Valeu, Zumbi!



Por João Hermínio Marques*

O grito forte dos Palmares, que correu terras, céus e mares.
Influenciando a abolição.
Zumbi, valeu!
Somos todos Kizomba, somos todos a festa e a luta da raça. Dia 20 de novembro é muito além de uma data pela consciência negra. Dia 20 é a data do herói Zumbi, é a data simbólica da luta e resistência contra a escravidão e contra o racismo, a nossa herança maldita.
Todo dia deve ser tempo de consciência negra. Aliás, cabe salientar que a consciência social-humana é a desejável. No entanto, em período de preconceito, torna-se indispensável o corte étnico-histórico. Tivemos grandes avanços na luta pela igualdade étnica no Brasil. As cotas, em especial, são as grandes demonstrações de que o lamento triste, que sempre ecoou, começou a mudar de ritmo. Negros e indígenas entraram em processo de inclusão social, principalmente, por vias educacionais. A ampliação do acesso ao ensino superior é, indubitavelmente, o maior portal de transformações individuais e coletivas executadas no Brasil recente.
Todavia, a questão racial ainda encontra muito obstáculo a ser vencido. Em verdade, quase todos inerentes a uma sociedade capitalista. Talvez, o grande dilema brasileiro é que houve determinada naturalização do racismo durante o processo de formação do povo brasileiro. A democracia racial freyreana foi, por muito, festejada. E, justamente, naquele tempo de concepção do jeito brasileiro de ser.
A carne mais barata do mercado é a carne negra, e ninguém contesta isso! Os monopólios de comunicação produzem estereótipos, e reproduzem a tradição escravista, com tamanha naturalidade, que o escravizado pós-moderno aceita seja aquele o seu mecanismo de inclusão social. As mulatas do carnaval com uma espécie de caça-mulatas promovida por um programa dominical, de péssima qualidade, da rede Globo, é o melhor exemplo disso. Nesse mesmo programa, há uma espécie de concurso de miss, ao contrário do outro quadro, no tal concurso não se percebe qualquer beleza negra. Pior, a mesma emissora tem programas de “humor” (racismo é engraçado?) que abusam do preconceito. Isso são apenas algumas das exibições de horrores notadas na monopolizada televisão brasileira.
Por evidência, a quantidade de parlamentares de origem negra é ridícula. Porém, isso não é exclusividade negra, afinal, o Congresso Nacional caminha a passos largos à plena crise de representatividade. E, junho já denunciou… E, a reforma política, a verdadeira, naufragou… Existe um projeto que visa positivar ações afirmativas para as eleições ao legislativo. Parece interessante, contudo, válido frisar que a causa é sistêmica. É imperioso respeitar a vontade do povo que foi às ruas, lançar a Constituinte soberana para definir os novos rumos da política nacional. Nem a reforma gabinetizada por doutos vândalos do Congresso, nem mesmo essa proposta de cotas para negros, será a solução da quase nula representatividade do parlamento brasileiro.
Samba, por fim. Pois, nada é mais africano, nada é mais brasileiro, do que o diálogo musical. O samba uniu as raças. Fez valer a resistência negra, a solidez cultural afro-brasileira, consolidou a formação do nosso povo, junto com o futebol, ambos símbolos de pertencimento social negro, ou deveriam ser… Não se pode olvidar, lamentavelmente, da elitização e alta-mercantilização de ambos ícones da cultura popular brasileira: o samba (carnaval) e o futebol. É de fazer chorar aquela festa, que o rico ignorava e criminalizava nos séculos passados, e hoje ele quer tomar conta… Não conseguirão!
Finalmente, compartilho quatro grandes sambas, negro-conscientes, contra o racismo. Nada mais combativo ao racismo do que a beleza de nossa música popular.
Consciência negra é todo dia! Viva Zumbi! Viva João Cândido! Viva todos os negros e negras do imenso povo brasileiro! Viva a nossa luta por uma sociedade mais justa, igualitária, sem preconceito, sem racismo. Viva o Socialismo Popular Brasileiro!
Negro é terra, negro é vida,
Na mutação do tempo,
Desfilando na avenida.
Negro é sensacional! É toda festa de um povo! É dono do carnaval!
Ilu Ayê…”
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Darcy Ribeiro e o racismo no Brasil

Por Cynara Menezes, no blog Socialista Morena:

Uma das maiores balelas do discurso anti-cotas no Brasil é que as políticas de ação afirmativa não se justificam porque “todos são iguais perante à lei”. Iguais como, se uns saíram na frente, com séculos de vantagem, em relação ao outro? As cotas vieram justamente para ser uma ponte sobre o fosso histórico entre negros e brancos. Para dar aos negros condições de alcançarem mais rápido esta “igualdade” que alguns insistem que já existe.


Ninguém melhor do que o antropólogo Darcy Ribeiro, grande inspirador deste blog, para explicar como esta “igualdade” de condição nada mais é do que uma falácia por parte de quem, no fundo, deseja perpetuar as desigualdades raciais em nosso país. Os trechos que selecionei são do livro O Povo Brasileiro (Companhia das Letras), cuja leitura recomendo fortemente. Deveria ser obrigatório em todas as escolas. Atentem para um detalhe: reconheçam no texto de Darcy os futuros meninos de rua. (Leia também o texto que postei ano passado, aqui.)

E viva o Dia da Consciência Negra!

*****

Por Darcy Ribeiro

CLASSE E RAÇA

A distância social mais espantosa no Brasil é a que separa e opõe os pobres dos ricos. A ela se soma, porém, a discriminação que pesa sobre negros, mulatos e índios, sobretudo os primeiros.

Entretanto, a rebeldia negra é muito menor e menos agressiva do que deveria ser. Não foi assim no passado. As lutas mais longas e cruentas que se travaram no Brasil foram a resistência indígena secular e a luta dos negros contra a escravidão, que duraram os séculos do escravismo. Tendo início quando começou o tráfico, só se encerrou com a abolição.

Sua forma era principalmente a da fuga, para a resistência e para a reconstituição de sua vida em liberdade nas comunidades solidárias dos quilombos, que se multiplicaram aos milhares. Eram formações protobrasileiras, porque o quilombola era um negro já aculturado, sabendo sobreviver na natureza brasileira, e, também, porque lhe seria impossível reconstituir as formas de vida da África. Seu drama era a situação paradoxal de quem pode ganhar mil batalhas sem vencer a guerra, mas não pode perder nenhuma. Isso foi o que sucedeu com todos os quilombos, inclusive com o principal deles, Palmares, que resistiu por mais de um século, mas afinal caiu, arrasado, e teve o seu povo vendido, aos lotes, para o sul e para o Caribe.

Mas a luta mais árdua do negro africano e de seus descendentes brasileiros foi, ainda é, a conquista de um lugar e de um papel de participante legítimo na sociedade nacional. Nela se viu incorporado à força. Ajudou a construí-la e, nesse esforço, se desfez, mas, ao fim, só nela sabia viver, em função de sua total desafricanização. A primeira tarefa do negro brasileiro foi a de aprender a falar o português que ouvia nos berros do capataz. Teve de fazê-lo para poder comunicar-se com seus companheiros de desterro, oriundos de diferentes povos. Fazendo-o, se reumanizou, começando a sair da condição de bem semovente, mero animal ou força energética para o trabalho. Conseguindo miraculosamente dominar a nova língua, não só a refez, emprestando singularidade ao português do Brasil, mas também possibilitou sua difusão por todo o território, uma vez que nas outras áreas se falava principalmente a língua dos índios, o tupi-guarani.

Calculo que o Brasil, no seu fazimento, gastou cerca de 12 milhões de negros, desgastados como a principal força de trabalho de tudo o que se produziu aqui e de tudo que aqui se edificou. Ao fim do período colonial, constituía uma das maiores massas negras do mundo moderno. Sua abolição, a mais tardia da história, foi a causa principal da queda do Império e da proclamação da República. Mas as classes dominantes reestruturaram eficazmente seu sistema de recrutamento da força de trabalho, substituindo a mão de obra escrava por imigrantes importados da Europa, cuja população se tornara excedente e exportável a baixo preço.

(…)

O negro, sentindo-se aliviado da brutalidade que o mantinha trabalhando no eito, sob a mais dura repressão –inclusive as punições preventivas, que não castigavam culpas ou preguiças, mas só visavam dissuadir o negro de fugir– só queria a liberdade. Em consequência, os ex-escravos abandonam as fazendas em que labutavam, ganham as estradas à procura de terrenos baldios em que pudessem acampar, para viverem livres como se estivessem nos quilombos, plantando milho e mandioca para comer. Caíram, então, em tal condição de miserabilidade que a população negra reduziu-se substancialmente. Menos pela supressão da importação anual de novas massas de escravos para repor o estoque, porque essas já vinham diminuindo há décadas. muito mais pela terrível miséria a que foram atirados. não podiam estar em lugar algum, porque cada vez que acampavam, os fazendeiros vizinhos se organizavam e convocavam forças policiais para expulsá-los, uma vez que toda a terra estava possuída e, saindo de uma fazenda, se caía fatalmente em outra.

As atuais classes dominantes brasileiras, feitas de filhos e netos de antigos senhores de escravos, guardam, diante do negro, a mesma atitude de desprezo vil. Para seus pais, o negro escravo, o forro, bem como o mulato, eram mera força energética, como um saco de carvão, que desgastado era facilmente substituído por outro que se comprava. Para seus descendentes, o negro livre, o mulato e o branco pobre são também o que há de mais reles, pela preguiça, pela ignorância, pela criminalidade inatas e inelutáveis. Todos eles são tidos consensualmente como culpados de suas próprias desgraças, explicadas como características da raça e não como resultado da escravidão e da opressão. Essa visão deformada é assimilada também pelos mulatos e até pelos negros que conseguem ascender socialmente, os quais se somam ao contingente branco para discriminar o negro-massa.

A nação brasileira, comandada por gente dessa mentalidade, nunca fez nada pela massa negra que a construíra. Negou-lhe a posse de qualquer pedaço de terra para viver e cultivar, de escolas em que pudesse educar seus filhos, de qualquer ordem de assistência. Só lhes deu, sobejamente, discriminação e repressão. Grande parte desses negros dirigiu-se às cidades, onde encontraram, originalmente, os chamados bairros africanos, que deram lugar às favelas. Desde então, elas vêm se multiplicando, como a solução que o pobre encontra para morar e conviver. Sempre debaixo da permanente ameaça de serem erradicados e expulsos.

(…)

BRANCOS VERSUS NEGROS

Examinando a carreira do negro no Brasil, se verifica que, introduzido como escravo, ele foi desde o primeiro momento chamado à execução das tarefas mais duras, como mão-de-obra fundamental de todos os setores produtivos. Tratado como besta de carga exaurida no trabalho, na qualidade de mero investimento destinado a produzir o máximo de lucros, enfrentava precaríssimas condições de sobrevivência. Ascendendo à condição de trabalhador livre, antes ou depois da abolição, o negro se via jungido a novas formas de exploração que, embora melhores que a escravidão, só lhe permitiam integrar-se na sociedade e no mundo cultural, que se tornaram seus, na condição de um subproletariado compelido ao exercício de seu antigo papel, que continua sendo principalmente o de animal de serviço.

Enquanto escravo poderia algum proprietário previdente ponderar, talvez, que resultaria mais econômico manter suas “peças” nutridas para tirar delas, a longo termo, maior proveito. Ocorreria, mesmo, que um negro desgastado no eito tivesse oportunidade de envelhecer num canto da propriedade, vivendo do produto de sua própria roça, devotado a tarefas mais leves requeridas pela fazenda. Liberto, porém, já não sendo de ninguém, se encontrava só e hostilizado, contando apenas com sua força de trabalho, num mundo em que a terra e tudo o mais continuava apropriada. Tinha de sujeitar-se, assim, a uma exploração que não era maior que dantes, porque isso seria impraticável, mas era agora absolutamente desinteressada do seu destino. Nessas condições, o negro forro, que alcançara de algum modo certo vigor físico, poderia, só por isso, sendo mais apreciado como trabalhador, fixar-se nalguma fazenda, ali podendo viver e reproduzir. O débil, o enfermo, o precocemente envelhecido no trabalho, era simplesmente enxotado como coisa imprestável.

Depois da primeira lei abolicionista –a Lei do Ventre Livre, que liberta o filho da negra escrava–, nas áreas de maior concentração da escravaria, os fazendeiros mandavam abandonar, nas estradas e nas vilas próximas, as crias de suas negras que, já não sendo coisas suas, não se sentiam mais na obrigação de alimentar. Nos anos seguintes à Lei do Ventre Livre (1871), fundaram-se nas vilas e cidades do Estado de São Paulo dezenas de asilos para acolher essas crianças, atiradas fora pelos fazendeiros. Após a abolição, à saída dos negros de trabalho que não mais queriam servir aos antigos senhores, seguiu-se a expulsão dos negros velhos e enfermos das fazendas. Numerosos grupos de negros concentraram-se, então, à entrada das vilas e cidades, nas condições mais precárias. Para escapar a essa liberdade famélica é que começaram a se deixar aliciar para o trabalho sob as condições ditadas pelo latifúndio.

Com o desenvolvimento posterior da economia agrícola de exportação e a superação consequente da auto-suficiência das fazendas, que passaram a concentrar-se nas lavouras comerciais (sobretudo no cultivo do café, do algodão e, depois, no plantio de pastagens artificiais), outros contingentes de trabalhadores e agregados foram expulsos para engrossar a massa da população residual das vilas. Era agora constituída não apenas de negros, mas também de pardos e brancos pobres, confundidos todos como massa dos trabalhadores “livres” do eito, aliciáveis para as fainas que requeressem mão-de-obra. Essa humanidade detritária predominantemente negra e mulata pode ser vista, ainda hoje, junto aos conglomerados urbanos, em todas as áreas do latifúndio, formada por braceiros estacionais, mendigos, biscateiros, domésticas, cegos, aleijados, enfermos, amontoados em casebres miseráveis. Os mais velhos, já desgastados no trabalho agrícola e na vida azarosa, cuidam das crianças, ainda não amadurecidas para nele engajar-se.

(…)

Assim, o alargamento das bases da sociedade, auspiciado pela industrialização, ameaça não romper com a superconcentração da riqueza, do poder e do prestígio monopolizado pelo branco, em virtude da atuação de pautas diferenciadoras só explicadas historicamente, tais como: a emergência recente do negro da condição escrava à de trabalhador livre; uma efetiva condição de inferioridade, produzida pelo tratamento opressivo que o negro suportou por séculos sem nenhuma satisfação compensatória; a manutenção de critérios racialmente discriminatórios que, obstaculizando sua ascensão à simples condição de gente comum, igual a todos os demais, tornou mais difícil para ele obter educação e incorporar-se na força de trabalho dos setores modernizados. As taxas de analfabetismo, de criminalidade e de mortalidade dos negros são, por isso, as mais elevadas, refletindo o fracasso da sociedade brasileira em cumprir, na prática, seu ideal professado de uma democracia racial que integrasse o negro na condição de cidadão indiferenciado dos demais.

Florestan Fernandes assinala que “enquanto não alcançarmos esse objetivo, não teremos uma democracia racial e tampouco uma democracia. Por um paradoxo da história, o negro converteu-se, em nossa era, na pedra de toque da nossa capacidade de forjar nos trópicos esse suporte da civilização moderna”.
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Ibope: 2+2 = 3; e a rejeição de Serra

Por Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador:

O primeiro dado a se ressaltar na pesquisa Ibope (que o JN escondeu e o “Estadão” publicou de forma discreta) é esse que está no título: em política, não faz sentido a soma aritmética. Juntos, Marina e Eduardo valem menos do que valiam quando estavam separados. A união significou um passo atrás para os dois. 2+2=3.


Na simulações em que é a candidata pelo PSB, Marina despenca de 21% para 16%. Isso em um mês. Queda de cinco pontos, pra quem tinha 21%, significa que Marina perdeu um em cada cinco eleitores. Qual a leitura? Parte dos apoiadores de Marina ficou decepcionada com a atitude personalista de decidir tudo sem consultar as bases, apenas de acordo com os interesses eleitorais dela. Desmanchou-se (em parte) a lenda da Marina “diferente dos outros políticos”. O que tem um lado positivo: Marina deixa de falar com aquele tom messiânico agora incorporado por Joaquim Barbosa.

O curioso é que Eduardo também caiu – de 10% em outubro, para 7% em novembro. O apoio de Marina não significou nada pra ele. Mas no caso de Eduardo a queda pode ter outra explicação: internautas do Nordeste dizem que cresce na região, no boca-a-boca, a imagem de um Eduardo “ingrato”, que “traiu” a confiança de Lula. E traiu em nome do que? Ninguém entendeu bem até agora. Mas, humildemente, eu diria que Eduardo ainda tem chance de construir uma candidatura forte, que lhe dê algo perto de 15% dos votos e o transforme num nome nacional para 2018.

De resto, é impressionante o campeonato de rejeição entre os oposicionistas: Serra bateu em 49%! Nem o calor em Bangu chegará nesse patamar no verão. Cresce também a rejeição de Marina, Eduardo e Aécio. Incrível: Dilma, sob fogo cerrado da mídia velhaca, é a menos rejeitada. Humoristas mirins, colunistas rotweiller e roqueiros aposentados vão cortar os pulsos nas próximas horas.

José Roberto Toledo (excelente analista do “Estadão”, que não briga com os fatos, nem faz coro com os velhacos) destacou um fato importante: a oposição não consegue vocalizar o desejo de mudança que aparece na pesquisa. O subtexto nos títulos do “Estadão” é de que alguém ainda aparecerá para recolher esses votos mudancistas. Daí o Barbosismo, com sua operação 15 de novembro. Ali Kamel (antes de se dedicar a processar blogueiros) já havia nos ensinado: o importante é “testar hipóteses”. Agora, teste-se o barbosismo – essa espécie de subjanismo de ocasião.

Mas atenção: uma leitura mais atenta do IBOPE revela, também nesse quesito, números trágicos para a oposição. Vamos lá… 24% querem mudar “totalmente” governo do país, 38% acham que é preciso mudar “muita coisa”, 23% querem “pouca mudança”, e 12% “nenhuma mudança”.

Para Toledo, é sinal de que 62% (dois terços dos eleitores) apostam em mudança e poderiam ir para oposição. Mas quem diz que o povão não enxerga em Dilma a capacidade e a vontade de mudar “muita coisa”? Lembrem que Dilma teve a coragem de ir pra TV após as jornadas de junho, e propôs mudanças drásticas (inclusive no sistema político). Está claro para o povão que PMDB e seus aliados na mídia velhaca barraram as mudanças.

Se Dilma ajustar o discurso, e fizer uma pequena inflexão para a esquerda, pode sim conquistar parte desses 38% que pedem “muita” mudança. Dilma já tem os 35%/40% que estão felizes com a situação. A oposição, a rigor, hoje dispõem apenas dos 24% que gostariam de virar o país do avesso.

A pesquisa, por isso, é trágica para a oposição. E indica que gestos ainda mais desesperados virão, daqui para a frente: o denuncismo, a velhacaria e o cinismo vão ocupar manchetes e comentários. O barbosismo pode ser a única aposta de uma oposição desesperada daqui pra frente. Isso não é bom para uma Demcracia em que empresas de comunicação endividadas (e com dívidas no fisco) acham que podem pautar o país.

A Operação Barbosa, no 15 denovembro, indica-nos que dias tumultuados virão pela frente. Imagine na Copa!
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A sombra da capa preta

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa:

Os jornais de terça-feira (19/11) publicam resultado de nova pesquisa de intenção de voto feita pelo Ibope, registrando que a presidente Dilma Rousseff ampliou a vantagem sobre seus prováveis adversários, e seria reeleita no primeiro turno contra qualquer outro candidato entre aqueles que a imprensa considera como tais. Mas a consulta não leva em conta a eventual entrada do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, na disputa.


Pelo menos para um dos articulistas que acompanham os aspectos políticos, e não apenas jurídicos, do julgamento da Ação Penal 470, há sinais de que Barbosa está administrando cuidadosamente a reputação que lhe tem proporcionado o papel de condutor do processo. Janio de Freitas, na Folha de S. Paulo, interpreta o ataque de Barbosa, durante a sessão do STF na quarta-feira (13/11), ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como uma defesa da primazia de capitalizar a iniciativa de mandar para a cadeia personagens importantes da política.

Janot havia encaminhado na véspera uma recomendação de prisão imediata de doze dos condenados. Barbosa não gostou da concorrência. O presidente do STF despachou a petição do procurador sem ter lido, porque já tinha preparado os mandados de prisão para o feriado de 15 de novembro, data da Proclamação da República. Pretendeu reservar para si o crédito pela prisão dos condenados, mesmo daqueles que tinham direito ao regime semiaberto, para aproveitar a data histórica e oferecer à imprensa um valor simbólico adicional ao seu ato.

Mas, como observa o articulista, ao atacar o procurador-geral por haver apanhado uma carona no fato histórico, Barbosa deixou clara a estratégia de se manter em evidência, o que só se explica se ele estiver acalentando sonhos grandiosos para 2014.

O episódio não interfere nos aspectos jurídicos da decisão de enviar alguns dos mais importantes protagonistas do escândalo para uma prisão em Brasília, aspecto bastante discutido por especialistas, a não ser pelo fato de o presidente da Corte ter despachado um documento que não havia lido.

Observamos, aqui, como os acontecimentos são trabalhados pela imprensa e analisamos as simbologias presentes no processo comunicacional.

Estritamente nesse sentido, pode-se afirmar que todas as atitudes do presidente do Supremo Tribunal Federal apontam para a hipótese de Joaquim Barbosa estar cultivando um espaço no eleitorado para disputar a presidência da República no ano que vem.

Em busca de um candidato

Sabemos que não há inocentes na política nem na imprensa. Também não é recomendável que o leitor ou leitora compre pelo valor de face tudo que é apresentado como resultado de pesquisa eleitoral: sempre há mais de uma maneira de interpretar os dados estatísticos. Nessa última versão do Ibope, por exemplo, observe-se o título na primeira página do Estado de S.Paulo, que encomendou a consulta em parceria com o Globo: “Dilma amplia vantagem, mas brasileiro fala em mudança”.

Ora, nenhum dos candidatos da oposição já colocados, nem mesmo a ex-senadora e ex-ministra Marina Silva, personifica esse desejo captado pela pesquisa. Fica, então, implantada no subconsciente do cidadão a possibilidade implícita no noticiário: o eleitorado aprova o governo da presidente Dilma Rousseff, a maioria votaria nela, mas dois a cada três brasileiros gostariam de uma mudança no governo. A análise que acompanha a reportagem no jornal paulista afirma que nenhum dos candidatos de oposição personifica esse desejo de mudar.

Com seu intempestivo protagonismo ao longo do julgamento da Ação Penal 470, que a imprensa utiliza para construir sua imagem de super-herói, o ministro Joaquim Barbosa se apresenta mais como candidato a um cargo político do que como jurista. Seu perfil se assemelha progressivamente ao do falecido ex-presidente Jânio Quadros, cuja renúncia abriu caminho para a ditadura militar.

Como se diz das oportunidades, o cavalo passa diante dele, devidamente encilhado, e a imprensa precisa cultivar rapidamente a figura do agente de mudanças que a oposição não foi capaz de criar.

No atual cenário, só o presidente da Suprema Corte teria esse perfil. Mas o temperamento de Barbosa não aconselha grandes apostas. Sua capa preta apenas aumenta a zona de sombra no cenário político.
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Consciência negra e o racismo na mídia

Imagem extraída do sítio: http://www.geledes.org.br
Por Cecília Bizerra Sousa, na revista CartaCapital:

Hoje é véspera do 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra. Dia em que Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, foi perseguido e morto, no ano de 1695. Embora a data venha sendo lembrada há tempos pelo Movimento Negro, apenas em 2003 foi reconhecida oficialmente pelo Estado brasileiro, por meio da Lei n°10.639, que inclui a data no calendário escolar nacional. E só em 2011 a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei n° 12.519, que cria oficialmente a data, sem obrigatoriedade de feriado. Mesmo assim, um total de 1.047 municípios já decretou feriado para o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra.


Para além da reflexão sobre a contribuição que a população negra teve e tem na construção da sociedade, da economia e da cultura brasileiras, a data serve também para lembrar que a desigualdade racial é estruturante na formação da nossa sociedade, e que o desenvolvimento de políticas de enfrentamento ao racismo e de promoção da igualdade racial são primordiais.

E o que isso tem a ver com comunicação? Muita coisa. Porque, se consciência negra tem a ver com enfrentamento ao racismo, e o racismo é frequentemente produzido e reproduzido pelos discursos midiáticos, não há como enfrentá-lo sem também reconhecer a necessidade de mudanças na comunicação de massa no Brasil, tradicionalmente branca, concentrada, de natureza familiar e elitista.

Como se não bastasse o histórico de escravização, que tem notórios reflexos sobre a situação de inferioridade socioeconômica e cultural em que a população negra brasileira se encontra hoje, esta população ainda luta, em pleno século XXI, contra o racismo midiático, que elabora e reforça os preconceitos. Este racismo velado (ou não) atua com primazia para reforçar a invisibilidade, a inferiorização e a estigmatização da população negra brasileira nos meios de comunicação. A negação da existência do racismo, que contribui para a sua reprodução, também faz parte da forma de atuação desta grande mídia.

Em sua história de lutas, o Movimento Negro Brasileiro conquistou grandes avanços institucionais, como as políticas de ação afirmativa para a inclusão de negros e negras nas universidades e a criação Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, um órgão com status de ministério que, entre outras coisas, atua na formulação, coordenação e articulação de políticas e diretrizes para a promoção da igualdade racial.

Por outro lado, não é fácil esses avanços e políticas se consolidarem se, no cenário midiático, o racismo é negado; negros e negras representam papéis subalternos nos enredos; programas evangélicos demonizam as religiões de matriz africana; a publicidade vende como nunca a mulher negra; revistas e comerciais exaltam o padrão de beleza eurocêntrico e vendem a família branca, urbana e de classe média como ideal de felicidade.

Não à toa, diversas propostas de legislação e políticas públicas vêm surgindo como fruto do aprofundamento dos debates envolvendo a questão racial e a comunicação. O Estatuto da Igualdade Racial conta com um capítulo sobre Comunicação Social. As três edições da Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Conapir) e a 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) aprovaram resoluções que recomendam políticas públicas de comunicação voltadas para o combate ao racismo e a promoção da igualdade racial. Destaca-se também a presença de artigos contemplando a questão racial no Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Mídia Democrática, formulado pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação em conjunto com diversas outras entidades da sociedade civil, diversas diretamente ligadas à pauta racial.

A democratização da comunicação é, portanto, questão estratégica e fundamental para o enfrentamento ao racismo e a consolidação das políticas de promoção da igualdade racial no Brasil. Continua urgente uma regulação que coíba o racismo de fato na mídia, que reavalie a manutenção de concessões de rádio e TV que praticam o racismo em sua programação, que garanta o direito à diversidade étnica na mídia e a uma formação que incorpore o debate sobre a questão racial nos cursos de Comunicação Social.

Sem uma mídia que se comprometa com a afirmação da diversidade da população brasileira e com o caráter público da comunicação, a negação do racismo, a inferiorização, estigmatização e invisibilidade da população negra continuarão presentes na pauta, nas linhas, imagens e discursos da mídia brasileira.

* Cecília Bizerra Sousa é jornalista, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade de Brasília, militante do Movimento Negro e integrante do Intervozes.

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