Por que o público foge da TV aberta

Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

Conforme notícia divulgada pela Folha de São Paulo nesta semana, a Rede Globo fechou o ano passado com a pior audiência de sua história. Segundo dados do Ibope, em 2012 ela teve, em média, 14,7 pontos (cada ponto equivale a 60 mil domicílios).

A emissora ainda amarga o pior índice em seu principal programa jornalístico, o Jornal Nacional, que, ano passado, teve média de 28,1 pontos contra o pico de audiência, que ocorreu em 2006, de 36,4 pontos.

Todavia, é equivocada a percepção de muitos de que se trata de um problema isolado da Globo. Houve queda de audiência de todas as TVs abertas no ano que passou em relação a 2011.

Apesar de a Globo ter fechado 2012 com 14,7 pontos contra 16,3 em 2011, a Record teve 6,2 pontos contra 7, 2, o SBT 5,6 pontos contra 5,7, a Band 2,5 pontos contra 2,5 e a Rede TV! liderou a queda, tendo perdido 37% de sua audiência no ano passado, tendo cravado 0,9 pontos contra 1,4 em 2011.

E não foi só. O número de aparelhos ligados em televisões abertas caiu perto de 5%.

O resultado negativo mais “vistoso”, claro, foi o da Globo, que, ao longo da última década, vem perdendo mais audiência do que as concorrentes, sobretudo devido ao avanço da Record e à forte perda de audiência do Jornal Nacional.

Sobre o ainda mais assistido telejornal do país, a perda de audiência acima da média certamente se deve, em boa parte, à utilização do informativo como arma na incessante guerra da Globo contra o governo federal e o PT.

A cobertura do julgamento do mensalão, por exemplo, irritou profundamente até o público que não gosta do PT. Tentando influir a qualquer preço na eleição municipal do ano passado, sobretudo na de São Paulo, o núcleo de jornalismo da Globo, às vésperas do segundo turno, produziu um dos maiores absurdos que se viu na televisão brasileira.

Em 23 de outubro, a uma semana do segundo turno, logo após o horário eleitoral gratuito, o Jornal Nacional levou ao ar uma matéria que teve duração só comparável às coberturas de grandes catástrofes como a de 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, nos Estados Unidos, quando terroristas derrubaram as Torres Gêmeas do World Trade Center

Dos 32 minutos de duração da edição do JN naquele dia, 18 minutos foram gastos com o julgamento. E o que é pior: não houvera absolutamente nada de especial, naquele dia. Assim, o telejornal se limitou a importunar o telespectador com “melhores momentos” do julgamento.

Aliás, o ineditismo do tempo gasto na reportagem foi de tal monta que virou até matéria de jornal no dia seguinte, na Folha de São Paulo, e ainda gerou representação da ONG Movimento dos Sem Mídia ao Ministério Público Eleitoral acusando a emissora de fazer uso político de uma concessão pública em período eleitoral, contrariando a legislação.

O julgamento do mensalão foi tão martelado por toda a programação da Globo que passou a ser comum ouvir pessoas comentando que não agüentavam mais o assunto. Contudo, a queda mais pronunciada de audiência da Globo e do JN se deve a um processo mais amplo.

Outras emissoras não se beneficiaram da queda de audiência da Globo porque também incorrem em manipulação de notícias, mas, acima de tudo, porque todas as emissoras abertas insistem em uma programação que qualificar de medíocre soa até benevolente.

O público que pode, foge para a televisão a cabo. Quem não pode, recorre à internet. Sobretudo para se informar.

Agora, por exemplo, está sendo anunciado que o Brasil voltará a ser assolado por nada mais, nada menos do que a DÉCIMA TERCEIRA edição do Big Brother Brasil, com bebedeiras, promiscuidade e mediocridade invadindo nossos domicílios.

Alternativa ao BBB? A Record apresenta algo ainda pior, uma cópia malfeita, mais brega, ainda que menos promíscua: o reality show A Fazenda.

Novelas? Apesar de Globo e Record, acima de todas, reunirem bons elencos, as tramas são sofríveis, repetitivas. As histórias são sempre as mesmas, com pequenas variações. Ainda que o público para essas porcarias ainda se mantenha, vem diminuindo percentualmente em relação ao conjunto da população.

O progressivo aumento do nível de escolarização e cultura do brasileiro vai provocando fuga de uma programação cuja produção chega a ser cara só para produzir lixo cultural em estado puro.

Para que se informar pelos telejornais se, pela internet, você fica sabendo antes das notícias e ainda pode ter acesso a diversos ângulos delas?

No Jornal Nacional, por exemplo, o espectador sofre tentativa de manipulação, com notícias distorcidas sob interesses políticos e econômicos e, em geral, não fica sabendo do outro lado da moeda.

Há cada vez mais gente, portanto, produzindo seus próprios informativos pela internet. Hoje você pode montar uma rede de sites e blogs nacionais e internacionais e se informar em muito maior profundidade.

Claro que ainda é restrito o contingente de pessoas que montam seu portfólio informativo com base em critérios mais racionais e via internet, mas esse contingente cresce de forma exponencial.

O que ocorre no Brasil é uma tendência mundial. Nos EUA, por exemplo, a televisão aberta tem baixa audiência, muito mais baixa do que no Brasil, percentualmente.

Agora, a cereja do bolo: nos próximos anos, as operadoras de telefonia deverão começar a produzir conteúdo para transmitirem via TV digital ou internet, inclusive em celulares. E sem uma regulação das comunicações eletrônicas, a Globo e congêneres estarão ferradas.

Explico: as teles vêm aí com arcas incontáveis de dinheiro para investir em conteúdo, com seus faturamentos dez vezes maiores do que das emissoras tradicionais, inclusive da Globo. Sem regulação do setor, até ela será engolida.

Talvez por conta disso vemos o governo Dilma impassível diante do clamor de setores da sociedade por uma “lei da mídia”, pois a tecnologia deverá levar Globo e companhia limitada a baterem na porta do governo pedindo regulação, por incrível que pareça.

Muitos – entre os quais me incluo – estão contrariados com a postura da presidente Dilma de renegar qualquer intenção de dar ao Brasil uma legislação moderna para esse setor tão crucial, até porque há medo de que os barões da mídia arranquem de um governo aparentemente acovardado uma regulação feita sob medida para os interesses deles.

Todavia, apesar de também ter essa preocupação, penso que a passividade do governo federal pode – apenas pode – ser uma estratégia para negociar em posição de força quando a própria família Marinho, entre outros, bater-lhe à porta pedindo uma “lei da mídia”.

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Dilma e o compromisso da continuidade

Por Marcos Coimbra, na revista CartaCapital:

Foi-se metade do governo Dilma. Restam-lhe, portanto, dois anos. Diz-se que, para os governantes, os primeiros dois passam devagar e que eles se sentem como se tivessem a eternidade pela frente. E que os segundos voam, pois o fim do mandato se torna um dado cada vez mais palpável e mais presente no dia a dia. Esse não é apenas um sentimento. A segunda metade é, de fato, mais curta.

Desde antes do fim do terceiro ano, a sucessão torna-se assunto principal. Cessam as inovações e as experiências. A pauta do governo fica limitada e a cobrança de resultados intensifica-se. É preciso ter coisas, de preferência “concretas”, para pôr na mesa. Tudo começa a girar em torno de um objetivo central: reeleger-se ou escolher quem possa vencer a eleição que vem a seguir.

A segunda metade dos governos costuma ter, portanto, dois tempos distintos: um terceiro ano predominantemente administrativo, mas já político, e uma “reta final”, marcadamente política. Se Dilma estivesse mal, se a população se sentisse insatisfeita com ela, os dois anos que tem pela frente seriam suficientes para que revisse rumos e encontrasse meios de consertar problemas.

Já vimos isso acontecer com governadores e prefeitos. São muitos os casos dos que conseguiram recuperar a imagem depois de atravessar dificuldades no começo. Mas Dilma está bem. Na verdade, muito bem. Segundo dados das pesquisas CNI-Ibope, ela saiu da eleição de 2010 com a imagem de que faria uma administração “ótima” ou “boa”. Em dezembro daquele ano, era assim que pensavam quase dois terços (62%) dos entrevistados pelo instituto.

Depois de ter alcançado, em março de 2011, a marca de 68% de avaliações positivas, Dilma foi a 55% em julho (sempre de acordo com o Ibope). De lá para cá, cresceu sistematicamente. A cada pesquisa, foi batendo os recordes de seus antecessores em igual momento. Nenhum presidente da República foi mais bem avaliado que ela. Nem Lula.

Nas mais recentes, seus números igualam ou ultrapassam as expectativas da população antes que começasse a governar. Em outras palavras: a maioria imaginava que seria uma presidenta “ótima” ou “boa” e acha que é isso que ela está sendo.

Para o eleitorado, quando disputou e venceu a eleição de 2010, Dilma fez uma promessa fundamental: faria um governo de continuidade. Era o que as pessoas queriam. Apesar das dificuldades, elas entendem que Dilma cumpriu seu compromisso nos primeiros 24 meses do mandato.

Ela manteve as políticas mais claramente identificadas com Lula, como o Bolsa Família, o ProUni, o Minha Casa Minha Vida. Não houve mudança na retórica ou em sua implementação. Foram ampliadas e aperfeiçoadas. Prosseguindo a principal opção da política econômica que herdou, renovou a aposta no mercado interno e continuou a procurar a expansão do emprego, da renda e do consumo.

As pesquisas mostram que insistir nas políticas do governo Lula nunca foi demérito para ela. A vasta maioria da população não desejava que fossem alteradas ou esperava que quem havia sido parte importante do governo anterior as mudasse. Com o agravamento da crise na economia internacional, essa continuidade mostrou-se mais significativa. Em vez de retroceder e voltar à prática conhecida de “apertar os cintos”, diminuindo gastos públicos e controlando a moeda, o governo manteve suas escolhas. E as aprofundou.

No segundo semestre de 2012, o governo mudou o discurso e passou a agir para corrigir velhas distorções no funcionamento da economia, algumas particularmente prejudiciais ao cidadão comum. Juros estratosféricos, impostos exorbitantes, preços abusivos da energia elétrica, incompetência e falta de transparência das prestadoras de serviços públicos básicos, coisas que as pessoas consideravam males eternos e sem remédio, começaram a mudar.

Em razão disso, cresceu a aprovação das ações do governo em relação, por exemplo, à inflação (entre junho de 2011 e setembro de 2012, a desaprovação caiu de 56% para 45%) e à taxa de juros (a aprovação subiu de 29% para 49%, no mesmo período). Alguns dos poucos temas de política econômica em que a insatisfação predominava diminuíram de gravidade.

Terminamos o ano com o aumento das preocupações relativas à crise, mas com a maioria da população acreditando que o Brasil está mais preparado que o resto do mundo para superá-la. Ainda bem que é pequena a credibilidade do noticiário econômico produzido pela imprensa oposicionista, que nos diz que vivemos à beira do abismo.

As pessoas acreditam que o País e o governo vão bem, seja porque a economia está corretamente administrada, seja porque a opção social que caracteriza as administrações petistas foi mantida. Mas também porque a presidenta está sendo, desde o início, uma boa surpresa. Sua “maneira de governar” é aprovada por 77% e reprovada por 18%. Confiam nela os mesmos 77% e há 22% que dizem que não. Nas duas dimensões, as respostas positivas vêm aumentando desde 2011.

É a primeira vez que temos no Planalto alguém como ela. Que não chega lá para fazer “grandes mudanças”, mas para continuar. Que não exibe uma biografia de “coisas notáveis”, mas um perfil de administradora e gerente. Que não tem passado na política e revela pequena paciência com seus hábitos e personagens.

Com tantas particularidades, ela tinha um enorme desafio quando tomou posse: governar o País sem deixar que a população sentisse saudade de Lula. Não era fácil suceder “o melhor presidente que o Brasil já teve”, de acordo com a opinião majoritária. Mesmo para políticos experientes seria difícil. Imagine-se para quem estava em começo de carreira.

Ao longo do primeiro ano, enfrentou e resistiu ao desgaste de uma série de problemas nos ministérios. Diversos ministros acabaram substituídos, quase todos por suspeita de irregularidades, algumas graves, outras menores. Em nenhum episódio foi vista como conivente ou tolerante. Atravessou-os como a maior interessada no seu esclarecimento, como quem queria aproveitá-los para fazer uma “faxina” na administração federal.

No exterior, sempre foi considerada uma importante liderança, que assumiu, com naturalidade, o papel de porta-voz de um Brasil com mais protagonismo.

O segundo semestre de 2012 tinha todos os ingredientes para ser um inferno astral para Dilma. Na economia, estabeleceu-se uma conjugação perversa de problemas complicados: crise na economia internacional, aumento das pressões inflacionárias internas, uma sensível retração na indústria.

Na política, o jogo pesado da oposição extrapartidária, procurando transformar o julgamento do “mensalão” em um tribunal de condenações ao PT e suas lideranças. A mídia conservadora, o empresariado que a sustenta e os setores da sociedade inconformados com a longa duração da hegemonia petista apostavam que enfraqueceriam o partido.

Com isso, que fragilizariam o governo, seja o desgastando diretamente, seja por meio do aumento do custo político de manter o bloco situacionista em condições operacionais no Congresso. Embora ainda vá correr muita água sob a ponte nesse front, o saldo da atual etapa da guerra do “mensalão” foi negativo para as oposições. O efeito eleitoral imediato que buscavam, ao interferir na eleição municipal, foi pequeno. O julgamento não teve consequências relevantes na escolha dos prefeitos.

Pelo que revelaram as pesquisas, especialmente qualitativas, realizadas durante a eleição, nem Dilma nem o governo estiveram em discussão, sequer entre as parcelas do eleitorado sensibilizadas pelas críticas ao PT. O que reprovavam no partido e no comportamento das lideranças condenadas nunca foi estendido à presidenta. Com isso, assim como enfrentou a piora do cenário econômico dando respostas positivas, ela atravessou o julgamento com a naturalidade de quem não tem contas a prestar pelo que aconteceu em 2005.

A eleição de outubro foi uma espécie de batismo para Dilma. Pela primeira vez, subiu ao palanque para pedir votos para outras pessoas. Nos diversos balanços de resultados publicados pela mídia conservadora, prevaleceu a noção de que ela fora malsucedida no novo papel. Que seus candidatos não emplacaram.

É uma avaliação incorreta. Nunca é decisiva a influência do apoio presidencial na escolha dos prefeitos. Como mostra nossa história recente, presidentes mal avaliados não enterram seus candidatos e mesmo os mais populares não fazem milagres. De positivo, a principal contribuição que podem dar é servir de argumento para correligionários e aliados, permitindo que usem com proveito seu nome e realizações.

Isso Dilma ofereceu a candidatos do Brasil inteiro, o que a torna corresponsável pelos bons resultados de seu partido. O saldo de sua entrada direta na eleição em determinadas cidades não deve ser medido pelo número de prefeitos eleitos – mesmo que tenha desempenhado papel nada irrelevante na vitória de Fernando Haddad, a mais importante. Ao subir ao palanque, ela mostrou-se mais do que uma administradora competente ou uma “gerente”. Assumindo papel eleitoral, Dilma sinalizou para o sistema político que faz parte dele, à sua maneira, mas de forma plena. O que ela não podia era se recusar a essa identificação.

Em termos dos indicadores de popularidade, aconteceu na eleição municipal de 2012 o que ocorrera nas anteriores: uma alta da aprovação. Se todos os antecessores se beneficiaram, não havia razão para imaginar que não se repetiria com Dilma.

Ao olhar as pesquisas disponíveis, o que se vê é que o PT está indo para a próxima eleição presidencial com nítido favoritismo. Nas que estão sendo feitas atualmente, seus dois possíveis candidatos lideram com folga. Seja Lula, seja Dilma, têm, sozinhos, mais de quatro vezes a soma dos adversários.

Quando um partido tem um nome com 60% e outro com 70% das intenções de voto, a decisão a respeito de qual deve concorrer deixa de ser eleitoral e passa a ser exclusivamente política. Quando, juntos, têm 80% dos votos espontâneos, a questão se torna estratégica e não instrumental.

Muita coisa pode acontecer até o fim de 2013 e o início de 2014, quando a escolha tiver de ser feita. A guerra do “mensalão” não terminou e novas batalhas vão acontecer no futuro próximo, agora que os antilulopetistas se descobriram tão amigos de alguns integrantes do Judiciário.

Nada sugere que a imagem do governo venha a atravessar perturbações significativas em 2013, a ponto de impactar na eleição. Salvo uma hecatombe altamente improvável, o mais certo é que Dilma e o governo mantenham níveis de aprovação semelhantes aos de agora.

Devemos a Fernando Henrique Cardoso uma curiosidade de nosso sistema político: em um país que cultua o futebol, todo ano de eleição presidencial tem Copa do Mundo (se ele não tivesse reduzido para quatro anos o mandato em troca da reeleição, as duas só coincidiriam a cada 20 anos). Temos suficiente experiência para saber que as duas coisas não são relacionadas. Ganhar ou perder nos gramados foi irrelevante nas eleições de 1994 para cá. Em 2014, o caso é outro. Não que a eleição dependerá do futebol.

O relevante é a outra Copa que, simbolicamente, estaremos disputando. Um campeonato para mostrar ao mundo e a nós mesmos que somos capazes de organizar com competência o evento. Onde os adversários serão nossos problemas crônicos – nos transportes, nas comunicações, na saúde, na segurança pública, na mobilidade urbana, nos aeroportos e rodovias.

Essa Copa é mais importante para as pessoas do que o resultado esportivo. Elas lamentarão muito mais se ocorrerem falhas na organização do que se a Seleção for goleada. Se houver problemas, a responsabilidade será do governo federal e da presidenta. Tudo o que acontecer de ruim cairá em seu colo. E podemos apostar a quem nossa “grande imprensa” atribuirá a culpa.

A final da Copa do Mundo vai acontecer em 13 de julho de 2014. Dali a dois meses e meio, teremos a eleição. Tudo o que conhecemos hoje sobre a opinião pública brasileira aponta para o favoritismo do governo. O que ele não pode é ignorar que será julgado na véspera, pelo que ocorrer na Copa do Mundo.

Se existe uma prioridade para Dilma nos próximos dois anos, é organizar uma Copa do Mundo sem problemas. Ao menos, sem os problemas evitáveis.
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Cultura- VLAD DRÁCULA: O FILHO DO DRAGÃO! A VERDADEIRA HISTÓRIA QUE VIROU LENDA


Herói e tirano, destruidor dos turcos, algoz de seu próprio povo, líder impiedoso. Conheça as muitas faces de Vlad Drácula, o príncipe romeno do século 15 que emprestou seu nome às lendas de vampiros.

A cena é horripilante, sem dúvida, mas até um cego, incapaz de vê-la, conseguiria sentir a dimensão da atrocidade perpetrada ali. Ou melhor, farejá-la: 20 mil corpos humanos apodrecem ou agonizam diante da cidadela abandonada, uma floresta de empalados capaz de atemorizar até o líder do maior império do planeta. O sultão turco Mehmed II, conquistador de Constantinopla e veterano de muitas guerras, diz para quem quiser ouvir que não é possível enfrentar um inimigo que se dispõe a tal ato. Deixa o comando de seu exército e volta para a segurança de seu harém.

Esse inimigo implacável, que no século 15 deteve o avanço do Império Otomano, envergava com orgulho uma alcunha hoje mundialmente famosa: Drácula. Ele era Vlad III da Valáquia, embora seus conterrâneos e inimigos tenham usado também o sinistro apelido de Tepes, “o Empalador”, em romeno. Por uma série de acasos literários, esse príncipe virou sinônimo de vampiro sem ter nenhuma ligação com as criaturas da noite, mas o verdadeiro caráter do Empalador é quase tão misterioso quanto os desses seres: herói nacional, tirano sanguinário ou uma mistura improvável das duas coisas?
Talvez a resposta para o dilema seja difícil de achar porque Vlad viveu num dos períodos (e lugares) mais complicados da história européia. A região que mais tarde se transformaria na Romênia não passava de um aglomerado confuso de principados minúsculos, esmagados entre gigantes. A noroeste, havia o Sacro Império Romano-Germânico, senhor da Alemanha e da Itália e maior potência da Europa Ocidental. Em torno de si (como num abraço mortal), o reino da Hungria começava a ter papel preponderante como campeão da cristandade contra a ameaça turca, ao sul, onde o Império Otomano reduzira os mil anos de poderio Bizantino a um território nanico na Grécia e no Bósforo, onde Constantinopla ainda resistia heroicamente – mas não por muito tempo.

Com tantos grandes brigando entre si, povos mais fracos às vezes conseguiam um espaço para respirar e tentar a independência. Foi o que ocorreu com os ancestrais dos romenos, diferentes de todos os outros povos dos Bálcãs por falarem uma língua latina, assim como o português, herança da antiga colonização romana. A Valáquia, no sul da atual Romênia, escapou do domínio húngaro e passou a ser governada por Besarab, o Grande, em 1330. Dele descendia Mircea cel Batrin (ou Mircea, o Velho), avô de Drácula e príncipe dos valacos de 1386 a 1418. O novo país parecia consolidado, mas bastou que Mircea morresse para que seu filho Vlad tivesse de enfrentar a rebelião de seu primo Dan, apoiado pelos boiardos (os nobres do país).
Dan proclamou-se voivoda (príncipe) e Vlad teve de se retirar para a Transilvânia (então parte do território húngaro). Foi lá que nasceram seus três filhos (Mircea, Vlad e Radu) na cidade de Sighisoara – aliás, essa é a única verdadeira associação do futuro Empalador com a famigerada Transilvânia, já que ele nunca foi conde do lugar. Acredita-se que Vlad filho veio ao mundo em 1431 – ano em que o famoso apelido do príncipe valaco teve sua origem. O imperador germânico Sigismundo convocou Vlad pai a Nuremberg e nomeou-e para a Ordem do Dragão – um grupo de cavaleiros dedicados à defesa do imperador e da cristandade contra a ameaça turca. Vlad parece ter gostado tanto da honraria que adotou o título de Dracul, “o Dragão” (“drac” é dragão em romeno, enquanto “ul” equivale ao nosso “o”). Quando adulto, seu filho do meio também entrou para a Ordem do Dragão e se tornou Draculea ou Drácula – “Filho do Dragão”.

Há quem acredite que o termo também tem a conotação de “demônio” em romeno, mas o fato é que, pelo menos no nome, ambos os “Vlads” (pai e filho) eram guerreiros de Cristo.
Em 1436, Vlad Dracul (o pai) conspirou para assassinar Alexandru I, o governante dos Danesti (a facção de Dan), e tornou-se Vlad II da Valáquia. Apesar de seu juramento de fidelidade à Ordem do Dragão, Vlad Dracul logo percebeu que aquela não era a hora de bancar o cruzado. Os turcos estavam cada vez mais poderosos e, numa tentativa de apaziguá-los e conseguir um pouquinho de independência, ele foi obrigado a enviar Vlad (o filho) e Radu como reféns para as terras do sultão.
Os dois meninos passaram sete anos entre os turcos. Quando o sultão finalmente decidiu liberar os dois, em 1448, só o mais velho, Vlad, escolheu voltar à Valáquia. Não foi uma boa idéia: ao chegar em casa, ele descobriu que seu pai e seu irmão Mircea (herdeiro do trono) tinham sido assassinados pelos rebeldes boiardos, que decidiram apoiar um Danesti. Seguiu-se um luta pelo poder e, por alguns meses, o jovem príncipe conseguiu se apoderar do trono, tonando-se Vlad III. No entanto, um golpe com o apoio dos húngaros o tirou do poder. Os vizinhos não gostavam nada da política de apaziguamento do pai de Drácula em relação aos turcos e colocaram em seu lugar um vassalo do rei húngaro.
Eles logo se arrependeriam da decisão: o novo voivoda mostrou-se um covarde pró-otomanos. Numa daquelas reviravoltas das quais só os políticos são capazes, os húngaros ofereceram seu apoio a Drácula, ou seja, deram-lhe um poderoso exército. Assim, em 1456, Vlad retomou o comando da Valáquia. “Foi nessa época que Drácula realizou seus maiores feitos militares e cometeu as maiores atrocidades”, diz a pesquisadora canadense Elizabeth Miller, da Memorial University of Newfoundland, especialista em ambos os “dráculas” – o histórico e o personagem literário.
Sua posição, mais que nunca, exigia coragem. Afinal, três anos antes, a própria Constantinopla tinha caído, e os turcos não viam a hora de estender seus domínios entre os principados do outro lado do Rio Danúbio. Para resistir ao avanço do Império Otomano, Vlad adotou uma astuta tática de guerrilhas que conseguiu lhe garantir o sossego por alguns anos. Era hora de obter também um pouco de segurança dentro de casa – e é aí que entra o carinhoso apelido de “Empalador”.

Na ponta da estaca

Todos os relatos que ainda existem sobre o reinado de Drácula parecem concordar num ponto: o príncipe tinha uma fascinação macabra por empalamentos. Esse método de execução e tortura prolongada envolvia o uso de uma estaca de madeira – de preferência não muito afiada e embebida em óleo, para não matar a vítima de cara. Uma das maneiras de usar o instrumento era enfiá-lo pelo ânus ou pela vagina e fazê-lo sair pela boca, mas Vlad III gostava de variar: podia espetar a pessoa diretamente no abdome ou pregar bebês ao peito das próprias mães, por exemplo. De um jeito ou de outro, o fato é que a coisa doía – e demorava. Conta-se que, quando não podia praticar esse esporte com seres humanos, Drácula contentava-se com pássaros e ratos.

Provavelmente, esse é o mais inegável dos aspectos negativos do príncipe: “Na história romena, Vlad sempre é chamado de Empalador”, diz Elizabeth Miller. “O nome vem do turco kaziklu bey, ‘príncipe empalador’, expressão empregada pelos cronistas turcos dos séculos 15 e 16. Mas o apelido dá uma idéia do medo que ele causava em seus inimigos, e acabou adotado pelos conterrâneos dele.”
Justiça seja feita, Drácula usava o método com um propósito digno de qualquer governante do Renascimento: a unificação do poder real e a humilhação dos incovenientes boiardos. Segundo Elizabeth, ao assumir o trono, Vlad reuniu todos os nobres numa festa e perguntou quantos príncipes valacos haviam reinado durante a vida deles. Ninguém ali tinha visto menos de sete voivodas no trono. E Vlad teria dito: eu serei o último que verão. “Ele mandou empalar os mais velhos e fez com que os mais jovens e fortes trabalhassem na construção de uma nova fortaleza perto de Tirgoviste, a capital valaca”, diz. Outras vítimas da fúria de Drácula foram os comerciantes saxões que dominavam as conexões entre os Bálcãs e o Ocidente europeu e que tinham uma tradicional aversão ao pagamento de impostos. Vlad passou a cobrar pedágios nas principais rotas comerciais. Com o dinheiro, construía mias estradas e reforçava seu exército.
Os registros da tradição oral romena costuma enfatizar as duras represálias do príncipe contra os criminosos. A política “tolerância zero” de Drácula fez tanto sucesso que o voivoda decidiu erigir um pedestal em Tirgoviste e colocar sobre ele uma peça de ouro, que permaneceu intocada durante todo o seu reinado. Símbolo de que não havia crimes na Valáquia.
Vlad III poderia ter se divertido desse jeito por décadas, mas nada era mais instável que a política balcânica. Era questão de tempo até que os turcos se organizassem para um ataque maciço, e ele veio em 1461, quando 60 mil homens comandados pelo próprio Mehmed II cruzaram o Danúbio. O voivoda iniciou uma lenta retirada para o norte, arrasando as terras por onde passava para evitar que os turcos obtivessem provisões e até tentando usar os últimos avanços em armas biológicas da época – soldados com peste que foram mandados para o acampamento turco.
Quando o exército turco se aproximou de Tirgoviste, o Empalador usou sua derradeira e mais poderosa arma: o terror. Eis o que conta a respeito o cronista grego Khalkondyles: “O exército do sultão chegou a um campo cheio de estacas, com cerca de 3 quilômetros de comprimento e 1 quilômetro de largura. Os turcos, vendo tantas pessoas empaladas, ficaram muito amedrontados”.
O recuo otomano, no entanto, foi temporário. Mehmed decidiu apoiar Radu, o irmão de Vlad, numa conspiração para levá-lo ao poder. Os poucos boiardos que sobravam na Valáquia, cansados do absolutismo de Drácula, aderiram ao movimento. Vlad III fugiu para a Transilvânia como fizera seu pai, e foi preso pelo rei húngaro Matias Corvino. Gradualmente, no entanto, Drácula ganhou a confiança do soberano. Ele se casou com uma nobre húngara ligada à família real e, de forma surpreendentemente diplomática, converteu-se ao catolicismo romano (ele sempre fora ortodoxo). A essa altura, Vlad já sofria com um problema familiar à nobreza moderna: a imprensa sensacionalista. Entre os primeiros textos impressos na Europa já estavam panfletos em alemão que celebravam (ou melhor, denegriam) os feitos do voivoda, com manchetes do tipo “A Asustadora e Extraordinária História do Cruel Tirano Bebedor de Sangue Chamado Príncipe Drácula”.
Matias Corvino finalmente decidiu apoiar a volta de Drácula ao poder, e o mesmo fez o rei Estevão da Moldávia, parente do Empalador. Com essa ajuda, Vlad III cruzou a fronteira transilvânia e, mais uma vez, assumiu o trono, em 1476. O grosso das tropas, no entanto, logo voltou a suas regiões de origem, e Vlad teve de enfrentar sozinho mais um ataque turco. Era o fim da linha: numa batalha numa floresta ao norte de Bucareste, o voivoda foi derrotado e decapitado. Sua cabeça foi enviada a Constantinopla e exposta; seu corpo mutilado, de acordo com a tradição, foi sepultado no mosteiro de Snagov, embora uma escavação arqueológica, feita nos anos 30, não tenha conseguido localizar os restos mortais do guerreiro.
“Se julgarmos somente com base em documentos escritos, então Vlad é mais tirano que herói”, avalia Elizabeth Miller. “Os relatos alemães e turcos enfatizam sua crueldade. Mas os alemães ou saxões da Transilvânia se opunham a ele por razões econômicas e políticas, e os turcos eram seus inimigos”, diz. Segundo ela, os relatos romenos são apenas orais, e eles tendem a ver Vlad como um herói. “Ele realmente conseguiu defender seu pequeno principado de um império poderoso, por algum tempo. Não há dúvidas sobre sua crueldade, mas pode-se argumentar, como fazem muitos historiadores romenos, que ele não era pior que outros líderes de seu tempo”, afirma a pesquisadora.

Produto de exportação

Para os romenos, a figura do Empalador é coisa séria. Afinal, estamos falando de um herói nacional. Por isso, o governo do país está se preparando para honrar os feitos de Vlad III com um... parque temático. A intenção original era construir o parque em Sighisoara, local de nascimento do príncipe, mas a Unesco (sigla em inglês da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) condenou a idéia, já que a cidade, quase totalmente preservada em suas características medievais, iria virar um pesadelo. Por isso, o plano agora é colocar o parque perto de Snagov, onde supostamente Drácula teria sido enterrado. Isso não quer, no entanto, que os romenos já não tentem aproveitar ao máximo a imagem falsa de seu antigo líder. Pacotes de viagem como os da Company of Mysterious Journeys oferecem passeios que misturam locais ligados ao Empalador histórico, como Snagov e Sighisoara, ao lado de Bistritz e o Passo Borgo, percorridos pelo herói Jonathan Harker no romance de Bram Stoker.


Imortal (pelo menos no cinema)


Aventura e horror nunca faltaram na vida do Empalador. Um prato cheio para qualquer escritor, sem dúvida. Quanto dessa saga medieval serviu de inspiração para que o romancista irlandês Bram Stoker (1847-1912) criasse o clássico Drácula em 1897? A resposta meio decepcionante é: quase nada. A idéia original do escritor, por exemplo, era ambientar sua trama na Áustria, e o vilão teria o criativo nome de conde Wampyr, conta Elizabeth Miller. “Bram Stoker desenvolveu seu conceito de vampiros com base em muitas fontes, a maioria das quais não tinha nada a ver com a Romênia”, diz a pesquisadora. Aparentemente, Stoker tomou emprestado o nome Drácula e as vagas alusões às lutas do personagem contra os turcos de um livro obscuro chamado Um Relato dos Principados da Valáquia e da Moldávia, de 1820. As lendas sobre vampiros, embora presentes na Romênia, são muito mais proeminentes em outros países do Leste Europeu, como a Sérvia.

Embora tenha feito sucesso considerável como livro, a história do conde só atingiu mesmo o estrelato quando chegou ao cinema. Aliás, Drácula só perde em popularidade cinematográfica para Jesus Cristo: no maior banco de dados online sobre cinema, o IMDB (www.imdb.com), há 125 filmes sobre Drácula e 127 sobre Jesus. A primeira encarnação de respeito do vampiro na tela grande veio com Nosferatu (1922), obra-prima do expressionismo alemão. O ator húngaro Bela Lugosi, por muitos considerado o melhor de todos os intérpretes vampirescos, fez a primeira versão hollywoodiana com Drácula (1931). A imagem do conde sensual e sedutor deu as caras pela primeira vez com um novo Drácula (1958), que consagrou o britânico Christopher Lee.
Nos anos 90, Francis Ford Coppola lançou seu estiloso e romântico Drácula de Bram Stoker, com Gary Oldman no papel-título e, pela primeira vez, referências explícitas ao Vlad Tepes histórico. Finalmente, não dá para deixar de citar a sátira Drácula – Morto, Mas Feliz, com Leslie Nielsen, de Corra que a Polícia Vem Aí.


Fonte: Revista aventuras na História
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Moralismo ajuda a esconder a lei

Por Paulo Moreira Leite, na coluna Vamos combinar:

Os ataques a José Genoíno chegaram a um ponto escandaloso e inaceitável.

Vários observadores se colocam no direito de fazer uma distinção curiosa. Dizem que a decisão de Genoíno em assumir o mandato para o qual foi eleito por 92 000 votos pode ser legal mas é imoral.

Me desculpem. Mas é uma postura de ditadorzinho, que leva a situações perigosas e inspira atos violentos. Também permite decisões arbitrárias e seletivas. Pelo argumento moral, procura-se questionar direitos que a lei oferece a toda pessoa. Isso é imoral.

Não surpreende que essa visão tenha produzido grandes tragédias, na história e na vida cotidiana.

Isso porque os valores morais podem variar de uma pessoa para outra mas a lei precisa valer para todos.

Você pode achar que aquele livro sobre não sei quantos tons de cinza é uma obra imoral mas não pode querer que seja proibido por causa disso. Por que? Porque a Lei garante a liberdade de expressão como um valor absoluto.

Para ficar num exemplo que todos lembram. Os estudantes de uma faculdade paulista que agrediram e humilharam uma aluna que foi às aulas de mini saia muito mini também se achavam no direito de condenar o que era legal mas lhes parecia imoral. Vergonhoso. Isso sempre acontece quando se pretende dizer que o moral precisa ser o legal.

Para começar, quem acha muita imoralidade da parte de Genoíno deveria olhar para o lado em vez de exagerar na indignação.

Em seis Estados brasileiros o Superior Tribunal de Justiça, a segunda mais alta corte do país, tenta licença para processar governadores e não consegue avançar na investigação. Não consegue nem apurar as acusações que o STJ considera sérias.

Por que? Porque as Assembleias Legislativas não autorizam. Curiosidade: não há ”petistas aparelhados” envolvidos. Entre os 6 governadores, cinco são tucanos e um é do PMDB. Quantos são imorais nesse time? E os ilegais? Vai saber.

O que está em jogo, nos Estados? O princípio do artigo 55 da Constituição, aquele que reserva ao Congresso o direito de decidir pela cassação (ou não) de deputados e senadores. São os representantes eleitos que podem cassar os representantes do povo – e apenas eles.

Mas é curioso que ninguém fala em imoralidade neste caso.

Pergunto: cadê o abaixo assinado, uma denúncia contra “esse políticos” ? Cadê as marchadeiras de botox e cabelo tingido? Onde ficaram nossos moralistas de punho cerrado? Onde estão os cronistas do cronstragimento, os marqueteiros da “imagem” dos políticos?

Será que voltamos (ou nunca saímos?) à lógica dos dois mensalões, o do PT e o do PSDB-MG?

A Constituição reconhece os três poderes e não reconhece, de forma alguma, qualquer hierarquia entre eles.

E aí cabe a pergunta: se as Assembleias Legislativas podem impedir a abertura de uma investigação sobre governadores, por que o Congresso não tem o direito de decidir, como manda a Constituição, o destino de quatro deputados? Há uma diferença de princípio, uma visão de mundo?

Ou é a velha paróquia política do país ?

No caso dos governadores e deputados, a preferência é tão descarada que nem se abre uma investigação. Não vamos julgar e depois absolver. Não. Nem se começa o jogo. Não custa recordar de novo. A Lei diz que o mandato de um deputado só pode ser cassado por decisão do Congresso. Não é interpretação. Não é princípio genérico.

É texto da lei. É tão claro como dizer que o Brasil não pode fabricar bomba atômica. Ou que o racismo é crime e é inafiançável. Ou que a licença-maternidade deve durar quatro meses.

O jurista Pedro Serrano, especialista em Direito Constitucional, disse aqui mesmo neste blogue que essa prerrogativa é um dos elementos básicos da separação entre os poderes, definição que separa a República da Monarquia.

Embora diversos ministros do Supremo tenham feito elogios demorados à Constituição do Império – entre outros traços típicos, ela tratava os escravos como coisas – desde 1899 o país vive sob um regime republicano. O retorno à monarquia foi derrotado em plebiscito, junto com o parlamentarismo, lembra?

Teve gente que levou os descendentes de Pedro II e da Princesa Isabel para percorrer o país, na esperança de que algum fantasma do passado contribuísse para melhorar o marketing eleitoral da monarquia.

Mas o Supremo considerou por 5 votos a 4 que tem o direito de cassar os mandatos dos deputados condenados pelo mensalão. Muitos juristas – os mesmos que os donos da moral de hoje costumam ouvir quando lhes interessa — consideram que foi uma decisão que atravessou essa divisão entre poderes.

Num plenário que em situações normais inclui onze votos, cinco ministros acharam-se no direito de questionar um artigo explícito da Lei Maior. Quatro ficaram contra essa decisão.

Em qualquer caso, não custa lembrar que, como está estabelecido, a Constituição só pode ser modificada por uma emenda constitucional, com o voto de dois terços – e não maioria simples – dos parlamentares, que são os representantes eleitos do povo. Não é debate moral. É determinação legal.

Por que ela diz isso? Porque esse artigo 55 é coerente com o artigo 1, aquele que diz que “todo poder emana do povo, que o exerce através de seus representantes eleitos.”

Uma decisão do Supremo deve ser cumprida e tem força de lei, diz o Ministro da Justiça.

Mas o que se faz quando, por 5 votos a 4, se estabelece uma diferença clamorosa, uma contradição com a própria Constituição?

Não é possível ser simplório nem empregar argumentos de autoridade. A menos, claro, que se pretenda criar um novo tipo de autoritarismo.Durante o Estado Novo, o Supremo autorizou que a militante comunista Olga Benário fosse enviada para a morte num campo de concentração nazista.

Seria imoral e ilegal tentar impedir a entrega de Olga Benário por todos os meios e recursos que poderiam preservar sua vida, sua dignidade e mesmo a filha que levava em seu ventre, vamos combinar.

Em 1964, o Supremo aceitou a tese de que a presidência da República ficara vaga depois que Jango deixou o país e deu posse à ditadura militar. Legal? Moral? Ou ilegal e imoral?

Em 2010, o Supremo decidiu por 7 votos a 2, que só o Congresso poderia modificar a Lei de Anistia. Com isso, as investigações sobre torturas e execuções perderam uma base legal importante.

Pergunto: vamos proibir os jovens que denunciam torturadores nas operações esculacho, e não se rendem a uma decisão que – sem entrar no debate se correta ou não – envolve uma opção pela impunidade?

Vamos chamar a PM para dar porrada? (Quando ela não estiver perseguindo estudantes que portam maconha, o que lei diz que é legal em certa quantidade mas que muita gente considera imoral e por isso aprova todo tipo de repressão, até sem base legal).

Mais ainda. Vamos silenciar procuradores que, teimosamente, ainda procuram brechas para colocar os responsáveis por crimes contra a humanidade na cadeia, lembrando que a Constituição diz que a tortura não é passível de anistia ou graça?

Os 7 a 2 do Supremo deveriam garantir que esses garotos exemplares fossem silenciados para sempre?

Queremos a Submissão à autoridade, título de um livro antológico sobre técnicas de tortura?

Colocar a questão moral à frente da legal só ajuda a despolitizar um debate, a encobrir questões sérias e a impedir uma avaliação consciente do que está em jogo. No saldo, quem perde é a democracia.

Quando Genoíno se diz com a “consciência limpa dos inocentes” deveríamos dedicar alguns minutos de reflexão ao assunto.

Você pode, com base naquilo que viu e ouviu nas 53 sessões do julgamento, achar que ele é mesmo culpado e deveria renunciar ao mandato que recebeu.

Mas você poderia pensar o contrário.

A grande acusação é que ele assinou “empréstimos fraudulentos” que alimentaram o esquema, certo? Podemos ouvir isso todo dia, nos comentários de sabichões que frequentam o rádio e a TV.

Mas: veja só. A própria Polícia Federal, que investigou o caso e as contas do mensalão, concluiu que os empréstimos não eram uma fraude. Em seu relatório, a PF diz que os empréstimos foram verdadeiros, implicaram na remessa de dinheiro do Banco Real para o PT. A Justiça, mais tarde, supervisionou um acordo para o pagamento do empréstimo. Era ilegal? Era imoral? Ou o que?

Em todo caso, se era ilegal, pergunta-se: o que aconteceu com a turma do Banco Central que deveria fiscalizar essas coisas?

O que houve com quem referendou o acordo? Alguém foi punido por ser ilegal? Ou não se julgou moralmente conveniente?

Muitos ministros condenaram Genoíno porque “não era plausível” que ele “não soubesse” do que eles dizem sobre o que seria o “maior escândalo da história.” Uniram o papel político óbvio de Genoíno no governo Lula com um esquema financeiro, sem conseguir provar seu envolvimento direto na “compra de votos” no Congresso. Não conseguiram apontar, sequer, qual projeto foi aprovado em troca de dinheiro.

Enquanto não se provar que Genoíno cometeu uma ilegalidade, estamos, mais uma vez, numa visão moral de uma pessoa, num julgamento que envolve a atribuição de atitudes e valores, mas não consegue reunir provas robustas – indispensáveis no direito penal — para sustentar o que diz.

O que é imoral, neste caso?

Embora o Supremo tenha condenado Genoíno, a lei dá ao deputado o direito de aguardar pelo exame de todos os recursos antes de considerar que o caso está encerrado. Junto com a liberdade, é a história de uma vida que está em jogo.

Ao contrário do que se poderia julgar do ponto de vista moral, ele tem o dever de resistir. A lei não lhe dá essa possibilidade por acaso. O necessário, para o esclarecimento de qualquer dúvida, de qualquer ponto de vista, é que que ele entre com seus recursos, que eles sejam ouvidos, examinados e conhecidos por todos. E a melhor forma de fazer isso é preservando seu mandato.

Vou adorar ouvir seus argumentos, na tribuna da Câmara. E vou adorar ouvir os argumentos contrários.

Será uma grande novidade. Em sete anos de investigações, o mensalão transformou-se no discurso de um lado só, uma única voz, uma única verdade. Cada advogado de defesa teve direito a um discurso de duas horas num julgamento que durou cinco meses. Isso impediu que dúvidas importantes, sobre Genoíno e sobre o mensalão, fossem discutidas e resolvidas. Nenhuma auditoria provou que os recursos usados pelo esquema do PT foram extraídos do Banco do Brasil. Não há sinal de desvio na Visanet, empresa que fazia os pagamentos para as agências de Marcos Valério. Ou seja: verdades que pareciam evidentes em 2005 teriam de ser examinadas, revistas e explicadas em 2012. Ou corrigidas, ou retiradas.

É por isso que o Congresso tem razão em debater suas prerrogativas e nossos moralistas de plantão erram quando tratam Marco Maia e seu provavel sucessor, Henrique Alves,como criadores de caso, encrenqueiros que jogam para a platéia. Se o artigo 55 não foi abolido – o que só os parlamentares tem o direito de fazer – é mais do que razoável que sua aplicação seja discutida. Um pouquinho de história, para quem tem a memória selecionada. A cronologia diz tudo neste caso. Ao longo de 7 anos de mensalão Congresso não moveu um dedo mínimo para atrapalhar a investigação. Tampouco cometeu qualquer gesto em direção ao STF que pudesse ser interpretado como ação indevida. Ficou silencioso em seu canto, respeitoso das atribuições de cada um. E é natural que queira ser respeitado, agora.

O ministro que decidiu a votação por 5 a 4 teve um voto oposto, em situação muito parecida.

Juízes não são obrigados a votar de modo identico a vida inteira.

Mas a democracia é um regime coerente.

Por isso a Constituição diz que o povo exerce o poder através de seus representantes eleitos. Esta frase não é enfeite, certo? O voto da maioria da população é o começo e o fim de tudo.
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A paz ainda não foi instaurada e precisei voltar!


Ainda hoje terei uma bomba para o povão de Colombo !
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