O apocalipse segundo Leonardo Boff

Ao mesmo tempo em que é a fonte de algumas das melhores opiniões sobre a crise europeia, incluindo artigo do mestre Amartya Sen e os dados precisos e esclarecedores de Saul Leblon, a Carta maior dá espaço às fantasias de Leonardo Boff, o que é no mínimo bizarro, pois é difícil entender como uma editoria que escolhe tão bem uns artigos pode ser tão frouxa com outros. Talvez Boff esteja apenas passando por uma má fase, não sei, mas eis suas bizarras teses:
1.       O capitalismo destroi a natureza e o trabalho (Tese a priori sobre a natureza do capitalismo)
2.      A quantidade de natureza e de trabalho a ser destruída está acabando (É um problema de oferta e procura!)
3.      Se não há natureza ou trabalho a destruir, então o capitalismo acaba (Primeiro condicional boffiano)
4.      Portanto, o capitalismo está a ponto de acabar (Segue de 1, 2 e 3)  
Tirando a vaga menção ao nome de Karl Marx, acompanhada do adjetivo “profético”, o qual é interessante quando usado por um teólogo, não há o devido esclarecimento sobre nada disso. Ao invés da clareza e da precisão de Saul Leblon, Boff só nos apresenta afirmações sem bases adequadas, e um adjetivo. É claro, a premissa 3 recebe arremedos de esclarecimentos. Um deles é uma pergunta retórica:
«Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.»
É intrigante que Boff considere que o capitalismo, especificamente, não possa “se reproduzir sem a natureza”, mas nada diga sobre outros modos de organização econômica e política, seja esse a sociedade neolítica ou o mundo burguês dos Jetsons. Ele por acaso conhece alguma alternativa social que “se reproduz” sem ecossistema algum, “sem a natureza”? Sou todo ouvidos. Caso ele não conheça tal alternativa social, a qual seria independente de mundo algum, eu diria que ele deveria ter dito algo um pouco diferente de 3. Por exemplo:
3’. Se não há natureza, então não há organização social alguma
O que é apenas uma trivialidade, dado que para haver alguma organização social, capitalista ou não, é preciso haver seres humanos, e esses requerem um habitat, como ocorre com todos os animais. Vamos combinar que seria abuso colocar na boca de Marx um lugar comum desses.

As explicações de Boff sobre o trabalho são mais intrigantes. Lembre que ele está dizendo que o capitalismo precisa da oferta de trabalho a “destruir” para “se reproduzir”. Assim sendo, o capitalismo chegaria ao fim por não ter mais trabalho a explorar. Mas Boff, no seu arremedo de explicação, nos diz que ocorre o contrário: há cada vez mais desempregados – logo, haveria cada vez mais trabalho a explorar! A razão de Boff para aceitar que o capitalismo vai acabar por não haver mais trabalho a explorar nos leva a crer no contrário, isto é que há cada vez mais trabalho a explorar. Bizarro, indigno da vizinhança de Saul Leblon, Immanuel Wallerstein e Amartya Sen.

Em seguida Boff apresenta uma “segunda razão” para seu apocalipse. Só que é uma razão para um argumento diferente:
5.      Se o capitalismo gera uma crise humanitária em nível global, e os cidadãos do mundo todo se rebelam contra o capitalismo, então o capitalismo acaba (Segundo condicional boffiano)
6.      O capitalismo tá gerando uma crise humanitária em nível global, e os cidadãos do mundo todo se rebelam contra o capitalismo (Baseado nas reportagens sobre os indignados da Espanha)
7.      Portanto, o capitalismo tá acabando (Segue de 5, 6)
O problema aqui é, primeiro, a ambiguidade da rebelião contra o capitalismo. Certo, como Boff indica, há protesto aqui e ali (não global...), principalmente na Europa, contra o rentismo. Mas isso não quer dizer, por si só, que os indignados querem algo diferente do capitalismo. A meu ver, o que eles querem é, justamente, oportunidades para prosperarem na sociedade capitalista, o que eles não tão tendo.

O problema também é, segundo, que crises humanitárias não são suficientes para acabar com um sistema social, nem hoje nem nunca. É mero pensamento positivo achar que um sistema cai porque faz mal pra saúde.

Em seguida vem uma pérola sobre ensino técnico e esclarecimento, mais ou menos assim:
8.     Se alguém faz ensino técnico, então passa a conhecer a natureza perversa do capitalismo (Terceiro condicional boffiano)
9.      O capitalismo faz cada vez mais pessoas cursarem ensino técnico (Que seja)
10.  Portanto, o capitalismo faz cada vez mais gente conhecerem sua natureza perversa (Segue de 8, 9)
Este argumento é curioso por três motivos. Antes de tudo, por motivos sociológicos: o ensino técnico, tão apedrejado por certos defensores de Paulo Freire, ganhou Boff como defensor!

O argumento também é curioso por supor que aprender a pilotar uma empilhadeira é descobrir a natureza profunda do capitalismo. Ler O capital pra quê?

Por fim, o argumento é curioso por implicar, de maneira hilária, que se alguém descobre que algo é “perverso”, então essa pessoa tenta destruir tal fonte de perversidade. ¡LOL!

Enfim, este tipo de geleia mental não é digna de um site que nos dá bases sólidas para a formação de opiniões, como a Carta maior. Tá mais pra notícia do Sensacionalista
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Friagem velha!

Charge feita em julho de 2000, um ano que também foi frio pra cacete!
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Rango

Esferográfica e aquarela.
Publicado in jornal Extra Classe (P.Alegre/RS, julho/2011)
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Olé & Repé

Nanquim (bico de pena), meio tom eletrônico
Publicado in Jornal do Mercado ( P. Alegre/RS, jun/2011)
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OS DONOS DA PRAIA


Eles gostam de invadir uma praia...
    
     Impressiona a propensão que alguns tem, no Brasil, para misturar o público com o privado. A coisa é feita com tanta naturalidade, que parece o exercício regular de um direito. Mas, de vez em quando, alguém é pego com a boca na botija.
     A bola da vez foi o “bonzinho” Luciano Huck que faz, em seu programa semanal na televisão, filantropia com o dinheiro alheio em troca de merchandising na tela global.
     A juíza da 1ª Vara Federal de Angra dos Reis, Maria de Lourdes Coutinho Tavares, condenou Luciano ao pagamento de R$ 40 mil por ter instalado um cerco de boias em frente à casa que possui na Ilha das Palmeiras, em Angra dos Reis, sem autorização ambiental, em ação proposta pelo Ministério Público Federal. 
     O apresentador tentou aplicar a desculpa fria de que pretendia praticar a maricultura (cultura de mariscos), mas a juíza concluiu que ele não tinha licença para esse tipo de atividade e que pretendia, de fato, afastar as pessoas que quisessem ir à praia. Caso não cumpra a ordem de retirar as bóias, Huck ainda terá de pagar R$ 1 mil por dia.
     Mas a coisa não é nova: em decisão publicada no último dia 22 de junho, o apresentador também foi condenado a pagar outra multa por ter descumprido uma decisão anterior em caráter de liminar que determinava a retirada das bóias.
     Ou seja, mesmo condenados, eles resistem a cumprir as decisões judiciais.
     Ocorre que Huck não está sozinho na busca pela exclusividade litorânea. Sabem quem já também tomou uma condenação por fechar praia? Nada menos que o “Barão do Aço” gaúcho, o “honorável”empresário Jorge Gerdau Johannpeter!
     Pois o “Dr. Jorge”, para o qual todas as forças políticas do Rio Grande do Sul se curvam e aceitam seu dinheiro para campanhas eleitorais (chegou a perguntar, diante de uma platéia de silenciosos vereadores de Porto Alegre, “afinal, quanto custa fazer uma lei?”, como se fazer leis fosse o mesmo que fazer tijolos) fechou, anos atrás, a Praia Vermelha, em Santa Catarina, onde tem mansões, proibindo não apenas os turistas de desfrutar o local, mas também os pescadores que tem, naquela praia, o acesso ao seu meio de vida.
     Como Gerdau comprou todas as propriedades no entorno da praia, que tem uma enseada com dois morros nas extremidades, achou que poderia colocar portões e guaritas com guardas impedindo o acesso de pessoas ao local.
     Processado a partir de denúncias de pescadores junto ao Ministério Público Federal (veja aqui e aqui), Gerdau teve que devolver a praia ao público e, ainda, teve que dar servidão de passagem aos pescadores através da sua propriedade para o escoamento da pesca efetuada a partir da praia Vermelha, além de indenizá-los pelos prejuízos sofridos.
     Este modesto comerciante de bugigangas teve a oportunidade de ir até o local, anos atrás e, por acaso, conversar com os pescadores, já vitoriosos, e avistar as guaritas instaladas nos morros, abandonadas pelo “homem bom” Jorge Gerdau.
     Estes são os homens que a mídia ordinária tenta vender como modelos a serem seguidos. Mas que quando tratam dos seus interesse exclusivos, deixam cair o verniz de homens íntegros e assassinam a ética e o respeito à lei, como se para eles tudo fosse possível. São personagens de um Brasil atrasado, deslocado no tempo, mas que teima em manter privilégios ilegítimos, mantendo vivo o odioso patrimonialismo do qual não conseguimos nos livrar.
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