A COBERTURA DO MENSALÃO E A FORMAÇÃO DA OPINIÃO PÚBLICA

Formador da opinião pública

MÍDIA, CORRUPÇÃO E OPINIÃO PÚBLICA

Por Venício A. de Lima, no “Observatório da Imprensa”

“A cobertura homogênea que a grande mídia vem fazendo do julgamento da Ação Penal nº 470 – [estranhamente planejado para ser] paralelo ao período de campanha eleitoral – e os resultados das eleições municipais de 2012 recolocam a questão da formação da opinião pública, da percepção que ela tem sobre a corrupção e das consequências políticas dessa percepção, em particular na decisão do voto.

Em artigo anterior, neste “Observatório” (“Poder da mídia, contradições e (in)certezas“) – reproduzi resultado e comentário do IBOPE sobre pesquisa comparada que registrou as “preocupações dominantes” dos brasileiros nos anos de 1989 e 2010. Diz o comentário:

Apesar das constantes notícias sobre o assunto, o combate à corrupção também preocupa menos o brasileiro: de 20%, passou a ser citada por 15% dos entrevistados.”

Perguntava, então: qual a relação da queda da preocupação do brasileiro com a corrupção e as “constantes notícias” – uma verdadeira campanha de moralidade seletiva e criminalização da política – veiculadas na grande mídia desde 2005?

Ao contrário do que o artigo possa ter sugerido, não há resposta simples para essa questão.

PESQUISAS SOBRE CORRUPÇÃO

O livro “Corrupção e Sistema Político no Brasil”, organizado pelos professores Leonardo Avritzer e Fernando Filgueiras, do “Centro de Referência do Interesse Público” (CRIP) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), lançado recentemente pela editora “Civilização Brasileira”, é uma coletânea de análises de resultados de pesquisas nacionais – realizadas em 2006, 2008 e 2009 – que investigam o tema da corrupção em variadas dimensões.

No capítulo escrito pela professora Rachel Meneguello (Unicamp), por exemplo, pesquisa realizada no ano eleitoral de 2006, dentro do ESEB – Estudo Eleitoral Brasileiro coordenado pelo CESOP/UNICAMP, chega a conclusões aparentemente divergentes daquelas do IBOPE em relação à hierarquia das “preocupações dominantes” dos brasileiros: a corrupção aparece não só como “problema mais importante debatido na eleição de 2006”, como “principal problema político do país” (cf. tabela abaixo).

Por outro lado, em duas pesquisas realizadas pelo CRIP-UFMG junto com o Instituto Vox Populi, em 2008 e 2009, a corrupção é percebida por quase a totalidade da opinião pública como constituindo um problema muito grave ou grave (cf. gráfico abaixo).

Gráfico 1. A gravidade da corrupção (%)

O que as análises indicam, no entanto, é uma “dificuldade” da percepção da opinião pública sobre a corrupção ser transferida para o comportamento eleitoral.

Rachel Meneguello diz explicitamente:

O que nos intriga é a “independência” entre as percepções sobre a corrupção [...], pois ela coloca uma distância entre a ideia de democracia e as noções de transparência e de controle do tráfico de influência. [...] Os dados de dezembro de 2006, coletados após a reeleição do presidente Lula, não apenas mostraram que as denúncias de corrupção não foram suficientes para punição do governo, mas, sobretudo, que a avaliação retrospectiva que influencia o voto do eleitor é multidimensional e envolve identificação política, ideologia e avaliação de desempenho do sistema em outras dimensões, como a economia e as políticas de redistribuição de renda. Os dados indicam uma zona nublada, na qual reside um juízo normativo sobre a corrupção que não afeta de forma significativa o comportamento político mais imediato do eleitor ou a avaliação e o apoio ao sistema político. Essa área parece ser o nó entre o impacto da corrupção e as bases da adesão democrática — como diminuir a distância entre a percepção, o juízo moral e a prática política” (pp. 81-82, passim).

A AUSÊNCIA DA MÍDIA

Infelizmente, dos nove capítulos do livro, apenas dois enfrentam diretamente a questão central da mídia, não só em relação à formação da opinião pública, como, sobretudo, de sua influência específica nas percepções sobre a corrupção em suas várias dimensões.

No capítulo escrito pela editora de Política do jornal “Valor Econômico” (pertencente aos grupos [de direita] Folha e Globo), a jornalista Maria Cristina Fernandes admite que:

A imprensa é parte da disputa democrática pelo Estado, e a essa serve tanto em benefício de sua explicitação quanto no acobertamento de seus ditames. Há uma lógica jornalística que lhe é própria e nem sempre se encaixa nos pressupostos da teoria vigente. Domina a imprensa uma concepção ainda difusa de defesa da cidadania no âmbito da qual a corrupção aparece como fenômeno difuso e descolado de interesses consolidados e duradouros. Esse descolamento impede não apenas o esclarecimento dos nexos de interesse que dão corpo e materialidade à corrupção, mas também obstrui seu combate efetivo pela sociedade e pelo Estado. Este (capítulo) [...] tentará mostrar que o espaço ocupado pelas denúncias tem sido inversamente proporcional à identificação dos interesses em disputa nas campanhas eleitorais. E a hipótese aqui levantada é que essa relação guarda causa e efeito.” (p. 203)

Além disso, ao analisar a Tabela 7 [abaixo] – que só aparece no seu capítulo – Maria Cristina comenta:

Tabela 7. Favorecimento da mídia na apuração de escândalos/2009

A pesquisa corrobora a tese de que a mídia nem sempre trafega com independência pelos interesses em conflito, mas também questiona a visão de que os meios de comunicação exercem um poder ilimitado sobre os cidadãos. Mais da metade dos entrevistados acredita que a mídia favorece alguém ou algum grupo na divulgação dos escândalos. E essa percepção cresce na medida em que os níveis de renda e escolaridade se elevam. No Sudeste, onde se concentra a sede dos maiores jornais e emissoras de rádio e TV, é maior a crença de que a mídia é injusta e parcial ao cobrir escândalos de corrupção” (p. 217).

Na verdade, são os entrevistados que responderam a essa questão no Centro-Oeste, no Norte e no Sudeste (e não na média nacional) que acreditam que “a mídia favorece alguém ou algum grupo na divulgação dos escândalos”.

De qualquer forma, esse dado combinado com outro que não está no livro, mas publicado no site “Contas Abertas” quando os resultados da pesquisa CRIP/Vox Populi foram divulgados em março de 2010 (cf. quadro abaixo), compõem um panorama bastante expressivo sobre a percepção da opinião púbica sobre a grande mídia brasileira.

Vale dizer, boa parte da opinião pública não só acredita que “a mídia é injusta e parcial ao cobrir escândalos de corrupção”, como entre 2008 e 2009, houve uma queda de 18% [ou 30% dos entrevistados] no número daqueles que percebiam a mídia como sendo imparcial e subiu em 50% o número daqueles que acreditavam que ela era parcial (de 26% para 39%).

EM SUA OPINIÃO, A MÍDIA COSTUMA SER MAIS: 2008//2009

--Imparcial: 60%//42%; Parcial26%//39%;

--Não sabe/não respondeu: 14%//19%

--Total: 100%//100%
Número de entrevistados: 2421//2400
Fonte: “Relatório de pesquisa de opinião pública – Interesse Público e Corrupção” – julho/2008 e julho/2009 – “Vox Populi e CRIP”.

MÍDIA COMO OBSTÁCULO

O outro capítulo do livro que enfrenta diretamente a questão da mídia foi escrito pelo professor Juarez Guimarães, da UFMG. Propondo uma pesquisa conceitual a partir dos dados empíricos da pesquisa CRIP/Vox Populi, ele identifica duas linguagens distintas de diagnosticar e combater a corrupção: numa, predomina a razão liberal e, na outra, a razão republicana.

A razão liberal é amplamente hegemônica na cobertura da grande mídia e se articula em torno de três núcleos de ideias: a corrupção dos políticos e do Estado é cada vez maior no Brasil; a base político-econômica dessa expansão da corrupção está no alargamento da intervenção do Estado e de suas funções e empresas; e, a base político-social desse fenômeno caracteriza um neopopulismo, com arranjos corporativos escusos, formação de clientelas, arrivismos nutridos no Erário e até, eventualmente, a formação de uma “nova classe financeira”.

Já a razão republicana, fundada no conceito de formação da República democrática brasileira, se estrutura em torno de três blocos de ideias: reconhece que está em curso um amplo e profundo processo de formação de uma cultura cidadã; idem que está em movimento, ao mesmo tempo, uma macrorreestruturação dos fundamentos econômicos e sociais da sociedade civil brasileira e um novo ciclo participativo (...) fazendo a interação entre instituições e movimentos ou representações sociais; e ibidem que está em processo inicial, diferenciado e desigual de formação republicana das instituições e dos procedimentos do Estado brasileiro, instituições exemplificadas na construção da Controladoria-Geral da União (CGU) e suas agendas.

Para Juarez Guimarães, além da ausência de financiamento privado dos partidos nas eleições, o grande obstáculo ao processo de formação republicana no Brasil é o “domínio privatista e oligopolista da mídia que desconecta os processos de formação da cultura cidadã e da opinião pública”.

Afirma ele:

Tratam-se de cinco fenômenos mutuamente configurados: grave redução do pluralismo político e cultural; supervocalização de alguns interesses privados e subvocalização de vastos setores sociais; deformação sistemática da objetividade da notícia e, inclusive, de uma legitimação da calúnia como instrumento de ação política; e partidarização indevida ou não revelada de canais e de meios de comunicação que deveriam ser públicos. É evidente que esse obstáculo à formação da opinião pública em uma sociedade democrática de vastas população e territorialidade incide sobre a percepção do fenômeno da corrupção, em particular devido à nítida matriz liberal que predomina quase inteiramente na mídia empresarial” (p. 100).

“A CORRUPÇÃO DO ESPAÇO PÚBLICO”

Na mesma linha do argumento republicano de Juarez Guimarães, o professor João Feres Júnior (IESP-UERJ), em artigo republicado no site do CRIP-UFMG sob o sugestivo título “A grande mídia e a corrupção do espaço público“, alertou recentemente:

Os órgãos da grande mídia continuam os mesmos, com os mesmos poucos donos, os mesmos editores e colunistas conservadores, os mesmos jornalistas. E esse constitui o principal problema da democracia brasileira atual: a corrupção do espaço público. A grande mídia ainda é responsável em boa medida pela informação da maior parte da população e, dessa maneira, é influente na formação da opinião pública. [...] Temos aqui uma tensão estrutural em uma sociedade que é ao mesmo tempo democrática e capitalista. A propriedade privada dos meios de comunicação, particularmente em seu formato oligopolizado, conduz à usurpação do espaço público em prol dos interesses dos poucos grupos que detêm os meios. Na prática, os proprietários têm poder de veto e de agenda sobre tudo o que é informado ao público. [...] A corrupção do espaço público é o calcanhar de Aquiles da democracia brasileira, e esse é um calcanhar enfraquecido, luxado, distendido. Sem um sistema de informação plural e responsável, não teremos uma formação saudável da opinião pública. Sem uma opinião pública bem informada, como poderemos esperar o aprimoramento das instituições, o avanço das questões normativas que se colocam constantemente perante uma sociedade democrática (proibição do porte de armas, aborto, eutanásia, bioética etc.) e mesmo a eleição de melhores quadros de representantes?”

Diante de todos esses dados e análises – alguns, aparentemente contraditórios – e para além dos efeitos de curto prazo identificados (ou não) nos processos eleitorais, é inegável que a grande mídia desempenha papel de longo prazo na formação da opinião pública, incluindo, por óbvio, a percepção sobre a corrupção.

O que está de facto em jogo, no entanto, é “a corrupção do espaço público” como obstáculo central à construção de uma democracia republicana. Ela não será possível sem que se criem as condições estruturais necessárias para a formação de uma opinião pública democrática, plural e diversa. Vale dizer, para que mais vozes sejam ouvidas e participem do espaço público através da universalização da liberdade de expressão.

A ver.”

FONTE: escrito por Venício A. de Lima, jornalista e sociólogo, pesquisador visitante no Departamento de Ciência Política da UFMG (2012/2013), professor de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor de “Política de Comunicações: um Balanço dos Governos Lula (2003-2010)”, “Editora Publisher Brasil”, 2012, entre outros]. Artigo extraído do “Observatório da Imprensa” e transcrito no site “Carta Maior”  (http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=5838) e no portal de Luis Nassif  (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-cobertura-do-mensalao-e-a-formacao-da-opiniao-publica) . [Imagem do Google e trecho entre colchetes adicionados por este blog ‘democracia&política’].
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Declarações infelizes dos deputados Artur Bruno e José Airton

Escrito por Deodato Ramalho - advogado e eleito vereador de Fortaleza
Vejo agora na coluna Vertical do jornal O POVO duas declarações de dois dos nossos deputados federais Petistas, dos meus estimados amigos Artur Bruno e Zé Airton, que, se confirmadas, são um insulto ao partido, aos nossos militantes e aos postulados da democracia. O primeiro, simplificando, diminuindo os gravíssimos fatos da eleição de domingo, que, na verdade, não se resumiu a compra de votos, mas a um processo intimidatório com a utilização da força do dinheiro e da máquina pública, que mobilizou milhares de pessoas para fazer a mais escancarada, pesada e agressiva boca de urna; o segundo, coloca a história do Partido dos Trabalhadores no mesmo balaio de partidos oportunistas que, passada a eleição, adere de mala e cuia a quem ganhou. O companheiro Zé Airton deveria lembrar de 2002... Além do mais, querer o prefeito "eleito" Roberto Cláudio a adesão do PT é o mesmo que já começar muito mal com a sua base político-ideológica (não coloca como base os eleitores que votaram pela força da compra e da intimidação), declaradamente antipetista e que, com certeza, não aceitará esse primeiro golpe. Meu amigo deputado Artur Bruno a máxima "ao vencedor, as batatas" se refere a campos de batalha sem regras, sem limites. Na democracia existem regras estabelecidas, que, uma vez rompidas, pede-se a devolução das batatas. Adalberto Alencar Rafael Tomyama Elmano de Freitas Jameson Igor Vota Elmano Elmano Daniel Pagliuca Cynthia Studart Albuquerque Guilherme Sampaio Perfil Lotado Chico Neto
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MINISTRO DO DESENVOLVIMENTO REBATE CRÍTICAS DE PROTECIONISMO

“O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel, rebateu na quarta-feira (31) críticas dos países desenvolvidos de que "o Brasil adote medidas protecionistas no comércio exterior". Segundo o ministro, o Brasil tem acionado com mais agilidade e eficiência os mecanismos de defesa comercial, porque aumentaram as práticas desleais no mercado internacional.

Deve continuar e até aumentar esse tipo de crítica porque é uma reação esperada dos países desenvolvidos que enfrentam enormes dificuldades em seus próprios territórios e precisam desesperadamente desembarcar em mercados como o brasileiro. Dizer que é protecionismo os processos antidumping é desconhecer as regras mais elementares da OMC [Organização Mundial do Comércio]”, disse, após participar de reunião de balanço do “Plano Brasil Maior”.

Segundo Pimentel, o Brasil vai defender de forma legítima seu mercado das práticas ilegais. “Poucos mercados são tão afluentes e abertos como o brasileiro. O Brasil tem alto coeficiente de importação, por isso ele é tão cobiçado, o que não vamos admitir são práticas predatórias e desleais de comércio internacional. A essas práticas reagimos dentro das normas da OMC”, avaliou.

Pimentel participou de reunião para avaliar o “Plano Brasil Maior”, lançado em agosto de 2011. O plano é dividido em três grandes blocos e um deles prevê medidas de estímulo às exportações e defesa comercial. Os demais têm ações para redução dos custos de trabalho e do capital e de estímulo ao desenvolvimento das cadeias produtivas.”



FONTE: da Agência Brasil; transcrito no portal “Vermelho”  (http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=197851&id_secao=1).
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Argentina: INSTRUÇÕES PARA PREPARAR PANELAÇO

“Povo” no Cacerolazo, contra a restrição à compra de dólares

“O ato de 8 de novembro que vem sendo convocado pelas redes sociais é organizado em minúcias (a recomendação de vestuário, por exemplo, tem por objetivo impedir imagens de senhoras e senhores elegantes batendo panelas de grife), e faz parte de uma polarização cada vez mais aguda insuflada tanto por grandes conglomerados do agronegócio, dos grandes grupos de comunicação, dos segmentos mais conservadores da Igreja Católica e dos setores mais recalcitrantes da direita mais radical.

O artigo é de Eric Nepomuceno

Conforme 2012 se encaminha para a reta final, aumenta a tensa polarização vivida na Argentina – e valentemente insuflada pelos grandes grupos da comunicação, acastelados ao redor dos jornais Clarín e La Nación – entre partidários e adversários do governo da presidente Cristina Kirchner e, principalmente, entre os que apoiam e os que criticam o projeto de país implantado a partir de 2003, com a chegada ao poder do falecido presidente Néstor Kirchner e levado adiante pela sua viúva.

A guerra aberta travada entre o grupo Clarín e o governo tem data para o embate decisivo, que poderá ser o derradeiro: 7 de dezembro, a primeira sexta-feira do mês. Nesse dia, e a menos que até lá a Justiça mude de ideia e de rumo, expira a liminar concedida ao grupo, que deverá cumprir o que determina a Lei de Meios, aprovada pelo Congresso por maioria absoluta, com amplo apoio inclusive da oposição. Ou seja: terá de ‘desenvestir’, eufemismo para se desfazer de parte substancial de suas licenças para cumprir o que estabelece a nova legislação. A lei estabelece limite máximo de 24 licenças de rádio e canais de televisão a cabo. Atualmente, o grupo Clarín detém 270, controla 47% do mercado, e delas obtém 70% de sua receita. É compreensível que tenha anunciado que não cumprirá a lei.

Antes do 7 de dezembro, porém, há outra data anunciada para mais um confronto aberto entre seguidores e críticos do governo: a quinta-feira, 8 de novembro. Para esse dia, está sendo convocado, pelas redes sociais – que na Argentina têm grande peso específico –, uma nova manifestação nas ruas de Buenos Aires e das principais cidades do país, tendo como foco central a Praça de Maio e a Casa Rosada, sede do governo.

Até agora, e sobretudo a partir do panelaço ocorrido em setembro e que reuniu mais de 200 mil manifestantes em todo o país (dos quais, pelo menos, a metade em Buenos Aires), defendia-se a tese de que se tratava de ‘manifestações espontâneas’, como se não fosse algo milimetricamente organizado. Já não tem mais jeito de se defender essa versão: um muito bem azeitado mecanismo de difusão e preparação divulgado pela internet mostra que a coisa é muito bem organizada. Tanto é assim que existe recomendação, até mesmo, para o tipo de roupa a ser usada (camiseta branca, calças escuras, tênis ou sapatos confortáveis) e instruções claras para as palavras de ordem.

E é aí que o suflê ameaça desandar no forno. Há quem proponha que se grite ‘Basta às drogas’ e quem queira reivindicar ‘Educação sexual para a juventude’, quem defenda um sonoro ‘Basta de querer doutrinar nossos filhos’, quem reivindique ‘Basta de impunidade’, sem se referir exatamente a qual. Não há nenhuma recomendação para temas que sobressaíram no panelaço do dia 13 de setembro, como a reivindicação ao 'direito de comprar dólares'.

Outras recomendações são interessantes, como a de não falar com a imprensa, para evitar ‘que os meios oficialistas’ desvirtuem as declarações espontâneas dos manifestantes, ou a de evitar ‘protagonismos pessoais’, referência direta a Yamil Santoro, que teve a peregrina ideia de participar do ato de setembro totalmente nu. Foi preso, é claro, mas usufruiu um momento fugaz de fama.

Os partidos políticos insistem em querer se manter à margem, mas trata-se de tentativa frustrada. O PRO, do prefeito de Buenos Aires e potencial candidato às eleições presidenciais de 2015, Mauricio Macri, pretende não aparecer, mas em muitas das páginas de internet e das redes sociais que convocam o ‘ato espontâneo’ algumas de suas estrelas são especialmente enfáticas.

Tudo isso seria curioso e pitoresco, se não fosse possível uma constatação nítida: o ato é organizado em minúcias (a recomendação de vestuário, por exemplo, tem por objetivo impedir imagens de senhoras e senhores elegantes batendo panelas de grife enquanto reclamam contra sabe-se lá o quê), é parte de uma polarização cada vez mais aguda insuflada tanto por grandes conglomerados do agronegócio, dos grandes grupos de comunicação, dos segmentos mais conservadores da Igreja Católica e dos setores mais recalcitrantes da direita mais radical, os mesmos que protestam com veemência contra a aplicação da Justiça aos responsáveis e aos cúmplices do terrorismo de Estado implantado durante a mais recente ditadura militar (1976-1983) que sacudiu o país.

Cristina Kirchner enfrenta uma série de problemas, a começar pela forte desaceleração da economia e da crescente dificuldade para obter divisas e honrar seus compromissos em dólares, para não mencionar uma inflação galopante que seu governo teima, de maneira tão torpe como obstinada, em negar. Numa população extremamente politizada, o risco de exacerbar tensões é muito alto, e essa polarização tem se acentuado nitidamente este ano.

Depois do panelaço anunciado com antecipação e organizado em detalhes, resta ver qual será a reação do governo. Haverá um intervalo curto de tempo –um mês – até a grande batalha contra o grupo que controla, praticamente em regime de monopólio, os meios de comunicação do país. Ou seja: há muita tensão, e tensão enorme, no ar.”

FONTE: escrito por Eric Nepomuceno no site “Carta Maior”  (http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=21177) [Imagem do Google e sua legenda adicionadas por este blog ‘democracia&política’].
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RELAÇÕES DOS EUA COM O MUNDO ÁRABE MUDARÃO

Robert Fisk

VENÇA QUEM VENCER, OBAMA OU ROMNEY: AS RELAÇÕES DOS EUA COM O MUNDO ÁRABE MUDARÃO


Por Robert Fisk, escritor e jornalista inglês, em “Information Clearing House”, no jornal do Reino Unido “The Independent”

“Depois dos gestos e palavras de amor eterno de Obama-Romney a Israel, semana passada, os árabes puseram a pensar para decidir, com calma, qual dos dois candidatos seria melhor para o Oriente Médio. Parece que preferirão Barack Obama; mas o problema – como sempre – é o fato triste, patético, obscenamente óbvio, de que essa decisão não fará nem um átomo de diferença.

George Bush invadiu o Iraque depois de dar permissão a Ariel Sharon para prosseguir na colonização da Cisjordânia ocupada. Obama caiu fora do Iraque, ampliou a guerra de aviões-robôs, os drones, na fronteira Paquistão-Afeganistão e depois meteu o rabo entre as pernas, quando Benjamin Netanyahu informou-o de que nem se discutiria qualquer possibilidade de Israel retirar-se para as fronteiras de 1967. Em vez de ordenar “Sim, Israel se retirará”, como presidente forte e independente, Obama lá ficou, encolhido em sua poltrona na Casa Branca, enquanto o Primeiro-Ministro de Israel lhe dizia, com todas as letras, que a Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU – o próprio fundamento do inexistente “processo de paz” – era letra morta.

Desde então, Mitt Romney, que parece entender tanto de Oriente Médio quanto aquele pastor texano que queimou um Corão, só faz repetir que os palestinos “não têm interesse algum em fazer a paz” e até hoje ainda não conseguiu explicar satisfatoriamente por que, em 2005, como governador de Massachusetts, mostrava-se tão interessado em instalar escutas clandestinas em mesquitas. Assim sendo, só resta desejar boa sorte aos árabes.

Mas a verdade é que o próximo presidente não terá liberdade para definir qualquer política independente para o Oriente Médio. O amancebamento com Israel continuará – a menos que Israel ataque o Irã e arraste os EUA para mais uma guerra no Oriente Médio.

De novidade, isso sim, é que, pela primeira vez na história dos EUA, o candidato que consiga ser eleito presidente terá de lidar com um novo mundo árabe, com um novo mundo muçulmano.

O "Despertar Árabe" na Praça Tahrir no Cairo, Egito (Junho/2012)

O ponto crítico é que o “Despertar Árabe” (acabemos, por favor, para sempre, com a conversa de “primavera”) manifesta a voz de gente que exige ser tratado com dignidade. Há aí também muçulmanos não árabes – e que outra coisa seria, senão isso, a minirrevolução dos Verdes iranianos, depois das últimas eleições no Irã?

E devem-se somar os milhões de muçulmanos que vivem na parte do mundo que nós ainda gostamos de chamar de Oriente Médio – que nada parece ter de “médio”, para quem viva lá – e que, agora, também planejam tomar decisões próprias, baseados nos próprios desejos, não nos desejos dos sátrapas ex-presidentes e dos patrões dos sátrapas, em Washington. La Clinton continua sem dar sinais de ter percebido isso. Obama talvez veja. Romney? Aposto que não acertaria o nome de nenhuma das nações da região, no mapa, exceto um, claro.

Ao contrário do que o ocidente crê, que os árabes estariam lutando por “democracia”, a batalha e a tragédia do Oriente Médio hoje – e seja qual for o saldo da revolução “soft” na Tunísia ou da carnificina na Síria – acontecem em torno da palavra “dignidade”, sobre o direito de, como ser humano, dizer o que deseja que seja feito a quem ele decida dizer, e nunca mais admitir que um déspota se apresente como proprietário de um país inteiro (desde que autorizado a tanto pelos EUA) e trate, países e cidadãos, como se fossem sua propriedade privada.

Sim, revoluções são confusas. A revolução egípcia não saiu como se pensou que sairia. A Líbia está rachando ao meio. A Síria é um cataclismo. Mas o povo árabe, afinal, começou a falar e, doravante, os árabes saberão exigir que seus presidentes e primeiros-ministros obedeçam aos seus desejos, não a ordens de Washington ou de Moscou.

Diferentemente da crença cara aos Romneys, para os quais haveria déficit de valores civilizacionais entre os árabes – que perderiam de longe para os valores da civilização de Israel – os povos do Oriente Médio estão comprovando exatamente o contrário. É processo lento, negócio demorado: todos os leitores que, neste momento, leem este artigo já estarão mortos, ou muito velhos, antes que a “revolução” árabe se complete.

Mas os tempos em que presidentes dos EUA davam instruções aos potentados do Oriente Médio sobre o que dizer e fazer, esses tempos estão acabando. Ainda demorará para que venha abaixo o regime saudita, com todas as outras bombas de gasolina espalhadas pelo Golfo. E é preciso dizer que a tragédia dos palestinos, provavelmente, está e sempre esteve no coração do Despertar Árabe.

Enoch Powell

Infelizmente, os palestinos são os únicos que não se beneficiam das revoluções árabes. Já não resta terra suficiente, aos palestinos, para que tenham Estado seu. Aí está um fato acima de qualquer enrolação (rig. above peradventure [1])(como dizia Enoch Powell [2]).

Quem ainda duvida, compre passagem e voe até Israel e olhe para a Cisjordânia. Não há mais espaço para os palestinos; essa é a tragédia real que os presidentes dos EUA, sejam quais forem, têm de encarar nos anos futuros.”

NOTAS DE TRADUÇÃO

[1] Orig. “[acima de] peradventure”. Termo arcaico, em desuso. A expressão “Acima de peradventure” significa “acima” ou “à prova” de qualquer argumento real ou inventado, e até, como os tradutores preferiram, “acima de qualquer enrolação”. Tradução tentativa. Todos os comentários, correções e sugestões são bem-vindos.
[2] Enoch Powell (1912-1998). Deputado conservador, ministro da Saúde da Grã-Bretanha nos anos 60. Foi poeta e linguista. Famoso por um discurso “Rios de sangue”, de 1968, contra a entrada de imigrantes na Inglaterra, considerado racista (em inglês).”

FONTE: escrito por Robert Fisk em “Information Clearing House”, no “The Independent”, sob o título original “Regardless of whether Obama or Romney wins, America's relations with the Arab World will change”. Postado no blog “Redecastorphoto” traduzido pelo “pessoal da Vila Vudu”  (http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/10/venca-quem-vencer-obama-ou-romney-as.html).
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