MÍDIA - "Reclamar apenas da mídia tradicional não resolve nada".

Como a ‘fantástica’ internet pode combater mais rapidamente o monopólio da voz da mídia tradicional

by Paulo Nogueira
Lula

Em sua conta no Facebook, Lula fez esta semana o elogio da “fantástica” internet. Colocou-a, com razão, como uma alternativa à voz única, e altamente conservadora, que domina a mídia tradicional.
O real debate em torno das coisas do Brasil se trava hoje na internet, um território florescente que não é e nem jamais será dominado por um pequeno grupo de famílias interessadas na manutenção de privilégios velhos como o bigode de Rio Branco.
Reclamar apenas da mídia tradicional não resolve nada, disse Lula. Ele está absolutamente certo, é verdade. Lamúrias não mudam coisa nenhuma. Mas discurso sem ação também não.
Lula se dirigia especificamente aos petistas, mas sua mensagem vale para todo brasileiro cansado do conteúdo enviesado e frequentemente desonesto que domina a mídia tradicional.
Mas.
Mas o que concretamente tem sido feito pelo Estado para estimular a – falemos genericamente – “voz alternativa” digital, tão importante para a sociedade?
A “velha voz” goza de ancestrais regalias copiosas. Exemplo: não incide imposto sobre o papel usado para imprimir jornais e revistas. É o chamado “papel imune”. Outro exemplo: as empresas desfrutam de uma reserva de mercado abjeta – algo que elas condenam em todo outro setor que não seja o delas mesmas. Isso impede a concorrência estrangeira, e configura uma pancada no capitalismo puro pelo qual elas, aspas, se batem tanto.
A lista de mamatas vai muito além. Na publicidade oficial, as grandes corporações se dão muito bem. Nos últimos dez anos, sob o PT portanto, a Globo levou cerca de 6 bilhões de reais, de acordo com dados divulgados pelo Secom, o órgão do governo que administra a propaganda oficial.
A Globo continua a receber publicidade do governo em doses torrenciais mesmo com o declínio contínuo de sua audiência. Não é só uma anomalia governamental, é certo. Outros anunciantes fazem exatamente o mesmo. Em 2012, a Globo nunca teve uma audiência tão baixa e, ao mesmo tempo, nunca faturou tanto em publicidade.
São duas coisas excludentes – queda de público e aumento de receita publicitária. Mas a Globo opera uma mágica. Essa mágica na verdade é uma propina legalizada chamada BV: a Globo paga uma comissão às agências que anunciam nela.
Quanto mais a agência anuncia, mais ganha. Muitas agências, hoje, dependem do BV pago pela Globo. E então fazem de tudo para colocar a verba de seus clientes na emissora. Isso explica fenômenos como o seguinte: há dez anos, o Jornal Nacional tinha audiência média de 32%, e o preço do comercial de 30 segundos era de 200 000 reais. Agora, a audiência é 35% menor, e o comercial custa 90% mais.
Como os anunciantes aceitam isso é um caso de estudo. Até alguns anos atrás, com ibopes de 50% ou mais, estar fora da Globo podia atrapalhar seriamente uma marca. Não mais. No mundo moderno, o que pode comprometer o futuro de uma marca é não ter presença na internet, porque os consumidores estão cada vez mais lá, na internet, e não na Globo.
Como tudo isso se reflete na política de anúncios do governo? No ano passado, a fatia da internet girou em torno de 5% -- um número altamente conservador quando se consideram as circunstâncias. Se Lula tem razão ao chamar de “fantástica” a internet, e ver nela um contraponto ao conservadorismo da mídia tradicional, é uma porcentagem que não faz sentido.
Que correções estão sendo feitas? É uma questão relevante para o futuro do país. Quanto maior o dinheiro colocado na internet, menor o poder de mídias tradicionais que têm sido, ao longo dos tempos, um obstáculo formidável para o avanço social do Brasil. Elogiá-la, como fez Lula, é um bom começo. Mas há que fazer mais que falar -- em nome da pluralidade de ideias que deve abastecer, democraticamente, a sociedade brasileira.


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PETRÓLEO - Leilão do campo de Libra divide opiniões.

Reproduzido da Fundação Maurício Grabois: Para movimentos que defendem o cancelamento, leilão beneficiaria petroleiras estrangeiras; para especialistas, exploração do campo é essencial para atender interesses do país.
A três dias de sua realização, o leilão do campo de Libra ainda está longe de consenso. Primeiro do pré-sal a ser licitado, sob o regime de partilha, o pregão marcado para o próximo dia 21, no Rio de Janeiro, deverá ter entre dois e quatro consórcios, conforme previsões do ministro das Minas e Energia, Edison Lobão. No total, 11 empresas se habilitaram para participar e nove depositaram garantias para a operação.
Para especialistas que apoiam o governo, o país precisa tirar o atraso da exploração do maior campo petrolífero descoberto nos últimos anos e começar a extrair junto com o petróleo, o quanto antes, recursos para o financiamento de diversos setores, em especial da educação e da saúde.
Movimentos sindicais, incluindo a Federação Única dos Petroleiros (FUP) e outros setores organizados da sociedade continuam promovendo manifestações e atos pelo cancelamento, por considerarem que a licitação fere a soberania nacional e beneficia as petroleiras estrangeiras em detrimento dos interesses nacionais. Além do cancelamento, defendem a discussão de um novo regime de exploração. Os petroleiros mantém greve da categoria.
Interesse nacional
O diretor geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, Haroldo Lima, diz em artigo publicado no jornal Valor Econômico, que esse debate polêmico já ocorreu em outras ocasiões. Por ocasião da 6ª Rodada, quando iam a leilão os "blocos azuis", os de maior potencial até então leiloados, surgiu a "informação" de que o leilão visava "entregar" às multinacionais do petróleo, a "preço de banana", os valorizados blocos. "Findo o leilão, verificou-se que a Petrobras, sozinha ou com sócios, ficou com 94% dos blocos localizados no mar, onde estavam todos os azuis. E que as multinacionais do petróleo, a quem supostamente esses blocos seriam "doados", nem apareceram no leilão, exceto uma, que disputou três blocos em sociedade com a Petrobras". Embora o argumento ideológico aponte para a entrega de imensas riquezas nacionais para estrangeiros, Lima ironiza dizendo que as grandes petroleiras demonstram não tomar conhecimento das fantasias que lhes anunciam "doações" de imensas riquezas petrolíferas.
Lima considera este argumento, que reaparece com o novo leilão, "conservadora, imobilista e medroso". "China, Índia, Noruega, Canadá, Cuba, Angola e tantos outros países articulam-se com quem quer que seja para impulsionar seus desenvolvimentos. Empregam regulação que preserva suas soberanias e seus projetos nacionais. E nós, que para muitos países somos modelo de regulação, não podemos fazer o mesmo?", questiona ele. O diretor da ANP critica o modo como indícios de espionagem dos EUA contra a Petrobras são usados para imobilizar o processo. "Os dados do leilão são públicos! E se a existência de espionagem, por si só, leva à suspensão de um leilão, e se a espionagem vai continuar, como previu o chanceler brasileiro Luiz Roberto Figueiredo, então, nunca mais tocaremos no pré-sal".
Para Lima, o edital e o contrato revelam uma elaboração cuidadosa com objetivo de resguardar o interesse nacional. Ele lembra que o interesse nacional começou a ser resguardado quando o então presidente Lula convocou uma reunião extraordinária do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), em 8 de novembro de 2007, para examinar o que fazer com o pré-sal recém-descoberto. Os 41 blocos de Libra foram retirados da relação da 9ª Rodada de Licitações, que ocorreria em poucos dias, para decidir um formato melhor de negociação. "Introduziu-se em lei, para aquela região e eventuais congêneres, o sistema de partilha da produção, em geral usado mundo afora em áreas altamente prolíferas", conta Lima.
Na partilha, paga-se o custo da extração do óleo e os royalties com parte do petróleo extraído. O excedente é para ser partilhado entre a empresa ou consórcio contratado e a União. Quem se comprometer em dar a maior parcela desse excedente à União ganha o leilão, sendo que o mínimo que pode ser aceito, segundo o edital, é 41,65%. "No formato proposto, serão grandes as vantagens para o Brasil", opina Lima.
Se o consórcio vencedor não der à União nada além do mínimo exigido, a participação pública no óleo ficará em 75%, segundo estudo da ANP, divulgado em reunião da CPI da Espionagem, no Senado; se a parcela do excedente chegar a 50%, a participação pública irá a 80%, das maiores do mundo. Hoje, para os campos maiores, essa participação não chega a 60%, oscila em torno de 52% para os demais.
Lima chamou a atenção para as possibilidades de capitalização que pode trazer ao país, contribuindo para o Fundo Social do Pré-Sal – que destinará 75% dos royalties do petróleo para a Educação e 25% para a Saúde. "Além dos 41% do óleo excedente, será pago imposto de renda e impostos menores. Somando com aluguel de área, significa que poderemos dar de 75% a 80% de todo o óleo retirado de Libra nas mãos da União. Isso é uma das maiores percentagens do mundo. Tudo isso irá financiar a educação e a saúde."
Em segundo lugar, a Petrobras será a operadora do campo, a empresa que acumulará todo o conhecimento da atividade exploratória e produtiva da área, e terá também, por força de lei, 30% do consórcio vencedor, qualquer que seja ele. Depois, uma empresa 100% estatal, a Pré-Sal Petróleo S.A., a PPSA, será criada para representar o governo federal na gestão do contrato, com voto de minerva e poder de veto. Finalmente, uma política de conteúdo local será aplicada, bem como outra de pesquisa e desenvolvimento, favorecendo a indústria nacional e o avanço da ciência e tecnologia entre nós.
Lima ainda ressalta o absurdo do argumento da "forte intervenção estatal" sobre o leilão, atrapalhando a atratividade das empresas. Para ele, a presença, e não a ausência do Estado, é um indicativo de que há uma preocupação com o interesse nacional e a soberania.
Autossuficiência americana
O economista Marcelo Simas, professor do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), afirma sobrarem razões econômicas e geopolíticas para a licitação imediata do campo. Primeiro, porque o Brasil precisa dos recursos advindos dos bônus de assinatura para fechar suas contas.
Segundo, diz Simas, porque a capacidade de investimentos da Petrobras esta comprometida, levando à necessidade de parceiros com grande capacidade de investimento, como as três petroleiras chinesas que confirmaram participação no leilão (CNOOC, CNPC e Sinopec).
E terceiro, porque graças ao Shale Oil e Shale Gas, como ele acredita, os Estados Unidos passarão de potenciais compradores do petróleo do pré-sal para suprir sua demanda diária de 18 milhões de barris à posição de autossuficiência e até de exportadores de óleo e gás num futuro próximo.
"Como alternativa de superação da crise, o governo americano passou a estimular a produção desses hidrocarbonetos não convencionais, extraídos do xisto betuminoso, que proporcionam derivados de melhor qualidade e maior rendimento", diz. "Com isso, já em 2016 os americanos serão autossuficientes. Em 2020, 2025, serão independentes do petróleo externo e em 2025 vão deixar de comprar dos países sauditas, o que muda completamente a geopolítica do setor. Vão restar como grandes compradores do pré-sal a China e a Índia, que utilizam também outras fontes, como o carvão”.
Além disso, segundo destaca, há aumento da produção petrolífera nas costas ocidental e oriental da África, no México, que está se preparando para pôr fim ao monopólio, sem contar os crescentes investimentos em fontes alternativas de energia, como eólica e bioenergia, que aumentam a participação dessas fontes limpas no mercado de energia.
Simas destaca ainda as dificuldades para a extração do petróleo no pré-sal, que está a 300 quilômetros da costa, a 7 mil metros de profundidade. De acordo com ele, são necessários investimentos da ordem de R$ 200 bilhões, fora aplicação em logística. Apesar dos investimentos que a Petrobras vem fazendo, a malha de gasodutos brasileira ainda é pequena, com 10 mil quilômetros.
Para o professor da UFRJ, o Brasil também acerta ao abrir 70% de Libra a empresas estrangeiras considerando questões geopolíticas e de segurança. "É como se o país fosse uma fazenda cheia de gado, rodeada de pessoas esfomeadas. Se for feito um churrasco sem convidá-los, é grande a chance de a festa ser invadida”, compara.
"Outro aspecto é a localização do pré-sal bem próxima ao limite das 200 milhas marítimas brasileiras, praticamente em águas internacionais. "Tanto que o Brasil está pleiteando junto à Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLPC) da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM) o aumento da sua zona econômica exclusiva de 200 para 350 milhas".
Cancelamento
Presidente do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (IEE/USP), professor na mesma universidade e especialista em fontes energéticas, Ildo Sauer faz coro aos que defendem o cancelamento do leilão. Para ele, a licitação fere a soberania brasileira especialmente pela subordinação aos interesses americanos e chineses, que buscam a redução do preço do petróleo a médio e longo prazo.
De acordo com ele, os países produtores levaram 50 anos para se organizarem de forma coesa em torno da Organização dos Estados Produtores de Petróleo (Opep) para elevar o preço. "Hoje a Rússia e os países da Opep estão coordenando o ritmo de produção para manter o preço elevado. Quando o governo outorga um leilão que tem regras contratuais de alta produção no menor prazo possível para um campo gigantesco como Libra, equivalente a tudo que a Petrobras já produziu, significa se subordinar a interesses dos Estados Unidos e China, que buscam novas fontes de energia em todo o mundo e a queda dos preços para continuar bancando a opulência de seu povo e de seu sistema de produção", opina Sauer.
Ele critica ainda a falta de debate com a sociedade em torno da proposta de leiloar o campo. Segundo ele, a discussão sobre a distribuição dos royalties, que "colocou estados em guerra", foi estimulada para tirar Libra do centro do debate.
Para ele, é preocupante ainda o fato de o óleo excedente que for extraído de Libra (leia quadro abaixo) vir a ser transformado em moeda, depositada em fundos no exterior. "O petróleo deve ser retirado exclusivamente pela Petrobras sob medida para atender investimentos nos diversos setores. A reserva de petróleo oferece mais segurança do que essas moedas. Só mesmo a incompetência ou razões obscuras, impublicáveis, explicam o fato de governo fugir da sua responsabilidade de defender o interesse nacional". De acordo com Sauer, essas críticas embasam uma Ação Civil Pública que deverá ser protocolada nesta sexta-feira
Conforme Sauer, o governo deveria buscar outras fontes de recursos para equilibrar suas contas, como a contratação exclusiva da Petrobras para produzir Libra e a assinatura de parceria internacional entre o governo brasileiro e a China, Índia e outros parceiros.
Os chineses, conforme defende, receberiam petróleo a 80% ou 90% do preço internacional em troca da antecipação do investimento necessário para equilibrar as contas externas do Brasil. Como Libra vai produzir cerca de 2 milhões de barris por dia, são 700 milhões por ano. Se vender o petróleo a US$ 90 por barril, com custo de produção de US$ 20, sobram US$ 70 por barril. Estão em jogo, segundo ele, US$ 50 bilhões por ano, ao longo de 20 anos, em se confirmando as reservas esperadas de 15 bilhões de barris. "Com US$ 50 bilhões anuais é possível manter as contas externas com aporte de US$ 10 ou 15 bilhões em moeda, os outros US$ 35 ou US$ 40 bilhões pode usar para investir em infraestrutura", defende.
Metrobras
Sauer sugere ainda a criação da Metrobras, que operaria os metrôs de todas as cidades com mais de 500 mil habitantes no país. O país poderia firmar parcerias, por exemplo com a China, para criar fábricas de trens no Brasil e o controle do ritmo de produção do petróleo coordenado juntamente com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep).
No seu entender, há uma ameaça geopolítica dos Estados Unidos contra a organização e contra a Rússia para difundir tecnologias como as chamadas Shale Gas e Shale Oil (leia abaixo). "A autossuficiência americana por meio do Shale é passageira e o papel do Brasil é nocivo para os países que querem extrair renda do petróleo, grupo no qual o país pretende entrar", afirma.
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PETRÓLEO - China e Rússia assinam acordo para explorar petróleo siberiano



A Companhia Nacional de Petróleo da China (CNPC) anunciou nesta sexta-feira (18) que assinou um memorando de entendimento com a Rosneft Oil, o gigante petrolífero russo, para explorar reservas de petróleo no leste da Sibéria.


Segundo o documento, a CNPC e a Rosneft colaboraram no desenvolvimento de alguns grandes campos de petróleo e gás no leste da Sibéria e no Extremo Oriente.

As duas companhias estabelecerão uma joint venture, com a Rosneft controlando 51% das ações e a CNPC 49%.

Depois, as duas companhias comprarão e desenvolverão juntas os campos de mega reservas de petróleo e gás no leste da Sibéria e no Extremo Oriente, segundo uma nota na página oficial da CNPC.

O petróleo a ser produzido irá atender primeiro a demanda do leste da Rússia e depois será exportado para a China e outros países na Ásia-Pacífico, disse a nota.

Segundo a nota, a assinatura do memorando é um novo avanço na cooperação upstream entre os dois lados, o que garantirá certamente o trabalho conjunto futuro em negócios downstream e em outros setores. 

Fonte: Rádio Internacional da China


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PETRÓLEO - Atuação das Forças Armadas é para garantir lei, diz Amorim


O ministro da Defesa, Celso Amorim, disse nesta sexta-feira (18) que a atuação das Forças Armadas na proteção ao leilão do Campo de Libra, marcado para segunda-feira (21), garantirá o cumprimento de lei aprovada pelo Congresso Nacional. “Se não houvesse necessidade, não nos teriam chamado”, disse Amorim, ao comentar a solicitação de reforço pelo governo do Rio, que está preocupado com a ocorrência de protestos para impedir o evento.


Apesar dos protestos que questionam a participação de empresas estrangeiras no leilão, o ministro Amorim disse durante a palestra que o leilão foi aprovado democraticamente. “É legítimo ter opinião diferente da maioria do Congresso Nacional. Vivi 21 anos em governo autoritário e acho que a existência do Congresso é importante. Minha resposta se baseia no respeito à lei”, pontuou, sob vaias da plateia.

Dos cerca de 1,1 mil homens que integrarão as forças de segurança no dia da licitação do Campo Libra, na Barra da Tijuca, cerca de 700 são do Exército. A Força Nacional e as polícias Militar, Federal e Rodoviária Federal também foram convocadas. As ações de segurança serão coordenadas pelo Comando Militar do Leste, que fica no Rio de Janeiro e é subordinado ao Ministério da Defesa.

Protestos contra a licitação estão sendo feitos em várias partes do país. Em São Paulo, na manhã de hoje, durante três horas, o saguão do prédio da Petrobras na capital paulista foi ocupado por sindicalistas e trabalhadores ligados à indústria do petróleo. Ontem, entidades do movimento social ocuparam o Ministério de Minas e Energia. Contra o leilão, o primeiro do pré-sal, também estão em greve os empregados da estatal.

Fonte: Agência Brasil
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PETRÓLEO - Libra não é só petróleo.



Em todo mundo o discurso conservador subsiste em estado comatoso. O empenho é para injetar sobrevida ao defunto, resistir e desgastar o anseio de mudança.

Saul Leblon - Carta Maior

Em todo o mundo o discurso conservador subsiste em estado comatoso desde o colapso da ordem neoliberal, em 2008. O empenho é para injetar sobrevida ao defunto, resistir e desgastar o anseio de mudança. Até que se generalize o descrédito nos partidos, na luta pelo desenvolvimento e no aprofundamento da democracia política e econômica, como instrumento de emancipação histórica e social.

A ascensão da Frente Nacional Fascista na França é um sintoma (leia a reportagem de Eduardo Febbro; nesta pág). Outro, o poder de uma falange, como o Tea Party, de empurrar até perto do abismo fiscal a nação mais poderosa da terra. São manifestações mórbidas recorrentes. Que afrontam o anseio da mudança instalado no coração da sociedade pela maior crise capitalista desde 1929.

Quando o extraordinário acontece, as lentes da rotina já não conseguem explicar a vida. A ‘redescoberta’ de Marx, analisada por Emir Sader nesta pág (leia o blog do Emir), é um sintoma do anseio por um novo foco. É mais que uma redescoberta intelectual. Essa é a hora em que o preconceito histórico inoculado contra o socialismo perde força. Até nos EUA.

Uma pesquisa feita pela Pew Research, no final de 2011, tentou medir esse ponto de mutação. Os resultados foram significativos:

a) na faixa etária entre 19 e 28 anos a menção ao ‘socialismo’ encontra receptividade favorável entre 49% dos jovens norte-americanos (entre 43% ela é negativa).

b) entre a população negra – açoitada pela crise - os dados são ainda mais expressivos: respectivamente 55% de aprovação ; 36%, rejeição.

c) a mesma medição, agora para ‘capitalismo’, obteve os seguintes percentuais nos grupos mencionados: 46% e 47%, entre os jovens; e 41% favorável e 51% negativo, entre os negros.

A informação consta de um artigo de Michelle Goldberg, cuja íntegra será publicada nesta página. A liquefação da agenda neoliberal e do preconceito anti-socialista não amenizam a responsabilidade de se erguer linhas de passagem críveis ao passo seguinte da história. No caso brasileiro, a operação envolve agravantes de singularidade e circunstância.

Em primeiro lugar, a responsabilidade de ser governo. Portanto, mais que nunca, de erguer pontes que partam da correlação de força existente para superá-las, sem risco de regressão.

Em segundo lugar, os sinais de desgaste na confortável pista incremental, pela qual o país tem transitado para responder a desafios seculares com avanços específicos .

Um terceiro agravante: o crepúsculo de um ciclo internacional de alta da liquidez e dos preços das commodities. A inflexão externa adiciona percalços à renovação do motor do desenvolvimento brasileiro.

Quarto, os capitais e os grandes oligopólios não estão parados. O colapso financeiro acelerou a descentralização produtiva que define a nova morfologia da industrialização no mundo. Travada pelo câmbio desfavorável, a manufatura brasileira ficou de fora do novo arranjo global das cadeias de tecnologia e suprimento.

O país não resgatará sua competitividade sem recuperar o terreno perdido nessa área. A flacidez industrial rebaixa a produtividade sistêmica da sua economia. Com efeitos regressivos na geração dos excedentes indispensáveis à convergência da riqueza . É nesse horizonte de mutações e desafios que deve ser analisado um acontecimentos que divide o campo progressista brasileiro. O leilão de Libra.

A mega-reserva do pré-sal, capaz de conter acumulações equivalentes a até 13 bilhões de barris de petróleo e gás, deve ser leiloada na próxima 2ª feira (21). Democratas e nacionalistas sinceros divergem. Petroleiros vão à greve.

Defende-se que a Petrobrás assuma sozinha a tarefa de extrair uma riqueza guardada no fundo do oceano que pode conter até 100 bilhões de barris.

A Petrobras tem o domínio da tecnologia para fazê-lo. É quem foi mais longe nessa expertise em todo o mundo.

Mas não dispõe dos recursos financeiros para acionar esse trunfo na escala e no tempo imperativo. Paradoxalmente, em boa parte, porque cumpriu seu papel de estatal na luta pelo desenvolvimento. Os preços dos combustíveis no Brasil foram congelados pelo governo como instrumento de controle da inflação. Durante anos. Sob protesto da república dos acionistas , cuja pátria é o dividendo. E nada mais.

Secundariamente, o leilão será feito porque o governo necessita também de recursos para mitigar a conta fiscal de 2013. Ademais do peso dos juros no orçamento federal – exaustivamente criticado por Carta Maior - o Estado, de fato, realizou pesados dispêndios este ano e nos anteriores.

Em ações contracíclicas para impedir a internalização da crise mundial no Brasil. O conservadorismo reprova acidamente essas escolhas. Solertes entreguistas, súbito, pintam-se de verde-amarelo em defesa da estatal criada por Vargas. A emissão conservadora alveja o que chama de ‘ uso político da Petrobras e da receita pública’ para financiar ‘ações populistas’ , que não corrigem as questões estruturais do país. A alternativa martelada é a ‘purga’ saneadora.

Contra a inflação, choque de juros (muito superior ao que se assiste). Contra o desequilíbrio fiscal, cortes impiedosos na ‘gastança’. Qual? Qualquer gasto público destinado a fomentar o desenvolvimento, financiar a demanda, reduzir a pobreza e combater a desigualdade. O ponto é: sem agir a contrapelo dos interditos conservadores, desde 2008, o Brasil teria hoje um governo progressista?
Subsistiria ao cerco de 2010 contra Lula e Dilma? Ou da terra ‘semeada’ pela recessão e o desemprego emergiria a colheita devastadora? José Serra, que, ato contínuo, reverteria a regulação soberana do pré-sal, como, aliás, prometera à Chevron. O governo fez a escolha oposta. O resto é a história dos dias que correm.

Ao decidir pelo leilão de Libra está dobrando a aposta. Qual seja: mais importante que adiar Libra para um futuro de hipotética autossuficiência exploratória, é aceitar a participação de terceiros, mas preservar e colher, antes, o essencial. O essencial são os impulsos industrializantes embutidos na regulação soberana das maiores reservas descobertas neste século em todo o planeta.

Um exemplo resume todos os demais. O Brasil hospeda a maior concentração de plataformas submarinas do mundo. Uma em cada cinco unidades existentes está a serviço da Petrobrás. Em dez anos, essa proporção vai dobrar. Assim como dobra a produção prevista de petróleo em sete anos: dos atuais 2 milhões de barris/dia para 4,5 milhões b/d.

Entre uma ponta e outra repousa a chance de a industrialização brasileira engatar um salto tecnológico e de escala, ancorado nas encomendas e encadeamentos do pré-sal. Emprego, produtividade, salários e direitos sociais estão em jogo nesse salto. A convergência sonhada entre a democracia política, a democracia social e a democracia econômica depende, em parte, do êxito desse aggiornamento industrializante da economia brasileira.

O leilão do dia 21 é um pedaço dessa aposta. Que tem a torcida adversa daqueles que não enxergam nenhuma outra urgência no horizonte do desenvolvimento brasileiro, em plena agonia da ordem neoliberal. Exceto recitar mantras do defunto. Na esperança de ganhar tempo para que o desalento faça o serviço sujo: desmoralizar a política e interceptar o salto histórico do discernimento social brasileiro.

Uma retração econômica redentora cuidaria do resto, injetando disciplina nas contas fiscais e ordem no xadrez político. Para, enfim, providenciar aquilo que as urnas sonegam: devolver a hegemonia do país a quem sabe dar ao ‘progresso’ o sentido excludente e genuflexo que ele sempre teve por aqui.
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