O diálogo das drogas

O Globo gastou ontem uma página inteira com o encontro em Viena da Comissão de Narcóticos da ONU. O relatório e as declarações de seus representantes admitem o fracasso do que foi até agora tentado para o combate às drogas. Segundo eles, os cartéis se modernizaram e estão ainda mais ricos do que há dez anos. O jornal usou uma enormidade de letras para descrever as ações e as modalidades existentes no mundo sobre combate ao tráfico e recuperação de viciados. Dava para resumir em 5 linhas, mas era tanto espaço que o editor não resistiu em contribuir com um agrado à sanha panfletária de seus chefes. No meio do texto, ligando nada a coisa alguma, a seguinte frase:



Já o presidente da Bolívia, Evo Morales, mascou folha de coca e pediu que a ONU retire a planta da lista de drogas ilícitas nos convênios internacionais.


Justificou a foto da página, Evo segurando uma folhinha. Assim, sem dizer, deixa no ar para o leitor desavisado a impressão de que o governo da Bolívia é um dos entraves ao combate do narcotráfico.

Só na metade do texto entendemos o motivo de tanto esbanjamento de papel e tinta, roubando espaço aos “horrores” da crise. Em Viena também trabalhou a Comissão Latino Americana sobre Drogas e Democracia, aquela do Fernando Henrique Cardoso. Nos 17 nomes da comissão, a presença de João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo.

Se o Globo pode entrar no campo da ficção, inventando uma boba provocação ao Evo, este modesto blog pode também imaginar o diálogo no jatinho entre FH e João Roberto, na volta de Viena:


- FH, estive com tempo nos últimos dias e resolvi estudar melhor o problema das drogas.

- Como assim, João? Eu já te expliquei tudo.

- Sei, sei, mas é que ainda não estava me sentindo preparado, podiam me perguntar alguma coisa...

- Quem vai te perguntar? Fica tranquilo. E o que você está lendo?

- Comprei uns livros. Fiquei ainda mais curioso e pesquisei na internet...

- Cuidado! Não há a menor credibilidade nessa coisa. É terreno do inimigo, nossa grande batalha em breve, vamos acabar com esse lixo...

- Sei sei, mas tem muita coisa que faz sentido...

- Por exemplo?

- Governos, que agora dizem combater as drogas, foram responsáveis pela criação do consumo e do tráfico. Fiquei pensando nisso quando jantávamos com o embaixador inglês em Viena. Que hipocrisia! Lá no início do século XIX, a Inglaterra não tinha o que oferecer aos chineses para trocar por porcelana, seda e chá. Descobriram que ópio bombaria, é fácil “fidelizar” os clientes. Mercado aberto, altíssimo potencial. Criaram uma rota da índia para a China, maior sucesso, até os chineses perceberem o logro. O pau comeu em duas guerras com os ingleses.

- João, isso faz tempo...

- Mas não parou, FH. Em livro de um tal de Alfred W. McCoy, li que de 1945 a 1951 a CIA operou para tirar os sindicatos de Marselha da mão do Partido Comunista, os entregando para a máfia corsa. Bastou terem o controle das docas para Marselha se tornar à época a capital mundial da heroína.

- Mas os comunistas teriam feito estrago pior...

- Em outro livro, de Christopher Robbins, a mesma CIA, no início dos anos 50, organizava o Exército Nacionalista Chinês para combater os comunistas. Este exército se tornou o barão do ópio no Triângulo Dourado (Birmânia, Tailândia e Laos), a maior fonte de ópio e heroína do mundo. Na ajuda, aviões da Air América, companhia aérea da CIA, levavam as drogas...

- Mas eram os comunistas, sempre eles...

- Mas não só. O Nugan Hand Bank, de Sydney, era um banco da CIA. Todos o seu “bord” era de generais, almirantes e burocratas da CIA, incluindo William Colby, seu advogado. Li no livro de Jonathan Kwitny que a grande especialidade do banco era financiar o tráfico de drogas, a lavagem de dinheiro e os negócios internacionais de armas...

- Isso tem o maior cheiro de teoria da conspiração...

- E o caso do Manuel Noriega, algo bem conhecido. Ele foi muito bem pago pela CIA, apesar dos americanos saberem desde 1971 que o general estava pesadamente envolvido no tráfico e lavagem de dinheiro. E cúmulo do fingimento: autoridades dos EUA, incluindo o então diretor da CIA William Webster e vários responsáveis do DEA, enviaram a Noriega cartas de agradecimento pelos esforços para impedir o tráfico de drogas. Claro, ele e os EUA se ajudaram para acabar com a competição ao Cartel de Medellin. O governo dos EUA só se voltou contra Noriega, invadindo o Panamá em dezembro de 1989 e sequestrando o general, depois de descobrir que ele também fornecia informações e serviços aos cubanos e sandinistas. Ironicamente, o tráfico de drogas através do Panamá aumentou após a invasão dos EUA. Está em outro livro, Our Man in Panama, de John Dinges.

- Geopolítica, João. Já falamos sobre...

- E o caso Irâ-contras? Os EUA vendiam na surdina armas ao governo do Aiatolá Komeini e traficavam drogas para financiar os contra revolucionários na Nicarágua. O San Jose Mercury News fez um série de artigos, ta lá no resultado do comitê Kerry, de 1989.

- Deixa pra lá, esse jornal está morto...

- A CIA criou a Al Quaeda na década de 80 no Afeganistão. Os caras faziam tráfico de drogas enquanto combatiam o governo apoiado pelos soviéticos. O principal cliente da agência era Gulbuddin Hekmatyar, um dos principais senhores da droga e o principal refinador de heroína. A CIA forneceu caminhões e mulas para levar armas e trazer ópio para laboratórios ao longo da fronteira afegã-paquistanesa, onde era transformado em heroína. A produção abastecia a metade da heroína usada anualmente nos Estados Unidos e três quartos daquela usada na Europa Ocidental. Depois, em 2001, vencendo os talibãs, o Afeganistão voltou a produzir heroína, só que agora ele é responsável por 80% do consumo mundial.

- João, você anda lendo muito. Vamos mudar de assunto. Ontem, como sempre de madrugada, o Serra teve uma ótima idéia. Já contei para o Tasso. É o seguinte...
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Capa

A capa da Veja da próxima semana certamente será assim. Afinal, há graves denúncias de espionagem ilegal e de seu uso para a prática de chantagens. A Veja, coerente, imparcial e sempre preocupada com o Estado Policialesco e com a Grampolândia, não deixará por menos. No mínimo, fará uma capa igual à dedicada ao Protógenes e sua tenebrosa máquina de espionagem. Aguardemos. Devidamente sentados, é claro.

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Um rabisco das férias

Hoje resolvi dar uma folga para a Yeda (por muito pouco tempo!) e postar um desenho que eu fiz durante minhas férias. Um guaipequinha, filhote de ovelheiro, dormindo atrás de uma árvore. Não costumo fazer muito este tipo de desenho, ao contrário de muitos colegas, até por que os meus raramente dão certo. Este foi um dos raros casos.

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Duas pátrias, dois poemas, as mesmas dores...

Portugal
(Alexandre O'Neill, 1965)

Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.

Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...


Hino Nacional
(Carlos Drummond de Andrade, 1934)

Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás as florestas,
com a água dos rios no meio,
o Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.

O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonetes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas...

Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.

Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos,
piscina, salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.

Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis... os incríveis João-Pessoas...

Precisamos adorar o Brasil!
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos...
Se bem que seja difícil compreender o que querem esses homens,
por que motivo eles se ajuntaram e qual a razão
de seus sofrimentos.

Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum Brasil existe. E acaso existirão os brasileiros?
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A Folha errou. Sugiro a correção

Otávio Frias Filho, diretor de redação da Folha de S. Paulo, no dia 8 de março último, reiterou o que seu jornal havia dito sobre os professores Comparato e Benevides. Disse ele: “Para se arvorar em tutores do comportamento democrático alheio, falta a esses democratas de fachada mostrar que repudiam, com o mesmo furor inquisitorial, os métodos das ditaduras de esquerda com as quais simpatizam."

Pois não é verdade. Cássio Schubsky, atento leitor do blog de Rodrigo Vianna, achou nos arquivos da Folha uma carta publicada do professor Fábio Comparato com críticas a falta de democracia em Cuba, o que desmente as afirmações. A constatação de que jornalistas e seu próprio diretor de redação não lêem o jornal que fazem é grave. Demonstra claramente que não acreditam em seu produto. É fundamental uma correção, entre tantas que o jornal é obrigado a fazer, motivo de nossa permanente diversão. Sugiro o texto:


Diferente do que foi publicado no dia 8, último, com o título “Folha avalia que errou, mas reitera críticas”, nosso diretor de redação errou ao dizer que o professor Fábio Comparato nunca criticou o regime cubano. Ele o fez, em carta publicada nesta Folha, em 1 de junho de 2004. Mas consultado, nosso diretor reitera o que disse sobre a professora Benevides. Ele acha, desconfia, imagina, que ela nunca tenha criticado uma ditadura de esquerda. Para evitar novo mico, colocamos uma equipe de estagiários para a tarefa de ler os arquivos do jornal e confirmar tal palpite, já que nossa equipe principal está envolvida na labuta em assuntos mais pertinentes ao país, como o de denegrir os movimentos sociais, o atual governo, para elegermos nosso grande patrono, José Serra.

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