Como o mercado enredou o Banco Central

Por Luis Nassif, no Jornal GGN:

Por trás das teorias econômicas, existe o que se chama de economia política – a análise das medidas econômicas a partir dos interesses de grupos internos ou externos.

É uma obra de arte política a maneira como o mercado se apropriou internacionalmente das políticas econômicas nacionais e manteve esse predomínio mesmo após o fim da utopia com a crise de 2008.


A elevação da taxa Selic pelo Banco Central é o exemplo acabado.

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A base do controle foi, primeiro, amarrar a taxa Selic ao combate à inflação. Em tese, aumentam-se os juros em casos de inflação de demanda – com a economia aquecida. Aumentando os juros, há redução da demanda por crédito. E com menos compras, os preços deixam de subir.

Como já demonstrei em várias colunas, funciona em economias nas quais é pequena a diferença entre a taxa básica e a taxa cobrada na ponta do tomador.

No Brasil a diferença entre a taxa básica e a taxa de empréstimo é tão acentuada que é praticamente nulo o impacto da alta da Selic sobre o crédito.

Mesmo assim, criou-se toda uma articulação pavloviana em torno dos juros. Se a inflação aumenta – mesmo que por motivos que nada tenham a ver com a demanda – forma-se uma atoarda infernal nos mercados exigindo o aumento da Selic. Para conter a demanda, seria muito mais eficiente restringir o crédito. Mas quer-se aumento da Selic.

É um coro tão afinado e unânime que acaba condicionando o comportamento das grandes empresas varejistas. A empresa reajusta os preços simplesmente porque acha que outras empresas irão reajustar se a Selic não subir.

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O limite para a alta de juros é o do crescimento da dívida. Se a dívida pública começa a crescer, como proporção do PIB (Produto Interno Bruto), acende a luz amarela nas agências de risco – cuja análise orienta os grandes fluxos internacionais de capital.

Há dois caminhos para contê-la: ou reduzindo o peso dos juros ou cortando outras despesas.

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Até aí são práticas internacionais, questionáveis ou não. A esperteza do mercado consistiu na jabuticaba, no termômetro encontrado para balizar a questão fiscal.

Há duas formas de medir as contas públicas: o superávit nominal ou o superávit primário.

O primeiro mede tudo o que o governo arrecada menos tudo o que ele gasta, incluindo aí os juros pagos; o segundo mede a receita menos as despesas, excluindo os juros pagos.

A lógica financeira indica que não é possível reestruturar uma empresa endividada sem incluir formas de reduzir o peso dos juros. Na lógica pública, o correto seria o acompanhamento do superávit nominal.

Mas o governo não conseguiu vencer esse jogo de braço. E as expectativas do mercado passaram a tomar por base exclusivamente o superávit primário.

Graças a esse modelo de análise econômica, o Tesouro brasileiro nem discute os juros, mesmo sendo o maior tomador de recursos da economia. Pelo contrário, ele permite ao BC definir a taxa que quiser levando em conta não a capacidade de pagamento do Tesouro, mas essa miragem do combate à inflação.

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É um nó górdio que esteve prestes a ser cortado por Dilma, no primeiro ano de governo. Depois, os erros da Fazenda e do Tesouro enfraqueceram o governo perante o mercado.

É a demonstração da dificuldade de se governar um país chamado Brasil.
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"Globeleza" e a luta feminista

http://pigimprensagolpista.blogspot.com.br/
Do jornal Brasil de Fato:

Racismo, exploração, patriarcalismo e “caça as mulatas” são críticas centrais do texto recém divulgado por militantes do Núcleo Negra Zeferina da Marcha Mundial das Mulheres, na Bahia.

No documento, feministas alertam que o corpo das mulheres negras é constantemente hipersexualizado nas TVs, seja nas propagandas, novelas, nos programas de esporte ou auditório. “A mercantilização da nossa sexualidade é naturalizada para que as mulheres sejam cada vez mais exploradas”, dizem.

Dentro desta lógica, elas citam o concurso realizado pela TV Globo, o “Globeleza” como uma forma de, mais uma vez, afirmar a mulher como coisa ou objeto sexual. “O concurso para eleger a nova Globeleza foi um desses momentos em que se afirmou em rede nacional: ‘Viram como não somos racistas? Estamos aqui cultuando esse lindos corpos negros’”, diz a carta.

As feministas também elaboraram um vídeo em que satirizam a música tema do concurso.

Veja abaixo a íntegra da carta e o vídeo aqui.

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O “caça às mulatas” e a luta feminista
A mídia brasileira desempenha papel fundamental na manutenção do racismo e machismo. Nas últimas três semanas as mulheres negras ocuparam o horário nobre na TV aos domingos, (o que não é nada comum), enquanto a Rede Globo realizava sua “caça as mulatas” para eleger a nova Globeleza. Não, isso não é fantástico.

O corpo das mulheres negras é constantemente hipersexualizado nas TVs, seja nas propagandas, novelas, nos programas de esporte ou auditório. A mercantilização da nossa sexualidade é naturalizada para que as mulheres sejam cada vez mais exploradas.

Nesse concurso tentam mais uma vez nos afirmar como coisas, objetos sexuais, sendo assim, nulas de vontade, nascidas para atender ao desejo masculino. Um lucrativo produto vendido nas propagandas, no Carnaval, nas Copas do Mundo e esquinas das avenidas.

A luta das mulheres contra a opressão, exploração e pela liberdade, é histórica e cotidiana. Ao falarmos da formação social e econômica do Brasil, falamos de uma história de resistência e enfrentamento de mulheres indígenas e negras contra um sistema que estuprou, explorou e destruiu muitos povos.

Para as mulheres negras, que vieram na condição de escravizadas, inferiores e subalternas, eram reservados três destinos: escrava sexual, reprodução de mão de obra e exploração da força de trabalho. Além disso, a cultura, a beleza e identidade do povo negro e indígena foram negadas, destruídas e criminalizadas.

Estamos falando de um sistema de dominação que tem no cerne da sua estrutura o racismo e o patriarcado - anteriores ao capitalismo, mas muito bem apropriados por ele - e que tem como um dos principais agentes de manutenção, os meios de comunicação hegemônicos.

A mercantilização do corpo das mulheres é representado pela grande mídia como valorização. O concurso para eleger a nova Globeleza foi um desses momentos em que se afirmou em rede nacional: “Viram como não somos racistas? Estamos aqui cultuando esse lindos corpos negros”. Eles querem que vejamos a exploração dos nossos corpos como um elogio. Para nós, não é elogio, é exotificação. Quando não somos objetos sexuais ideais, tornamo-nos as indesejáveis, por vezes tratadas como feias e nojentas, nossos corpos sofrem ojeriza quando não enquadradas no papel de “mulata” sensual e provocante, ou então, o lugar que nos cabe é permanecer como empregadas domésticas, à serviço dos patrões no quartinho dos fundos, ou melhor na senzala do século 21.

A Globo, com seu discurso mentiroso de inclusão, atua na lógica da omissão e naturalização da violência sistêmica que recai sobre o povo negro, sendo vetor principal da criminalização e extermínio da juventude negra, da invisibilização do trabalho doméstico e da culpabilização da mulher pela violência sofrida. Quem ganha com tudo isso? Certamente não é a classe trabalhadora.

A Globeleza é mais uma vez a reprodução de um lugar e papel que só acumulam para a burguesia. Não é assim que queremos nos ver na televisão! A Globeleza não representa os anseios das mulheres negras, trabalhadoras e lutadoras. A Globeleza não é a afirmação da identidade, nem da cultura e muito menos da beleza do povo negro.

Nós identificamos e apontamos a Rede Globo e suas filiais como inimigas das mulheres e instrumento da classe dominante patriarcal e racista. Não é demais lembrar que o império das telecomunicações da família Marinho, aqui na Bahia da família Magalhães, no Maranhão da família Sarney … (poderíamos aqui citar inúmeros estados), foram construídos principalmente na ditadura militar, roubando o dinheiro do povo brasileiro e derramando o sangue de lutadoras e lutadores.

Compreendemos que para desmontar e destruir esse sistema de exploração, a democratização dos meios de comunicação é questão estratégica e fundamental. Queremos que as trabalhadoras possam pensar e produzir seus próprios meios de comunicação. Só assim seremos de fato representadas. Seguiremos em marcha lutando contra a mercantilização dos nossos corpos e vidas! Nossa resistência é a reação!

Pela democratização dos meios de comunicação! O mundo não é mercadoria, as mulheres também não!

* Texto de Anaíra Lobo, Gabriela Silva e Maíra Guedes - Militantes do Núcleo Negra Zeferina da Marcha Mundial das Mulheres - Bahia
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Eleição ou mera competição?

Por Frei Betto, no sítio da Adital:

O "golpe de mestre” de Marina Silva ao aderir ao PSB de Eduardo Campos comprova o quanto o Brasil necessita, urgente, de profunda reforma política.

As manifestações de rua, em junho, demonstraram que expressiva parcela da população, sobretudo jovens, não confia em partidos políticos. Estes se desgastaram devido à falta de fidelidade a seus princípios estatutários e programáticos.


Mais do que rezam as cartas fundadoras dos partidos, na prática valem a fome de poder, o "toma lá, dá cá”, as alianças e coligações, ainda que espúrias, promíscuas e seladas pelo vil metal da corrupção.

A eleição presidencial de 2014 está fadada a se reduzir a uma competição de "caciques” políticos. Nos bastidores, as coligações partidárias, de olho em maior tempo de TV na propaganda eleitoral gratuita, serão armadas à base de promessas na distribuição dos ministérios, caixa dois, loteamento de cargos e funções.

Ainda que os candidatos proclamem maravilhas aos eleitores, no frigir dos ovos, anunciado o resultado da eleição, terão importância apenas os acordos de bastidores firmados no decorrer do processo eleitoral.

Como é difícil suscitar esperanças nos jovens, incutir utopia, convencê-los da importância de não ficarem indiferentes ao processo eleitoral, quando se constata que nenhum candidato coloca o projeto Brasil acima de seu projeto de poder! As opiniões dos marqueteiros terão sempre mais importância que as reivindicações dos eleitores.

Desde 1980, quando foi fundado, até 2002, quando Lula se elegeu presidente pela primeira vez, o PT defendeu, como imprescindível ao Brasil, a reforma agrária. Após 10 anos no poder, pouco se fez nesse sentido. Ao contrário, os latifúndios se ampliaram, grandes extensões de terra têm sido apropriadas por estrangeiros, o agronegócio avança sobre a Amazônia e trata os povos indígenas como estorvo ao progresso.

Enquanto não se convoca uma Constituinte exclusiva para a reforma política, resta ao eleitor manifestar-se nas ruas, demonstrar a sua indignação, organizar a esperança, e fazer de seu voto recurso de aposentadoria compulsória do caciquismo e promoção daqueles candidatos que, comprovadamente, estão dispostos a quebrar o ferrenho tabu de que as estruturas brasileiras são intocáveis.

Como alertou Cazuza, muitas de nossas ilusões estão perdidas, nossos sonhos foram vendidos, e de nada vale ficar em cima do muro. Precisamos todos de uma ideologia que imprima sentido às nossas vidas e à nossa política.

Caso contrário, seremos todos ludibriados pelo neoliberalismo, que busca fazer de todos nós consumistas, e não cidadãos; pelo fundamentalismo religioso, que insiste em negar a laicidade do Estado; pelos partidos que, como descreveu Lampedusa, pregam mudanças para que tudo permaneça como está.
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A lógica torta da Globo contra Dirceu

Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo:

Dezenas de milhares de presos brasileiros, que cumprem pena em regime semiaberto, trabalham.

Não é nenhum privilégio: está previsto na legislação. Assim como está prevista a remissão de pena, ou seja, a redução da pena em função dos dias trabalhados.

Não há nada de excepcional nisso.

Pergunta básica sobre um preso hipotético: José da Silva é responsável pelas ações daquele que o emprega?

Se a empresa que acolheu José da Silva for condenada por tráfico de drogas, se sonegar Imposto de Renda ou se for de propriedade de um laranja, José da Silva deve pagar também por isso?

Resposta óbvia: não.

Qualquer tentativa em sentido contrário significa punir por associação.

Diz, com razão, o advogado de José Dirceu:

“A constituição societária do hotel St. Peter não diz respeito a meu cliente. Por que 400 pessoas podem trabalhar no hotel e o ex-ministro não? Esse hotel é antigo em Brasília, tradicional, mas para alguns parece que foi inaugurado ontem. Juntamos toda a documentação necessária para que meu cliente possa trabalhar e espero a decisão da Justiça”.
O que o Jornal Nacional está tentando fazer é “punir” um hotel que ofereceu um emprego a José Dirceu. É punir o preso por práticas supostamente ilícitas do hotel, o que é um absurdo jurídico.

Ou isso, ou a Globo está tentando lançar no ar uma ilação: José Dirceu seria o dono oculto do hotel que pretende empregá-lo, através de um laranja num refúgio fiscal, o Panamá.

Mas, aí, eu também posso fazer uma ilação: José Dirceu comprou parte da Abril, com o objetivo de calar Victor Civita.

Sim, porque como revelou um sítio, a mesma empresa do “laranja” envolvido com o hotel Saint Peter — que ofereceu emprego a José Dirceu — comprou parte da TVA, da Abril.

Já pensaram nisso? José Dirceu compra a Veja para torná-la uma publicação esquerdista!

Por falar em ironia, o blogueiro Mello desafiou a Globo a ir fundo não apenas no Panamá, mas também nas ilhas Virgens Britânicas, onde uma certa Globo Overseas comprou os direitos de transmissão das copas de 2002 e 2006 usando uma empresa de fachada. A palavra não é minha, é da Receita Federal.



O que a Globo está tentando fazer no caso de Dirceu equivale ao Mello pedir que William Bonner seja punido por eventual sonegação fiscal dos empregadores dele, os irmãos Marinho!

Hoje, a Globo mobilizou três pessoas para fazer valer sua tese de que o escândalo diz respeito ao preso José Dirceu: Álvaro Dias e “ministros” do Supremo Tribunal Federal. Nem Gilmar Mendes, nem Marco Aurélio Mello, ouvidos, foram assim tão enfáticos. Mello, aliás, lembrou que não falava como juiz do caso. Por motivos óbvios: a decisão de permitir ou não que José Dirceu trabalhe não tem relação alguma com o fato de o hotel pertencer a um laranja ou a marcianos.

O que a Globo quer é vingança. É evitar que José Dirceu tenha os mesmos direitos de dezenas de milhares de outros presos que cumprem pena em regime semi-aberto. Direito ao trabalho. À ressocialização.

A Globo não quer que a lei seja cumprida. Ou quer que ela seja cumprida seletivamente. É isso o que se esconde por trás do “jornalismo” do Ali Kamel.
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As causas do fiasco do PIB

Editorial do sítio Vermelho:

Os dados da economia referentes ao terceiro trimestre do ano (julho, agosto e setembro) provocaram um alarme no país. A economia recuou 0,5% nestes três meses. É um recuo severo, tecnicamente uma recessão. Normalmente, o terceiro trimestre do ano registra dificuldades na economia mas, este ano, foi além do esperado pelos economistas, que estimavam um desempenho negativo em torno de 0,2 ou 0,25%. Foi maior.

As dificuldades econômicas revelam a dimensão dos desafios que o país deve enfrentar para abrir os caminhos do desenvolvimento nacional com distribuição de renda, valorização do trabalho, justiça social e integração regional.

Isto requer outra estratégia, um Plano Nacional de Desenvolvimento que aborde de forma integrada, orgânica e harmônica os graves problemas estruturais do país. Tarefa hercúlea que, no fundo, equivale a uma mudança de grande envergadura e requer enfrentamento aos poderes das classes parasitárias e especuladoras, assim como ao capital financeiro internacional. Como reiteradamente afirma o presidente nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Renato Rabelo, um enfrentamento antes de tudo político e não técnico.

Uma das resoluções do 13º Congresso do PCdoB registra a contradição que há na orientação econômica do governo. Ela está ligada à necessidade da formação, imposta pela correlação de forças existente no país, de “coalizões amplas e heterogêneas, necessárias à estabilidade do governo, mas limitadoras de maior avanço da aplicação da plataforma programática”; isso fortalece duas tendências: de um lado, a “permanente pressão da oposição conservadora para bloquear as mudanças”; de outro, “a insuficiente mobilização”. Tudo isso “limita o ritmo da democratização do Estado nacional e obstrui a realização das reformas estruturais democráticas”.

Esta luta repercute fortemente no interior do governo, onde se afiguram tendências opostas – de um lado, a especulação financeira ainda mantém forte poder na sociedade e, com base nela, exige a aplicação do arcaico e desmoralizado programa neoliberal (e isto se traduz na retomada da ascensão dos juros pelo aumento da taxa Selic); de outro lado, setores nacionais desenvolvimentistas tentam fazer valer suas opiniões.

As resoluções do congresso dos comunistas brasileiros registram que a política macroeconômica ainda preserva concepções neoliberais herdadas do passado, que precisam ser derrotadas.

O Brasil tem imensas potencialidades e vive uma fase rara do seu desenvolvimento político, que não pode ser desperdiçada. Mobilizar as energias transformadoras do povo, em torno da presidenta Dilma, para empreender as mudanças necessárias a fim de abrir caminho ao desenvolvimento nacional, é a tarefa política central do momento.
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