ordem? Ou então: será que falar de um ativismo da sociedade radicalmente democrática implica necessariamente em compatibilizá-la com partidos voltados para a disputa eleitoral na democracia representativa?
    9. Bom, são notas para refletir, como bem se vê. E inspiradas apenas no primeiro parágrafo do seu comentário. Outras indagações sobre as demais proposições ali inseridas virão, com tempo e esforço para alcançá-las! Obrigada de novo pela oportunidade de excelente reflexão e diálogo.

    Minha resposta: Partidos em transição
    É muito bom poder discutir assim. É bem melhor para que possamos expor as divergências mais substantivas, que não têm a ver com nossas eventuais opções partidárias e sim com questões difíceis, ainda não resolvidas.
    Tentarei cercar os pontos que vc levanta.
    1. Partidos precisam ser pragmáticos sempre, sob pena de pregarem nas nuvens e não chegarem a lugar nenhum. Especialmente se são partidos “de massa”, interessados não só em marcar posição identitária mas em praticar políticas positivas. Disputar eleições é um exercício de pragmatismo, como vc bem observa, e a democracia representativa exige essa perspectiva.
    2. Mas isso não significa que partidos pragmaticamente conduzidos não possam ter ideais, valores e identidades claras. O pragmatismo não exige que os partidos desistam de elaborar uma concepção do mundo e um projeto de sociedade, de futuro. Quando falei que PT e PSDB são organismos “corroídos pelo pragmatismo”, quis dizer que perderam precisamente aquele afã ideológico e aquela pujança que no passado os caracterizaram. Isso me parece particularmente grave no caso do PT, que dos dois foi o que chegou mais longe nesse quesito. Mais que o PSDB, o PT depende da fixação de uma identidade para poder ser de fato uma alternativa de esquerda.
    3. Para mim, os partidos não se “desconstroem” somente quando perdem o que existia antes. Essa é a base, com certeza, como vc enfatiza corretamente. Podem também se desconstruir como ideia e, nessa medida, não têm mais como atingir a materialidade futura que havia sido desenhada no início de sua trajetória. Acho que é isso que está ocorrendo com eles. Falhas internas? Em parte sim. Mas também imposições da realidade. Todos os partidos de esquerda no mundo estão sendo desconstruídos e se desconstruindo. É uma espécie de efeito colateral da globalização, mais precisamente da “vida líquida”, da diluição das classes-referência das sociedades contemporâneas, da entrada em cena daquela “multidão” percebida pelo Toni Negri. Não são tempos fáceis para os partidos políticos.
    4. Os partidos estão sempre disputando território. Mas, se são efetivamente reformadores, precisam ocupar território tanto com posições materiais quanto com ideias. Caso contrário, tornam-se iguais aos outros. A disputa por território que PT e PSDB travam hoje é vazia de ideias. Não chega a ser fisiológica, mas está perto. Para dizer isso não preciso ter necessariamente uma noção de “questionamento da ordem”: basta-me uma ideia reformadora que conceba a reorganização da ordem, que busque um mundo melhor e não um outro mundo, digamos assim.
    5. Não concordo com sua opinião, mas torço para que vc tenha razão quando pergunta se em vez de organismos em desconstrução, não teríamos na verdade organismos em construção permanente. Vc põe uma questão complexa: “será que falar de ativismo da sociedade radicalmente democrática implica necessariamente compatibilizá-la com partidos voltados para a disputa eleitoral na democracia representativa?”. É complexa porque teríamos de definir bem o que seria um “ativismo da sociedade radicalmente democrática”, depois teríamos de ver se esse ativismo tem como mudar a sociedade e se poderá fazer isso sem um Estado e sem partidos, e, por fim, porque não temos como saber, hoje, se os partidos políticos (na forma que for) ainda cabem na política que corresponde à “vida líquida”. Prefiro achar que sim, mas tenho dificuldades para estabelecer isso de modo categórico.
    De repente, estamos protagonizando uma época que desconstrói os partidos programáticos para reconstruí-los como organismos focados exclusivamente na arregimentação de eleitores e na conquista dos governos. Se for isso, os partidos que temos darão conta do recado.
     
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