Os sete pecados do Supremo

Por Mauricio Dias, na revista CartaCapital:

A tramitação, o julgamento e os procedimentos posteriores à sentença da Ação Penal 470 no Supremo Tribunal Federal receberam o batismo definitivo dado pelo cientista político Wanderley Guilherme dos Santos: “O julgamento é de exceção”.

Os fatos sustentam, em abundância, o forte conteúdo político da decisão.


Joaquim Barbosa, presidente do STF, acredita ter criado uma “nova ordem” ou reconstruído a República. Para tanto usou a simbologia de 15 de Novembro e não se importou em expedir ordem de prisão de condenados selecionados pelo critério dele.

Borrou a data com atos de discutível legalidade e indiscutível demagogia.

Para fazer um julgamento fora das regras, ele não titubeou em demolir alguns pilares da Justiça. Incomodou até seus pares. Entre eles há os que apoiam JB, como Gilmar Mendes, outros que silenciam, e um que discorda publicamente. É o caso do ministro Marco Aurélio Mello.

Embora tenha usado mão pesada nas penas aplicadas, Mello criticou os procedimentos de execução da pena: “Eu até hoje não entendo por que eles vieram para cá, para Brasília”.

Pergunte ao Joaquim, ministro.

O nome dele vai entrar para a história pela forma como comandou o julgamento do princípio ao fim. Atitudes e decisões dele invocam a frase “O Supremo sou eu”. Barbosa não diz assim, mas pensa assim.

Eis sete erros fundamentais do Supremo:

• O amedrontamento de alguns juízes diante da pressão da mídia.

• A tese de que o dinheiro público nunca se despubliciza (caso Visanet).

• Julgamento de réus sem direito a foro privilegiado.

• Fatiamento no sistema de julgamento.

• Desconhecimento do direito à dupla jurisdição.

• Uso da teoria do “domínio do fato” para dispensar a indispensável necessidade de provas.

• Execução das penas antes do trânsito em julgado.

Esse foi o grande final. Barbosa criou um problema insanável, ao desprezar as regras determinadas na Carta Magna. O artigo 5º, dos Direitos e Garantias Fundamentais, inciso LVII, diz: “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.

JB não aguardou a tramitação. Assim, o julgamento ganhou ainda mais a dimensão de um linchamento sem sangue.

Nesse capítulo, a mídia merece um destaque, a começar pela própria TV Justiça. Coube a ela a transmissão na íntegra dos debates no plenário do STF. Afora órgãos do jornalismo impresso e as tevês comerciais, ampliaram a dimensão do julgamento e deformaram o objetivo da transmissão: a publicidade, usada para proteger réus, serviu à curiosidade mórbida do telespectador.

Linchamento semelhante, promovido pela mídia, provocou reações da Justiça. Nos Estados Unidos, não aqui.

A Corte Suprema, nos anos 1950, percebeu os estragos que as campanhas jornalísticas podem causar. O juiz Jackson justificou a decisão de cancelar o resultado:

“O julgamento não passou de uma cerimônia legal para averbar um veredicto já ditado pela imprensa e pela opinião pública que ela gerou”.

A execução das penas ocorrida no caso da Ação Penal 470 é um dado pré-moderno. Um retrocesso na Justiça brasileira.
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Genoino e a banalidade do mal

Por Paulo Moreira Leite, em seu blog:

O deputado José Genoíno está experimentando na pele uma situação inacreditável numa democracia. Precisa mobilizar a família, os amigos, as pessoas com alguma consciência social, proteger o bom mais precioso na existência de qualquer pessoa - o direito à vida.

Em se tratando da saúde de um prisioneiro, a Lei de Execução Penal garante em seu artigo 43 que ele tem o direito de contratar um médico de confiança para “orientar e acompanhar” seu tratamento.


 O mesmo artigo prevê que, em caso de divergência entre o médico particular e o médico do Estado, a palavra final cabe ao juiz de execução.

O caso é que Genoíno foi examinado por um médico particular no sábado retrasado, a 1 da madrugada, que concluiu que se trata de um "paciente com doença grave, crônica e agudizada, que necessita de cuidados específicos, medicamentosos e gerais". Seria possível, a partir deste laudo, aceitar o pedido de prisão domiciliar. Mas não. Joaquim Barbosa exigiu um novo exame, feito por peritos do Estado. Direito dele. O resultado foi idêntico. Não havia divergências entre os médicos e mesmo assim foi preciso esperar dois dias, quando Genoíno teve ser levando de ambulância para o Incor, com uma suspeita de infarto que felizmente não se confirmou, para que Joaquim Barbosa assinasse uma mudança para prisão domiciliar ou hospitalar.

Considerando que Genoíno sofre uma doença de caráter permanente, sem esperança de cura além de um tratamento cuidadoso, completo, o caráter provisório contém um sinal político. Mostra que o prisioneiro pode ser mandado de volta para a penitenciária a qualquer momento, ainda que, com um tubo de 15 cm implantado para substituir uma parte da aorta, enfrente uma doença que a Sociedade Brasileira de Cardiologia define assim: “as doenças da aorta são patologias com morbi-mortalidade elevada. Tanto o tratamento clínico como o cirúrgico ainda estão relacionados a elevadas taxas de mortalidade, tornando esse grupo de patologias alvo de extrema importância no tópico das patologias graves.”

Ao demonstrar tamanha resistência a acatar aquilo que a legislação determina em caso de doença grave de prisioneiros, Joaquim Barbosa manteve, na fase do pós-julgamento, um traço que já fora visto durante toda a ação penal 470. Mostrou-se, mais uma vez, extremamente rigoroso em tomar medidas duras, que contrariam direitos dos réus, e bastante agressivo em decisões que irão prejudicá-los. Impediu o desmembramento do julgamento. Fez denúncias agressivas, sem base em provas consistentes. Batalhou para conseguir condenar os réus a penas altíssimas, elevadas de modo artificial, como denunciou o ministro Ricardo Lewandovski. Na hora de acatar uma decisão prevista em lei, que irá beneficiar os réus, faz o possível para evitar, atrasar, condicionar. O caráter provisório da decisão é uma ameaça de retrocesso.

O atraso para mudar o regime de prisão não tinha a ver com considerações médicas, mas políticas. Conduzido ao presídio como coadjuvante de luxo numa festa para comemorar o aniversário da proclamação da República, do ponto de vista da encenação Genoíno não podia sair de do palco sem dar a impressão de que alguma coisa não andava bem no enredo. Precisava alimentar a impressão de que tudo havia mudado no país depois que ele e outros dez brasileiros foram colocados atrás das grades.

O caráter “provisório” da transferência também tem uma natureza política. Revela a postura de quem coloca em dúvida a subordinação da Justiça ao saber da medicina.

Mesmo falando de uma doença incurável, que precisa ser tratada de modo cuidadoso e permanente, Joaquim Barbosa deixa claro que pode suspender, a qualquer momento, as condições para um tratamento mais adequado.

A politização dos direitos de Genuíno ajuda a questionar a ideia de que é feio, nostálgico e improprio dizer que os condenados da Ação Penal 470 são presos políticos.

Nem medidas derivadas do conhecimento médico são tratadas com a devida neutralidade e distanciamento, como direitos universais.

Num país com um histórico tão lamentável no respeito aos direitos humanos de cidadãos encarcerados, é razoável perguntar qual o interesse de manter a incerteza, o suspense, deixando em cada pessoa a dúvida sobre o que é direito, sobre o certo, sobre o que pode esperar.

Em entrevista ao Brasil 247, o professor Celso Bandeira de Mello, um dos mais respeitados juristas do país, definiu a atuação de Joaquim diante da doença de Genoíno como uma questão de caráter:

"Acho que é mais um problema de maldade. Ele é uma pessoa má. Falo isso sem nenhum preconceito com a pessoa dele pois já o convidei para jantar na minha casa. Mas o que ele faz é simplesmente maldade."

Advogados que estiveram com Joaquim Barbosa para tratar de direitos de prisioneiros também têm uma boa impressão pessoal do ministro. Sem que isso implique em qualquer avaliação sobre suas decisões jurídicas, os relatos descrevem um cidadão de maneiras gentis e educadas, sem nenhum traço da agressividade que se vê no tribunal – e que é coerente com boa parte de suas decisões na ação penal 470.

Eu já tive contatos pessoais com Joaquim, logo depois que ele se tornou relator da ação penal. Minha impressão pessoal é a mesma.

Mas a questão não envolve questões de natureza pessoal.

Estudando a emergência de governos totalitários nas sociedades modernas, Hanna Arendt recorda que a prática do mal, em nosso tempo, exerce “uma atração mórbida” sobre grande parcela da população de nossa época. Falando dos governantes e autoridades, a professora vai além.

Explica que a “banalidade do mal” é um instrumento político de dominação nas ditaduras, pois permite a autoridades tomar decisões terríveis, sem consideração pelo sofrimento de seus semelhantes, sem se perguntar se elas estão de acordo com seus valores, com sua formação e mesmo com sua história pessoal. O “ mal “, em síntese, é aquela força que provoca incertezas e insegurança sobre direitos e verdades.

Falando sobre um enforcamento em praça pública, em 1776, época em que as pessoas eram torturadas, esquartejadas e mortas à vista de todos, o jornal inglês Morning Post descreve: “a multidão impiedosa se comportava com uma indecência extremamente desumana – gritando, rindo”.

O mesmo jornal registra um ponto importante no comportamento da “multidão impiedosa.” Esclarece que, em sua “ indecência”, a multidão não se limitava a rir e festejar. Também agredia, jogando bolas de neve, aqueles poucos “que manifestavam uma compaixão apropriada pela desgraça de seus semelhantes.”

Diante desse relato de 1776, não é difícil encontrar a inspiração de comentaristas e observadores que tentam ironizar e humilhar a luta desigual de José Genoíno pelo seu direito à vida.
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Estadão e Globo abrem caminho para Aécio

http://ajusticeiradeesquerda.blogspot.com.br
Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo:

Quando aloprados petistas supostamente tentaram comprar um dossiê contra José Serra, na campanha eleitoral de 2006, e foram pegos em flagrante com dinheiro vivo, a notícia dominou as semanas finais da campanha.

O fato culminou com o vazamento das fotos do dinheiro apreendido para a mídia na antevéspera do primeiro turno, a tempo de estrelar o Jornal Nacional e as capas de jornais.


A mídia não se debruçou sobre os bastidores do acontecimento. Não se apurou se, como sustenta o repórter Amaury Ribeiro Jr., os petistas caíram numa cilada da inteligência da campanha tucana; nem apurou como se deu o vazamento das fotos, da qual a mídia foi co-partícipe.

Não fosse por um certo blog chamado Viomundo, hospedado então na Globo.com, provavelmente a gravação da conversa entre o delegado da Polícia Federal que vazou as fotos e jornalistas jamais teria sido noticiada. Depois que o fizemos, a Globo se sentiu na obrigação de revelar que tinha tido acesso à conversa gravada - e publicou uma transcrição no portal G1. Mas não saiu no Jornal Nacional. Nunca.

Podemos dizer que o mesmo aconteceu quando foi revelada a relação íntima entre o bicheiro - desculpem, empresário do ramo farmacêutico - Carlinhos Cachoeira e a revista Veja. Noticiou-se a prisão do bicheiro e o envolvimento dele com o senador Demóstenes Torres, mas a mídia não ocupou suas manchetes com a relação incestuosa entre fonte e publicação.

Agora, repentinamente, o critério mudou. A mídia se interessa pelos bastidores da investigação do propinoduto que atingiu em cheio o tucanato paulista. Logo isso vai se tornar ainda mais importante que o desvio de centenas de milhões de reais. É só esperar para ver.

As indicações preliminares são de que as investigações do Cade e da Polícia Federal acertaram em cheio o esquema de financiamento de campanha de um certo partido.

A mídia corporativa tem noticiado o escândalo envolvendo Siemens e Alstom, mas com cuidado para não sugerir que chegamos ao caixa das campanhas tucanas em São Paulo.

Aécio Neves, conforme a manchete acima, vem em socorro dos paulistas. Ganha pontos com Geraldo Alckmin e José Serra. E dá o tom para a cobertura midiática, que começou com o Estadão, passou pela Globo e, como se vê acima, chegou à Folha.

A ideia é dizer que o presidente do Cade, que foi assessor do então deputado estadual Simão Pedro, de alguma forma forçou a barra para investigar o propinoduto tucano. Dizer que as instituições federais estão sendo usadas politicamente pelo PT para prejudicar adversários.

A ideia é lançar uma espessa cortina de fumaça, sob a qual José Serra, Geraldo Alckmin e os tucanos paulistas possam bater em retirada. A ideia é simular uma conspiração petista, como se não tivesse havido cartel, nem envolvimento do alto tucanato, nem corrupção, nem desvio de dinheiro público, nem superfaturamento.

Quando eu vi a reportagem abaixo, no Jornal Hoje, da Globo, tive certeza de que a menção ao petista Simão Pedro, bem no miolo, não era de graça!

Leia aqui os detalhes sobre a tentativa de Globo e Estadão de enrolar o PT na denúncia.

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Como a midiazona protege os tucanos

Por Renato Rovai, em seu blog:

É impressionante como os casos de corrupção têm dois pesos e duas medidas na mídia tradicional paulista (leia-se Folha, UOL, Estadão, Veja, Globo). Na recente máfia dos auditores fiscais, denunciada pelo prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, as atenções se voltaram contra o secretário de governo Antonio Donato. A máfia que cobrava propina de construtoras em troca de desconto no ISS (Imposto Sobre Serviço) atuava nas gestões Serra e Kassab, e foi desvendada graças à investigação da atual prefeitura que criou a Controladoria Geral do Município.

Estima-se que o esquema tenha causado prejuízo de até R$ 500 milhões aos cofres públicos. Mas a mídia voltou todas as atenções de sua cobertura para Antonio Donato, que de forma decente pediu exoneração do cargo para se defender sem causar desgaste à gestão Haddad. Nesta semana, Donato volta à Câmara Municipal para exercer seu mandato de vereador, o mais votado do PT.

Depois de blindar Serra e Kassab e derrubar um secretário de Haddad, o caso dos auditores perdeu destaque, já não ocupa as manchetes dos jornalões e seus portais. Aliás, foi emblemática a capa da Folha de S. Paulo de 8/11, que trazia como manchete “Prefeito sabia de tudo, diz fiscal preso, em gravação”. A frase induzia o leitor a associar a denúncia ao prefeito de São Paulo, que é Fernando Haddad, mas o fiscal estava se referindo a Kassab, o ex-prefeito da cidade.

Agora a história se repete. Revelado mais um caso de corrupção envolvendo tucanos, quem passou a ser cobrado por explicações é o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Na última quinta-feira (21), foi divulgado um relatório entregue ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), onde o ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer cita diversos políticos do PSDB como beneficiários de propinas pagas pelo cartel dos trens em São Paulo.





Rheinheimer afirma ter “uma série documentos que provam a existência de um forte esquema de corrupção no Estado de São Paulo durante os governos (Mário) Covas, Alckmin e (José) Serra, e que tinha como objetivo principal o abastecimento do caixa 2 do PSDB e do DEM”. São citados no relatório o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), os secretários estaduais José Aníbal (Energia), deputado (PSDB-SP); e Jurandir Fernandes (Transportes Metropolitanos) e Rodrigo Garcia (Desenvolvimento Econômico), do DEM.

Estima-se que o cartel dos trens de São Paulo e Distrito Federal pode ter superfaturado os serviços em R$ 577 milhões.




Dois dias depois de revelada o suposto envolvimento com os políticos, as manchetes dos jornais dizem que o ministro da Justiça do PT deve explicações sobre a denúncia contra tucanos.

Mas não seriam os tucanos que deveriam dar explicações? Não seria hora de exigir que se expliquem e cobrar o governador para afastas os denunciados?

Qual nada. Quem deve explicações é o ministro da Dilma, que é do PT. É ele que tem que explicar como políticos tucanos podem estar envolvidos em denúncias de corrupção.

Em nota, o ministério da Justiça “esclarece que, tendo recebido do deputado Simão Pedro denúncias, acompanhadas de documentos, envolvendo a ocorrência de eventuais atos ilícitos na execução de obras do metrô de São Paulo, encaminhou-as, no estrito cumprimento do dever legal, à Policia Federal (PF) para as devidas investigações. O Ministério reafirma que a documentação não foi encaminhada à PF pelo Conselho Administrativa de Defesa Econômica (Cade)”.

A Polícia Federal é submentida ao ministério da Justiça, assim como o Cade. Já o deputado estadual licenciado Simão Pedro (PT-SE) é autor de representações ao Ministério Público sobre o cartel. Vale lembrar que é papel do parlamentar enquanto poder Legislativo investigar irregularidades na aplicação de verbas públicas municipais e estaduais.

Vale a teoria do “domínio do fato” também neste caso. É preciso criminalizar alguém do PT, mesmo que ele seja o investigador ou denunciante. Foi assim com Donato. Está sendo agora com Simão Pedro e José Eduardo Cardozo.
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Justiça e vingança, a saga de Genoino

http://pigimprensagolpista.blogspot.com.br/
Por Ricardo Kotscho, no blog Balaio do Kotscho:

Vou dar uma folga hoje ao jornalista que atende pelo mesmo nome e pedir licença a vocês para escrever este texto como velho amigo da família de José Genoíno, que é o que mais me importa neste momento. Para mim, embora ganhe a vida atualmente como comentarista político, o destino dos seres humanos sempre esteve acima de qualquer outra questão, ao longo deste quase meio século de carreira de repórter, em que procurei contar as histórias da minha terra e da minha gente, em sua grande maioria brasileiros anônimos.


De tanto ler ao longo da semana colunas, blogs e comentários nas redes sociais eivados de torpezas, vilezas, canalhices, sordidez, perversões, infâmias, sabujice, injúrias e safadezas, estava relutando em voltar ao assunto porque chega uma hora em que a indignação é tanta que as palavras chegam a perder o sentido, a gente já nem sabe o que dizer.

Mudei de ideia na manhã desta sexta-feira cinzenta em São Paulo, ao ler, na página A3 da Folha, o artigo do competente jornalista Carlos Brickmann, que pode ser acusado de tudo, menos de ser petista.

Escreve Brickmann: "Uma sociedade que, mesmo tendo razão ao reivindicar a aplicação rígida da lei, tenta extrapolar seus limites para atormentar ainda mais quem já foi punido pela privação da liberdade precisa se reavaliar. Com a prisão, os infratores foram punidos e a vingança da sociedade se realizou. Ir além é retroceder a épocas que já deveriam ter sido superadas".

O que boa parte dos jornalistas-pistoleiros acoitados na grande imprensa quer, na verdade, não é Justiça, mas vingança contra um partido político e seus dirigentes _ e José Genoíno, deputado federal e ex-presidente do PT, tornou-se seu principal alvo. "O que a lei prevê é a privação da liberdade, em diversos graus. A lei não prevê maus-tratos, não prevê castigos físicos, não prevê condições inadequadas de prisão", lembra Brickmann, com toda propriedade.

Como pode o mesmo Supremo Tribunal Federal que adotou a teoria do "domínio do fato", para punir mesmo sem provas ou atos de ofício, permitir que um homem gravemente doente do coração, como é do conhecimento geral da Nação, seja jogado num presídio em regime fechado quando foi condenado ao semiaberto?

Esta barbaridade já durava uma semana, quando foi momentaneamente suspensa para que Genoíno fosse levado a um hospital na tarde de quinta-feira, depois de declarar, em pé, na sala do diretor do presídio, aos colegas que foram visita-lo: "Entre a submissão e a humilhação, eu vou para a luta nem que leve a minha vida".

Filho de lavradores, nascido na comunidade de Várzea Redonda, em Quixeramobim, no Ceará, acolhido na casa paroquial de Senador Pompeu para que pudesse estudar, líder estudantil e ex-guerrilheiro, fundador do PT, parlamentar quase a vida toda, Genoíno é a prova viva da famosa frase de Euclides da Cunha, segundo a qual "o sertanejo é antes de tudo um forte". Por isso, não me surpreende a sua disposição de enfrentar as dificuldades de cabeça erguida.

Mas não é só ele: o que mais me comove em toda esta história é o comportamento de solidariedade permanente e absoluta de sua família, a pequena grande Rioco, que conheceu na prisão, e seus três filhos, Miruna, Ronan e Mariana, que estão sempre por perto na Papuda para zelar por sua integridade física e denunciar o tratamento desumano que lhe é dispensado desde que se apresentou à Polícia Federal.

Parafraseando Luís XIV, o rei absolutista da França, a quem é atribuída a frase "O Estado sou eu", José Genoíno e os demais políticos presos estão submetidos ao livre-arbítrio de Joaquim Barbosa e outros ministros, que adotaram o lema "A Lei sou eu", para atender à sanha de jornalistas e seus leitores ensandecidos, que não se conformam apenas com a condenação dos réus, mas querem humilha-los e, se possível, extermina-los.

"Por que obrigar pessoas próximas dos 70 anos a acocorar-se para fazer suas necessidades?", indaga em seu artigo o colega Carlinhos Brickmann, a quem agradeço por me dar as palavras que não encontrava para expressar meu sentimento de vergonha, dor e revolta. Sim, eu sei, são estas as condições degradantes em que vive a grande maioria dos presos no nosso país, mas nem por isso vou me conformar com a saga de sofrimento enfrentada pela família de Genoíno, em defesa da vida, enquanto se multiplicam as cenas de tripúdio explícito dos arautos da morte diante da dor alheia.

Aguenta firme, Genoíno, e manda um abraço para toda a família, e aos amigos Zé Dirceu e Delúbio, que espero reencontrar em breve, quando a lei for cumprida e eles passarem para o regime semiaberto ao qual foram condenados. Um dia, que espero não demore muito, a História fará Justiça com vocês.

Perdoem-me o desabafo, mas tem hora que o cidadão engole o jornalista. Jornalistas temos muitos; amigos, nem tanto.

Em tempo: o texto acima foi publicado às 10h44 desta sexta-feira.



Por alguma ironia na vida, a edição da revista "Veja" que vi na banca nesta manhã de sábado dá uma foto do presidente do STF, Joaquim Barbosa, de costas, sob o título "A lei".
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