Maquiagem de R$ 200 bi garantiu meta do governo

Sem artifício usado com bancos públicos, despesas iriam a R$ 1 trilhão em 2012

Especialistas criticam a "contabilidade criativa" usada nas contas públicas para atingir o superávit fiscal de 3,1% do PIB. Injeção de recursos no BNDES criou subsídio de R$ 15 bilhões.

Maquiagem de R$ 200 bilhões para alcançar meta fiscal preocupa mercado e investidores

BRASÍLIA - Se o Brasil está muito longe do abismo fiscal que os EUA chegaram a ver de perto, algumas fissuras começam a surgir. Malabarismos contábeis e os novos rumos das contas públicas despertam desconfiança e já preocupam o mercado financeiro e investidores. Para analistas ouvidos pelo GLOBO, o governo vem criando mecanismos perigosos para estimular o crescimento econômico com impacto importante nos cofres públicos. As despesas primárias (que não consideram gastos com juros) flertam com a cifra inédita do trilhão. Segundo o especialista em contas públicas do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) Mansueto Almeida, sem os artifícios contábeis, essas despesas, que devem fechar 2012 próximas de R$ 800 bilhões, já poderiam ter batido R$ 1 trilhão. Ou seja, cerca de R$ 200 bilhões mais altas.

Mesmo assim, o Executivo ainda precisou lançar mão do abatimento de R$ 25 bilhões a que tem direito com gastos em investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para poder cumprir a meta de superávit primário (economia feita pelo governo para pagar juros) de 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos pleo país) prevista para 2012. A justificativa está no fato de o país ter tido um ano difícil, com frustração de arrecadação e sucessivas reduções de tributos para tentar reaquecer a economia em meio à crise internacional.

Para estimular o consumo e novos investimentos, em vez de aumentar o capital dos bancos públicos e das estatais, o governo preferiu emitir títulos públicos para reforçar o caixa dessas instituições. Com isso, esses recursos não são caracterizados como despesa primária, como aconteceria se tivesse simplesmente registrado as capitalizações pelas vias tradicionais. Mansueto destaca que a dívida dos bancos públicos federais com o Tesouro Nacional, que passa ao largo do resultado das contas públicas, saltou de R$ 10 bilhões em 2007 para nada menos que R$ 400 bilhões em 2012.

- Isso significa que, se a metade desse valor tivesse sido usada para capitalizar esses bancos pelas vias tradicionais, as despesas já teriam chegado a R$ 1 trilhão - explica o especialista.

Responsabilidade fiscal sob risco

Outro mecanismo usado pelo governo, que compõe o arsenal que os especialistas vêm chamando de contabilidade criativa, é o uso dos lucros dos bancos públicos e os dividendos pagos pelas estatais para engordar o caixa do Tesouro Nacional. Se as capitalizações não são computadas como despesas, estas duas rubricas são registradas como receitas primárias. Ou seja, o governo empresta sem caracterizar despesas e recebe de volta como receita. Para fechar a conta ano passado, o governo chegou a antecipar o pagamento de dividendos do BNDES e da Caixa Econômica ao Tesouro Nacional.

As sucessivas injeções de recursos no BNDES, como a anunciada na semana passada, não contam como despesas. Porém, elas representam um subsídio implícito (a diferença dos juros de captação do banco e das taxas que empresta) de R$ 15 bilhões só em 2012, o que tampouco é computado como gasto. O valor equivale ao orçamento de um ano do programa Bolsa Família, que atende 45 milhões de pessoas.

O governo enviou ao Congresso Nacional no último dia do ano passado um projeto que permite novos gastos com desonerações fiscais que não estão previstas no Orçamento, desde que as receitas públicas sejam maiores do que o esperado. Neste caso, elas não precisam ser submetidas aos parlamentares como seria de praxe. A medida é vista com desconfiança por analistas, que veem risco a um dos princípios fundamentais da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

O que mais preocupa estes especialistas é a falta de transparência do governo para lidar com as contas públicas. Para o especialista José Roberto Affonso, ao usar artifícios fiscais, o governo mina a credibilidade que levou anos para conquistar junto a mercado e investidores.

- Não está proibido na LRF reduzir a meta de superávit em períodos de crise, ou até mesmo, fazer um saldo negativo, o que seria mais do que justificável em anos de crise. O que não pode é tentar negar que está fazendo malabarismo fiscal quando todos estão vendo - disse Affonso.

- Trata-se de um expansionismo envergonhado, porque ninguém admite publicamente que está aumentando as despesas e que isso terá um impacto sobre o resto da economia num futuro não distante - acrescenta Felipe Salto, especialista em contas públicas da Tendências.

Juros mais baixos e incentivos tributários

De janeiro a novembro de 2012, o aumento das despesas primárias foi de R$ 80 bilhões. Deste total, só R$ 10 bilhões correspondem aos investimentos públicos, dos quais R$ 5 bilhões são recursos do programa Minha Casa Minha Vida, que conta com dinheiro do FGTS do trabalhador. De 1999 a 2011, as despesas primárias saltaram de R$ 337,9 bilhões para R$ 724,4 bilhões.

Um técnico da equipe econômica diz que as críticas à política fiscal não consideram indicadores positivos da economia nem benefícios, como a queda dos juros básicos, incentivos fiscais ao setor produtivo e cortes nas tarifas de energia. Para ele, a queda de dívida líquida federal de 60%, na década de 80, para 45,5%, em 2007, e 35%, em 2012 é um sinal de bons resultados da política fiscal. Ele lembra que a credibilidade do país lá fora se comprova pelas menores taxas de captação registradas para os bônus de 2023 no mês passado no mercado internacional.

Para o professor Adolfo Sachsida, do Ipea, a fatura da folia fiscal virá em 2015. E com o Orçamento engessado, o governo poderá ter de usar expedientes que representam um retrocesso como, por exemplo, fazer o ajuste das contas públicas por meio de uma inflação mais alta.

Fonte: O Globo
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Dilma acelera criação de empresas estatais

Quatro delas foram abertas nos últimos dois anos pelo governo federal

Governo acelera a criação de estatais que não geram receita

Das dez empresas concebidas desde Lula, só uma já tem perspectiva de operar de forma independente

Empresa que nunca funcionou e incluída em plano de desestatização gastou R$ 110 mil para remunerar conselheiros

Gustavo Patu, Breno Costa

BRASÍLIA - A prática de criar estatais foi ressuscitada pela administração petista e acelerada pela presidente Dilma Rousseff, mas a maior parte das novas empresas está longe de fazer jus a essa qualificação.

Levantamento feito pela Folha mostra que, em uma década, os governos Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma deram à luz dez estatais, quatro delas nos últimos dois anos -não foram incluídas na conta subsidiárias de empresas preexistentes, como a CaixaPar, o Banco Popular e a recém-lançada Infraero Serviços.

Da lista, apenas uma já deu os primeiros passos rumo à geração de receitas suficientes para financiar seus investimentos e operações: a Hemobrás, fundada em 2004 para fabricar e vender medicamentos derivados do sangue.

As demais ou não saíram do papel ou são mantidas com recursos da arrecadação de tributos como uma repartição pública.

Aprovada por lei no mês passado, a EPL (Empresa de Planejamento e Logística) já está classificada pelo Ministério do Planejamento entre as estatais dependentes do Tesouro Nacional, ao lado de outras cinco criadas nos governos do PT.

Trem-bala

A EPL tomou o lugar da Etav, uma breve empresa criada no ano anterior exclusivamente para viabilizar o trem-bala nacional -e que, de um orçamento de R$ 166 milhões, desembolsou apenas R$ 3 milhões com salários e despesas administrativas.

Também necessitam do dinheiro do contribuinte a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), a EBC (Empresa Brasil de Comunicação), o Ceitec (Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada), a EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares) e a Amazul (Amazônia Azul Tecnologias de Defesa).

A maior delas, a EBC, não é propriamente uma novidade: surgiu em 2007 a partir de uma ampliação da antiga Radiobrás. No ano passado, segundo dados preliminares, ela gerou cerca de R$ 70 milhões em receitas com os serviços de radiodifusão, mas suas despesas ultrapassaram os R$ 400 milhões.

Criado em 2008 para fabricar chips eletrônicos, o Ceitec informou uma receita de R$ 300 mil no ano passado com a venda de seus produtos para a iniciativa privada. A legislação considera microempresas aquelas com receita anual até R$ 360 mil.

Outras duas estatais estabelecidas por lei nos últimos anos ainda não existem na prática: a PPSA, concebida para explorar o petróleo do pré-sal, e a ABGF, apelidada de Segurobras, para garantir obras de infraestrutura.

Legado esportivo

O caso mais inusitado é o da Brasil 2016, ou Empresa Brasileira de Legado Esportivo, criada no final do governo Lula para desenvolver projetos ligados à Olimpíada do Rio de Janeiro. Descartada antes de esboçar qualquer iniciativa, ela foi incluída no Programa Nacional de Desestatização.

Mesmo sem nunca ter entrado em operação, registrou como único gasto em seu balanço R$ 110 mil para remunerar conselheiros.

A Hemobrás, até agora, é a única incluída no orçamento federal de investimentos, que reúne as empresas utilizadoras de recursos próprios, como a Petrobras, a Eletrobras e os bancos públicos.

Ela recebeu aportes do Tesouro Nacional para a abertura de uma fábrica em Pernambuco, ainda não concluída. De um orçamento de R$ 264 milhões em 2012, R$ 50 milhões foram investidos até outubro.

Fonte: Folha de S. Paulo
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Dilma é a que menos desapropria desde Collor

Queda no ritmo da reforma agrária se alinha a demanda menor de sem-terra

Consolidação do Bolsa Família e alta do salário mínimo contribuem para que governo seja menos pressionado

André Caramante, Daniel Carvalho

SÃO PAULO - O governo Dilma Rousseff é o que menos desapropriou imóveis rurais para fazer reforma agrária nos últimos 20 anos. Na primeira metade do mandato, 86 unidades foram destinadas a assentamentos.

Comparado ao mesmo período das administrações anteriores desde o governo José Sarney (1985-90), o total supera só o de Fernando Collor (1990-92), que desapropriou 28 imóveis em 30 meses.

Levantamento da diretoria técnica da Câmara e pesquisa da Folha no "Diário Oficial da União" mostram que Dilma desapropriou 58 imóveis em 2011 e outros 28 em 2012.

A queda no ritmo ocorre em meio à redução da demanda dos sem-terra pelo país.

A consolidação do Bolsa Família e a valorização do salário mínimo nos últimos anos contribuíram para isso.

O número de famílias acampadas despencou de 2003 para 2011. Passou de 59 mil para 3.210, segundo a Comissão Pastoral da Terra.

O governo cita cortes no Orçamento e greve de servidores como razões para os baixos números em 2012 (leia texto nesta página).

A desapropriação por meio de decretos presidenciais é o meio clássico para obter terra para a reforma agrária.

Além de áreas desapropriadas, o governo também pode assentar famílias em terrenos comprados ou em lotes vagos de projetos antigos.

Alexandre Conceição, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), considera "uma vergonha" o desempenho da gestão Dilma.

Para ele, o governo não faz reformas estruturais por ter um apoio heterogêneo.

"Essa composição dá estabilidade política ao governo, amplas margens de apoio na opinião pública, mas impede reformas estruturais, que afetariam interesses das classes privilegiadas", diz Conceição.

"O desempenho é pífio, e a tendência é que a situação não mude em 2013. Não vemos vontade política", afirma Gerson Teixeira, presidente da Associação Brasileira de Reforma Agrária (Abra).

FHC X LULA

FHC (1995-2002) chegou a 3.535 imóveis desapropriados e disse ter assentado 540,7 mil famílias. Lula desapropriou 1.990 imóveis de 2003 a 2010 e afirma ter beneficiado 614 mil famílias.

Em 2005 e 2006 houve um pico de famílias assentadas (127.506 e 136.358, respectivamente, segundo os balanços oficiais), mas desde 2007 os números não param de cair.

A Folha apurou que o número preliminar de assentados em 2012 é de 23.073 famílias. Em 2011, foram 22 mil.

Integrante da bancada ruralista, o deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC) aprova o ritmo de Dilma.

"O problema é dar viabilidade para que os assentados produzam; 70% dos assentamentos estão vivendo de Bolsa Família. Não produzem nem para se alimentar", diz.

Fonte: Folha de S. Paulo
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Reforma agrária patina com Dilma

Em seus dois primeiros anos no poder, a presidente Dilma Rousseff não chegou a assentar 43 mil famílias no campo, o pior desempenho das últimas gestões: nesse mesmo período de governo, FH assentou 105 mil famílias, e Lula, 117 mil.

Com Dilma, reforma agrária em queda

Governo assentou 22 mil famílias em 2011, pior marca desde FH; MST enfrenta dificuldade de mobilização

SÃO PAULO - Com menos de 44 mil famílias assentadas em dois anos, o governo Dilma Rousseff marca forte descenso no programa de reforma agrária. Em 2011, foram assentadas 22 mil famílias, a pior marca desde o governo Fernando Henrique. O Incra não divulga dados de 2012, mas reduziu a meta de 35 mil para 22 mil famílias a serem atendidas, apesar da demanda ser de, pelo menos, um milhão de famílias.

Segundo o Incra, nos dois primeiros anos de governo, Fernando Henrique assentou 105 mil famílias. Já o ex-presidente Lula, 117,5 mil no mesmo período de gestão. No momento de maior crise política, entre o escândalo do mensalão, em 2005, e a campanha de 2006, Lula deu mais peso aos apelos dos movimentos sociais, assentando 263,8 mil famílias. Já o ponto mais alto de Fernando Henrique na reforma agrária foi no ano de sua reeleição, 1998, com 101 mil famílias assentadas.

O principal movimento social camponês do país, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), também tem diminuído sua atuação. Entre os fatores da desmotivação no campo estão o crescimento econômico, os programas sociais e a melhoria dos salários e condições de vida na área urbana. Apesar da dificuldade de mobilização, um dos líderes do MST, Gilmar Mauro, afirmou que este ano o "caldo tende a engrossar" com mais ocupações e acampamentos.

O país conta hoje com 1,23 milhão de famílias assentadas; e a demanda, segundo os estudos mais otimistas, é por no mínimo mais um milhão de unidades agrárias familiares. Segundo o geógrafo Bernardo Mançano, coordenador do Núcleo de Estudos, Pesquisas e Projetos da Reforma Agrária (Nera), da Unesp, a demanda por terra varia entre 1 milhão e 7 milhões de famílias. Ele vê um risco de desassentamento no país.

- Sem políticas de atendimento às famílias, o Brasil pode viver um processo de desassentamento, com as pessoas deixando a terra - diz Mançano.

Para Mançano, a reforma agrária só ganha espaço se houver pressão pública. Ele lembra que, em 2005 e 2006, o MST se mobilizou e, como estava frágil, o governo Lula se mexeu.

- No Brasil, a reforma agrária só andou sob pressão. Se analisarmos a evolução dos assentamentos, os picos coincidem com os momentos de maior mobilização. Houve uma perda do poder de pressão do MST por vários motivos, como aquecimento da economia, renda maior nas cidades e programas sociais. A capacidade de mobilização do MST está cada vez mais limitada- explica o coordenador do Nera.

Mançano afirma que, diferentemente de Lula, Dilma não tem ligação histórica com o MST e os movimentos agrários, e o MST perde espaço de diálogo com o governo.

- Dilma é diferente de Lula. Ela não tem essa dívida com os movimentos no campo. Se não conseguirem fazer uma mobilização forte, este ano esse número de famílias assentadas vai cair para cinco mil - diz o pesquisador.

Para Mançano, a luta no campo ganhou diferentes contornos nos últimos anos. Saíram os latifundiários, entrou o agronegócio. Diminuiu a pistolagem, entrou em campo a "judicialização". Segundo o pesquisador, os recursos dos sem-terra para combater no campo do Judiciário são muito limitados:

- A violência no campo vem caindo. A questão, hoje, é mais judicial. O maior problema é que as famílias assentadas estão acuadas pelo agronegócio e não há políticas públicas. Se continuar nesse ritmo, não é que vai cair o número de famílias assentadas. Vai acontecer é desassentamento.

O Incra não forneceu dados de 2012, mas informou que houve redução na meta, de 35 mil para 22 mil famílias assentadas. Segundo Gilmar Mauro, coordenador nacional do MST, o número de assentamentos em 2012 não atingiu 10 mil famílias, ou seja, menos da metade da meta.

-Nossa avaliação, e do movimento sem-terra em geral, é que o governo Dilma tirou da pauta a reforma agrária- analisa Gilmar Mauro. - Em termos de média, a de Fernando Henrique foi 45 mil assentados por ano, a de Lula, 60 mil, 65 mil. E a de Dilma está em 20 mil.

Gilmar Mauro admitiu que existe uma dificuldade de mobilização dos trabalhadores sem-terra. Mas afirma que há 85 mil famílias acampadas no país. No governo Fernando Henrique, o número era de 90 mil, segundo o MST.

- No primeiro ano do governo Lula esse número saltou para 130 mil porque havia expectativa de que o governo Lula pudesse fazer a reforma agrária. Foi se estabilizando e atinge hoje patamar de 85 mil famílias, que não é insignificante. Os programas sociais e a possibilidade de emprego, evidentemente, colocam algumas famílias, que poderiam ser potenciais lutadores da reforma agrária, na condição de terem algum trabalho e irem sobrevivendo, mas isso não significa que a demanda por reforma agrária esteja acabada - disse Mauro.

O MST está organizando um calendário com ocupações, manifestações de rua e um acampamento em Brasília. Um dos focos de crítica, além do governo, é o Poder Judiciário, já que a posse de terra de dois assentamentos em São Paulo está sub judice, com risco de revisão da desapropriação feita pelo governo e de desassentamento das famílias.

- O Judiciário brasileiro está colocando um freio grave à reforma agrária. E o governo não está desapropriando, então a reforma agrária enfrenta uma das piores situações no país. Estamos numa grande jornada de lutas, com outros movimentos do campo porque todos estão com o mesmo diagnóstico. O caldo tende a engrossar no próximo período - conclui Mauro.

Fonte: O Globo
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"Fio desencapado" que preocupa o Planalto

O candidato a líder do PMDB coleciona um histórico de problemas com o governo e não conta com a simpatia da presidente

Karla Correia

O Congresso se aproximava do recesso parlamentar e a bancada federal do PMDB decidiu anunciar, com calculado alarde, o apoio a um dos itens mais importantes da agenda legislativa da presidente Dilma Rousseff : a MP 579, que prorrogou as concessões do setor elétrico, com a condição de reduzir os valores da conta de luz a partir do início deste ano. Com a ajuda de um dos principais partidos da base aliada, a medida acabou aprovada pela Câmara e pelo Senado, em votações que ocorreram no mesmo dia.

Mais do que unificar o partido em torno da proposta da presidente, a reunião da cúpula do PMDB que precedeu o anúncio do apoio à MP teve uma só finalidade: enquadrar o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e evitar que qualquer ato de rebeldia do parlamentar pudesse comprometer o resultado da votação. Favorito para assumir a liderança de uma das maiores bancadas aliadas do Congresso neste ano, Cunha é visto como um "fio desencapado" dentro da base governista, tanto pela proximidade que tem com os interesses de empresas do setor elétrico quanto pelo fator de risco que representa na relação com o governo federal.

A hipótese, bastante viável, causa arrepios no Palácio do Planalto. Preocupada com a possível escolha de Cunha para a liderança do PMDB, Dilma articula nos bastidores em favor da candidatura de Sandro Mabel (GO) ao cargo. De volta ao PMDB depois de rápida passagem pelo PR, atingido de raspão pelo escândalo do mensalão, Mabel seria uma alternativa infinitamente mais palatável ao Planalto que Eduardo Cunha, segundo interlocutores de Dilma.

A biografia e o histórico de sequelas causadas ao governo pelas rebeliões e movimentações do deputado, sobretudo no setor elétrico, que a presidente costuma tratar com especial atenção, motivam a desconfiança do Planalto em relação ao parlamentar, seguidor do modelo fisiológico de fazer política que cunhou o modus operandi do PMDB.

Evangélico, flamenguista roxo, Eduardo Cunha chegou à política no fim da década de 1980 sob as bênçãos de Paulo César Farias, então tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello para a Presidência da República. Integrante do comitê eleitoral de Collor no Rio de Janeiro, Cunha foi nomeado presidente da Telerj, a empresa pública de telecomunicações do estado, pouco depois da eleição de Collor. Já fora da estatal, filiou-se ao PPB (hoje PP) em 1994 e tornou-se o braço direito de outra estrela em ascensão na política carioca: Anthony Garotinho, hoje colega de Câmara e desafeto de Cunha. Eles já chegaram a trocar insultos pela internet. No início dessa legislatura, os dois se atacaram pelo Twitter. Garotinho questionou a fonte do patrimônio financeiro de Eduardo Cunha, que, em resposta, o chamou de "quadrilheiro".

"Contrabandos"

Mas nem só de brigas vive o possível próximo líder do PMDB. Em seu terceiro mandato de deputado federal, Cunha é um fenômeno dentro da legenda, onde sua desenvoltura o levou em pouco tempo da posição de noviço para um assento entre os caciques peemedebistas. "Poucos deputados conhecem tão bem o regimento da Casa e sabem como fazer uso dele. É um "caxias", estudioso e esforçado", derrete-se um aliado. "É também um cabeça-dura que não sabe quando encerrar uma briga, não tem noção de limites", alfineta outro colega de partido.

Seu talento para o confronto deixou marcas no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Relator da MP que prorrogaria a validade da CPMF em 2007, Cunha segurou o quanto pôde a entrega do parecer como forma de pressionar o governo pela nomeação de cargos em Furnas, incluindo o ex-prefeito Luiz Paulo Conde para a presidência da estatal. A demora de Cunha em entregar o relatório deixou o governo sem margem de manobra quando a MP chegou ao Senado e a derrota com a queda da CPMF se transformou em uma das grandes mágoas de Lula em sua relação com o Congresso.

Com esse currículo, o deputado não teve dificuldades em conquistar a antipatia da presidente Dilma Rousseff. A presidente já rejeitou indicações do PMDB para o setor elétrico única e exclusivamente pela influência de Cunha na escolha dos nomes apontados pelo partido. Dilma também já se acostumou a vetar rotineiramente emendas incluídas em textos de medidas provisórias pelo deputado, todas favorecendo empresas privadas do setor. No Planalto, diz-se que a presidente guarda na gaveta de sua mesa uma "lupa anti-Eduardo Cunha" para analisar cada texto aprovado pelo Congresso, em busca de contrabandos inseridos pelo parlamentar.

Quem é ele

Nome: Eduardo Consentino da Cunha
Idade: 54 anos
Profissão: economista
Filiações: PPB (1994-2003), PP (2003), PMDB (desde 2003)
Cargos: presidente da Telerj (1991-1993); subsubsecretário estadual de Habitação (1999); presidente da Companhia de Habitação do Rio de Janeiro (1999-2000)
Mandatos eletivos: deputado estadual, 2001-2003 (PPB); deputado federal, 2003-2007 (PPB-RJ), 2007-2011 (PMDB-RJ), e desde 2011

Fonte: Correio Braziliense
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