ECONOMIA - A armadilha da desigualdade.


"A queda da desigualdade de renda a que assistimos no Brasil na última década - celebrada pelo governo, institutos de pesquisa e por grande parte da mídia nacional e internacional - deve ser comemorada, mas sem exagero", escrevem Octávio Motta Ferraz, professor de Direito na Universidade de Warwick (Reino Unido), e Diogo R. Coutinho, livre-docente em direito econômico e pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, professor na Universidade São Paulo, em artigo publicado pelo jornal Valor, 17-10-2013.

Segundo eles, "num período em que a maior parte do mundo desenvolvido apresenta uma tendência oposta, de aumento das desigualdades (como mostra o mais recente relatório da OCDE), e o termo "brazilianization" é frequentemente usado para se referir a esse fenômeno, seria uma ironia histórica edificante se pudéssemos nos tornar um exemplo de ações estruturais para promover a igualdade".

Eis o artigo.

No Brasil, em larga medida, os pobres são pobres porque os ricos são ricos. Vivemos enredados no que o economista indiano Vijayendra Rao chamou de "armadilha da desigualdade": a cristalização da desigualdade nas instituições, nas leis, nas políticas públicas e na vida social do país, reproduzindo-se em suas várias dimensões (renda, riqueza, oportunidades, poder e status social) e favorecendo os mais ricos em prejuízo dos mais pobres.
São exemplos dessa armadilha os traços regressivos (isto é, pró-ricos) dos nossos sistemas tributário, previdenciário, de saúde, de moradia e educacional. Enquanto os ricos na Suécia, na Alemanha e Japão chegam a pagar quase ou mais da metade de seus ganhos em imposto de renda, no Brasil a alíquota mais alta é de apenas 27,5%. Para piorar, o IR tem aqui seu potencial redistributivo mitigado pelas deduções obtidas pelas classes mais favorecidas em despesas médicas e educacionais privadas e pela facilidade com que escapam desse imposto com medidas legalmente válidas, como a criação de empresas ou mediante simples sonegação. Não bastasse isso, parcela significativa dos tributos cobrados no país (60%) sobrecarrega injustamente os mais pobres porque incide sobre o consumo, com percentuais idênticos para todos. Como os pobres gastam parte maior de sua renda (quando não toda ela) em consumo, pagam proporcionalmente mais impostos desse tipo que os ricos.
Nosso sistema previdenciário também é altamente regressivo, favorecendo desproporcionalmente os funcionários públicos de alto escalão do Executivo, Legislativo e Judiciário. Esses grupos, que já recebem bons salários durante a carreira, continuarão a ter direito a aposentadorias integrais (ou quase) até que o regime de previdência complementar instituído pela reforma constitucional entre em vigor, o que já tarda mais de 10 anos. O resto da população, incluindo-se aqui os mais pobres, aposenta-se sob o regime geral da previdência social (RGPS), ganha em sua maioria um salário mínimo ou sequer tem acesso à previdência por trabalhar no setor informal.
A desigualdade medida pelo Gini não é muito adequada para revelar a verdadeira distribuição da renda no Brasil
No campo da educação, nossas escolas públicas padecem de recursos humanos e materiais adequados, o que nos é tristemente lembrado pela péssima atuação do Brasil em testes internacionais, como o Pisa. Como consequência, o ensino superior público, a despeito dos recentes avanços observados, é praticamente reservado aos estudantes cujas famílias podem pagar escolas privadas.
Na saúde, para os 80% da população que dependem do SUS o gasto per capita é quase dez vezes menor que o gasto dos 20% que têm acesso à saúde privada. Não surpreende, portanto, que nossos indicadores de saúde como mortalidade infantil e expectativa de vida estejam próximos aos dos países mais desenvolvidos do mundo para os mais ricos, enquanto para os mais pobres se aproximem dos patamares de países pobres da África.
Essas discrepâncias têm como determinantes não só a desigualdade de acesso a serviços de saúde de qualidade, mas também à educação, à moradia adequada, incluindo saneamento básico, que ainda é inexistente ou inadequado em mais de 30% dos domicílios brasileiros (cf. Censo do IBGE 2010). Já as cidades brasileiras têm sua configuração espacial, de transportes, lazer e cultura voltada para facilitar a vida dos ricos, deixando os bairros mais pobres desprovidos dos mais básicos equipamentos públicos. Igualmente mitigado nas políticas urbanas é o componente progressivo do IPTU, o que torna letra morta a função social da propriedade garantida pela Constituição.
São essas práticas, leis, instituições e políticas públicas que precisam sofrer mudanças estruturais para que a armadilha da desigualdade seja desarmada. E é por isso que a queda da desigualdade de renda a que assistimos no Brasil na última década - celebrada pelo governo, institutos de pesquisa e por grande parte da mídia nacional e internacional - deve ser comemorada, mas sem exagero.
Segundo dados do Ipea, entre 2000 e 2010 a desigualdade diminuiu em 80% dos municípios brasileiros, pois a renda dos 20% mais pobres cresceu 217%, enquanto a dos 10% mais ricos cresceu 60%, algo sem dúvida positivo. Dados da mais recente Pnad do IBGE confirmam essa tendência, tendo a desigualdade alcançado o seu patamar mais baixo da história recente em janeiro de 2012 (Gini de 0,519).
Mas esse nível de desigualdade, além de ainda muito alto (continuamos entre os países mais desiguais do mundo), leva em consideração principalmente os rendimentos do trabalho formal e transferências públicas, deixando de fora, por limitações de dados, a maior parte dos rendimentos do capital (cerca de 80% do rendimento dos ricos). A desigualdade medida pelo Gini não é, portanto, inteiramente adequada para revelar a verdadeira distribuição da renda entre trabalhadores formais e informais, de um lado, e empresários, banqueiros, latifundiários, proprietários de bens e de imóveis alugados, de outro. A recente tendência de declínio da desigualdade, apesar de inédita e auspiciosa, é em face disso, ainda muito tímida e não se apoia no ataque efetivo a nenhum dos principais gargalos da armadilha da desigualdade acima apontados.
São apenas essas reformas, ou seja, a criação de um verdadeiro Estado de Bem-Estar social, com leis, instituições e políticas públicas que minimizem - em vez de sedimentar - as desigualdades existentes é que poderão tornar o Brasil um país realmente igualitário e livre das mazelas sociais que a desigualdade produz, como a violência, a falta de coesão social e os limites para o crescimento econômico sustentável.
Num período em que a maior parte do mundo desenvolvido apresenta uma tendência oposta, de aumento das desigualdades (como mostra o mais recente relatório da OCDE (Divided We Stand: Why Inequality Keeps Rising), e o termo "brazilianization" é frequentemente usado para se referir a esse fenômeno, seria uma ironia histórica edificante se pudéssemos nos tornar um exemplo de ações estruturais para promover a igualdade.
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PETRÓLEO - Pré-sal exige investimento de US$ 500 bi em 12 anos



O petróleo do pré-sal, cujo primeiro campo (Libra) será leiloado segunda-feira, representa enormes desafios para o país. Cálculos do setor indicam que serão necessários US$ 500 bilhões de investimento em 12 anos, entre 2013 e 2025, para alcançar a meta da Petrobras, operadora única do pré-sal, de produzir 4,2 milhões de barris de petróleo por dia em 2020 ou 5,2 milhões de barris equivalentes se for contabilizado o gás natural.

A reportagem é de Cláudia Schüffner, Marta Nogueira, Flavia Lima, Francine de Lorenzo e Karin Sato e publicada pelo jornal Valor, 17-10-2013.

Só em Libra, estima a consultoria IHS, os custos operacionais serão de US$ 180 bilhões a US$ 250 bilhões em 35 anos. Em 2027, com todas as plataformas em operação, o campo atingirá o pico de produção, de 1,4 milhão de barris/dia.
O leilão de segunda-feira deve durar apenas uns 30 minutos, segundo o secretário de óleo e gás do Ministério de Minas e Energia, Marco Antônio Martins Almeida. Será o primeiro em regime de partilha de produção. Ganhará a disputa o consórcio que oferecer o maior percentual em óleo à União, sendo o lance mínimo de 41,65%. O vencedor terá de pagar bônus de assinatura de R$ 15 bilhões.
Onze empresas se inscreveram para o leilão - pagaram taxa de R$ 2 milhões. A presença das estatais chinesas será dominante, com três companhias: CNOOC, China National Petroleum Corporation e Sinopec, esta em parceria com a espanhola Repsol, por meio da Petrogal. Também participarão a malaia Petronas, a indiana ONGC, a japonesa Mitsui, a francesa Total, a Shell e a colombiana Ecopetrol, além da Petrobras.
Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim, prevê que os chineses apostarão alto no leilão. Além da importância do óleo para a China, diz Pettis, faz parte do processo de ajuste chinês uma "tremenda" pressão sobre as estatais do país para que atuem mais ativamente no exterior.
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POLÍTICA - Serra é candidatíssimo.

 Vai tentar e brigar para ser. A presidente da República. Em 2014. Esse é o fato político do dia que a mídia esconde, nem sei o porquê, mas não tem outro sentido suas afirmações de ontem, em Brasília, quando Serra avisa: “Eu não me aposentei da política. Muito pelo contrário.” E quando reforça: “Estou disponível para o partido para o que ser e vier”.
Para ele não existe aquela candidatura presidencial do senador Aécio Neves (PSDB-MG), lançada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso há quase um ano contra a dele (Serra). Há dias José Serra repete este mantra que a definição sobre a corrida presidencial dentro do PSDB será só em 2014. Mantra repetido ontem, em Brasília, quando proclamou: “A questão no PSDB, anunciada pelo Aécio, vai ser decidida em março. Tudo foi exageradamente antecipado”.
Serra candidatíssimo, este é o fato político do dia, junto com a profunda divisão dentro da Rede com a decisão da ex-senadora Marina Silva, de ser candidata a vice-presidente da República na chapa encabeçada por seu mais novo parceiro, o presidente nacional do PSB e governador de Pernambuco, Eduardo Campos.
É um racha e tanto, feio, na própria Rede
Não se entendem nem nas alianças regionais e muito menos sobre a agenda da campanha. E o pior, tampouco sobre quem será na dupla parceira o candidato ao Palácio do Planalto para disputar com a presidenta Dilma Rousseff – Marina Silva ou Eduardo Campos.
A mídia em geral abriu um generoso e despudorado para Marina Silva. Seus escribas, alguns descaradamente de oposição e algumas (colunistas) tucanas declaradas e assumidas, estão num esforço concentrado para alavancar, de qualquer maneira, num vale tudo, a candidata da Rede para a cabeça da chapa. Estão cientes do fracasso do senador Aécio Neves (PSDB-MG) como candidato ao Planalto e da profunda divisão do PSDB.
Esse é o cenário de hoje para quem, no futuro, for escrever a biografia dos atuais candidatos a presidente da República. Ou, para quem for escrever sobre os que quase foram…
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PETRÓLEO - ‘A arrecadação com o leilão do campo de Libra é uma gorjeta’, diz diretor da FUP

  


À frente da mobilização que ontem provocou a interrupção da produção de 15 plataformas, bloqueou refinarias e terminais de distribuição e paralisou o trabalho de mais de 5 mil petroleiros na Bacia de Campos, a Federação Única dos Petroleiros (FUP) questiona a posição do governo na realização do leilão de Libra. Na avaliação do diretor Francisco José de Oliveira, que liderou a manifestação ontem em frente ao Ministério de Minas e Energia, em Brasília, os recursos prometidas pelo governo com o leilão "são uma gorjeta."

A entrevista é de Antonio Pitta e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 18-10-2013.

Eis a entrevista.

Por que a decisão de paralisar as plataformas no protesto contra o leilão de Libra?
Queremos trazer o Congresso, a sociedade civil, os movimentos sociais para fazer um debate sobre Libra. É uma área que possui uma reserva comprovada de 15 bilhões de barris, segundo estudos internos da ANP. É um absurdo vender isso. O governo afirma que vai investir em educação e saúde, e que vai arrecadar R$ 15 bilhões com o leilão. Mas isso é uma gorjeta perto da riqueza que existe no campo. A sociedade não participou do debate sobre o tema. Nossa tentativa é sensibilizar o governo para negociar e discutir.  
Qual a estratégia da FUP para forçar esse diálogo?
Acreditamos que é preciso uma articulação política para reverter a questão. Encaminhamos documentos ao governo, que nem sequer respondeu. Buscamos uma agenda com o senador Roberto Requião (PMDB-PR), mas ele e o Henrique Alves (PMDB-RN) não nos receberam. Dizem ter uma pressão do partido, que ocupa o ministério. Temos uma lista com mais de 200 assinaturas de parlamentares, buscamos lideranças do PT, mas ninguém discute o tema.
O governo acionou a Força Nacional e o Exército para reforçar a segurança, temendo protestos radicais. Há exagero?
Não acredito que haverá enfrentamento. Nosso movimento é antes de tudo democrático e pacífico. Não trabalhamos com o método de radicalizar, como outros movimentos. Mas a ação de outros movimentos leva a uma preocupação do governo, até pelo que Libra representa. Nunca em um leilão houve uma preocupação dessa dimensão.
Além do leilão, quais outros pontos estão na pauta da greve dos petroleiros?
É uma questão secundária, mas lutamos pelo acordo coletivo. Queremos o reajuste de 12,5%, mas também buscamos melhores condições de trabalho. Neste ano, mais de 320 funcionários morreram em serviço. Entre eles, 80% eram terceirizados. Isso acontece em razão da precarização da condição de trabalho pelas empresas terceirizadas. Somos contra também o Projeto de Lei 4.330, que regulamenta a terceirização em vários setores.
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PETRÓLEO - Mais de 1.100 agentes de segurança atuarão no leilão do Campo de Libra


O efetivo de segurança que atuará no leilão do Campo de Libra, segunda-feira próxima (21), no Rio de Janeiro, será formado por 1.100 homens. A decisão sobre o reforço da segurança foi tomada depois que se intensificaram os protestos contra o leilão do primeiro bloco de exploração do pré-sal. Além das polícias Civil e Militar, do Corpo de Bombeiros e da Guarda Municipal do Rio de Janeiro, o Exército e a Força Nacional de Segurança atuarão no evento.

A reportagem é de Luciano Nascimento e publicada pela Agência Brasil, 17-10-2013.

A decisão sobre a presença de agentes do Exército e da Força Nacional foi tomada nessa quinta-feira, após reunião entre os ministros Celso Amorim, da Defesa, José Eduardo Cardozo, da Justiça, e José Elito Carvalho, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República. A presença das Forças Armadas foi pedida no último dia 11 pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.
"A Constituição determina que as Força Armadas só podem atuar na segurança pública em dois casos: na proteção das fronteiras e na garantia da lei e da ordem. E a presidenta Dilma [Rousseff] já assinou o ato autorizando", disse Cardozo.
O local do leilão, Windsor Barra Hotel, na Barra da Tijuca, será isolado. A previsão é que as medidas de segurança sejam implementadas a partir da noite de domingo (20), estendendo-se por um período de até 24 horas. A operação será coordenada pelo Comando Militar do Leste (CML) e chefiada pelo general Francisco Modesto.
Cardozo considerou normal a participação do Exército na segurança e minimizou a possibilidade de os protestos levarem à suspensão do leilão. "É uma operação de rotina para garantir um bom padrão de segurança em um evento importante para o país. Todas as forças de segurança atuarão em conjunto com as Forças Armadas dentro daquilo que é uma ação necessária e normal para um evento dessa magnitude."
A área de Libra, que será oferecida na licitação, tem reserva estimada entre 8 bilhões e 12 bilhões de barris de petróleo. Onze empresas se habilitaram para participar do leilão da área, que poderá produzir até 1,4 milhão de barris por dia, cerca de dois terços da produção total nacional atual (em torno de 2 milhões de barris).
O leilão deve render à União, aos estados e municípios R$ 900 bilhões em 30 anos, em royalties e partilha da produção, uma média de R$ 30 bilhões por ano, o mesmo valor gerado por todos os campos em produção no Brasil hoje.
Ontem (16), funcionários da Petrobras e subsidiárias entraram em greve por tempo indeterminado, e hoje manifestantes ligados à Federação Única dos Petroleiros (FUP) e à Via Campesina ocuparam o prédio do Ministério de Minas e Energia. Os movimentos classificam o leilão como “a privatização de um tesouro de trilhões de dólares no fundo do mar”.
Houve protestos também no centro do Rio de Janeiro e na Avenida Paulista, em São Paulo
Fonte: IHU
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