Pimentel foi traído por Aécio?

Guilherme Evelin, do Blog Boca de Urna da Revista Época


Quem corre o risco de terminar as eleições como um dos grandes derrotados nas urnas, por uma dessas ironias da política, é justamente um dos grandes amigos da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, favorita para conquistar o Palácio do Planalto. O amigo é o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (foto ao lado), que aparecia, no começo da campanha eleitoral, como cotadíssimo para ser um dos homens fortes de um eventual governo Dilma. Os dois têm uma ligação histórica, que remonta ao final da década de 60, quando ambos foram militantes do Colina, grupo da luta armada contra a ditadura militar.

No começo da campanha eleitoral, Pimentel foi escalado para ser um coordenadores da campanha presidencial do PT, onde ele atuaria como uma espécie de porta-voz de Dilma. Uma série de erros cometidos, desde então, diminuíram a sua influência, com possíveis consequencias no papel que ele poderá vir a exercer em um governo Dilma. O primeiro foi o envolvimento na trapalhada da montagem de um “setor de inteligência” da campanha de Dilma, com o objetivo de montar dossiês contra os adversários e fazer contra-espionagem. Pimentel foi o responsável pela indicação do jornalista Luiz Lanzetta, que estava à frente das negociações com um grupo de arapongas para a criação do tal “setor de inteligência”, desmontado depois de descoberto.

O segundo erro de Pimentel foi insistir, até o último momento, na sua candidatura ao governo de Minas Gerais, apostando que a aliança do PT com o PMDB em torno da candidatura do ex-ministro Hélio Costa não iria adiante. Pimentel esticou a corda e acabou irritando o presidente Lula, grande avalista da coligação dos dois partidos. Ao dar prioridade a Minas Gerais, Pimentel perdeu espaço também para o ex-ministro e deputado Antonio Palocci, que virou o principal interlocutor de Dilma na coordenação de campanha.

Muitos petistas mineiros avaliam, porém, que o grande erro de Pimentel pode ter sido ter confiado em demasia na relação construída com o tucano Aécio Neves (foto ao lado), quando um era prefeito de Belo Horizonte e o outro governava Minas Gerais e ambos propagavam um discurso de união de PT e PSDB e de superação das rivalidades entre os dois partidos. Em nome da conciliação de petistas e tucanos, Pimentel fez o PT abrir mão, em 2008, de uma candidatura própria à prefeitura de Belo Horizonte e abraçar a candidatura de Márcio Lacerda, o atual prefeito, filiado ao PSB e ex-secretário de Aécio. Com esse gesto, Pimentel angariou a antipatia de uma larga fatia do PT mineiro, que o acusa de entregar de mão beijada a prefeitura para adversários históricos.

Ao se lançar candidato ao Senado, Pimentel estava esperando, talvez, um gesto de retribuição de Aécio – como um acordo branco que facilitasse a sua eleição para uma das duas vagas em disputa. O gesto não veio. Além de se lançar na disputa, Aécio patrocinou também a candidatura ao Senado do ex-presidente Itamar Franco, pelo PPS. Esta semana, uma pesquisa do Ibope mostrou que Pimentel dificilmente conseguirá se eleger senador. A pouco mais de um mês das eleições, a pesquisa dá a Aécio 69% das intenções de voto, a Itamar 43%, e a Pimentel 19%.

Uma derrota na eleição para o Senado poderá minar a influência de Pimentel em um governo de Dilma, a despeito da amizade que os une. Eleito senador, Pimentel poderia mais facilmente assumir um ministério de primeira linha. Derrotado, sua nomeação será vista como uma compensação política, e o mais provável será um cargo de escalão médio.

Em Minas, diz-se que Aécio não quis facilitar a eleição de Pimentel por temer o fortalecimento de um possível adversário no futuro. No PT, os adversários internos de Pimentel se regozijam com as suas dificuldades. Nos bastidores, o ex-prefeito reclama de um certo abandono pela campanha nacional e da atitude de Aécio. Nas avaliações feitas por Pimentel, se Aécio tivesse facilitado sua eleição, a vida do candidato do PSDB ao governo de Minas, Antonio Anastasia, que disputa a reeleição, também poderia estar mais fácil, porque haveria retribuição por parte de seus seguidores.

Segundo a última pesquisa Ibope, embora tenha encurtado a distância em relação a Hélio Costa, Anastasia ainda aparece 11 pontos atrás do oponente.Na semana passada, em Brasília, um jantar organizado pelo deputado Fábio Ramalho (PV-MG) tentou articular uma manobra capaz, em tese, de facilitar tanto a vida de Pimentel quanto a Anastasia: a transformação de Itamar em candidato a vice-governador na chapa de Anastasia, com a sua retirada do páreo do Senado. Pareceu, a essa altura do campeonato, uma tentativa um tanto desesperada de remendar os cacos da relação “Pimentécio” para que ela não termine nas urnas como um abraço de afogados.
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Entrevista da Maria Conceição Tavares para a UFMG

Do site da UFMG, terça-feira, 24 de agosto de 2010, às 7h30

“É hora de romper com a maldição furtadiana”  

Uma análise sobre a forma como o Brasil lidou com a crise internacional será feita nesta terça-feira, dia 24, pela economista Maria da Conceição Tavares à UFMG, durante a primeira conferência do projeto Sentimentos do Mundo em 2010. Portuguesa naturalizada brasileira, Conceição Tavares formou-se em matemática ainda em terras lusitanas, mas acabou se transformando numa das mais importantes expoentes do pensamento econômico brasileiro. Influenciada por Celso Furtado, Caio Prado Jr. e Ignácio Rangel, Conceição foi aluna de Octávio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos, professora da candidata à presidência Dilma Rousseff e parceira acadêmica do também presidenciável José Serra.

Aos 80 anos, completados em abril passado, a economista revela, nesta entrevista ao Boletim UFMG, que está “mais mansa” – ela que sempre teve fama de brigona. Mas não perdeu a verve. Critica a suposta preferência de José Serra por uma política internacional ancorada no eixo Norte-Sul, diverte-se com a radicalização de Plínio de Arruda Sampaio (candidato à presidência pelo PSOL) – democrata-cristão que virou socialista – e elogia as políticas sociais em vigor, que ajudaram a elevar o padrão de vida de 30 milhões de brasileiros. “Temos agora que nos preocupar com a educação, com a universalização dos direitos sociais, com a segurança”, defende.

A senhora tem fama de brava, polêmica, sempre muito enfática na defesa de suas ideias. Ao completar 80 anos, esse traço de sua personalidade manteve-se ou arrefeceu?
(Risos) Estou mais mansa com a idade. A gente vai ficando mais velha e percebe que é preciso ter paciência, que as coisas nem sempre avançam como você quer. Tanto que no meu aniversário eu convidei a Dilma {Dilma Rousseff, candidata a presidente pelo PT} e o Zé {José Serra, candidato pelo PSDB}, que era meu amigo de infância – da infância dele, claro, não da minha que sou mais velha (risos).

A senhora foi professora dele?
Não. Fui professora da Dilma. Do Serra eu fui colega. Escrevemos, inclusive, um artigo a quatro mãos.

De brava e polêmica, a senhora então está se transformando em uma conciliadora?
Exatamente (risos). Apesar da Dilma ser minha candidata, evito falar mal do José Serra.

O tema de sua conferência na UFMG é o Brasil e a crise internacional.A senhora acredita que o Brasil soube enfrentar melhor a turbulência de 2009?
Sim. E saímos muito rapidamente dela. Este ano, vamos crescer 7%. Só China e Índia vão crescer tanto.

O governo teve papel importante nesse processo ou a superação foi resultado da força natural da economia brasileira?
Eles {o governo} não ficaram esperando, pois tiraram os impostos sobre o consumo. É a primeira vez que assistimos a uma crise sem ficar de cócoras. Antes, os Estados Unidos davam um espirro e a gente pegava uma pneumonia. Agora eles pegam uma pneumonia dupla e a gente se recupera rapidamente. A coisa se inverteu. Em plena crise, o Brasil conseguiu empregar um milhão de pessoas com carteira assinada. Só isso mostra que reagimos muito bem.

A senhora qualificou as crises econômicas recentes como bolhas que se sucedem. Tem mais alguma se aproximando?
Não posso garantir se há uma bolha se aproximando. O que posso dizer é que o sistema bancário dos países desenvolvidos está totalmente bichado. Há um desequilíbrio fiscal gigantesco nos Estados Unidos e na Europa. No cenário internacional, essa crise tende a ser prolongada, com períodos de maior turbulência nos Estados Unidos, Europa e Japão, que não estão bem das pernas. O fato é que há uma mudança na divisão internacional do trabalho, e o eixo Ásia-América do Sul tem futuro. Tenho esperança de que partiremos para o multilateralismo, no qual países como China, Índia, Brasil, África do Sul, Rússia e Argentina exercerão papel importante. Agora, os Estados Unidos preocupam, pois são o centro do sistema, e não têm mais a capacidade de antes para regulá-lo. Quem vai regular o sistema internacional? Eles não querem nem regular o deles. Já as propostas do G-20 {grupo formado pelas 19 maiores economias, mais a União Europeia} são muito fracas ou não há consenso entre eles.

O que falta ao Brasil para mudar de patamar?

Temos agora que nos preocupar com a educação, com a universalização dos direitos sociais, com a segurança. Precisamos eliminar esses problemas, e todos os candidatos, em seus programas, defendem avanços sociais. Há acordo sobre isso. Onde não há acordo é na política externa, principalmente no caso do Serra, que é mais tradicional. Ele pode desmobilizar o Itamaraty e não é a favor do eixo Sul-Sul. Prefere apostar no desenvolvimento Norte-Sul, tem mais esperança nos Estados Unidos, o que é um equívoco. É um vício que ele herdou do Fernando Henrique. No que diz respeito à infraestrutura, educação e segurança, há consenso entre todos os candidatos. Menos o Plínio {Plínio de Arruda Sampaio, candidato pelo PSOL}, que é socialista. Ele, ao contrário de mim, foi se radicalizando. Começou como democrata--cristão, foi para o PT e acabou no PSOL. Eu fui ficando mais moderada. Você vê que a idade atinge as pessoas de modo diferente (risos). Nos anos 60, o Plínio era a favor de uma reforma agrária moderada e agora quer uma mudança radical.

Mas, voltando ao consenso entre os candidatos sobre a questão social, percebo que chegou a hora de extinguir a pobreza, romper com a “maldição furtadiana”. Que maldição é essa?
O Furtado {o economista Celso Furtado} achava que a gente ia crescer, mas não ia se desenvolver. Mas agora acredito que estamos no caminho do desenvolvimento. Todas as questões estão postas na agenda, e há consciência delas. No caso da pobreza, todos querem eliminá-la. Mas vai ser difícil corrigir a questão metropolitana, o tráfico de drogas, promover uma educação de qualidade. Talvez em 20 anos a gente consiga resolver essas questões. Não conseguimos nos industralizar em 20 anos? Embora industrializar seja mais fácil do que corrigir desigualdades sociais.

A senhora é uma expoente do pensamento econômico brasileiro. Mas, nos últimos anos, percebe-se que anda um pouco afastada da mídia e do debate público. Você acha que velhice não pesa? 
 Pesa, sim, rapaz. Hoje, eu dou aulas de relações internacionais. E estou com vontade de voltar as atenções para a América Latina, para realizar um estudo comparado Brasil-América Latina. Sou a favor da integração e, como a maioria é contra, tendo a seguir no sentido oposto. A América Latina não é um bloco unitário. É preciso estudar as diferenças que existem entre os países. Continuo acompanhando a conjuntura do Brasil, mas não vejo grandes discrepâncias em sua política econômica. A não ser o Banco Central, que também já melhorou. Tanto que bati pesado quando percebi que o Banco Central estava disparatando no primeiro governo Lula. Fui a Brasília, conversei com o presidente, com o ministro da Fazenda.

Mas e os juros?
Não adianta dizer que temos as maiores taxas de juros do mundo. Eles são assim há mais de 50 anos. E agora estão abaixo da média histórica das últimas duas, três décadas.

Alguns intelectuais se decepcionaram com o governo Lula e do PT, entre os quais Francisco de Oliveira. Não foi o caso da senhora...
O Chico de Oliveira já tinha rompido com o PT logo no início do governo. No primeiro ano, o Lula pegou uma bomba pela cara, uma crise cambial, inflação subindo. Inventaram o “efeito Lula” e ele teve que se comprometer, na Carta aos Brasileiros, com um programa mais continuísta. Sempre achei chata essa política econômica, porque eu queria que o país crescesse mais. Mas hoje sou obrigada a reconhecer que o resultado foi satisfatório. Com a crise mundial, se tivéssemos ficado no oba-oba, aproveitando aquele momento de excessiva liquidez dos Estados Unidos, teríamos entrado pelo cano. Os espanhóis, portugueses, gregos e os próprios ingleses levaram uma porrada cavalar. E outra coisa que o Lula nunca deixou de fazer foi atacar a pobreza. Ele começou cedo e acelerou no segundo mandato. Pobre não tinha crédito neste país. Ele convertou 30 milhões de pessoas em classe média.

O que ainda a preocupa?
O câmbio. Com exceção da China, todos os demais países estão valorizando sua moeda em relação ao dólar. O problema é que o dólar ainda é a referência no comércio exterior. Os chineses exportam em dólar e nós levamos uma surra deles. O que me preocupa são as importações. Ou você controla o câmbio ou controla disfarçadamente as importações. Não podemos, sistematicamente, importar mais do que exportar. Ou montamos uma barreira para os capitais especulativos, uma espécie de quarentena semelhante à feita pelo Chile, ou estabelecemos um controle disfarçado de importações não essenciais. Estamos importando carros de luxo – e não precisamos deles, pois temos uma indústria automobilística muito forte – e equipamentos eletrônicos, exatamente os itens que provocam déficit na balança comercial.

A senhora está mais otimista?
Com o Brasil, sim. Não temos um Collor, nem um Jânio. Os candidatos são melhores. O povo assume que é cidadão, não para de votar, o emprego melhorou, o salário-mínimo também, e a renda se desconcentrou. Mas em relação ao mundo, não. O neoliberalismo acabou como ideologia explícita, mas não como prática. O mundo está muito conservador. A direita americana não deixa o Obama fazer nada.
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A Força-tarefa 373, no Afeganistão


19/8/2010, Pratap Chatterjee, TomDispatch

A partir dos relatórios secretos vazados por WikiLeaks
EUA: o programa de “assassinatos seletivos”


Pratap Chatterjee recomenda que os interessados em conhecer o conteúdo dos arquivos WikiLeaks Afghan War Diary
visitem o blog DiaryDig[1], para entender melhor aquele banco de dados e facilitar a pesquisa.
O autor recebe e-mails sobre problemas relacionados à leitura daqueles arq uivos em pchatterjee@igc.org
.
Caso você deseje apoiar o trabalho de distribuir informação independente pela rede, faça uma doação em dinheiro
para a página Wikileaks, em
http://www.wikileaks.org/wiki/Special:Support
ou para o Fundo criado para pagar os advogados que defendem o soldado Bradley Manning
http://www.bradleymanning.org/


“Localizar, deter, eliminar e impedir que recomece” [ing. “Find, fix, finish, and follow-up”] é como o Pentágono descreve a missão das equipes militares clandestinas que operam no Afeganistão na perseguição de todos os que se suspeite que sejam membros dos Talibã ou da al-Qaeda, onde quer que estejam. Outros falam de operações de “caça humana”, e de equipes cuja missão é “capturar/matar”.

Seja qual for a terminologia, os detalhes de dúzias dessas operações – e de como deram errado repetidas vezes – foram afinal revelados pela primeira vez, na massa de documentos secretos, dos militares e da inteligência dos EUA, que a página Wikileaks[2] vazou em julho, e que foi objeto de uma tempestade de protestos oficiais.

Agentes de um tipo de guerra clandestina que os EUA praticam cada dia mais amplamente, essas equipes militares fazem sempre muito mais inimigos que amigos e destroem todo o sentimento de boa-vontade em relação aos EUA que resulte dos projetos de reconstrução e ajuda econômica.

Quando Danny Hall e Gordon Phillips, respectivamente diretores civil e militar da equipe norte-americana que trabalha na reconstrução, na província de Nangarhar, Afeganistão, chegaram para uma reunião com Gul Agha Sherzai, governador local, em meados de junho de 2007, sabiam que tinham muito o que explicar e do que pedir desculpas. Caberia a Philips explicar por que uma equipe militar clandestina norte-americana de “capturar/matar”, designada como “Força-tarefa [ing. task force] 373”, à caça de Qari Ur-Rahman, suposto comandante Talibã, codinome “Carbon”, aparecera de repente, a bordo de um helicóptero armado AC-130 Spectre, e matara sete oficiais da polícia afegã, no meio da noite.

O incidente mostra claramente o conflito absoluto entre duas doutrinas que regem a guerra dos EUA no Afeganistão: de um lado, a doutrina da contraguerrilha [ing. counterinsurgency], que visa a “proteger a população”; de outro lado, a doutrina do contraterrorismo, que visa a exterminar terroristas e supostos terroristas. Apesar de o governo Obama ter-se empenhado, nos discursos, a favor da doutrina da contraguerrilha, o contraterrorismo foi, é e continua a ser a principal doutrina que orienta sua [de Obama] guerra no Afeganistão.

Para Hall, funcionário do Serviço Diplomático, que deixara há menos de dois meses um posto em Londres, o serviço associado aos militares provou-se muito mais difícil do que havia esperado. Em artigo publicado na revista Foreign Service Journal poucos meses antes daquela reunião, Hall escrevera, “Sentia-me como se nunca soubesse, de fato, o que estava acontecendo, onde eu deveria estar, o que deveria fazer, qual o meu papel; de fato, sem nem saber se havia algum papel para mim. Para piorar, eu não falava nem a língua pashtun nem a língua militar, as duas únicas que circulavam por ali.”

Para Phillips, a situação não era menos espinhosa. Um mês antes, entregara pessoalmente os pagamentos solatia – indenização, prevista na legislação militar, paga no caso de morte de civis provocada por erro das Forças norte-americanas – em presença do governador Sherzai, ao mesmo tempo em que condenara o ato de um homem-bomba Talibã que matara 19 civis, com o que se deu por encerrado o incidente. “Vimos agora como convidados à sua casa”, disse Phillips aos parentes dos mortos, “convidados para ajudar a reconstruir, com melhores condições de segurança e governança, a sua província de Nangarhar, para oferecer-lhes vida melhor e futuro mais luminoso, aos senhores e seus filhos. Hoje, choro com os senhores a morte de seus entes queridos.”

Hall e Phillips tinham sob sua responsabilidade um portfólio de 33 projetos ativos de reconstrução coordenados pelos EUA, no valor total de $11 milhões, em Nangarhar, de construção de estradas, fornecimento de equipamento escolar e um programa agrícola orientado para a exportação, pela província, de frutas e legumes.

Apesar disso, a missão da “equipe de reconstrução provincial” de Hall e Phillips (constituída de especialistas civis, funcionários do Departamento do Estado e soldados) parecia estar em conflito direto com a equipe de operações especiais encarregada dos serviços de “capturar/matar” (Seals da Marinha, Rangers do Exército e os “Boinas Verdes”, associados a agentes da Divisão de Atividades Especiais da CIA), cujo trabalho era caçar afegãos suspeitos de serem terroristas e líderes guerrilheiros. Essa equipe deixava uma trilha de cadáveres de civis e de ódio contra os norte-americanos, por onde passasse.

Detalhes de algumas das missões da Força-tarefa 373 vieram a público, pela primeira vez, como resultado da divulgação de mais de 76 mil relatórios de incidentes, vazados pela página Wikileaks – que recebe e divulga pela internet, material que lhe seja enviado para divulgação sem identificar fontes. – Alguns daqueles documentos foram analisados pelos jornais Guardian[3] e New York Times e pela revista Der Spiegel. E relatório completo de todas as depredações e assassinatos praticados pela Força-tarefa 373 pode ainda vir a público.

Simultaneamente, o governo Obama recusa-se a comentar as missões de assassinatos autorizados, que continuam em andamento no Afeganistão e no Paquistão. Pode-se, contudo, desde já, extrair, da leitura cuidadosa dos documentos já vazados pela página WikiLeaks, uma breve história daquela força-tarefa, que se pode complementar com o que já se sabia, de relatórios não-secretos da atividade do exército dos EUA no Afeganistão.

Segundo os dados que se leem na página Wikileaks, havia 2.058 nomes, numa lista secreta chamada “Joint Prioritized Effects List” (JPEL), de alvos para “capturar/matar” no Afeganistão. Em dezembro de 2009, havia um total de 757 prisioneiros – provavelmente nomes que aparecem naquela lista secreta – na Bagram Theater Internment Facility (BTIF), prisão norte-americana incluída no complexo conhecido como “Base Aérea de Bagram”.

Operações “capturar/matar”

A ideia de equipes “mistas”, formadas de membros de diferentes ramos da organização militar, em colaboração com membros da CIA, foi concebida em 1980, depois da desastrada Operation Eagle Claw [Operação Garra de Águia], quando Força Aérea, Exército e Marinha uniram-se numa muito mal planejada e mal-sucedida operação para resgatar reféns norte-americanos no Irã, com a ajuda da CIA. Morreram oito soldados, quando dois helicópteros colidiram sobre o deserto iraniano. Depois, uma comissão de alto nível, de seis membros, sob a coordenação do almirante James L. Holloway III recomendou que se criasse um comando para operações especiais conjuntas [ing. Joint Special Forces], forças armadas e CIA, de modo a garantir melhor coordenação de planejamento e execução nas operações futuras.

Depois do 11/9, o processo foi acelerado. Naquele mês, uma equipe da CIA chamada “Quebra-queixo” [ing. Jawbreaker] partiu para o Afeganistão, para planejar no local a invasão liderada pelos EUA. Pouco depois, uma equipe de Boinas Verdes, do Exército, criou a Força-tarefa Dagger, com idêntico objetivo. Apesar da rivalidade inicial entre os comandantes das duas equipes, acabaram por integrar-se num único grupo.

A primeira equipe clandestina “mista” da qual participaram a CIA e várias forças especiais militares, para operações no Afeganistão foi a Força-tarefa 5, para a missão de capturar ou matar “alvos de alto valor”, como Osama bin Laden e outros altos comandantes da al-Qaeda, e Mullah Mohammed Omar, chefe dos Talibã. Uma organização gêmea, criada para operar no Iraque, recebeu o nome de Força-tarefa 20. As duas acabaram por unir-se e constituíram a Força-tarefa 121, comandada pelo general General John Abizaid, então comandante do Comando Central dos EUA.

Em livro a ser lançado ainda nesse mês de setembro de 2010 – Operation Darkheart [Operação Coração Escuro], o tenente-coronel Anthony Shaffer narra as atividades dessa Força-tarefa 121 em 2003, quando o autor foi membro de uma subequipe chamada Jedi Knights [Cavaleiros Jedi]. Trabalhando sob o codinome Major Christopher Stryker, Shaffer participou de operações conduzidas pela Agência de Inteligência da Defesa (equivalente militar da CIA), fora da base aérea de Bagram.

Numa noite de outubro, Shaffer desceu de um helicóptero MH-47 Chinook sobre uma vila próxima de Asadabad, na província de Kunar, para integrar-se a uma equipe “mista”, composta de Rangers do Exército (divisão das forças especiais) e soldados da 10ª Divisão de Montanhas. A missão: capturar um dos subcomandantes do grupo de Gulbuddin Hekmatyar, conhecido senhor-da-guerra aliado dos Talibã. A missão fora organizada a partir de informações oferecidas pela CIA.

Não foi fácil. “O trabalho daquela equipe deu certo, mas só enquanto puderam atacar o coração dos Talibã e um de seus paraísos seguros do outro lado da fronteira do Paquistão. Por um momento, Shaffer anteviu o que poderia ser a vitória dos EUA, naquela guerra” – lê-se no material de divulgação do livro. “Mas, então, os altos escalões militares intrometeram-se na operação. A política à qual servem as altas patentes militares não era nem realista nem racional. Shaffer e sua equipe foram obrigados a parar e a assistir, sentados, o crescimento da guerrilha – bem ali, do outro lado da fronteira do Paquistão.”

Quase 25 anos depois da Operação Garra de Águia, Shaffer, que foi membro do grupo Able Danger que caçou a Al-Qaeda nos anos 1990s, descreve a dura, amarga disputa, a guerra interna, subterrânea, entre as equipes da CIA e das Forças Especiais militares, sobre como gerir o sombrio mundo dos assassinos norte-americanos autorizados a matar clandestinamente no Afeganistão e no Paquistão.

A Força-tarefa 373

Avancemos fast forward, até 2007, ano da primeira referência à Força-tarefa 373, nos documentos vazados por Wikileaks.

Não se sabe se o número que identifica essa Força-tarefa teria algum outro significado; por coincidência ou não, o capítulo nº 373 do “Código 10 dos EUA” – a lei aprovada no Congresso, que estabelece as competências dos militares norte-americanos – é o capítulo que estabelece a competência do secretário da Defesa para “autorizar qualquer empregado civil” que preste serviços ao exército, a “executar mandatos judiciais e a efetuar prisões sem mandato”. Seja ou não essa a inspiração para o nome que recebeu a Força-tarefa 373, tudo que diga respeito a ela foi absoluta e totalmente classificado como material de alta segurança e protegido por segredo total. Foi assim e ainda é assim. Apenas que, hoje, depois de Wikileaks ter vazado aqueles documentos, já se sabe, com certeza, que o grupo existe, ou, pelo menos, que exi stiu.

Analistas dizem que a Força-tarefa 373 complementa a Força-tarefa 121 usando “forças brancas”, como os Rangers e os Boinas Verdes, diferentes da força mais secreta Delta Force. A Força-tarefa 373, conforme o pouco que se sabe, é comandada a partir de três bases militares – em Cabul, capital do Afeganistão; em Candahar, segunda maior cidade do país; e na cidade de Khost, próxima das áreas tribais no Paquistão. É possível que algumas de suas operações partam de Camp Marmal, base alemã ao norte, na cidade de Mazar-e-Sharif. Fontes familiarizadas com o programa dizem que a Força-tarefa tem seus próprios helicópteros e aviões, dentre os quais os helicópteros armados AC-130 Spectre, usados exclusivamente por ela.

Tudo leva a crer que tenha sido comandada pelo general-brigadeiro Raymond Palumbo, e que esteja baseada no Comando Especial de Operações Especiais em Fort Bragg, Carolina do Norte. Mas Palumbo deixou Fort Bragg em meados de julho, logo depois de o general Stanley McChrystal ser substituído por Obama no comando geral da guerra no Afeganistão. E não se conhece o nome do novo comandante da Força-tarefa 373.

Em mais de 100 relatórios de eventos que se leem nos arquivos Wikileaks, descreve-se a Força-tarefa 373 como ativa em numerosas operações de “capturar/matar”, sobretudo nas províncias de Khost, Paktika e Nangarhar, todas na região da fronteira com o Paquistão, nas Áreas Tribais sob Administração Federal. Há alguns relatórios de capturas bem-sucedidas; outros, de eventos em que morreram oficiais da polícia afegã e até crianças pequenas, que enfureceram os moradores da região e levaram a atos de protesto e a alguns ataques contra as forças militares lideradas pelos EUA.

Em abril de 2007, David Adams, comandante da equipe de reconstrução provincial da província de Khost, foi convocado para uma reunião com os anciãos da vila de Gurbuz, na província de Khost, indignados com as operações conduzidas, naquelas comunidades, pela Força-tarefa 373. O relatório que se pode ler nos arquivos vazados por Wikileaks não diz o que a Força-tarefa 373 havia feito, que tanto indignou os anciãos de Gurbuz. Mas o governador da província de Khost, Arsala Jamal, já havia protestado, em dezembro de 2006, contra das operações das Forças Especiais em sua província, que haviam deixado vários civis mortos. Naquela ocasião, foram mortos cinco civis, em ataque contra a vila de Darnami.

“Essa é nossa terra”, dissera então o governador. “Há tempos venho convidando com insistência: temos de sentar juntos e discutir. Nós conhecemos nossos irmãos afegãos, conhecemos nossa cultura. Essas operações não foram planejadas para criar novos inimigos. Temos meios para fazer diminuir o número de operações erradas.”

Como Adams lembraria depois, em coluna publicada no Wall Street Journal, “O número sempre crescente de ataques contra famílias afegãs afastou de nós a maioria dos anciãos das áreas tribais de Khost.”

Dia 12/6/2007, Danny Hall e Gordon Philips, trabalhando na província de Nangarhar, a nordeste e em área próxima de Khost, foi convocado para uma reunião como governador Sherzai, para dar explicações sobre a morte daqueles sete oficiais de polícia afegãos, resultado de uma operação da Força-tarefa 373. Como Jamal, Sherzai declarou, diretamente a Hall e Philips, que “considera absolutamente indispensável melhor coordenação (...)” e que “de modo algum deseja ver repetidos os mesmos erros.”

Menos de uma semana depois, a equipe da Força-tarefa 373 atacou, com cinco mísseis, uma construção em Nangar Khel, na província de Paktika, ao sul de Khost, em atentado para matar Abu Laith al-Libi, líbio, suposto membro da al-Qaeda. Quando os soldados dos EUA chegaram à vila, descobriram que a Força-tarefa 373 havia destruído uma madrassa (escola islâmica), matado seis crianças e ferido gravemente uma sétima, a qual, apesar dos esforços de uma equipe médico-militar dos EUA, morreu pouco depois. (No final de janeiro de 2008, circularam notícias de que al-Libi teria sido morto por um míssil Hellfire lançado de um avião-robô Predator, numa vila próxima de Mir Ali, no Waziristão Norte, no Paquistão.)

Akram Khapalwak, governador da província de Paktika, reuniu-se com militares dos EUA, um dia depois do ataque à madrassa. Diferente dos outros governadores provinciais em Khost e Nangarhar, Khapalwak aceitou apoiar os “itens para discussão” preparados para que a Força-tarefa 373 explicasse – à mídia – o incidente. Segundo os relatórios sobre esse incidente que se leem em Wikileaks, o governador então “reforçou os comentários sobre a tragédia que vitimara as crianças; e ainda acrescentou que a tragédia poderia ter sido evitada, se os moradores da vila tivessem informado sobre a presença de guerrilheiros na área.”

Apesar de tudo, nenhuma espécie de “itens para discussão”, não importa quem os tenha repetido para os jornais, conseguiu fazer diminuir o número de civis mortos, enquanto continuaram os raids da Força-tarefa 373.

Dia 4/10/2007, a Força-tarefa 373 despejou 500 bombas Paveway de 500 pound sobre uma casa na vila de Laswanday, a menos de 10 km de Nangar Khel na província de Paktika (a mesma província onde já haviam sido mortas sete crianças). Dessa vez, morreram quatro homens, uma mulher e uma menina – civis – além de uma mula, um cachorro e várias galinhas. Foram feridos uma dúzia de soldados dos EUA, os quais relataram que “nenhum inimigo foi capturado ou morto”.

A história afegã que ninguém conta

Nem todos os raids resultaram em mortes de civis. Os relatórios militares vazados por Wikileaks sugerem que aquela Força-tarefa 373 teve melhor sorte ao capturar “alvos” vivos e sem mortes de civis, dia 14/12/2007. O 503º Regimento (aerotransportado) da Infantaria foi convocado para dar cobertura à Força-tarefa 373 numa incursão à província de Paktika, à caça de Bitonai e Nadr, dois supostos líderes da Al-Qaeda cujos nomes aparecem na lista JPEL. A operação aconteceu nos arredores da cidade de Orgun, próxima à Base Avançada de Operações dos EUA Harriman [ing. U.S. Forward Operating Base (FOB) Harriman]. Localizada a 7 mil pés de altitude e cercada por montanhas, vivem nessa base cerca de 300 soldados e uma pequena equipe da CIA, e a base é frequentemente visitada por barulhentos helicópteros e cáfilas de sonolentos camelos que pertencem aos pashtuns locais.

Uma equipe de assalto aéreo (codinome “Operation Spartan”) desceu sobre o local onde se supunha que Bitonai and Nadr vivessem, mas não os encontrou. Um informante afegão disse aos soldados das Forças Especiais que suspeitava de que os procurados estivessem escondidos a poucas milhas daquele local; a Força-tarefa 373 encontrou-os e prendeu-os, além de outros 33 homens que os acompanhavam; todos foram levados para a Base Avançada Harriman para interrogatório e possível transferência para a prisão na Base de Bagram.

Mas quando a Força-tarefa 373 estava no comando da operação, todos os civis, pelo que se vê, corriam risco. E, embora houvesse soldados norte-americanos ansiosos por relatar o que viam – como o demonstram os documentos vazados por Wikileaks –, jamais se ouvem as vozes afegãs e a versão afegã dos acontecimentos. Por exemplo, numa 2ª-feira à noite, em meados de novembro de 2009, a Força-tarefa 373 executou operação para prender ou matar um suposto guerrilheiro (codinome “Ballentine”) na província de Ghazni. Um relatório tenso informa que foram mortos uma mulher afegã e quatro “insurgentes”. Na manhã seguinte, uma Força-tarefa “White Eagle” [Águia Branca], unidade de soldados poloneses sob o comando da 82ª Divisão (aerotransportada) dos EUA, relatou que cerca de 80 pessoas reuniram-se em ato de protesto contra as mort es. A janela de um dos veículos blindados foi danificada pelos manifestantes afegãos, mas não há, nos relatórios, qualquer opinião que tivesse sido colhida entre os afegãos, sobre o mesmo incidente.

Ironicamente, um dos últimos incidentes em que houve participação da Força-tarefa 373, dos que se leem nos documentos de Wikileaks, foi praticamente reprise da Operação Garra de Águia original, desastre que levou à criação das equipes “conjuntas” de capturar/matar. Na madrugada de 26/10/2009, dois helicópteros norte-americanos, um UH-1 Huey e um AH-1 Cobra, colidiram perto da cidade de Garmsir, na província de Helmand, ao sul; quatro fuzileiros da Marinha [ing. Marines] morreram.

Aliada muito próxima da Força-tarefa 373 é a unidade britânica Força-tarefa 42, reunião de comandos do Serviço Especial da Força Aérea, Serviço Especial Embarcado e Regimento Especial de Reconhecimento, que operam na província de Helmand e são mencionados em vários relatórios dos que se leem nos documentos Wikileaks.

Caça humana

“Capturar/matar” é elemento chave de uma nova ‘doutrina’ militar desenvolvida pelo comando das Forças Especiais fixada depois do fracasso da “Operação Garra de Águia”. Sob a liderança do general Bryan D. Brown, que assumiu o Comando das Forças Especiais em setembro de 2003, a ‘doutrina’ passou a ser conhecida como “4F” [da expressão “find, fix, finish, and follow-up”, em português, aproximadamente “Localizar, deter, eliminar e impedir que recomece”], mensagem eufemística[4]< /a>, mas fácil de entender, sobre o modo prescrito para lidar com os supostos terroristas e guerrilheiros.

Nos anos Bush-Rumsfeld (secretário da Defesa), Brown começou a organizar equipes de “forças especiais ‘mistas’” para essas missões 4F fora das zonas de guerra. Receberam o nome anódino de “Elementos de Ligação Militar” [ing. Military Liaison Elements]. Os repórteres Scott Shane e Thom Shanker, do New York Times, relataram pelo menos um assassinato cometido por essa equipe no Paraguai (de um assaltante armado, cujo nome não aparecia em nenhuma lista de ‘procurados’). A equipe norte-americana, cuja presença no Paraguai não fora comunicada ao embaixador dos EUA, recebeu ordens para deixar imediatamente o país.

“A exigência número um é defender a pátria. Às vezes, há ordens para localizar e capturar ou matar em todo o mundo terroristas que tentem agredir essa nação,” disse Brown à Comissão das Forças Armadas da Câmara de Deputados, em março de 2006. “Nossos parceiros estrangeiros (...) são nações bem-intencionadas mas incapazes, que querem ajuda para construir suas próprias competências para defender suas fronteiras e eliminar o terrorismo em seus países ou regiões.” Em abril de 2007, o presidente Bush, como prêmio ao trabalho de planejamento de Brown, criou um cargo especial de alto nível no Pentágono, de secretário-assistente de Defesa para operações e conflitos de baixa-intensidade e competências interdependentes.

Michael G. Vickers, que se tornou conhecido no livro e filme Charlie Wilson's War (2007, port. Jogos do poder[5]), como arquiteto das operações secretas de fornecimento de armas e dinheiro para os mujaheedin na campanha da CIA contra o Afeganistão soviético nos anos 1980s, foi indicado para aquele cargo. Sob sua liderança, reformularam-se as linhas de atuação, em de zembro de 2008, para “desenvolver capacidades para ampliar o alcance dos EUA em áreas nas quais não sejam admitidos, para operar com e mediante forças estrangeiras nativas, ou para conduzir operações de baixa visibilidade”. E assim o programa “capturar/matar” foi institucionalizado em Washington.

“A guerra ao terror é fundamentalmente guerra indireta (...) É guerra de parceiros (...) mas é também em certo sentido guerra nas sombras, seja pela sensibilidade política seja pelo problema de localizar terroristas”, disse Vickers ao Washington Post no final de 2007. “Porisso a CIA é tão importante (...) e nossas forças para Operações Especiais desempenham grande papel.”

A partida de George W. Bush da Casa Branca não diminuiu o entusiasmo geral pelas operações 4F. Aconteceu o contrário: a fórmula 4F foi maquiada, à típica maneira dos militares, e é hoje “find, fix, finish, exploit, and analyze” ou F3EA [port. “Localizar, deter, eliminar, impedir que recomece e análise”], e o presidente Obama, em todos os sentidos, ampliou o alcance das operações militares ‘mistas’ e dos programas “capturar/matar” em todo o mundo – ampliação que acompanha perfeitamente a escalada dos ataques por aviões-robôs comandados pela CIA.

Há bem poucos que apoiem publicamente a ‘doutrina’ do “capturar/matar”. Mas o professor Austin Long, da Columbia University, abraçou a causa dos projetos F3EA. Observando semelhanças entre um programa de assassinatos “Phoenix”, responsável por dezenas de milhares de assassinatos durante a guerra do Vietnã (programa que o professor defende), o professor Austin recomendou que se reduzam “as pegadas” que os militares estão deixando no Afeganistão; para isso, sugere que as Forças Especiais sejam reduzidas para no máximo 13 mil soldados, que se concentrariam exclusivamente em operações de contraterrorismo, especificamente em assassinatos. “Phoenix sugere que a coordenação da inteligência e a integração da inteligência com um braço armado pode ter efeito poderoso inclusive contra grupos extremamente grandes e armados” – escreveram Long e seu co-autor William Rose nau, em monografia publicada em julho de 2009 pelo Rand Institute, intitulado “The Phoenix Program and Contemporary Counterinsurgency” [port. O Programa Phoenix e a contraguerrilha contemporânea].

E há outros, até mais agressivamente empenhados. O tenente George Crawford, que se aposentou no cargo de “estrategista chefe” do Comando das Forças Especiais e passou a trabalhar para a Archimedes Global, Inc., empresa de consultoria em Washington, sugeriu que a sigla F3EA fosse substituída por apenas duas palavras: “Caça humana” [ing. Manhunting]. Em monografia publicada pela Joint Special Operations University [aprox. “Universidade das Operações Especiais Mistas] em setembro de 2009, sob o título “Caça humana: Organização de contrarrede para guerra irregular” [orig. “Manhunting: Counter-Network Organization for Irregular Warfare]” Crawford ensina “como dar conta da missão de desenvolver habilidades para caça humana, entendida como habilidade relevante para a segurança na cional dos EUA.”

“Estamos matando ‘os caras’ errados”

A estranha evolução desses conceitos, a criação de equipes cada vez mais globais de ‘caçadores-assassinos’, cujo trabalho em tempo integral, sete dias por semana é assassinar, e os muitos civis que essas equipes “de Forças Especiais mistas” assassinam regularmente em suas ações contra ‘alvos’ que ninguém sabe quem define têm perturbado até vários especialistas militares.

Por exemplo, Christopher Lamb, atual diretor do Instituto de Estudos Nacionais Estratégicos na Universidade de Defesa Nacional [ing. Institute for National Strategic Studies at the National Defense University, e Martin Cinnamond, ex-funcionário da ONU que serviu no Afeganistão, assinaram estudo para a edição da primavera-2010 da revista Joint Forces Quarterly no qual escreveram: “Há ampla concordância em torno da ideia de que a abordagem indireta da contraguerrilha deve preceder quaisquer operações de matar/capturar. Mas tem ocorrido exatamente o contrário.”

Outros militares têm dito que a abordagem do caçador-matador é precária e contraproducente. “Para mim, a Força-tarefa 373 e outras forças-tarefas assemelhadas tem alguma utilidade, porque mantêm o inimigo sob pressão. Mas essa abordagem não vai às raízes do conflito, de por que a população civil apoia os Talibã,” disse Matthew Hoh, ex-empresário contratado pela Marinha e pelo Departamento de Estado, que renunciou em setembro ao cargo que exercia no governo. Hoh, que várias vezes trabalhou com a Força-tarefa 373, além de outros programas de “capturar/matar” no Afeganistão e no Iraque, acrescenta: “Estamos matando ‘os caras’ errados, gente de nível intermediário no comando dos Talibã, que só nos veem como inimigos porque estamos lá, atacando-os nas terras deles. Se não estivéssemos lá, eles não estariam fazendo guerra contra os EUA.”

A Força-tarefa 373 talvez seja um pesadelo para os afegãos. Para o resto do mundo – agora que Wikileaks nos deu acesso àqueles documentos –, pode ser vista como evidência de desastres políticos muito mais profundos. Em todos os casos, a pergunta que vem à cabeça de quem saiba da atividade dessa Força-tarefa 373 é tão horrível quanto básica: os EUA estarão, mesmo, a caminho de converter-se em alguma espécie de Caçadores de Homens & Cia., empresa global?


[1] DiaryDig.org é um blog independente criado para facilitar a pesquisa nos arquivos do Afghan War Diaries vazados pela página Wikileaks dia 25/7/2010. São m ais de 76 mil relatórios (e outros serão divulgados em breve) de cinco anos (2004-2009) da guerra do Afeganistão.
A partir de DiaryDig.org leem-se todos os documentos vazados, organizados por tipo, categoria, data, número de mortos e várias outras classificações. A partir da página de qquer documento, clica-se no texto verde sublinhado para ter acesso a outros documentos que contenham a mesma expressão ou a mesma frase; já há várias conexões criadas entre termos considerados mais importantes, e que poderiam passar despercebidas por leitor menos habituado àquele tipo de discurso.
Esperamos que essa ferramenta seja útil a analistas, jornalistas e ao público em geral interessados em conhecer a atuação dos EUA na guerra do Afeganistão e dar bom uso a esse raro e importante banco de dados que WikiLeaks distribuiu.
Caso você deseje apoiar esse trabalho, faça uma doação em dinheiro para a página Wikileaks ou para o Fundo criado para pagar os advogados que defendem o soldado Bradley Manning (em http://www.diarydig.org/).

[3] Para conhecer a história do vazamento pela página WikiLeaks e a parte do material que foi analisado na primeira publicação, pelo jornal Guardian, ver o blog “Outras Palavras”, 27/7/2010, em http://www.ponto.outraspalavras.net/category/afeganistao/

[4] Há aqui um traço semântico de tradução impossível, em que ficam fortemente sugeridas várias expressões de baixo calão (‘f-words’, ‘4 letters-words’, ‘fuck-words’ dentre outras).

[5] Sinopse e ficha técnica em http://www.imdb.com/title/tt0472062/

Tradução: Vila Vudu
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A RENÚNCIA DE JÂNIO


Laerte Braga*

Há quarenta e nove anos atrás Jânio Quadros renunciou a presidência da República. Sete meses após sua posse. Minutos depois da leitura da carta renúncia pelo presidente do Senado, Auro Soares de Moura Andrade (PSD/SP), já ex-presidente e ao volante de um DKW da Vemag, Jânio disse a jornalistas que nunca mais poria os pés em Brasília, “cidade maldita”. Afirmou que iria ser pedreiro em Cuba.

“Forças ocultas” foi a expressão usada por Jânio Quadros, um mato-grossense que fez carreira política em São Paulo, para justificar o ato. Em seus sete meses de governo proibiu brigas de galos, desfile de miss com biquíni e instituiu o slack como uniforme do funcionalismo público.

Deixou Douglas Dillon secretário do Tesouro dos EUA falando sozinho para encenar um show de Brasil independente e mandou que cada chefe de repartição conferisse o ponto de cada funcionário público, aumentando em meia hora o expediente.

Atribuir a renúncia de Jânio a umas doses a mais é simplificar demais o fato. As doses a mais faziam parte do dia a dia do presidente e começavam pela manhã, estendiam-se pela tarde e encerravam-se à noite, já em profunda embriaguez. Aí ia assistir a faroestes de trás para a frente.

Outro hábito de Jânio eram os famosos bilhetinhos. Enviava-os aos seus ministros com determinações curtas, tudo com cópia para a imprensa.

Jânio era marqueteiro de si próprio. Um dos grandes demagogos de nossa história. Construiu a fama de político honesto e deixou um patrimônio objeto de disputa judicial por seus herdeiros em torno de cem milhões de dólares. No exterior, lógico.

O ex-presidente acreditava que sua renúncia criaria um clima de comoção popular e voltaria ao poder nos braços do povo com amplos poderes. Poderes de ditador. Mas esqueceu de combinar o golpe com seus ministros militares e seus principais aliados. Pelo contrário, deixou alguns pelo caminho, caso de Carlos Lacerda.

Na antevéspera da renúncia chamou Lacerda a palácio, a conversa permanece mais ou menos sigilosa até hoje e ao final o ministro da Justiça, Pedroso Horta, mandou que as malas de Lacerda fossem postas à porta de saída do Planalto.

Na noite do dia seguinte Lacerda foi a tevê e em seus costumeiros e virulentos discursos usou de todo o arsenal de acusações que guardava desde os tempos de Getúlio Vargas, para ocasiões em que seus interesses eram contrariados.

No dia 24 de agosto Jânio recebeu em palácio o ministro da Indústria e Comércio de Cuba, nada mais e nada menos que Ernesto Chê Guevara para condecorá-lo com a Ordem do Cruzeiro do Sul. O fato indignou a direita brasileira.

O marechal Lott, adversário de Jânio nas eleições de 1960, passou a campanha inteira advertindo aos brasileiros que a eleição do ex-governador de São Paulo levaria o País ao caos, a uma crise institucional, cujas conseqüências seriam dias sombrios e tenebrosos.

Quase que simultaneamente à renúncia de Jânio, Lott divulgou um manifesto de apoio à legalidade, vale dizer, a posse do vice-presidente da República João Goulart.

O golpe que Jânio não combinou com ninguém, aí sim, a “mardita pinga” deve ter influenciado, começou quando sem maioria no Congresso tentou atrair uma das principais lideranças do PSD (maior bancada), o ex-presidente Tancredo Neves, oferecendo-lhe uma embaixada no exterior. A Bolívia foi a “oferta” de Jânio a Tancredo (o mineiro havia sido derrotado por Magalhães Pinto nas eleições para o governo de Minas e estava sem mandato). A surpresa veio por conta da recusa de Tancredo. Simples, respeitosa e direta. “sou de um dos partidos que fazem oposição ao seu governo, agradeço a lembrança, sinto-me honrado, mas declino do convite”. Mais ou menos assim.

O peso de Tancredo em setores do pessedismo não era maior, por exemplo, que o de José Maria de Alckmin, mas sua presença entre os petebistas, partido de Jango, era respeitada e acatada por setores expressivos daquele partido, o antigo PTB. A idéia de Jânio era neutralizar o ex-ministro da Justiça de Vargas, jogá-lo fora da arena política.

Mais à frente incumbiu o vice-presidente João Goulart, com quem vinha tendo atritos, de missão na China Comunista. O objetivo era o mesmo, afastar Jango do cenário político nacional, colocá-lo num país objeto de visceral ódio da maioria dos militares brasileiros, limpar o terreno para o golpe.

Sabia que a primeira conseqüência de sua renúncia seriam as reações de setores das forças armadas à posse de Jango, incluindo os seus três ministros militares (Odílio Dennys, Grum Moss e Sílvio Heck – Guerra, Aeronáutica e Marinha).

O problema Lacerda, na cabeça de Jânio era simples. A vocação golpista do antigo governador do extinto estado da Guanabara aflorava à sua pele em cada pronunciamento que fazia. Só não contava com a reação de Carlos Lacerda ao seu projeto de virar ditador, já que Lacerda alimentava o sonho de suceder a Jânio. Esse desejo era maior que o desvio golpista. E além do mais Lacerda enfrentava problemas nos negócios, particularmente o jornal TRIBUNA DA IMPRENSA, que pretendia transformar em algo semelhante ao que o GLOBO é hoje.

Porta voz da insensatez e da mentira. O que faz de forma bem sensata, aliás.

Jânio puxou a escada, deixou Lacerda seguro só na brocha.

Cumpriu os protocolos, digamos assim, do dia 25 de agosto, dia do Soldado, não deu na pinta que o gesto tresloucado viria uma ou duas horas depois, entregou a renúncia a Pedroso Horta, ministro da Justiça e esse ao presidente do Senado. A despeito dos apelos de Afonso Arinos, ministro das Relações Exteriores e que correu a assumir o mandato de senador para tentar evitar a renúncia, Auro Soares de Moura Andrade leu a carta e aceitou a renúncia.

Afonso Arinos queria colocar em votação e Auro foi direto depois de ouvir Tancredo. “A renúncia é um gesto de vontade unilateral, não cabe ser discutida”.

Na ausência do vice-presidente, João Goulart, em missão na China (o Brasil não tinha relações diplomáticas com o governo de Pequim e Jânio mandara Jango para iniciar um diálogo com o governo de Mao Tse Tung e Chou En Lai), o presidente da Câmara, Ranieri Mazili (PSD/SP) foi empossado no cargo.

Os três ministros militares, de pronto, se colocaram contra a posse de Jango tachando-o de comunista. Não encontraram apoio nem entre udenistas históricos caso de Adauto Lúcio Cardoso, nem em boa parte da caserna. Mas assumiram o controle do Brasil.

A reação veio do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola. Do antigo PTB, cunhado de Jango e que começava a despontar como liderança nacional a partir das ações de seu governo, principalmente na área da educação.

Brizola, com ele e uns poucos secretários e assessores transformou o Palácio do Piratini em centro da resistência democrática. Criou uma rede de emissoras de rádio a que chamou de CADEIA DA LEGALIDADE, usada para denunciar o golpe, defender a posse de Jango, a legalidade democrática.

Ao contrário dos ministros militares encontrou eco em todo o Brasil e em diferentes forças políticas. Teve o apoio da Brigada Militar do Rio Grande (PM), o Piratini foi pequeno para abrigar voluntários, muitos chegando de várias partes do Brasil e em meio a incertezas recebeu o apoio do comandante do III Exército, general Machado Lopes.

Lott que conclamara através de um manifesto a defesa da legalidade fora preso pelos golpistas, isso no Rio de Janeiro onde se encontrava. O marechal Nilo Sucupira foi o encarregado de prender o marechal.

Jango, estava em meio a um périplo para voltar da China ao sabor dos fatos que aconteciam no Brasil. Encarregou Tancredo Neves de negociar em seu nome. Um acordo feito com os golpistas em torno da emenda parlamentarista de Raul Pila (Partido Libertador, RS), pôs fim à crise.

Brizola aceitou a solução negociada, mas declarou-se contrário ao que chamou de “expediente golpista”. Tancredo Neves foi o primeiro-ministro indicado por Jango e Ernesto Geisel o porta-voz do vice-presidente, agora presidente, junto aos ministros militares do ex Jânio Quadros.

E se não me falha a memória, Jânio Quadros e suas esquisitices deliberadas, propositais, embarcou para a Europa num navio cargueiro, me parece que o Uruguai Star. Nos momentos seguintes à sua renúncia, na base aérea de Cumbica, em São Paulo, ao saber que o fato estava consumado, teve uma forte crise de choro.



O golpe falhara.

Um ano depois tentaria voltar ao governo de São Paulo. Foi derrotado por Ademar de Barros (a quem havia vencido em 1954). O governador Carvalho Pinto, oriundo do chamado janismo não absorvera a renúncia do seu antigo líder e um terceiro candidato, José Bonifácio, dividiu o eleitorado janista. Àquela época não havia segundo turno, uma eleição para governos estaduais ou presidente da República era decidida por maioria simples.

A renúncia de Jânio escancarou mais ainda as portas para o golpe real.

O outro golpe, o de 1964, começou em 1950, na segunda derrota do brigadeiro Eduardo Gomes (UDN). A primeira para o marechal Dutra e a segunda para Getúlio Vargas. Quase se materializou em 1954 no manifesto dos coronéis contra a presença de Jango no Ministério do Trabalho (Getúlio havia dobrado o valor do salário mínimo e nem as elites e nem militares subordinados a elas aceitaram a medida) e da crise provocada pelo assassinato do major Rubens Florentino Vaz, que na verdade foi um atentado contra Carlos Lacerda, deputado e principal líder da oposição a Getúlio.

Um inquérito que mostrou membros da guarda pessoal de Vargas envolvidos no crime deu ensejo a que militares da Aeronáutica, na chamada REPÚBLICA DO GALEÃO, pregassem abertamente o golpe. O suicídio de Vargas abortou o golpe, comoveu o país e o vice, o potiguar João Café Filho, ligado a Ademar de Barros, assumiu o governo. De cara deixou Ademar e migrou para o udenismo.

A eleição de JK por pouco não foi para o brejo na tentativa golpista abortada pelo marechal Lott, ministro da Guerra (hoje, Secretaria do Exército). Em 11 de novembro de 1955 e no governo de Juscelino, duas revoltas localizadas e levadas à frente por setores da Aeronáutica fracassaram.

Nada do que Lott dissera que aconteceria ao Brasil na hipótese da eleição de Jânio deixou de acontecer. Em 1º de abril de 1964 militares de extrema-direita, subordinados aos Estados Unidos e comandados pelo general norte-americano Vernon Walthers, derrubaram Goulart, assumiram o governo e até 1984 produziram o pior filme de terror de nossa história, real e sofrido.

A última cena ainda não foi protagonizada. A punição dos responsáveis pelo período de barbárie. Se auto anistiaram. É uma espécie de the end necessário para cicatrizar feridas abertas pela barbárie dos DOI/CODI e das OPERAÇÕES CONDOR.

Jânio conseguiu voltar à Prefeitura de São Paulo, em 1965, derrotando Fernando Henrique Cardoso.

No dia da sua posse pendurou um par de chuteiras à porta do seu gabinete anunciando que estava terminando sua carreira.

E ainda assim tentou “inovar” para melhorar o trânsito de veículos automotivos na capital paulista. Queria o patinete a motor.

Sua reputação por pouco não vai abaixo literalmente, quando sua filha quis denunciá-lo por corrupção, abusos, etc. Foi salvo por Ulisses Guimarães que preferiu não deixar a história vir a público e segurou Tutu Quadros, deputada e filha do ex.

Se a ditadura foi uma noite de horror, Jânio foi um drama lamentável com laivos de loucura consciente, se é que posso escrever assim, estudada, pensada.

Sanduíche de mortadela e um copo de pinga, os ingredientes preferidos em suas campanhas políticas, mas de público, de forma ostensiva e visível, para que todos pensassem que com o boné de motorneiro de bonde, de fato dirigia um bonde.



Descarrilou. Pior descarrilou o Brasil.

A versão atual de Jânio é também um ex-prefeito da capital de São Paulo e ex-governador do estado, José Arruda Serra.

A diferença está no fato de Arruda Serra ser abstêmio. O que conta a favor de Jânio. Como costumo sempre lembrar e como dizia o poeta Sílvio Machado, “não conheço nenhuma boa idéia surgida em leiteria”.

Um detalhe. O vice de Jânio era Milton Campos, anos luz à frente de Índio da Costa (nem deve saber quem foi Milton Campos). E antes de renunciar à presidência, Jânio renunciou à candidatura. É que a UDN havia indicado Leandro Maciel, um senador sergipano para vice. Jânio sabia que a despeito de ser um político honrado, não acrescentaria nada à sua chapa, pelo contrário, poderia complicar uma eleição fácil.

No período da ditadura militar tentou ensaiar algumas declarações contra o regime militar, acabou inovando, cumpriu a primeira pena de confinamento desde não sei quando em nossa história. Foi para Corumbá, onde ficou 45 dias por determinação do marechal Castelo Branco. Sossegou em seguida, foi cuidar de outro Sossego, esse com letra maiúscula. Uma das marcas mais famosas de pinga àquele tempo e escreveu uma gramática e uma coleção de história do Brasil, uma delas em parceria com Afonso Arinos.

Arinos recuperou-se e curou-se da doença, registre-se nos autos a bem da verdade.

E como dizia Jânio, “fi-lo porque qui-lo”.




*Jornalista.
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