Debate: a desvinculação dos Bombeiros da BM

Do blog Buracos da Baltazar:

Ubirajara apresenta o tema desvinculação
Por proposição do vereador Adeli Sell, o coordenador-geral da Associação de Bombeiros do RS (Abergs), Ubirajara Pereira Ramos, defendeu hoje (13/12) a desvinculação do Corpo de Bombeiros da Brigada Militar. Segundo ele, a separação trará benefícios para os bombeiros, para a BM e para a sociedade. Citou como exemplo o estado de Santa Catarina, que, após a desvinculação, melhorou de forma expressiva o serviço prestado à sociedade. "Em SC, desde 2003, quando houve a separação, o número de quartéis dos bombeiros passou de 35 para 115 em 2010. Temos de decidir se continuaremos parados no tempo ou evoluímos como os demais bombeiros do mundo."

Ubirajara disse que atualmente apenas quatro estados brasileiros ainda mantêm os bombeiros subordinados à Polícia Militar: Bahia, Paraná, São Paulo e RS. Conforme ele, Bahia e Paraná devem desvincular os serviços no próximo ano. "A Constituição Federal, em seu artigo 144, determina que as funções e bombeiros não podem se subordinar à PM." A separação resultaria em gestão específica, concurso exclusivo para bombeiros e maior integração com serviços como o Samu, afirmou Ubirajara ao ocupar a Tribuna Popular da Câmara Municipal de Porto Alegre. 

Bombeiros acompanham a Trubuna Popular na CMPA

Atualmente, observou o coordenador da Abergs, o Corpo de Bombeiros sofre economicamente por estar subordinado à PM. "Nos últimos quatro anos, a BM recebeu 19 mil viaturas. Deste total, apenas nove (caminhões) foram destinados aos bombeiros." Apresentou ainda outros números que, conforme ele, poderiam ser melhorados se houvesse a separação. "Nas 496 cidades gaúchas, só 93 têm bombeiros (19% dos municípios do RS). Nos últimos 30 anos, foram construídos apenas três quartéis na Capital, que hoje possui nove unidades, sendo que duas delas estão fechadas por falta de efetivo. Na Capital, há apenas duas escadas magirus, doadas pela Alemanha na década de 70, e só uma delas funciona."
Vereador Adeli proponente da Tribuna e Ubirajara 

Fonte: Marco Aurélio Marocco/CMPA
Fotos: Elson Sempé Pedroso


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Escobar: Nem o inferno conhece fúria como de império corneado

por Pepe Escobar, em Asia Times Online

Traduzido pelo coletivo da Vila Vudu

A revolução não será televisionada.
A revolução não será reapresentada, mano;
A revolução será ao vivo.

Gill Scott-Heron, 1970
(Pode ser ouvido em http://www.youtube.com/watch?v=1qoalKUt0mo)


Nem o inferno conhece fúria como de mulher corneada.

William Congreve [dramaturgo inglês, 1670-1729], na peça “The Mourning Bride”, 1697

Não há episódio de Law and Order ou The Good Wife [1] que supere isso.

Parece que tudo afinal se resumiu ao detalhe nada insignificante de conseguir, em minutos, meros 315 mil dólares em dinheiro.

Às 15h25 GMT da 3ª-feira, o fundador de WikiLeaks Julian Assange foi libertado sob fiança por uma corte londrina. Sim. As condições cairiam melhor se tivesse sido acusado de ser agente da al-Qaeda: fiança estipulada como se noticiou em 315 mil dólares, em dinheiro; ‘toque de recolher’ das 10h às 14h e das 22h às 2h; apresentação em delegacia de polícia às 18h, todos os dias; passaporte confiscado; e uso de tornozeleira eletrônica para rastrear seus movimentos. Mas pelo menos, livre!

Não, não foi bem assim. Duas horas mais tarde, Assange foi mandado de volta à presença do juiz; a Procuradoria sueca apelara. Ficou tudo como antes, pelo menos por mais 48 horas: Assange permaneceria na prisão Wandsworth, sob condições que seu advogado Mark Stephens descreveu como “Orwellianas”, “Dickensianas”, “Vitorianas” ou todas as anteriores.

O novelão exibido como extravaganza amalucada-sangrenta para tapete vermelho do Festival de Cinema de Cannes – com empurra-empurra de repórteres, flashes espocando, twittagem frenética de dentro da sala de julgamento e apoio de celebridades, de Jemima Goldsmith a Ken Loach e sobrinha de Benazir Bhutto. E tudo isso gerado por acusações de estupro apresentadas duas ex-fanzocas de Assange Anna Ardin e uma Miss W, versão irmã-gêmea da “mulher corneada” de Congreve. Pela lei inglesa, não houve estupro, segundo o advogado de Assange Geoffrey Robertson. Portanto, se não houve estupro, não há motivo para extraditar Assange para a Suécia – e da Suécia, de onde poderia ser extraditado para os EUA, como exigem seletos grupos de norte-americanos “patriotas” de tridente em riste.

São Julian ou Assange, o Estuprador?

Oh, as ligações perigosas entre sexo e a liberdade de imprensa!

Falando fora do tribunal, imediatamente depois de Assange (não) ter sido libertado sob fiança, Vaughan Smith, fundador do FrontLine Club no oeste de Londres, fez o possível para demarcar um nível adequado de debate. Disse: “Não se trata só de liberdade de imprensa. Trata-se da Internet. Como jornalistas, deveríamos estar muito preocupados com a ameaça de leis que limitarão nossa liberdade. Assange meteu um grande espelho à frente dos jornalistas. Os jornalistas estão aflitos com a imagem que estão vendo.”

Antes de todo o som e fúria judiciais, Assange ganhara o primeiro lugar em pesquisa entre leitores da revista Time para selecionar a Personalidade do Ano de 2010. Muito à frente do segundo colocado, o primeiro-ministro da Turquia Recep Tayyip Erdogan, o mesmo Erdogan que, no “cablegate” de WikiLeaks, diplomatas norte-americanos descreveram com perigoso islamista anti-norte-americano.

Casem agora essa dupla progressista Assange/Erdogan, com pesquisa da CNN na qual 44% dos britânicos declararam-se convencidos de que as acusações de crime sexual contra Assange são “pretexto” para poder mantê-lo preso, para que possa ser processado pelo governo dos EUA. Ah, as ligações perigosas entre sexo e a liberdade de imprensa, outra vez!

E tudo isso depois de Assange ter enviado mensagem ao mundo, via sua mãe, Christine, distribuída pelo canal australiano de notícias Seven News. Na mensagem, Assange não perdeu a oportunidade para mais uma bomba: “Agora sabemos que Visa, Mastercard e PayPal são instrumentos da política externa dos EUA. Antes, não sabíamos. Agora, já sabemos.” Isso é saber redigir manchete de primeira página!

E quem dá aos altos executivos de Amazon, Mastercard, Visa, PayPal, Facebook, Twitter e, mais dia menos dia, Google – empresas privadas que detêm o só muito levemente mascarado monopólio da Internet – o direito de agir como editores do tipo de informação à qual a opinião pública deve ter acesso? Mega-empresas comerciais tomando decisões políticas em nome do interesse público? Bem que a opinião pública pode protestar: “OK, comprem quantos deputados e senadores dos EUA vocês queiram, mas não se metam com nosso direito de escolher.”

Em vez de acompanhar a saga sexual made-in-Scandinavia, o mundo todo deveria estar discutindo a que é a questão-chave de nosso tempo. Quem mais se beneficiará do acesso às informações mais cruciais WikiVazadas? O incansável hipercapitalismo hegemônico e seus asseclas? Ou os movimentos sociais globais contra-hegemônicos – em resumo, o poder popular?

Se o grande Herbert Marcuse estivesse vivo, já teria avisado que o império está aprendendo rapidamente a lição de WikiLeaks, e que rapidamente saberá aproveitar-se dela.

Os realistas já esperam nova legislação imperial “antiterroristas”. Pouco importa que o ex-analista da CIA Ray McGovern tenha lembrado de aspecto essencial, em entrevista na CNN: O chefe do Pentágono Robert Gates disse que os telegramas vazados não põem em risco vidas de norte-americanos (os relatórios são “altamente exagerados”, disse Gates). A OTAN disse também que “nenhuma de nossas fontes foi exposta”. E até o “El Supremo” do AfPak, general (“Estou sempre me posicionando para 2012”) Petraeus disse a mesma coisa. Mas nada disso bastará para aplacar a elite do establishment e sua coorte de mentirosos, caluniadores, gângsteres ideológicos e vasto sortimento de parasitas, todos babando, doidos para acabar com Assange.

Perderam o controle, outra vez

Make no mistake[2] em matéria de o que é, mesmo, a “nova ordem mundial” real: o campo de batalha tem hoje a cara de um movimento de resistência contra a apropriação da tecnologia de informação pelas elites do poder. A fúria, a ansiedade para silenciar Assange, se não para acabar co’a raça dele, empregando para tal os meios que sejam necessários, revela a verdadeira cara do imperador: terei controle total, indivisível e indiscutível sobre todas as tecnologias.

Naturalmente, nem o próprio WikiLeaks é imune à batalha. Uma aparente orgia de transparência pode não passar de cortina de fumaça. O próprio Assange sempre reclamou que a mídia alternativa jamais se mostrou capaz de analisar e sintetizar a torrente de dados dos seus gigantescos. Apesar disso, porções imensas da opinião pública estão tendo acesso ao “cablegate” ou principalmente ou exclusivamente através dos parceiros de WikiLeaks nas grandes empresas-imprensa. São eles que selecionam, editam e definem o “ponto de vista” a partir do qual os documentos são noticiados. A palavra é sempre a mesma: manipulação. Os grandes jornais manipulam os dados vazados.

Não há razão alguma para engolir-se a ‘edição’ de Le Monde, El Pais ou do The New York Times [ou da Folha de S.Paulo, de O Estado de S.Paulo, de O Globo, da revista Veja etc., no Brasil (NTs)]. Já há inúmeros exemplos, até aqui, de opinião conversacional, desimportante, enunciada por diplomata dos EUA, que se tornou evento ‘decisivo’, exclusivamente porque editada com requintes técnicos da redação do ‘jornalismo’ de futricas. É preciso que o público leia os próprios telegramas (já há 1.885 páginas espelho de WikiLeaks, e o número continua a aumentar).

Numa via paralela, a internet pulula de teorias de conspiração, segundo as quais WikiLeaks seria apenas um sofisticado agente de manipulação psicológica – incluindo a ideia de que Assange seria sido belamente pago por Israel para apagar telegramas embaraçosos (como se Israel já não vivesse suficientemente embaraçada pelo que perpetra na Palestina). Claro. É preciso também investigar WikiLeaks, para conhecer o que não está sendo divulgado.

Mas há problemas com o cenário Israel-pagou-Assange. Algum autor poderia – ou não – ter ouvido essa história de Daniel Domscheit-Berg, ex-colaborador de Assange, que agora está lançando seu próprio site de ‘vazamentos’ OpenLeaks, cujo diferencial será vazar menor volume de dados, e mais lentamente. Tanto quanto se sabe até agora, a melhor fonte de todos esses desenvolvimentos é WikiRebels, documentário de uma hora, iluminador, distribuído pela televisão pública sueca, SVT, ao qual se pode assistir aqui e agora em http://svtplay.se/v/2264028/wikirebels_the_documentary .

O saque de Roma

Não é preciso ter os poderes analíticos de um Michel Foucault para desconfiar muito do modo como as elites do poder, seja na Suécia ou nos EUA, e sempre em nome da “liberdade”, “segurança” e um consenso universal a favor do mercado, sempre fazem o diabo para impor universalmente sua própria griffe hegemônia de transparência.

A Suécia conseguiu circunscrever e virtualmente enquadrar todos os sobretons de liberdade e da imprevisibilidade no reino das relações sexuais – com a vantagem extra de que tudo pode ser furiosamente dissecado/inspecionado.

Portanto… Todo o cuidado é pouco com fornicadores(as) cujas camisinhas dão chabu no meio nos procedimentos! É indispensável ter 100% de certeza de que em todos os inefáveis nanossegundos do rola-rola há consenso absoluto, total, irrefutável, à prova de qualquer investigação. É isso, ou você estuprou alguém. Outra vez, sei, parece reexibição “liberal” do filme de Monty Python “Inquisição Espanhola”. Confesse! Confesse! A Orgia da Transparência casa-se com a Alegria da Inquisição.

E é aí que São Julian, o Apóstolo (da liberdade de expressão) converge para Assange, o Estuprador, o Mártir da Transparência. E, isso, num país que tem uma das legislações mais avançadas, do mundo, de proteção à liberdade de expressão.

Mais para o fundo, a coisa fica pior. De Naomi Klein a Naomi Wolf, é evidente para todas as mulheres espertas, que as fanzocas escandinavas de Assange sentiram-se tomadas pelo “amor”. Bem, depois de uma noite veio outra noite – e deve ter sido horrível descobrir, em conversa ‘de moças’, que o “amor” fora, de fato, “traição”, mais uma, pelos imutáveis machos chauvinistas sem coração. Quem diria que a Escandinávia ainda abriga “mulheres corneadas” que ainda sonham os contos de fada de Hollywood. Pior: mulheres letradas, ferozmente independentes, na Europa e nos EUA, que avaliam Hollywood pelo que Hollywood é, consideram profundamente humilhante que essa lei sueca de mil caras infantilize a tal ponto as mulheres.

E já que estamos falando de sexo, como não lembrar a coincidência poética de esse mais recente “filme de tribunal” acontecer no mesmo dia em que o primeiro-ministro da Itália Silvio “Il Cavaliere” Berlusconi, do qual os telegramas WikiVazados só dizem, basicamente, que é ganancioso, irresponsável, dado a trinchar ninfetas em orgias à moda Nero, sobreviveu por um triz a um voto de desconfiança e, imediatamente, praticamente no mesmo instante, Roma foi tomada por furiosas manifestações de protesto e (literalmente) pegou fogo, em fúria. É como rebobinar Nero.

Mais uma vez, make no mistake: não se trata do re-incêndio da Antiga Roma. Todo o império está em fogo. O hipercapitalismo hardcore pode ser simultaneamente um Terminator e um gigante com pés de barro.

Cabe aos progressistas decifrar o enigma e enfrentar o paradoxo. A Arte de Guerra de Sun Tzu encontra Gilles Deleuze e sua máquina de guerra subterrânea. Já se combatem guerrilhas nômades de informação-tecnologia. A ‘contrainsurgência’ dos EUA está virada de pernas p’ra cima. Avante! À net-guerra! (Não esqueçam as camisinhas).


[1] Dois seriados muito populares nos EUA, exibidos no Brasil em canais a cabo.

[2] É expressão muito frequente nos discursos do presidente Obama, quase um cacoete. Pode ser traduzido por “que ninguém se engane” ou “não se iludam” (NTs).


Via Vi o Mundo do Azenha




WikiWecaps Episode 1



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