A pobreza da ditadura

Dani Rodrik, publicado no Valor Econômico (10/02/2011)

O dado mais notável na recém-lançada edição de 20º aniversário do Relatório de Desenvolvimento Humano, da Organização das Nações Unidas (ONU), talvez seja o desempenho surpreendente dos países muçulmanos do Oriente Médio e Norte da África. Em termos de avanço no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) nos últimos 40 anos, a Tunísia ficou na sexta colocação entre 135 países, à frente da Malásia, Hong Kong, México e Índia. 

Não muito atrás estava o Egito, em 14º lugar.O IDH é um indicador de desenvolvimento que reflete avanços em saúde e educação, juntamente com o crescimento econômico. O Egito e (especialmente) a Tunísia foram bastante bem no front do crescimento, mas brilharam mais em indicadores mais abrangentes. A expectativa de vida na Tunísia, de 74 anos, supera a da Hungria e Estônia, com mais que o dobro de sua riqueza. No Egito, 69% das crianças estão na escola, índice similar ao da Malásia, muito mais rica. Claramente, esses países não deixaram de fornecer serviços sociais ou de distribuir os benefícios do crescimento econômico. 

Ainda assim, no fim das contas, isso não importou. As populações egípcia e tunisiana estavam, parafraseando Howard Beale, "mad as hell" (totalmente enfurecidas) com seus governos e "não iriam mais tolerar aquilo". Se Zine El Abidine Ben Ali, da Tunísia, ou Hosni Mubarak, do Egito, esperavam popularidade política como recompensa pelos ganhos econômicos, devem ter ficado terrivelmente desapontados. 

Uma lição do "annus mirabilis" árabe é que uma economia boa nem sempre significa uma política boa; a duas podem pegar caminhos separados durante muito tempo. É verdade que os países mais ricos do mundo são quase todos democracias. Mas a política democrática não é condição necessária nem suficiente para o desenvolvimento econômico ao longo de várias décadas. 

Apesar dos avanços econômicos registrados, Tunísia, Egito e muitos outros países do Oriente Médio continuaram países autoritários, governados por pequenos grupos, com corrupção, clientelismo e nepotismo por todos os lados. A classificação desses países em termos de corrupção e liberdade política é de contraste gritante com a de seus indicadores de desenvolvimento. 

Crescimento econômico elevado não compra estabilidade política por si só, a não ser que as instituições políticas possam desenvolver-se e amadurecer com a mesma velocidade. O próprio crescimento econômico gera mobilização, fonte de instabilidade política. 

Na Tunísia, a Freedom House relatou, antes da Revolução de Jasmim, que "as autoridades continuavam assediando, prendendo e detendo jornalistas e blogueiros, ativistas dos direitos humanos e opositores políticos do governo". O governo egípcio estava em 111º lugar entre 180 países na pesquisa de corrupção de 2009 da Transparência Internacional. 

E, é claro, o contrário, também é verdadeiro: a Índia é uma democracia desde a independência em 1947 e, ainda assim, o país só começou a escapar de sua baixa "taxa de crescimento hindu" no início dos anos 80. 

Uma segunda lição é que crescimento econômico elevado não compra estabilidade política por si só, a não ser que as instituições políticas possam desenvolver-se e amadurecer com a mesma velocidade. Na verdade, o próprio crescimento econômico gera mobilização social e econômica, uma fonte fundamental de instabilidade política. 

Como disse há mais de 40 anos o falecido cientista político Samuel Huntington, "a mudança social e econômica - urbanização, aumento na alfabetização e educação, industrialização expansão dos meios de comunicação de massa - aumenta a consciência política, multiplica as demandas políticas, amplia a participação política". Some-se a isso, agora, as redes de relacionamento social como Twitter e Facebook e as forças de desestabilização que as rápidas mudanças econômicas colocam em movimento podem tornar-se devastadoras. 

Essas forças ficam mais potentes quando aumenta a diferença entre a mobilização social e a qualidade das instituições políticas. Quando as instituições políticas de um país são maduras, respondem às exigências de baixo, por meio da combinação de acomodação, reação e representação. Quando não são desenvolvidas o suficiente, se fecham a essas mudanças, na esperanças de que vão embora - ou sejam "compradas" por melhorias econômicas. 

Os eventos no Oriente Médio demonstram de forma ampla a fragilidade do segundo modelo. Os manifestantes em Túnis e Cairo não protestam pela falta de oportunidades políticas ou por serviços sociais deficientes. Reclamavam contra um regime político que consideravam isolado, arbitrário e corrupto, que não lhes dava voz suficiente. 

Para conseguir lidar com essas pressões, um regime político não precisa ser democrático no sentido ocidental do termo. É possível imaginar sistemas políticos ágeis em suas respostas, mas sem eleições livres e concorrência entre partidos políticos. Alguns apontariam para Omã ou Cingapura como exemplos de regimes autoritários que conseguem manter-se por muito tempo, mesmo diante de rápidas mudanças econômicas. Talvez. Mas o único tipo de sistema político que comprovou sua validade no longo prazo é o associado às democracias ocidentais. 

O que nos leva à China. No auge dos protestos egípcios, os internautas chineses que buscavam as palavras "Egito" ou "Cairo" recebiam mensagens dizendo que não podiam ser encontrados resultados. Evidentemente, o governo chinês não queria ver seus cidadãos lendo sobre os protestos no Egito e começando a ter ideias erradas. Com a lembrança do movimento da Praça da Paz Celestial, em 1989, sempre presente na memória, os líderes chineses mostram-se decididos a impedir sua repetição. 

A China não é a Tunísia ou o Egito, é claro. O governo chinês fez experiências de democracias locais e tentou combater a corrupção com determinação. Ainda assim, houve uma disseminação de protestos nos últimos dez anos. Houve 87 mil casos do que o governo chama de "incidentes de massa repentinos" em 2005, último ano em que o governo divulgou essas estatísticas, sugerindo que o número deve ter aumentado desde então. Os dissidentes desafiam a supremacia do Partido Comunista por conta e risco próprio. 

A aposta da liderança chinesa é que o elevado aumento nos padrões de vida e de oportunidades de emprego manterá as efervescentes tensões políticas e sociais sob controle. É por isso que se preocupa tanto em atingir crescimento econômico anual superior a 8% - o número mágico que o governo considera suficiente para conter conflitos sociais. 

O Egito e Tunísia, contudo, acabam de enviar uma mensagem de sobriedade à China e outros regimes autoritários pelo mundo: não contem com o progresso econômico para se manter no poder para sempre. 

Dani Rodrik é professor de Economia Política da Escola de Governo John F. Kennedy da Harvard University e autor de "One Economics, Many Recipes: Globalization, Institutions, and Economic Growth" (Uma ciência econômica, muitas receitas: globalização, instituições e crescimento econômico, em inglês).
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INTERROMPEMOS NOSSO PERÍODO SABÁTICO PARA UMA IMPORTANTE REVELAÇÃO DE ZERO HORA



Alguns de nossos leitores mais renitentes estavam já resignados com a fase de letargia vivida por este tugúrio digital. De fato, havíamos resolvido oferecer uma trégua à Imprensa Golpista, Pestilenta e Analfabeta. Qual o quê!!! Bastou que rolássemos a barrinha para o pé da edição online do tabloide da RBS, onde costumam entrar as amenidades, e – pimba! – lá estava o maravilhoso pitéu, engastado no Donna Online, espécie de “caderno feminino” da gazetinha gaúcha.
Por tratar-se de tema que sempre clamou por esclarecimentos, e diante de sua relevância jornalística, julgamos que não poderíamos nos omitir em dar publicidade ao fato. Mesmo porque, a exemplo da desinformada moçoila da foto acima, nem todo mundo tem o privilégio de ver o mundo pelas sábias páginas de ZH.  


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We No Speak Americano



Performed and choreographed by Suzanne Cleary & Peter Harding
Film by Jonny Reed
Music: Yolanda Be Cool & D Cup ft. Cleary & Harding
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Hezarfen



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Muçulmanos, os novos judeus

Tava vendo a série A extrema direita, no EuroChannel, a qual mostrou duas coisinhas bem importantes. Primeiro, que a jornada de trabalho de 40 horas semanais, hoje desfrutada naturalmente por qualquer reaça leitor de Veja que esteja de férias na praia, era assunto de polícia. Segundo, que havia vínculo entre a oposição reacionária às conquistas dos trabalhadores e o antissemitismo. Daí fiquei pensando: como devemos lembrar disso, hoje?

Como leitor de Todorov, vejo a tarefa de lembrar como constituída por duas faces. De um lado, não deve haver limitação alguma à busca pela verdade histórica ou autobiográfica. De outro lado, dado que é totalmente impossível guardar todo o passado, precisamos selecionar. O que nos leva à questão: do que devemos lembrar?

Tudo pode ser assunto para a investigação histórica e para a memória, mas simplesmente não podemos lembrar de tudo. A memória não se opõe ao esquecimento, pois é seleção, tal como esse. O ponto todo é como selecionar. Que critério seguir?

Ainda que boa parte do esquecimento e da memória seja involuntária (pense nos traumas), podemos falar, e falamos, de deveres da memória. Há acontecimentos e fatos que simplesmente não devem ser esquecidos, pois as consequências futuras do esquecimento seriam graves. Tais acontecimentos são exemplares, e devemos interpretá-los em analogia com acontecimentos presentes, para evitar o mal e a injustiça.

Voltemos ao antissemitismo da extrema direita, na França dos anos 1930. Precisamos lembrar disso porque tal tipo de violência simbólica e concreta não só pode se repetir no futuro como de fato se repete no presente. Mas os novos judeus são os muçulmanos, como bem nota o Clovis Rossi. Assim como se negava prerrogativas aos judeus no século XX, se nega prerrogativas aos islâmicos no século XXI. Basta ler o New York times para encontrar opiniões críticas à expansão das práticas e garantias democráticas aos países islâmicos.

Devemos lembrar da perseguição aos judeus por ser um exemplo do que os homens do passado não deveriam ter permitido que tivesse acontecido. Mas lembrar é agir, ao invés de contemplar passivamente. Lembrar da perseguição aos judeus nos anos 1930 é, hoje, agir como os homens do passado deveriam ter agido em relação aos perseguidos do seu tempo. Só que, é claro, nós devemos agir em relação aos perseguidos do nosso tempo, os quais são os muçulmanos. 
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