MÍDIA - A imprensa, entrando nos trilhos.


Por Luciano Martins Costa
Comentário para o programa radiofônico do Observatório, 4/12/2013


Quer se informar melhor sobre corrupção em seu estado? Leia um jornal de outro estado. Salvo raras exceções, a imprensa regional costuma ter vínculos com os governantes locais – quando o jornal não pertence a um empresário que também é político, e, eventualmente, se encontra na oposição.
Na quarta-feira (04/12), por exemplo, comparemos o noticiário dos três principais diários de circulação nacional sobre um tema arrastado como a viagem numa velha “maria-fumaça”: o caso envolvendo obras e serviços do metrô e do sistema de trens metropolitanos de São Paulo. O critério é a suposta objetividade, e a análise exige uma consulta ao histórico das reportagens anteriores sobre o mesmo assunto.
O carioca O Globo traz duas reportagens sobre o tema. Na primeira, informa que o Ministério Público constatou que existem indícios de cartel em contratos do metrô paulista que ainda não estão sendo investigados pelo Cade – Conselho Administrativo de Defesa Econômica. Isso quer dizer que há novas evidências de que o caso se assemelha cada vez mais a uma política consolidada de relacionamento criminoso entre representantes do estado e as multinacionais fornecedoras de equipamentos e serviços para o sistema de transporte sobre trilhos.
Na segunda reportagem, o jornal comenta declarações do ministro da Justiça sobre a suspeita de que o Ministério Público Federal em São Paulo atua com negligência na apuração do escândalo. Além de haver engavetado, por no mínimo três anos, pelo menos dez ofícios da Justiça da Suíça com informações fundamentais sobre o caso de corrupção e formação de cartel, o MP ignorou o pedido de colaboração nas investigações realizadas por aquele país.
A manifestação do ministro ocorreu publicamente, durante depoimento na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
A nova investigação destacada pelo Globo se refere a contratos para reforma de trens com sinais claros de superfaturamento. Num dos casos, o governo de São Paulo pagou pela restauração de trens velhos muito mais do que o preço pago pelo metrô de Nova York por trens novos. Originalmente, diz o jornal, foram firmados contratos para reformar 98 trens das linhas Azul e Vermelha, por R$ 1,6 bilhão, mas o serviço foi fracionado em seis outros contratos, o que resultou em aumento desse valor para R$ 2,4 bilhões.
Risco de acidentes
O detalhe mais impactante da reportagem do Globo se refere ao fato de que, para colocar os trens em funcionamento, funcionários do metrô estão fazendo adaptações apressadas, o que aumenta o risco de desastres. Pelo menos três acidentes ocorridos no último ano podem ter sido causados por aquela prática que os brasileiros chamam de gambiarra. “Num dos casos, um trem andou sozinho e bateu em outro”, diz o Globo.
Os jornais paulistas também se referem ao pedido de suspensão desses contratos, mas não se interessam pelos detalhes.
O Estado de S. Paulo traz informação originada na multinacional Siemens reforçando a suspeita de que houve pagamento de propina para obtenção de negócios superfaturados e informa que o Ministério Público recomendou a suspensão de compromissos firmados entre os anos de 2008 e 2011, nas gestões de José Serra e Geraldo Alckmin. Além disso, outro texto diz que o Banco Mundial pediu acesso ao inquérito, para incluir em investigação interna sobre financiamento da entidade aos projetos do metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos.
A Folha de S. Paulo noticia que o Tribunal de Justiça negou pedido do governo paulista, que queria mover uma ação exclusivamente contra a Siemens – empresa que tomou a iniciativa de denunciar o cartel. Num quadro abaixo da reportagem principal, o jornal cede às evidências e tasca um título irônico: “Cartel de uma empresa só”. Trata-se de um avanço: até recentemente, os jornais paulistas se referiam ao caso como o “cartel da Siemens”.
A sequência do noticiário parece uma viagem de trem, na qual a imprensa paulista conduzia o comboio lentamente, sustentando que se tratava de um cartel de uma multinacional perversa interessada em explorar os paulistas. Mas os fatos levam o comboio ladeira abaixo, e já se pode antever o dilema: ou a Folha e o Estado juntam as provas e evidências e admitem finalmente que se trata de um grave escândalo, ou a reputação da imprensa de São Paulo vai descarrilar na curva logo adiante.
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MÍDIA - Jango e a história.


Seriedade no Congresso, pilhéria na mídia

Por Randolfe Rodrigues 


Quarenta e nove anos separam duas madrugadas históricas do Congresso Nacional. Na primeira, em 2 de abril de 1964, senadores e deputados capitularam de forma vergonhosa ao golpe militar da véspera, dando o pretexto legislativo para que o senador Auro de Moura Andrade, de forma leviana, decretasse a vacância do cargo de presidente da República, na mentirosa suposição de que João Goulart estivesse fora do Brasil. Na realidade, Jango estava em Porto Alegre, justamente avaliando as possibilidades de resistência ao golpe desfechado horas antes, com as tropas movimentadas em Juiz de Fora (MG) pelo general Olympio Mourão Filho.
A bancada leal ao governo tentou barrar a manobra parlamentar que daria fachada legal ao golpe. Um ofício urgente do chefe da Casa Civil de Jango, Darcy Ribeiro, foi entregue naquele momento ao presidente do Congresso, senador Auro de Moura Andrade. Ali, tudo estava claro:
“O Sr. Presidente da República incumbiu-me de comunicar a V.Excia que, em virtude dos acontecimentos nacionais das últimas horas, para preservar do esbulho criminoso o mandato que o povo lhe concedeu e investido na [posição de] chefe do Poder Executivo, decidiu viajar para o Rio Grande do Sul, onde se encontra à frente das tropas militares legalistas, no pleno exercício do poder constitucional de seu ministério”.
Jango não estava no exterior, não era fugitivo, não fizera nenhuma desfeita ao Congresso. Diante do desprezo dedicado por Auro ao ofício da Casa Civil, o deputado Tancredo Neves foi ao microfone e apelou, aos gritos: “Telefone para Porto Alegre, nos dê três horas e o presidente João Goulart estará aqui”. Auro se fez de surdo e, contrariando os fatos e a Constituição, declarou vaga a Presidência, dando o pretexto formal que os golpistas necessitavam para legalizar a deposição de Jango. Neste momento, impotente para evitar a manobra, Tancredo, conhecido por sua moderação e bom senso, não se conteve e berrou ao microfone: “Canalha! Canalha!”. Um desabafo que não consta das notas taquigráficas, mas resume o sentimento de quem não compactuava com aquela patifaria.
Na manhã de 2 de abril, o embuste ficou eternizado na manchete daquele dia de O Globo, que sem qualquer mea culpa desinformava seus leitores: “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restabelecida”. No mesmo dia o Jornal do Brasil desmentia o concorrente, contando a verdade que O Globo falseava: “Goulart resiste no sul e o Congresso empossa Mazzilli”. Com essa farsa coordenada, os golpistas ganharam naquele momento decisivo a chancela do Parlamento para violar a Constituição.
Primeiro ato
Com a subalterna cumplicidade da eventual maioria golpista do Congresso naquela tensa madrugada, Jango foi apresentado ao país como um reles fugitivo. A realidade da história, escamoteada por aquela decisão ilegal, é que Jango foi, de fato, deposto de uma maneira imoral, inconstitucional, indecente e covarde, como disse o senador Simon. Esta é a verdade.
Agora, 49 anos depois daquela triste sessão, o Congresso volta a se reunir, em outra madrugada, em 21 de novembro de 2013, para corrigir seu erro histórico e corrigir um deslize que transformava o Parlamento em parceiro ilegítimo de um golpe militar que acabaria fechando o Parlamento por três vezes, ao longo de uma ditadura de duas décadas. Uma resolução proposta pelo senador Pedro Simon (PDMB-RS) e por mim [senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP)] anulou aquela sessão do passado que declarou vaga a Presidência legalmente ocupada por João Goulart.
Estamos agora fazendo a nossa parte e restabelecendo a verdade na história do país. Num texto enxuto, de um único artigo de três linhas e 38 palavras, o Congresso reescreve aquela página mentirosa, afirmando:
“Declarar nula a declaração de vacância da Presidência da República exarada pelo Presidente do Congresso Nacional, senador Auro de Moura Andrade, na segunda sessão conjunta, da quinta legislatura do Congresso Nacional, realizada em 2 de abril de 1964”.
Assim, de forma expedita, o Parlamento corrige o seu mau passo de então, decretando que Jango não é mais um fugitivo, mas um presidente deposto. Tecnicamente, o general Humberto Castelo Branco deixa, assim, de ser um presidente legalmente empossado 13 dias após a farsa da madrugada para se converter no primeiro dos cinco generais-presidentes do ciclo autoritário que prescindia de voto, de povo e, portanto, de Parlamento.
Não é uma declaração meramente formal, uma simples filigrana burocrática. É uma resolução altiva do Congresso que devolve Jango ao patamar de dignidade que a história lhe garante, e que os brasileiros não podem sonegar. Como bem lembrou o deputado Vieira da Cunha (PDT-RS), Jango ganhou por três vezes o apoio do povo brasileiro na sua missão presidencial. Duas vezes, sucessivamente, eleito vice-presidente da República em 1955, com Juscelino Kubitschek, e em 1960, com Jânio Quadros. Na primeira eleição, teve ainda mais votos do que o presidente JK. Em 1963, teve seus poderes reafirmados de forma esmagadora, no plebiscito que devolveu o país ao sistema presidencialista graças aos 9 milhões de votos contra os 2 milhões que apoiavam a manutenção do parlamentarismo.
Não é uma declaração que ignora os eventos militares que levaram aos tristes desdobramentos que hoje fazem parte desse período obscuro de nossa História. Como destaquei naquela noite memorável:
“Estamos falando de um ato civil, de um ato do Congresso Nacional que deu legitimidade, que deu ar de legalidade a um ato ilegal, a um golpe de Estado. E não se constrói um país democrático se a Casa que é guardiã da democracia não reparar as arbitrariedades e as manchas que foram produzidas no passado. Não se trata de votar contra nada e contra ninguém. Trata-se de votar a favor: a favor da História, a favor da democracia, a favor do Brasil”.
Os dois senadores que patrocinam esta resolução são exemplos singulares no corpo do Congresso. Um pela qualificação, outro pelo testemunho, ambos pela idade. Ele, Pedro Simon, é um dos mais antigos parlamentares da Casa, com 83 anos e quatro mandatos sucessivos no Senado, o que lhe dá a condição de testemunha ocular da História, inclusive dos eventos que levaram à deposição de Jango. Eu, Randolfe Rodrigues, sou o mais jovem senador da República, nascido oito anos após o golpe de 1964, com uma qualificação profissional raríssima no Parlamento: sou historiador, o único do Senado, com a companhia de apenas dois dos 513 deputados da Câmara.
A testemunha e o historiador juntaram esforços, assim, para desmascarar um ato leviano do Congresso que depôs um presidente, colocando no seu lugar o presidente da Câmara. Uma semana depois ele nomearia três novos ministros militares que ajudaram a fazer um ato institucional, ainda sem número, que transformou o Congresso às pressas em colégio eleitoral para sagrar o general Castelo Branco como o primeiro presidente da ditadura que se instalava. Tudo isso fica claro, agora, com o gesto altivo do Congresso, que votou para restabelecer a verdade na história do Brasil.
Direito e dever
A decisão do Congresso pode ter surpreendido muitos que, por boas razões, descreem do Parlamento. Mas, nada me espantou mais do que a incompreensão de parte da imprensa, que tratou a digna resolução do Congresso em tom de pilhéria, galhofa ou piada sem graça. A revista Veja, o mais importante semanário do país (tiragem de um milhão de exemplares) e a segunda maior revista de informações do mundo (atrás apenas da americana Time), abriu espaço para a exumação dos restos de Jango em São Borja, numa abordagem jornalística de tom jocoso que não combina com a seriedade histórica do evento. Numa reportagem de três páginas, sob um título pouco feliz (“Sepulturas sem sossego”), Veja mistura aleatoriamente Lênin, Hugo Chávez e Evita Perón para reclamar que Jango foi transformado “na bola da vez pelos praticantes da política dos mortos”, vítima dos que, segundo a revista, “vivem à procura de pretextos para algum acerto de contas com o passado que permita reescrever a história com a mão esquerda” (ver aqui, Veja nº 2348, páginas 72-74).
Infelizmente, Veja esquece que ninguém precisa de pretextos para fazer o acerto de contas com o passado quando ele é escorado em mentiras, já que a História exige ser escrita não com a mão esquerda ou direita, mas com a mão certa e certeira da verdade. O blogueiro mais importante e mais polêmico da revista, Reinaldo Azevedo, que chega a ter 300 mil acessos num único dia no seu portal no sítio da Veja.com, foi ainda mais debochado (ver aqui). Carimbou a resolução do Congresso de “ridícula” e “patética”, coroando o texto com este título: “Chamem o Super-Homem para inverter o movimento da Terra e salvar o mandato de João Goulart!”
E desfiou um raciocínio que não resiste ao bom senso de ninguém: “Só falta declarar sem efeito todos os atos tomados pelos sucessivos presidentes do regime militar”. Se isso fosse possível, nossa segunda resolução seria anular os atos de força que impuseram a censura a Veja, violentada três meses após sua fundação, em setembro de 1968, pelos superpoderes do AI-5, o filho mais dileto do golpe que derrubou Jango. Nem foi preciso chamar o Super-Homem para acabar com a farsa do Congresso. Bastou uma resolução.
Um dos sites mais importantes do país, o Diário do Poder, do jornalista Cláudio Humberto, chegou a noticiar duas vezes o gesto reparador do Congresso, em tons distintos. No espaço de menos de onze horas, evoluiu do deboche para a sobriedade. Às 8h31 da edição de 21 de novembro, num texto assinado por Myrcia Hessen – uma jovem e promissora repórter de 24 anos, nascida no ano em que o país voltou a eleger presidente pelo voto direto depois do golpe que derrubou Jango –, o site escancarou: “Demagogia – O Congresso anula o golpe, agora só falta ressuscitar Jango” (ver aqui). A legenda da foto dizia o óbvio (“Decisão não altera a história”) e começava o texto com uma paulada exemplar: “O Congresso Nacional aprovou, durante a madrugada, um projeto de resolução que é um primor de demagogia, oportunismo e inutilidade”.
Menos de onze horas depois, no mesmo dia, o site publicou outro texto, às 19h09, desta vez assinado pela repórter Lane Barreto, certamente mais experiente: “Congresso Nacional – Pedro Simon lembrou dia em que João Goulart foi afastado” (ver aqui). Uma foto expressiva do senador Simon dominava uma legenda precisa e informativa. O texto, ao contrário do anterior, tinha um tom sóbrio, sem adjetivos, relatando com objetividade a sessão histórica do Congresso.
No mesmo portal da Veja.com, havia um exemplo dessa vez eloquente de precisão jornalística. O blog do jornalista Ricardo Setti, sem qualquer concessão à inutilidade ou arroubos demagógicos, tratou de cumprir uma missão essencial do bom jornalismo: informar melhor o seu leitor com dados novos que facilitam a compreensão da história. Setti resgatou o áudio da sessão vergonhosa do Congresso de 1964, documento sonoro essencial para quem precisa avaliar a história com a isenção dos fatos indesmentíveis. Título do post: “Áudio histórico imperdível: a tumultuada sessão do Congresso que declarou vaga a Presidência depois do golpe de 1964”.
É um pedaço de áudio de 3’18”, mas está lá a voz grave do senador Auro de Moura Andrade, anunciando a presença de 152 deputados e 26 senadores. Ninguém imaginava que era apenas o início de uma farsa que acabaria em tragédia (ver aqui). Setti avisa aos seus leitores: “É a história contemporânea do país pulsando, num áudio emocionante, de arrepiar, que vocês poderão ouvir a seguir”.
Até a Zero Hora, de Porto Alegre, com tiragem de 184 mil exemplares, derrapou na avaliação dos atos de exumação de Jango (ver aqui), publicando um editorial veemente já no título infeliz: “Revisionismo pirotécnico”. O maior e mais importante jornal do Rio Grande do Sul, terra natal de Jango, capitulava à farsa de 1964 (“O Congresso da época chancelou tudo: não dá para apagar esta parte triste”) e sonegava aos políticos o direito e o dever de corrigir seus próprios erros: “Os historiadores e biógrafos têm melhores condições do que os políticos de definir um perfil menos idealizado dessa e de outras figuras públicas do país”. O senador Simon respondeu ao editorial com um artigo, uma semana depois, que se justificava no título: “Jango e a exumação da verdade” (ver aqui).
Compromisso eterno
A melhor percepção do processo de resgate histórico de Jango, na imprensa, coube a um jornalista que não tenho o prazer de conhecer e que tinha apenas dois anos quando aconteceu o golpe de 1964. Juremir Machado da Silva, gaúcho de Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, é mais do que um colunista importante do segundo maior jornal do Rio Grande do Sul, o Correio do Povo (tiragem de 149 mil exemplares), âncora de sucesso na rádio Guaíba e blogueiro de texto forte e elegante na internet. Juremir, formado em História e Jornalismo e doutorado em Sociologia pela Sorbonne, é também um pesquisador dedicado aos temas recentes da história brasileira, especialmente os produzidos a partir do golpe militar de meio século atrás. Publicou já 27 livros. O mais recente, Jango, a vida e a morte no exílio (Editora L&PM), representa um mergulho em dez mil páginas de documentos e três anos de pesquisa para tentar elucidar os mistérios que os peritos, agora, procuram decifrar na exumação de Jango. Lançado há apenas cinco meses, o livro já está na sua quarta edição.
Numa coluna que destoa com veemência de seus colegas já no título (“Bravos, senadores”), Juremir resume com argúcia, na edição de sábado (23/11), do jornal:
“A anulação da sessão do Congresso Nacional que guilhotinou Jango é mais do que simbólica: coloca de vez, como se fosse preciso, a ditadura na ilegalidade. A aparência de legalidade produzida por um senador capacho escorre, definitivamente, pelo ralo da história” (ver aqui).
Eu sempre me surpreendo quando os jornalistas, sempre tão argutos, mostram dificuldade para fazer a leitura precisa dos fatos históricos. A altiva decisão do Congresso, agora, anulando a fraude que nivelava parlamentares e golpistas, deve ser entendida pelo que ela é, sem apelar para gracejos ou impossibilidades que não estão no espectro do projeto proposto por Simon e por mim e sancionado pelo Congresso, que se prepara para promulgar a decisão reparadora em sessão solene.
A anulação daquela farsa não tem efeitos práticos sobre os males praticados pela ditadura, ao longo de intermináveis 21 anos. O que a resolução traz é o forte simbolismo de um resgate histórico. Ao contrário do que alguns pensam, a humanidade se move pelos símbolos que nos unem ou dividem. Por alguma razão, todos os anos, como lembra o jornalista Ricardo Setti, milhões de britânicos fazem um minuto de silêncio às 11 horas de todo dia 11 de novembro, homenagem sentida aos 886 mil soldados do Reino Unido que tombaram na I Guerra Mundial (1914-1918). Da mesma forma, às 8h15 de cada 6 de agosto, milhões de japoneses se calam durante 60 segundos na hora exata em que a primeira bomba atômica da história pulverizou mais de 100 mil pessoas em Hiroshima, na penúltima tragédia da II Guerra Mundial (1939-1945). Uma segunda bomba caiu 72 horas depois em Nagasaki e o Japão capitulou um mês depois.
Por emoções igualmente fortes, como lembrou o senador Simon em seu artigo em Zero Hora, os oito milhões de habitantes de Israel cessam tudo e saem de carros e ônibus nas ruas, às 11h de cada 27 de janeiro. É a data da liberação, em 1945, de Auschwitz, o maior campo de concentração nazista, onde sucumbiram cerca de 1,3 milhão de pessoas, 90% delas judeus. O silêncio de dois minutos, no Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, é uma sentida homenagem aos seis milhões de judeus mortos pela máquina de morte do III Reich.
Não existe nestes gestos, nestas manifestações, nenhuma intenção demagógica, nenhuma atitude pirotécnica, nenhuma inutilidade prática, como poderia imaginar algum jornalista apressado como o senador Auro de Moura Andrade. Nenhum britânico, japonês ou judeu será ressuscitado, nenhuma dor será apagada. Mas, ficará fortalecido na memória de todos os povos, atingidos ou não pela barbárie, o sentimento do que é certo e do que é errado.
Erra quem imagina que os símbolos são perda de tempo, ou mero oportunismo político. Acerta quem acredita que, pelos símbolos corretos, se orienta e se eleva a consciência do mundo.
Exumar a verdade não é política dos mortos. É um compromisso perene dos que defendem, em todas as épocas, a vida e a liberdade. 
***
Randolfe Rodrigues é senador da República (PSOL-AP).
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POLÍTICA - "Che acharia a esquerda hoje superficial"

ENTREVISTA / JON LEE ANDERSON

‘Che acharia a esquerda de hoje superficial’

Por Adriana Carranca 
Reproduzido do Estado de S.Paulo,


Jon Lee Anderson, jornalista da revista New Yorker, biógrafo de Che Guevara e autor dos mais completos perfis de líderes latino-americanos como o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez e o ditador chileno Augusto Pinochet, acredita que, se estivesse vivo, Che Guevara veria os governos de esquerda na América Latina como “um bando de superficiais”.
“Dilma (Rousseff), Brasil... Isso não é governo de esquerda, isso é outra coisa, é desenvolvimentismo! Velar, finalmente, pelos 40 milhões de cidadãos mais miseráveis que vivem na merda em seus casebres e entregar a eles R$ 100 mensais não faz de você um governo de esquerda. Isso é pragmatismo puro!”, diz.
Lee Anderson também não poupa o Brasil de sua crítica afiada sobre a censura a biografias (mais informações nesta página). Para escrever Che Guevara – Uma biografia, lançada em 1997, ele se mudou com a mulher e os três filhos para Cuba por três anos, parte dos quais escreveu à frente da mesma escrivaninha usada pelo revolucionário marxista, cercado por seus livros e anotações no escritório da casa onde Che viveu com sua segunda mulher, a cubana Aleida March.
O jornalista americano esteve no Rio para ministrar uma oficina de reportagem promovida pela Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano, em parceria com as revistas Piauí e Serrote e o Instituto Moreira Salles.
Se Che Guevara acordasse hoje, o que ele acharia da esquerda na América Latina?
Jon Lee Anderson – O Che diria que são um bando de superficiais. Como figura pública, ele os defenderia, porque os veria como a única possibilidade de manter viva a esquerda na América Latina, mas em particular, estou seguro de que seria um crítico severo desses regimes, que não são verdadeiramente de esquerda. São matutos, corruptos que ostentam ser de esquerda. Argentina, Brasil, Nicarágua, Equador... Parecem-me bem pragmáticos. Correa (Rafael, presidente do Equador), entregou o Yasuní aos chineses (o governo autorizou a exploração de três blocos de petróleo sobre o Parque Nacional de Yasuní, decisão ligada à dívida de US$ 10 bilhões que tem com a China). Talvez a Bolívia seja uma exceção porque lá a esquerda não era só uma questão de economia, mas de reivindicação histórica. Então, Che veria que finalmente o país mais indígena da América Latina tem um presidente indígena e isso seria de grande orgulho para ele. Ele seria um amigo da Bolívia, ainda que em particular pudesse ter reservas sobre aspectos desse período mais pragmático.
Como veria as mudanças que o regime de Raul Castro está fazendo em Cuba?
J.L.A. – Che tinha a cidadania cubana e estava relacionado com a revolução, então, se manteria firme ao lado de Cuba, embora olhasse com horror a abertura inevitável que estão dando agora e a volta ao capitalismo. Ele veria isso como um fracasso. Em 1964, ele prognosticou que a União Soviética colapsaria porque não tinha assumido um socialismo verdadeiro como ocorreu em Cuba. Então, internamente, seria um crítico das mudanças de Castro, mas publicamente manteria o apoio ao país porque ainda tem um simbolismo frente ao capitalismo. E estaria orgulhoso por Cuba continuar firme ainda que de maneira simbólica como vestígio de algo que poderia se relançar.
E o que diria sobre a esquerda no Brasil?
J.L.A. – Dilma (Rousseff), Brasil... Isso não é governo de esquerda, isso é outra coisa, é desenvolvimentismo! Velar, finalmente, pelos 40 milhões de cidadãos mais miseráveis que vivem na merda em seus casebres e entregar a eles R$ 100 mensais não faz de você um governo de esquerda. Isso é pragmatismo puro! Um país que deu terras indígenas para criação ilegal de gado em favor dos pecuaristas... Isso é esquerda? Não.
O sr. fez um dos mais completos perfis de Hugo Chávez. Como vê o seu legado?
J.L.A. – Chávez tinha boas intenções. Tentou governar para os pobres. Encarnava a revolução bolivariana. Mas teve 14 anos para construir seus ideais e não conseguiu fazer as reformas sociais e econômicas que queria. Seu carisma era fascinante. Quando vivo, havia sinais de que não ia bem, mas as pessoas gostavam dele. No rastro de sua morte, porém, não há mais nada. Ele deixou para trás uma base militante e um país de um só partido altamente corrupto. Maduro é claramente inapto e incompetente. Está basicamente tentando evitar que o barco afunde. Não fosse um país com petróleo, haveria sangue nas ruas agora. É um desastre.
***
‘Censura a biografias aproxima Brasil de ditaduras’
Biógrafo de Che Guevara, Jon Lee Anderson diz que a censura a biografias no Brasil aproxima o país de ditaduras como Cuba, China e Mianmar ou do regime teocrático do Irã e critica os artistas brasileiros que “querem o privilégio e os lucros de ser uma celebridade sem a responsabilidade social de ser esse personagem público.”
Ainda sobre privacidade, o jornalista americano, autor de A Queda de Bagdá, sobre a invasão americana no Iraque, diz que não confia em Edward Snowden, ex-técnico da agência de segurança dos EUA. “Não sei como Snowden pode falar em liberdade de expressão da Rússia de Putin, que mata e encarcera todos os que falam mal dele, de homossexuais a jornalistas”, dispara,
Como o biógrafo de Che Guevara, o que o sr. acha sobre a polêmica das biografias no Brasil?
J.L.A. – Aqui se trata de uma celebridade (Roberto Carlos) que não queria que saísse seu livro. E outros, como Caetano Veloso, que seguramente têm coisas que não gostariam de compartilhar e buscam maneiras de impedir que seus públicos saibam mais do que queiram revelar. Mas são artistas. O dinheiro que o público lhes deu ajuda a pagar a proteção do personagem que criaram. Ou seja, querem o privilégio e os lucros de ser uma celebridade, sem a responsabilidade social de ser esse personagem público. Eu não sou adepto das biografias das celebridades. Estou farto delas e não me importam, francamente. Mas o governo proibir que se escreva sobre eles, para mim, é um mau caminho, porque isso pode se estender facilmente a qualquer figura pública. Logo será um político, um chefe de polícia, um banqueiro. E sabemos que em países como o Brasil há gente que se esconde atrás de seus títulos que são corruptos, que são assassinos. Que lugares restringem o tipo de livros que se pode ler? Cuba, China, Mianmar. Rússia e Irã. Ao fazer isso, o Brasil se aproxima deles. Se alguém ocupa um espaço na vida pública, é direito do público saber o máximo sobre ele. Há leis contra difamação ou que protegem a intimidade da família. Eu não gostaria de saber que fariam uma biografia minha não autorizada, mas sou jornalista, uma figura pública. Posso impedi-lo? Não. O que espero é levar a vida de maneira tal que não me envergonhe de nada quando publicado.
Como o sr. vê as revelações de Edward Snowden sobre a agência de segurança dos EUA?
J.L.A. – Snowden ou Assange (Julian, do WikiLeaks) têm uma cruzada para abrir governos, pelo menos os ocidentais, e isso é uma opção ideológica. Por que não exigimos o mesmo da Rússia ou da China? Porque não se pode, porque usam a violência para amedrontar jornalistas. Também é certo que Snowden nos está proporcionando, a seu gosto, algo que não lhe foi entregue. É um ex-espião contratado que foi no arquivo de seus chefes, tomou dados, colocou numa maleta, pegou uma avião para a China, depois para a Rússia, e entregou-os a um jornalista de sua seleção. Há 20 anos, seria considerado um traidor porque tínhamos a Guerra Fria. O mundo mudou. Mas a Rússia não mudou tanto. Não sei como Snowden tem coragem de falar sobre liberdade de expressão desde a Rússia de Putin. Quem é Vladimir Putin? Um ex-agente da KGB que arrebatou os recursos naturais de seu país para se converter em um dos homens mais ricos da Terra. Que mata e encarcera todos os que falam mal dele, de homossexuais a jornalistas. Deve ser estranho e desconfortável para Greenwald (Glenn, do Guardian, que revelou documentos da NSA) que Snowden tenha se refugiado em um país que é o maior repressor de sua opção sexual. Não gosto dos abusos do governo, concordo que a NSA se tornou muito grande, mas não sei se este é o mal maior do mundo. Eu rejeito o ponto de vista clássico de que todos os pecados residem no Ocidente. Vivi minha carreira em guerras, sei quais são os riscos. Snowden ou Assange nunca estiveram em áreas de conflitos e não sei se Greenwald já saiu de Nova York ou Rio. Para mim, que espiem meu computador é incômodo. Mas é pior que me degole a Al-Qaeda na frente das câmeras, o que é uma ameaça real.
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Adriana Carranca, do Estado de S.Paulo
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A 'Conspiradora Corrupta' é a morada do neoliberalismo, do neocolonialismo, dos inimigos do povo brasileiro e da 'elite' escravocrata brasileira, a mesma que dizia ser o 13º salário uma medida eleitoreira e que disse que o Golpe de Estado em 1964 foi um mal necessário. Nas páginas de O Globo sangra o povo brasileiro maltratado e vilipendiado pelos que lhe tomam o suor do seu trabalho raptando toda riqueza nacional como se donos fossem. Essa gente que causa asco nos tomando por idiotas ao omitir todas as notícias que tragam a verdade sobre o corrupto PSDB e, principalmente, sobre seus líderes nauseabundos pegos em tramoias e parados pela polícia dirigindo bêbados. Um dos casos mais estapafúrdios da liderança desse partido formador de quadrilha em conluio com jornais e revistas a beira da falência e por isso tão interessados no seu retorno à presidência do Brasil, foi o do ex-presidente FHC que protagonizou o rumoroso caso de sua amante ter sido enviada pela Rede Globo para viver no exterior para esconder o seu filho com FHC e oito anos depois se descobriu que o filho não era dele. É uma situação digna de filme pastelão, mas que foi noticiado em um ou dois parágrafos na imprensa corrupta brasileira. Imaginem se fosse com o sobrinho neto do tataravô do tio do presidente Lula. É triste!

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Não 'Veja' no 'Fantástico', produzido no lar dos corruptos. No blog "FONTE LEGÍTIMA". E agora, Serra? O ex-governador José Serra nega irregularidades, mas novos documentos obtidos por ISTOÉ mostram que a máfia dos trens, incentivada por agentes públicos, superfaturou contratos em quase R$ 1 bilhão durante sua gestão.

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