ECONOMIA - A grita contra a política fiscal.

A grita contra a política fiscal

Por Paulo Kliass, no sítio Carta Maior:
A marca da semana, no noticiário de economia, voltou a ser a bateria dirigida contra a suposta incapacidade do governo em cumprir suas metas a respeito da política fiscal. Como geralmente acontece nesses momentos, a estratégia articulada pelo financismo encontra ressonância e eco assegurados nas editorias dos grandes meios de comunicação. Assim, o discurso parece uníssono e não existe espaço para apresentação de análises alternativas. Ao leitor mais desavisado, parece não haver dúvida a respeito da inevitável catástrofe que se anuncia, caso não sejam atingidas as marcas oficiais definidas ainda no ano passado para o quesito da fiscalidade.

A polêmica, no entanto, não se dá no campo da comparação apenas entre os valores do total de despesas e do total de receitas governamentais. Isso porque a administração federal continua superavitária nesse quesito. A gritaria acontece quando se traz o conceito do superávit primário para o centro da cena. E aqui é que reside o “pulo do gato” na avaliação crítica do desempenho fiscal da equipe econômica. Desse ponto de vista, portanto, não basta haver controle apenas na política fiscal, considerada aqui de forma agregada. A novidade foi introduzida lá atrás, quando da implementação do Plano Real, a partir de 1994. Naquele momento ficou estabelecida a necessidade de se cumprirem as metas de superávit primário, um dos pilares do tripé da política econômica.
Política fiscal e superávit primário
Esse pequeno detalhe - o uso do aparentemente singelo adjetivo “primário” - é que faz toda a diferença na avaliação da política fiscal e nas consequências derivadas de seu cumprimento de forma cega e inflexível. Isso porque sua aceitação implica a diferenciação das despesas governamentais em dois grandes subgrupos: i) as despesas reais; e ii) as despesas de natureza financeira. Assim, de um lado temos os gastos com pessoal, com equipamentos, com material, com pagamento de benefícios, com investimentos, etc. De outro lado, temos os gastos com pagamento de juros e demais serviços de rolagem da dívida pública. Ou, se quisermos outro enfoque da execução orçamentária, de um lado temos os gastos com saúde, educação, previdência social e similares, ao passo que de outro lado temos as despesas do Tesouro Nacional com as rubricas financeiras do endividamento.

Ao incorporar a exigência de obtenção do superávit primário nas contas públicas, dá-se um tratamento distinto a ser conferido às despesas reais e às financeiras. Para obter um resultado superavitário nos gastos reais, faz-se necessário uma compressão das despesas desse primeiro grupo (saúde, educação, previdência social, etc) e/ou elevação dos impostos arrecadados sob a forma de receitas. Esse esforço de austeridade, porém, não acontece no que se refere às despesas para pagamento de juros e rolagem da dívida pública. Pelo contrário, todo o valor gerado pelo superávit primário vai ser canalizado diretamente para o pagamento dessas rubricas de natureza financeira.

Despesas financeiras são “imexíveis”
Com isso, quando os interesses do financismo vêm clamar pela redução dos gastos do governo, estão malandramente se referindo apenas aos gastos correntes, uma vez que eles consideram os gastos financeiros como pertencendo a um seleto subgrupo de despesas nobres e “imexíveis”. De acordo com essa visão, cortes são necessários e devem ser feitos na massa salarial dos funcionários, na contabilidade da saúde pública já em frangalhos, nos valores dos benefícios da previdência social, nas contas do sistema de educação, entre tantos outros exemplos.

Já as despesas públicas realizadas com pagamento de juros ao sistema financeiro, bem essas não podem ser objeto de perturbação, para evitar problemas de credibilidade do sistema econômico. Afinal, as leis do mercado devem ser cumpridas à risca, para evitar a contaminação derivada do não cumprimento dos contratos. E dá-lhe blá-blá-blá a justificar a suposta superioridade de importância da esfera financeira sobre as demais.

As razões para a redução do superávit
Os argumentos apresentados pela equipe econômica para justificar o baixo desempenho na área fiscal fazem todo o sentido. Afinal, houve um conjunto importante de medidas de isenção e desoneração tributárias que foram tomadas ao longo dos últimos tempos. A intenção das mesmas era justamente estimular a retomada da atividade econômica e relançar os desafios do crescimento. Ocorre que tais decisões promovem - parece óbvio! - a redução da capacidade arrecadadora do Estado no curto e no médio prazos. Com isso, o total da receita pública tende a diminuir de forma imediata e a capacidade de gerar superávit fiscal também cai.

Raciocínio semelhante vale para as despesas de investimento do governo, a exemplo das obras do PAC. Elas não podem ser sacrificadas em nome do pagamento de juros da dívida, uma vez que são gastos que devem oferecer retorno positivo para o conjunto da sociedade, em futuro próximo. Com isso, a nova metodologia de cálculo do superávit primário também confere a esse tipo de gasto um necessário estatuto diferenciado. A consequência lógica é a redução dos objetivos fiscais previamente definidos.

Finalmente as conhecidas pressões sociais e políticas associadas ao modelo de nosso pacto federativo provocam demandas de despesas no plano dos estados e dos municípios. Assim, a União acaba sendo responsabilizada pela sua incapacidade em monitorar a geração de superávit primário na contabilidade pública dos demais entes federados. O governo federal apresenta de forma efetiva o resultado de sua administração e das empresas estatais. Mas não tem o controle total sobre os demais níveis de governo

Frente a tais dificuldades, é bem possível que a meta de 2,3% do PIB de superávit primário não seja mesmo atingida até o final do ano. No entanto, isso não significa de forma alguma que estejamos frente ao caos incontrolável e ao quadro de catastrofismo que se procura desenhar. Esse barulho todo, que vem sendo criado em torno da questão, é apenas uma forma, nada discreta, de o capital financeiro fazer valer seus interesses. Ele procura impedir que o governo corte também as despesas com juros, assim como fez com as demais rubricas da área social. Afinal, menor superávit primário pode inclusive significar menor volume de despesas do orçamento realizadas com juros da dívida pública. E contra isso o financismo se bate com todas as forças.

Estratégia da banca: aumentar a Selic
Na verdade, essa estratégia de terror se articula de forma sintonizada com o calendário que antecede a reunião do Comitê de Política Monetária - Copom. O último encontro de 2013 do colegiado que define a taxa oficial de juros deverá ocorrer nos próximos dias 26 e 27 de novembro. E os representantes dos interesses da banca já buscam criar o clima para exigir, ainda outra vez, uma nova elevação da Selic. Ao longo das últimas cinco reuniões, o Copom tem promovido aumentos sistemáticos e consecutivos na taxa. Ela saiu de 7,25% ao ano em março para os atuais 9,5%. E a linha de argumento que se vê nas páginas dos jornais é justamente pela suposta necessidade de uma taxa oficial ainda mais alta, como forma de garantir credibilidade ao sistema de equilíbrio macroeconômico, que estaria sendo questionado. Uma loucura!

Afinal, sempre existe ou é inventado o argumento de plantão, a desculpa da vez. Há alguns meses atrás, o clima criado artificialmente para o aumento da Selic foi a chamada “inflação do tomate”. Uma verdadeira brincadeira de mau gosto, uma profunda irresponsabilidade, mas que logrou aumentar a taxa geral de juros apenas em razão dessa elevação sazonal de apenas um dos itens da nossa cesta de consumo. Mais à frente, surgiu um suposto problema relativo à necessidade de maior atração de recursos externos, face a um possível aumento de juros pelo FED - o banco central norte-americano. Pois bem, nenhum dois 2 fenômenos ocorreu ou se manteve, mas em ambas situações o núcleo econômico cedeu às pressões do financismo e aumentou a Selic. E aqui vale lembrar que cada 0,5% de elevação na taxa correspondente a uma despesa anual extra de R$ 10 bilhões, a ser realizada sob a forma de juros. Ou seja, repete-se “ad nauseam” a tragédia do corte orçamentário em educação e saúde, sempre para assegurar a despesa pública com juros.

FMI volta a palpitar: os riscos da ilusão
Esse tipo de recomendação - maior rigor de ortodoxia na condução da política econômica - já vem sendo objeto de crítica pelo mundo afora, em razão de sua ineficácia em solucionar as situações de crise. Porém, até o FMI, vez por outra, volta a insistir por sua adoção aqui em nossas terras. Há 2 semanas atrás, por exemplo, um relatório oficial do fundo chegou a sugerir que o Brasil deveria elevar novamente o patamar do superávit primário para 3% do PIB, como acontecia à época de Palocci/Meirelles. Ou seja, novos sacrifícios na área social para drenar um volume mais expressivo de recursos para o parasitismo financeiro.

Não há dúvidas de que o Estado tem muito a melhorar na eficiência do gasto público. Uma mesma quantidade de recursos pode ser muito mais bem administrada, evitando desperdícios e oferecendo mais serviços à população. Além disso, a qualidade daquilo que é proporcionado pela administração pública, via de regra, também ainda deixa muito a desejar. O desafio, portanto, passa também pela melhoria da gestão pública. O mesmo raciocínio vale para os programas de concessão, de subsídio ou de desoneração que são oferecidos ao setor privado, onde nem sempre os resultados surgem sob a forma de melhorias compartilhadas por todos os setores da sociedade. E o que dizer, então, do gasto público que menos retorno social oferece, a tal da despesa com juros?

Na verdade, o episódio de generalização das críticas pelos meios de comunicação deveria servir como aprendizado para os responsáveis pela equipe econômica. Talvez imaginassem eles que a incorporação de reivindicações antigas do empresariado serviria para neutralizar as críticas de setores do capital à condução da economia. E assim foram oferecidas inúmeras benesses como isenções tributárias, desoneração da folha de pagamentos, privatização de serviços públicos e infra-estrutura. Mas isso não impede que os representantes dos interesses do capital financeiro continuem polarizando setores da sociedade na sua luta contra qualquer tipo de presença incômoda do Estado. Em sua busca de acumulação de capital a qualquer preço, jogam um verdadeiro vale tudo. E para tanto chegam a tentar retomar o debate e a votação de projetos do ultra-liberalismo, como aquele que prevê a independência institucional e de direito ao Banco Central. O risco é que esse canto de sereia acabe encantando, mais uma vez, os ouvidos de personalidades políticas que sempre se colocaram do outro lado da trincheira de lutas.

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MÍDIA - O GLOBO e a Venezuela.

O besteirol antichavista do Globo

Por Miguel do Rosário, no blog O Cafezinho:
Hoje eu me deparei com a seguinte notinha editorial enfiada, qual uma cobra, no meio da página 6 do Globo. Você está distraído, lendo um jornal, e lá vem uma serpente chavista (ou melhor, anti-chavista) morder seu pé.



A nota é uma extraordinária síntese de estupidez. Pode ser lida no sentido inverso. Quando a ideologia condiciona ações de jornalismo, surgem excentricidades.

Em primeiro lugar, empresário não é trouxa. Ninguém vai vender à Venezuela porque o Planalto pediu ou estimulou. Vendem para ganhar dinheiro. E estão ganhando. Muito. As exportações brasileiras para a Venezuela cresceram tanto, que nem vou botar o percentual aqui porque vai soar irreal. Vamos aos números absolutos. O Brasil exportava menos de 800 milhões de dólares para a Venezuela em 2002. Em 2012, exportou quase US$ 10 bilhões.

Quem é mesmo que está deixando a “ideologia” falar mais alto aqui?

Sobre o aumento das dívidas da Venezuela para com exportadores brasileiros, creio que este salto nas vendas esclarece tudo, não? Antes, a Venezuela não devia nada ao Brasil porque também não comprava quase nada. Só quem fica me devendo é quem compra meus produtos.

Tem que cobrar, pressionar, para sair logo o pagamento, mas é óbvio que a Venezuela vai pagar, até para continuar comprando.



E tem mais.

A notinha diz que que a Venezuela “quebrou”. Como é que é? Vocês sabem qual o país que possui as maiores reservas de petróleo do mundo?

Sim, a Venezuela.

Segundo matéria publicada na revista Exame, em junho deste ano, a Venezuela tinha quase 300 bilhões de barris em reservas provadas, em 2012. Para você ter uma ideia, o nosso maior campo do pré-sal, Libra, arrematada há algumas semanas por um consórcio liderado pela Petrobrás, tem de 8 a 15 bilhões de barris.

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As 20 maiores reservas de petróleo do mundo

As reservas globais de petróleo provadas atingiram 1.668,9 bilhões de barris no final de 2012, quantidade suficiente para garantir exatos 52 anos e 9 meses de produção mundial de energia. Os dados são da edição 2013 do relatório estatístico anual da BP, documento de referência para o setor. Segundo o estudo, ao longo da última década, as reservas globais de petróleo cresceram 26%. Os países da Opep continuam a dominar o ranking, controlando 72,6% das reservas mundiais.

Atualmente, o Brasil ocupa a 15ª colocação do ranking. Levando em conta as estimativas conservadoras, que apontam que o pré-sal possui reservas da ordem de pelo menos 60 bilhões de barris de petróleo, o país tem chances de entrar para a lista das 10 maiores potências petrólíferas até 2030, ultrapassando Estados Unidos e Líbia.

1º – Venezuela

- Participação mundial: 17,8%

- Reservas provadas em 2012: 297.6 bilhões de barris

- Reservas provadas em 2002: 77.3 bilhões de barris

- Crescimento em 10 anos: 285%
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Falar que a Venezuela quebrou, sabendo que tem a maior reserva de petróleo do planeta é sinal de que a “ideologia” já comeu o cérebro dos editorialistas do Globo.
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POLÍTICA - O que melou o aumento do IPTU em SP?

O que melou o aumento do IPTU em SP?

Por Paulo Nogueira, no blog Diário do Centro do Mundo:
Elogiei, outro dia, a lógica do aumento do IPTU em São Paulo. Num país em que rico não paga imposto, e ainda reclama da carga tributária e dos maus serviços que recebe em troca da sonegação, é altamente elogiável uma medida que cobra mais de quem tem mais dinheiro e poupa quem tem menos.

Classifiquei como “inatacável” a lógica do aumento do IPTU.

O que não me ocorrera é como a classe média é capaz de atacar o inatacável, dentro de sua miopia egoísta e obtusa. Também não me passara pela cabeça como a justiça é politizada, e como ela poderia atrapalhar uma medida tão positiva.
Vou definir, calmamente, o que é classe média, em minha acepção, para que não pairem dúvidas.

É um estado mental, e não econômico ou financeiro. Não importa o saldo bancário, não importa a renda mensal. O ‘ típico classe média’ pode ser o milionário Rei do Camarote ou o frentista do posto da esquina, passando pelo executivo que vê a Globonews, lê Olavo de Carvalho e acha o Jabor um farol capaz de iluminar o Brasil. Pode ser católico, evangélico, mormon, espírita ou ateu.

Vamos abreviar. Chamemo-lo de TCM, de típico classe média.

O TCM não gosta de pobre, é homofóbico e acha que todo esquerdista é petralha ou comunista. Lê a Veja, onde aprende que Cuba é um inferno e os Estados Unidos o paraíso, ouve a CBN e acha Pondé essencial.

O TCM, seja rico ou pobre ou simplesmente classe média na acepção meramente econômica, olha apenas para o próprio interesse.

E então um aumento de IPTU que não o favoreça vira uma tragédia, uma abominação, um ato de traição.

Os jornais e os sites da mídia corporativa cultivam os TCM. É só ler as seções de comentários. E então editoriais e colunas incentivam os TCMs em sua cruzada patética contra algo que beneficiaria a ignorada, desprezada, maltratada periferia de São Paulo.

E a Justiça, composta por tantos juízes TCMs, faz sua parte também, naturalmente. Tudo isso tem o poder de liquidar um imposto que ajudaria os mais pobres. Mas que interesse tem o TCM pelo o pobre, ou por expressões comunistas como “justiça social”?

O TCM acha que a rua é dele e de seu carro, e não dos pedestres, e não dos ônibus, e não das bicicletas.

Países adiantados socialmente como os da Escandinávia quase não têm TCMs.

Mas no Brasil, e em São Paulo particularmente, eles são muitos, e interferem muito, e atrapalham muito a escandinavização do país com seu reacionarismo estridente e militante.

Algum tempo atrás, depois de visitar uma favela em São Paulo, uma escritora alemã comentou: “Se fosse na Alemanha, eu lutaria para que pagássemos mais impostos”.

Mas o TCM brasileiro vê a favela e ali descobre um motivo a mais para defender a tese de que não se deve pagar imposto.

Por isso ele fica amortecido, e no fundo admira a Globo quando sabe que ela deu, apenas num caso, um golpe de 1 bilhão de reais numa sonegação.

O Brasil vai se tornar escandinavo, mais cedo ou mais tarde. Não existe sociedade sustentável quando as desigualdades são tantas como as nacionais.

O despertar é lento, mas inevitável.

Quando formos uma Dinamarca, vamos olhar para trás e vamos entender que só avançamos porque os TCMs foram ficando numa quantidade menor, menor, menor – até perderem o poder de frear as coisas boas com seu egoísmo obtuso e barulhento.
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ECONOMIA - Um trem suicida rumo ao abismo.

Um trem suicida rumo ao abismo

Por Gabriel Fabri, na revista Fórum:
Considerado um dos maiores pesquisadores em Karl Marx e Walter Benjamin, entre outros autores, Michael Löwy esteve no Brasil para divulgar o seu novo livro, “O Capitalismo como Religião” (Boitempo Editorial), que reúne escritos de Benjamin, das mais variadas fases de sua carreira. Walter Benjamin foi um dos mais importantes teóricos da Escola de Frankfurt.

Em entrevista à Revista Fórum, Löwy explica a relação entre capitalismo e religião na obra de Walter Benjamin, e também discorre sobre questões como o sistema capitalista hoje e o pensamento do romantismo e do surrealismo. Confira:
Como a questão do capitalismo como religião está inserida na obra do Benjamin? Ela a permeia? De que maneira?
Eu não diria que ela permeia a obra do Benjamin. “O Capitalismo como Religião” é um texto de um momento muito específico e não é uma questão que ele voltou a discutir como tal. Em 1921, quando ele o escreveu, ele ainda não era marxista. É um escrito mais de inspiração romântico-libertária, eu diria. Quando ele descobre o marxismo, ele vai retomar a questão, mas sobre um ponto de vista um pouco diferente, quando ele usa o conceito do fetichismo da mercadoria de Marx. Esse conceito tem uma dimensão religiosa, por que o fetichismo é uma forma de culto, de idolatria. Ele se refere à Bolsa de Paris, por exemplo, como “templo da mercadoria”. E usa expressões relacionadas com o tema do fetichismo que, metaforicamente, tem a ver com a religião.

E qual seria o tema que atravessa toda obra de Benjamin?

O tema que atravessa toda sua obra é a crítica ao capitalismo. É uma crítica feroz, que não é necessariamente marxista, no começo não é. Não só ao capitalismo no sentido econômico, mas como civilização – moderna, industrial, capitalista, burguesa. É uma crítica de inspiração romântica a essa civilização. Esse é o fio condutor dessa coletânea de textos.

Na orelha do livro, Maria Rita Kehl afirma que a “unidade dos textos” selecionados se explica a partir do ensaio-título escolhido para a coletânia. Como você pensa essa relação?

Segundo a Maria Rita Kehl, o texto ilumina o sentido da melancolia benjaminiana. Até certo ponto, eu diria que sim. Esse texto fala que o capitalismo conduz ao desespero. Tal desespero suscita a melancolia, o sentimento de que não há saída, de que nada se pode fazer. Eu acho que a melancolia de Benjamin tem a ver com esse desespero, mas não é uma melancolia resignada, ela é ativa. Por exemplo, ele tem um ensaio de 1929 sobre surrealismo que fala da importância do pessimismo para a revolução. Ele diz que o capitalismo pretende nos fechar numa espécie de jaula de ferro, mas que temos que procurar uma saída e, assim, ele analisa várias hipóteses de como sair. Então é evidente nessa busca que Benjamin não se dá por satisfeito com o desespero do capitalismo.

O texto “o capitalismo como religião” é uma feroz crítica a esse sistema. O que torna esse texto atual?

Muito do que o Benjamin diz corresponde de maneira surpreendente ao funcionamento atual do capitalismo. Realmente há algo de um culto religioso na maneira como os representantes do sistema capitalista, seus economistas e os seus meios de comunicação se referem à propriedade privada, ao mercado, à bolsa… Mas talvez a coisa mais surpreendente e atual é quando Benjamin fala da ambivalência, na língua alemã, do conceito de Schuld, que é ao mesmo tempo “dívida” e “culpa”. Ele acha que essa coincidência é diabólica e que isso está no coração da religião capitalista: a dívida é uma culpa, quem está endividado é culpado. O capitalista está sempre em dívida com o seu capital, o pobre está sempre em dívida porque não tem dinheiro, então todos somos endividados, todos somos culpados. Hoje em dia nós vemos na Europa um discurso teológico de que todos os países que estão em crise estão por culpa deles, porque não trabalham, são preguiçosos, esbanjaram dinheiro. Todo um discurso moralista querendo culpabilizar esses países, quando sabemos que a dívida resulta da lógica do próprio sistema capitalista, de sua irracionalidade profunda.

Faz sentido pensar numa adoração ao capitalismo agora que ele vem sendo tão contestado com a crise econômica?

A crise tremenda do capitalismo atual, a maior sem dúvida depois de 1929, intensifica ao máximo o desespero provocado pela religião capitalista, a tal grau que o desespero se transforma em alguma outra coisa. As pessoas se suicidam ou buscam algum bode expiatório, como os imigrantes, por exemplo. Todavia, para alguns, o desespero leva a colocar em questão a religião capitalista, e mesmo a rejeitá-la. Então, ele pode levar à raiva e à indignação, sendo essa última o traço comum de todos os movimentos de protesto que surgiram, da Primavera Árabe às jornadas de junho no Brasil. Implicitamente ou explicitamente, encontramos também uma rejeição à religião capitalista. Mas em suma, esses movimentos são o desespero transformado em raiva e indignação, o que é, evidentemente, um grande passo à frente.

Benjamin pensou a modernidade do século XIX-XX. Quais aspectos dessa modernidade continuam até hoje?

A modernidade capitalista está baseada no princípio da mudança permanente, ela nunca é a mesma, mudando constantemente, de um minuto para o outro. Tudo muda, mas, como diria o famoso romance “O Gattopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, tudo muda para ficar a mesma coisa: a matriz econômica, social, política e cultural do sistema permanece. A civilização capitalista-industrial, com suas características analisadas por Marx e retomadas por Walter Benjamin, continua igual.

Quais são as principais críticas de Benjamin ao mundo “civilizado” do século XX?

Ele aponta para as potencialidades destrutoras da civilização capitalista do século XX. Então rejeita a ideia de progresso, acha uma mistificação a ideia de que o capitalismo nesse século é mais civilizado ou mais humano do que no passado. Ele tem essa percepção de que o progresso capitalista vai acumulando catástrofes e que o fascismo é algo que corresponde perfeitamente a uma dinâmica possível do sistema: o fascismo e o nazismo são vistos como a expressão mais dramática da barbárie potencial do capitalismo. Assim, Benjamin alerta para os perigos de catástrofe que estão no bojo do sistema capitalista. Um dos elementos apontados é o uso da tecnologia científica mais avançada para a guerra. O texto “As armas do Futuro”, presente na antologia, fala sobre a arma química, por exemplo. Embora Benjamin fosse o mais pessimista e o mais lúcido sobre os perigos da tecnologia a serviço da guerra, nem ele conseguiu prever a arma atômica.

O senhor afirma que a crítica de Benjamin é de inspiração romântica. Como se dá essa relação do Benjamin com o romantismo?

Nos manuais, se apresenta o romantismo como uma escola literária do século XIX. É muito mais do que isso, pois está presente na poesia, na arte, na música, na teoria política, na religião, na economia. O romantismo é uma visão do mundo, que atravessa todos os campos da cultura. Partindo de um texto de Marx, o romantismo é definido como uma crítica da civilização capitalista em nome do passado pré-capitalista. Acho que é exatamente isso, o romantismo é um protesto cultural contra a civilização moderna-industrial em nome de um passado idealizado. Ele surge no século XIII e existe até o século XXI, o que Marx já tinha previsto, dizendo que, enquanto existir o capitalismo, o romantismo será a sua sombra.

O romantismo possui duas vertentes principais. Uma quer restaurar o passado, então ela é conservadora, reacionária. A outra quer uma volta pelo passado, em direção a um futuro utópico, revolucionário. Nessa segunda vertente figura o Jean-Jacques Rousseau, pois ele fala do selvagem como livre, em contraponto ao homem da sociedade moderna que é um escravo, mas o teórico não quer voltar a viver na floresta, e sim restaurar essa liberdade perdida numa sociedade futura, democrática. Essa dialética romântica entre passado e futuro já está em Rousseau e continua ao longo dos séculos XIX, nos socialistas utópicos, e XX, nos surrealistas, entre outras correntes do pensamento. O Walter Benjamin é um exemplo dessa atitude romântico-revolucionária. Ele vai utilizar a teologia e a religião que vem do passado como arma para uma luta revolucionária contra uma civilização burguesa.

Como a visão romântica permanece até hoje?

Você vê o romantismo reacionário nas pessoas que querem restaurar alguns valores aristocráticos e tradicionalismos, como, por exemplo, as correntes religiosas fundamentalistas, que querem resgatar a religião como era no passado. Esse fundamentalismo, todavia, nem sempre é critico do capitalismo, então, nesse caso, não é romantismo, e sim uma variante da religião capitalista. Mas existem formas religiosas retrógradas que rejeitam a civilização moderna, então elas têm essa forma de protesto reacionário.

Há também as formas românticas utópicas ou revolucionárias. No campo religioso, por exemplo, a Teologia da Libertação é crítica à civilização capitalista e se refere a alguns valores do passado, a uma imagem idealizada do cristianismo nas origens e à ideia de que existem tradições comunitárias populares que o capitalismo vai destruindo, mas que devem ser resgatadas. Então eles querem restaurar o espírito comunitário que existiu no passado, mas sem voltar a ele, criando algo novo como, por exemplo, a comunidade de base, que incorpora aspectos da modernidade, entre eles a adesão individual das pessoas.

De que maneira as reflexões do romantismo se prolongam até o surrealismo?

Um dos elementos do protesto romântico contra a civilização é aquilo que o Max Weber chama de “desencantamento do mundo”. O capitalismo acaba com o que é encantamento, dissolvendo tudo em prol da mercadoria, do dinheiro, do mercado, das coisas prosaicas. O romantismo protesta contra isso, sendo uma tentativa de reencantamento do mundo. No caso do surrealismo, essa tentativa tem uma forma revolucionária, pois eles querem reencantar o mundo por meio da poesia, do sonho, do acaso e da utopia, e não por meio da restauração do passado. André Breton, fundador do surrealismo, vê o movimento como uma continuação do romantismo, quando diz que o seu movimento é a “cauda do cometa romântico”. Os surrealistas, além de críticos do sistema, também criticavam a civilização ocidental, sendo violentamente anticolonialistas, pois o colonialismo é a tentativa de impor essa civilização aos povos da periferia. Assim, um dos primeiros atos políticos do surrealismo foi o apoio a um levante árabe no Marrocos, reprimido pelo colonialismo francês. Já em 1925, logo quando é fundado o movimento surrealista, eles vão apoiar essa revolta anticolonial.

Benjamin achava que só uma revolução podia interromper a marcha da sociedade burguesa rumo ao abismo. Essa marcha continua?

A marcha para o abismo continua, mas tem uma forma diferente. Na época de Benjamin, era a marcha à guerra, à II Guerra Mundial. Hoje em dia a mais nítida é a corrida, não “marcha”, para o abismo, que é a catástrofe ecológica. A marcha vai devagar, mas a corrida do trem vai rápido. É evidente que a civilização capitalista industrial está indo como um trem suicida, com rapidez crescente, em direção a esse abismo, o que é uma catástrofe sem procedentes na história humana. Isso está ligado à dinâmica própria do capitalismo, de expansão ilimitada. Mais uma vez se coloca a urgência do que o Benjamin dizia: precisamos de uma revolução, isso é, puxar os freios desse trem louco.
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POLÍTICA - O desafio das forças progressistas.

O desafio das forças progressistas

Editorial do sítio Vermelho:
Há um desafio que não pode ser desprezado para a eleição de 2014 – a conquista do quarto mandato para as forças democráticas e populares exigirá um empenho extra das forças políticas do campo progressista e patriótico para concretizar uma unidade programática avançada, capaz de fazer o Brasil prosperar no rumo do desenvolvimento (retomado desde a posse de Luiz Inácio Lula da Silva em 2003), no avanço da democracia e na conquista de mais direitos sociais.

É o mesmo desafio que se repete desde a eleição de Lula em 2002, e que opõe dois campos nitidamente conflitantes – o campo do progresso social, patriótico e da consolidação da democracia, contra o polo conservador e neoliberal representado principalmente pelo PSDB, centro de gravidade da direita brasileira que reúne forças auxiliares como o exaurido DEM (ex-PFL) e o claudicante PPS.

O embate de 2014 poderá ser decisivo para afirmar e fortalecer o rumo assumido desde 2003. Com um quarto mandato para a coalizão hoje liderada pela presidenta Dilma, em que se destacam partidos de esquerda como Partido dos Trabalhadores e o Partido Comunista do Brasil, serão 16 anos (quatro mandatos presidenciais consecutivos) de governos progressistas, tempo suficiente para consolidar e avançar as conquistas democráticas e sociais, tornando-as irreversíveis. Tempo suficiente, ainda, para a elevação do Brasil a um novo patamar de desenvolvimento, fortalecendo o país e assegurando o bem-estar dos brasileiros.

Daí a exigência que a nação faz à coalizão democrática e popular: é preciso avançar na realização das mudanças e conquistar novos direitos democráticos e sociais.

As condições do Brasil são muito particulares, entretanto. Pais continental, onde existem realidades locais específicas decorrentes do grau de desenvolvimento econômico e também político de cada região, a luta política se apresenta de forma multifacética, diferenciada, de um estado para outro, de um município para outro. Há costumes, tradições e, sobretudo, níveis diferenciados de conquistas democráticas que se traduzem em alianças locais que seguem uma dinâmica própria. Há uma engenharia política nelas, tradicional na política brasileira. E cuja força é tão determinante que, mesmo quando a ditadura tentou impor um bipartidarismo artificial (Arena e MDB), precisou criar o mecanismo da sublegenda (cada um dos partidos oficiais podia ter até três sublegendas; por exemplo, Arena 1, Arena 2 e Arena 3) para acomodar os interesses e as contradições locais.

Numa situação democrática este artifício é desnecessário – cada agrupamento político, com força para cumprir as regras da legislação eleitoral e partidária, pode organizar-se como partido político independente e, assim, apresentar-se no cenário politico com feição própria. A arte, num período democrático, consiste na capacidade de realizar alianças locais e nacionais que, muitas vezes, aparecem como contraditórias.

A conquista de um quarto mandato para as forças democráticas e populares exige que cada força política deste campo tenha a clareza da exigência de unidade em torno da candidatura presidencial em 2014. A aliança em nível federal, na disputa para a Presidência da República, é uma imposição para a vitória do campo avançado e democrático. A contradição presente nesta disputa significa a oposição entre duas forças, dois campos – um democrático, patriótico e avançado, contra o campo do retrocesso, da submissão ao imperialismo, do atraso neoliberal. Nesse quadro, uma “terceira via” não corresponde ao projeto das forças progressistas.

Em 2014 haverá um conjunto dos chamados “palanques múltiplos” nas disputas estaduais, traduzindo na prática política contradições que podem levar, no nível local, a candidaturas opostas dentro do mesmo campo avançado e popular. Mas a existência de palanques estaduais múltiplos não pode ser obstáculo para a unidade em torno de uma mesma, e única, candidatura presidencial das forças avançadas. Este é um dos grandes desafios para 2014 e sua solução exigirá discernimento político.
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