Conversei com o jornalista Alexandre Machado no programa Começando o dia, que ele dirige diariamente na Rádio Cultura FM 103,3 das 8 às 9 da manhã.
A conversa foi sobre política, tentando avaliar rapidamente o panorama atual e o comportamento de alguns protagonistas do jogo político nacional.
Dispobilizo abaixo o audio da conversa, com a intenção adicional de incentivar as pessoas a sintonizarem o programa do Alexandre, que sempre traz coisas interessantes e nos ajuda a compreender o mundo.
O momento político nacional - entrevista
QUEM É QUEM
Vereadores assistencialistas:
Oliveira da Ambulância
Eurico Dino
Gilberto da Agrolombo
Nivaldo JNP
OLIVEIRA DA AMBULÂNCIA – Atualmente no segundo mandato com pouquíssima contribuição para o município.
No primeiro mandato teve envolvimento com a justiça, e se segura fazendo assistencialismo barato, alíás, tem custo. Ao invés de exercer as funções de vereador que é de legislar e fiscalizar, além do compromisso de trabalhar pela cidade como um todo, o vereador Oliveira recebe seus salários – que sai do nosso bolso – para cuidar de seus próprios interesses. Seu gabinete possui três (3) assessores dos quais dois (2), trabalham na famosa “Casa do Povo”, que é uma entidade particular do vereador, utilizada para fazer política. Esses assessores recebem salários da Câmara Municipal de Colombo, pagos por todos nós.
Com um salário de aproximadamente R$ 5.500,00 (Cinco mil e quinhentos reais) mais três assessores, cada um recebendo (...) R$ 3.700,00 (Três mil e setecentos reais) líquidos, soma-se um total de quase R$ 20.000,00 (Vinte mil reais) por mês, para “trabalhar” fora de suas funções, pois a “Casa do Povo”, repito, é um empreendimento particular com fins eleitoreiros.
Pelo que sabemos o município tem uma Secretaria de Ação Social que é responsável pelo atendimento de nossa população.
As ambulâncias do vereador Oliveira não possuem condições e nem estrutura para transportar qualquer paciente; estando, portanto, em total desacordo com as normas do Ministério da Saúde. Esses veículos circulam em nossa cidade apenas causando poluição com um som em alto volume fazendo propaganda política.
O vereador Oliveira é politicamente ridículo, sem preparo, sem conteúdo e sem ideologia, sendo – como tantos outros – um castigo para nossa cidade.
O vereador deseja ser prefeito. Que ofensa aos eleitores!
É o cúmulo do absurdo!
Leituras enviesadas
Não houve quem não tenha lido, comentado ou tomado posição. Sinal de que havia ali algo incômodo: uma provocação eficiente, uma verdade finalmente revelada ou a confirmação cabal de algo conhecido mas que parecia esquecido.O artigo publicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na revista Interesse Nacional levantou poeira por todos os lados. Pautou o processo político, embora tenha manifestado dificuldade de obter ressonância prática, a começar no terreiro mesmo de seu partido, o PSDB.A efervescência por ele provocada foi tão intensa que ficou difícil realçar seu núcleo argumentativo. Quem tentou fazer isso foi estigmatizado como apoiador do ex-presidente, tucano enrustido ou antipetista visceral. Alguns foram tachados de prepotentes por quererem ensinar os demais a lerem um texto simples, claro como a luz do sol, que nada mais seria que a confissão do sobejamente conhecido elitismo de FHC.Isso porque o ex-presidente escreveu que a oposição, se quiser voltar ao centro do palco, precisa dar mais atenção às emergentes classes médias que se descolam do “povão” e parecem estar em busca de quem as represente na política nacional. Foi uma frase contundente, mas muitos leitores, em vez de a interpretarem literalmente – como uma diretriz política e eleitoral –, preferiram desconstrui-la para salientar o propalado “horror de FHC ao povo”. Ejetaram o ex-presidente do campo democrático.Foi desonesto, ainda que politicamente compreensível. Pior foi o que se seguiu. O líder petista Lula, instado a se manifestar, não perdeu a chance de soltar uma sentença que tem tanto de rusticidade quanto de malícia: “O povão é a razão de ser do Brasil”. Para emendar, aproximou FHC do ditador João Figueiredo, que “preferia o cheiro de cavalos ao cheiro do povo”. Tentou amenizar, observando que não conseguiu "entender o que FHC quis dizer", mas esse acesso de modéstia não diminuiu o peso da grosseria, que evidentemente repercutiu.A discussão deixou de lado o bê-á-bá. Se um tucano, querendo vencer as próximas eleições, percebe que parte do eleitorado está sob controle do adversário, se percebe que o "povão" está com o PT, por exemplo, a atitude mais inteligente é ir atrás do restante. Essa a tese do artigo. Ao formulá-la, FHC também fez política. Autoelogiou-se, forçou a barra ao atacar a situação, não perdoou sequer seu próprio partido. Com isso, atraiu a fúria dos céus. Disse que o PSDB e seus aliados falarão sozinhos se persistirem em disputar com o PT a influência sobre “as massas carentes e pouco informadas”, dando margem a que se visse nisso um desprezo por elas. Acrescentou que o PT controla o “povão” porque seus governos “aparelham e cooptam com benesses e recursos” que são mais eficazes do que a palavra dos oposicionistas, permitindo que se o criticasse pela parcialidade, ou seja, por não reconhecer que os governos tucanos também se valem de benesses e cooptação quando gerenciam suas políticas públicas.Foram frases cortantes, parciais, discutíveis, mas não propriamente falsas. Seu ponto era definir o público-alvo das oposições: todo o vasto segmento social integrado pela classe média, pelas novas classes possuidoras, pelos novos profissionais. Um segmento que, em sua visão, estaria ausente do jogo político-partidário, ainda que viva profundamente conectado nas redes sociais. Se as oposições forem ousadas e buscarem interpelá-lo, encontrarão um eixo e poderão voltar a sorrir. Delineou-se assim um ambicioso “programa” de ação: disputar a hegemonia na política, não somente o controle de recursos de poder. A mensagem deu destaque à retomada da circulação de ideias via rede de palestras, artigos e debates que “mergulhem na vida cotidiana e tenham ligações orgânicas com grupos que expressam as dificuldades e anseios do homem comum”. Fixar um público e caprichar na explicitação do conteúdo da mensagem.Acontece que o público definido pelo ex-presidente é objeto de desejo de todos os políticos: as classes médias, setor sabidamente informe e mal conhecido, cercado de desconfianças políticas e ideológicas, mas predestinado a crescer sempre mais. Inevitável que seja alvo de cobiça e atenção. Tanto que Lula, no vácuo aberto pelo artigo de FHC, não se fez de rogado e propôs aos petistas que façam concessões à direita para minar a prevalência do PSDB em São Paulo. Ir para a direita, nesse dialeto, significaria aliar-se a políticos conservadores e avançar sobre a nova classe média e os "órfãos do malufismo e do quercismo". Linguagem cifrada à parte, Lula copiou FHC.O diálogo político com a classe média integra toda plataforma democrática e progressista. Promovê-lo não poderia significar “ir para a direita”, do mesmo modo que aqueles que estão ao lado do povo não são necessariamente de esquerda. Tanto quanto classe média, "povão" é termo genérico e impreciso. Pode significar o conjunto dos pobres, as massas carentes, os desorganizados ou mesmo aqueles que não têm uma classe definida. Qualquer posição política interessada de fato em construir uma sociedade melhor concebe esse segmento como algo a ser superado, não como objeto a ser conquistado eleitoralmente.Entre classes, ideologias e votos não existem alinhamentos automáticos. Uma política progressista, de esquerda, que discrimine setores sociais correrá o risco de trair a própria causa, de praticar uma política “social” e não uma política de Estado voltada para a comunidade como um todo. Além do mais, a classe média é um fato da vida e cresce na medida mesma em que se mostram eficazes as políticas sociais destinadas a reduzir a pobreza. O pobre que deixa de ser pobre pode até ser agradecido ao governo que o libertou, mas estará disponível para novas aventuras políticas pelo fato mesmo de ter ingressado em outro universo social.Ao abrir essa discussão, o artigo de FHC lançou um repto a todos. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 23/04/2011, p. A2]
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