Casa Branca desabafa contra a “esquerda profissional”


Tradução: Caia Fittipaldi

10/8/2010, Sam Youngman, The Hill
http://thehill.com/homenews/administration/113431-white-house-unloads-on-professional-left

A Casa Branca está furiosa com as críticas que tem recebido da esquerda norte-americana, para a qual o presidente Obama estaria mais preocupado com os negócios do que com a pureza ideológica.

Em entrevista a “The Hill”, em sua sala na Ala Oeste, o secretário de imprensa da Casa Branca Robert Gibbs criticou duramente os militantes da esquerda-do-contra, os quais, disse ele, jamais estão satisfeitos com o que o presidente faça.

“Ouço esse pessoal dizer que o presidente é igual a George Bush. Parecem drogados”, disse Gibbs. “Parecem doidos.”

O secretário de Imprensa usou, contra a “esquerda profissional”, termos muito semelhantes aos usados pelos adversários de Obama na direita ideológica. Disse que “Só estarão satisfeitos, quando tivermos nos EUA o sistema público de saúde do Canadá, e quando o Pentágono tiver sido extinto. Não trabalham com dados de realidade.”

Dos que reclamam que Obama bajula os centristas em questões como a reforma da Saúde, Gibbs disse: “Não parariam de reclamar, nem se Dennis Kucinich fosse presidente.”

A Casa Branca, sob fogo constante dos inesperados inimigos de esquerda, tem-se sentido frustrada pelas opiniões, nos noticiários noturnos da televisão a cabo que reúnem vozes da esquerda, e nos quais Obama e seus principais assessores, como Rahm Emanuel, são diariamente execrados por não ter optado por um sistema público de saúde; por ainda não ter fechado a prisão de Guantánamo; e por, até agora, não ter posto fim à proibição de homossexuais assumidos nas Forças Armadas.

A esquerda norte-americana tem criticado Obama e sua equipe por se aproximarem cada vez mais do centro e por ter barganhado na negociação política da reforma do sistema de saúde, pelo resgate dos grandes bancos, pela regulação financeira pouco exigente e pelo pacote de $787 billhões de estímulo à economia, o qual, para algumas dessas vozes de esquerda, deveria ter sido maior.

Semana passada, Rachel Maddow, da rede MSNBC, descreveu David Axelrod, conselheiro político de Obama, como um “pretzel humano”, pelo modo como explicou a posição do governo sobre o casamento de homossexuais. Axelrod explicou que Obama opõe-se ao casamento de pessoas do mesmo sexo, mas apóia benefícios iguais para parceiros homossexuais.

A Casa Branca também está frustrada por estar sendo atacada por grupos políticos de esquerda, como o Progressive Change Campaign Committee (PCCC), que arrecada dinheiro para campanhas de candidatos e causas de esquerda.

Adam Green, um dos fundadores do PCCC, já criticou Obama por ter manifestado “mentalidade de perdedor” no debate sobre a reforma da saúde; e tem criticado o presidente e Emanuel por não se terem empenhado mais para incluir a opção pela saúde pública, na legislação final aprovada. O grupo tem publicado matéria paga em jornais, acusando Obama de ignorar o desejo dos milhões que o elegeram, em troca do apoio da senadora Olympia Snowe, Republicana do Maine.

Atualmente, o PCCC pressiona Obama para que indique Elizabeth Warren, heroína da esquerda dos EUA, como primeira presidente da nova agência de proteção ao consumidor criada pela “Reforma de Wall Street”.

Apesar de visivelmente decepcionado, Gibbs não citou nenhum nome dos detratores da Casa Branca.

Green escreveu em declaração distribuída por e-mail, na 2ª-feira à tarde: “Quando os Republicanos opuseram-se ao pacote de estímulo e quando Joe Lieberman opôs-se a opção pela saúde pública, que eram, de longe, as opções mais populares, o presidente deveria ter partido em caravana pelos estados, pedindo apoio para as políticas que os eleitores desejavam. Em vez disso, rendeu-se sem luta.”

Os duros comentários de Gibbs refletem frustração e perplexidade, da Casa Branca, que acredita ter feito muito na linha das teses que a esquerda sempre defendeu.

Em 18 meses de governo, Obama já aprovou a reforma da saúde, a reforma financeira e a legislação que garante pagamento equivalente para homens e mulheres em funções idênticas, dentre outras leis sempre desejadas pela esquerda norte-americana.

Obama prepara o fim da guerra do Iraque, e o fim das operações de combate está previsto para o final de agosto.

Aumentou a representação feminina na Suprema Corte, com a nomeação de duas juízas, uma das quais, a primeira hispânica. Mesmo assim, vários grupos de esquerda criticam-no por não ser suficientemente de esquerda.

“Fizemos 1001 coisas”, disse Gibbs, que então lembrou-se de incluir o Iraque e a reforma da saúde.

Para Gibbs, a “esquerda profissional” não representa os cidadãos norte-americanos progressistas que se organizaram, fizeram campanha, arrecadaram dinheiro e, por tudo isso, conseguiram eleger Obama.

Os verdadeiros progressistas, disse Gibbs, não são os esquerdistas de Washington, e “vivem na América profunda”. Esses são gratos pelo que Obama já conseguiu, num país com a economia destroçada, sob cerrada oposição do Partido Republicano e em pouco tempo.

No início do verão, Obama procurou contato com a esquerda – inclusive, convidou Maddow e outros jornalistas e blogueiros de esquerda para um almoço privado.

No final de julho, Obama fez uma aparição surpresa, por vídeo, com a ajuda de Maddow, na convenção dos “NetRoots” em Las Vegas, onde a esquerda profissional reunira-se para coordenar seus discursos de desapontamento com o presidente.

“Espero que vocês dediquem um momento e considerem o que já conseguimos”, disse Obama, a um público que dava sinais de impaciência. “E ainda não terminamos.”

A falta de compreensão, ou de reconhecimento, pelos feitos do governo Obama tem levado Gibbs e outros a uma espécie de desilusão irada.

Larry Berman, professor de ciência política da University of California-Davis e especializado em análise do desempenho presidencial, disse que também o surpreende que a esquerda dos EUA não entenda o quanto custou a Obama a aprovação das reformas, até aqui, nem reconheça como mérito a ação pragmática do presidente.

“Mas a ironia disso tudo”, continuou Berman, “é que a frustração de Gibbs apenas comprova que a oposição conservadora foi muito bem-sucedida na operação para minar a aprovação popular do presidente”, disse Berman. “Do ponto de vista de Gibbs, e do ponto de vista da Casa Branca, eles deveriam estar mais empenhados agora, isso sim, em reconquistar a confiança das pessoas que, supõem eles, teriam alguma obrigação de ser compreensivas, gratas e elogiosas.”

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Nem a pop-arte tucana dá certo


Aos meus caros amigos da editoria de arte da Revista Época,

Agradeço em nome da blogosfera o belo trabalho gráfico. Sei qual foi o pedido de seus chefes, sei o que desejavam. Vocês fizeram o seu trabalho como profissionais. Mas, caiu na rede. A cada hora vejo um blog utilizando o seu trabalho em conceito diverso do desejado pelos venais pauteiros da revista.

Realmente, nada dá certo na campanha do vampiro Serra.

Um forte abraço deste humilde blogueiro.
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O "jornalismo" sórdido da Time

Por Chico Villela em NovaE

O governo BHObama estimula campanha antiTaleban na mídia grande dos EUA para compensar os estragos das revelações do coletivo WikiLeaks.

Tudo indica que as revelações do Diário da Guerra Afegã, do coletivo de ativistas políticos WikiLeaks, continua fazendo estragos sem conta. A revista Time deu a partida da reação do governo BHObama com uma capa de rara indignidade: uma moça afegã bonita, 18 anos, de véu, com o nariz semidecepado e a orelha (oculta) mutilada, obra de seu marido apoiado por líder taleban em reação a sua vontade de deixar o lar após abusos e ofensas.

A apelação foi e vem sendo questionada da parte de críticos e analistas até mesmo afinados com as posições da revista. Mas a indignidade está mais no título, algo como: é o que acontece se os EUA saírem do Afeganistão.

E o assassinato pelo Taleban de uma dozena de médicos e assessores ocidentais deflagrou uma onda de notícias repetitivas sem fim. Há vários subtextos nestas demonstrações da capacidade da grande imprensa de superar recordes de canalhice.

A moça de nariz mutilado acha-se nos EUA para ganhar plástica facial. Pena que milhões de mutilados pelas armas aliadas em suas guerras sem fim não tenham a mesma compensação.

1 O primeiro subtexto é o racismo e a manifestação de superioridade: se os EUA saírem do Afeganistão, o país voltará a mergulhar na barbárie mais abjeta. Ou seja: a presença das tropas invasoras é garantia de civilização e outras banalidades afins.

Idéia 1 Substituir a moça da capa por uma grande foto de um casamento que uniu há uns quatro anos duas aldeias e duas famílias tradicionais. Uma festa rara no Afeganistão, em que os clãs se fecham em suas tradições e pouco se abrem para outros clãs, inda mais de etnias diversas. A cerimônia, confundida pelos invasores com uma reunião do Taleban (uma prova da eficácia dos seus serviços de Inteligência), foi severamente bombardeada. Morreram mais de 140 pessoas, a maioria mulheres e crianças, inclusive a noiva. Quase não havia cadáveres, apenas pedaços de corpos misturados. A Time perdeu uma boa capa.

Curioso é que esta não foi a primeira vez: desde 2001, dezenas de festas, reuniões e casamentos vêm sendo bombardeados. As tropas alemãs da OTAN patrocinaram recentemente outra carnificina. Dois caminhões de combustível roubados pelo Taleban atolaram num riacho. Centenas de moradores próximos acorreram para pegar um pouco de algo que, lá, é precioso e raro. O comando alemão entendeu que o Taleban se reunia em mais de centena e solicitou bombardeio dos aviões e helicópteros do governo BHObama, que foi agravado pela explosão dos caminhões. Resultado: alguns insurgentes talebans e mais de 150 mortos civis afegãos e um presidente alemão que renunciou em parte por isso.

2 O segundo subtexto é insistir nas diferenças culturais entre muçulmanos fundamentalistas e outras correntes religiosas, radicais ou não, e entre as incompatibilidades entre as concepções “ocidentais” e as muçulmanas, com privilégio para as “ocidentais” e desprezo pelas muçulmanas. (Para o Ocidente, é condenável cobrir o corpo e o rosto da mulher com túnicas. Mas para o Ocidente é lícito expor o corpo da mulher de todos os modos, de elegância a putaria, de uma forma que, para muçulmanos, é igualmente condenável.)

Idéia 2 Os fundamentalismos muçulmanos são tão odiosos quanto os cristãos (nascidos por perto dos anos 1920 nos EUA e hoje alastrados como erva maligna pela política e a vida social do país) , os judaicos (que favorecem invasão e ocupação de terras palestinas e elegem governos de extrema-direita como o atual) e outros menos votados. O marido muçulmano afegão que mutila a mulher tem tanto peso quanto o ex-combatente que volta da guerra do Afeganistão, não encontra espaço na sociedade, arrasta traumas e psicoses, não tem assistência adequada e um dia mata a família e suicida. Os índices de suicídio entre ex-combatentes do Iraque e do Afeganistão é superior ao de todas as outras categorias classificáveis. Mas eles apenas matam e suicidam, não mutilam os seres amados.

3 O terceiro subtexto é o pretenso desrespeito do Taleban aos colaboradores altruístas e desinteressados, como médicos missionários, que socorrem, em geral, os feridos de tropas invasoras. Mais uma demonstração da barbárie do “inimigo” e da superioridade do invasor, que socorre até mesmo famílias afegãs atingidas pelos combates (leia-se: atingidos pelo fogo maciço dos invasores).

Idéia 3 Se não tivesse havido invasão, os médicos não estariam presentes, a não ser que fizessem parte de entidades dedicadas ao socorro a sofredores, sejam talebans ou chineses. Mas estes são sempre bem-vindos pelos governos e pelos opositores. Para os cidadãos do país, como os da etnia pashtun que enforma o Taleban, há milênios instalados em seu espaço, tropas armadas e médicos que se locomovem junto são ambos invasores.

A leitura, do ponto de vista do combatente taleban, é absolutamente correta. Seria pedir demais ao guerreiro taleban separar uns de outros. Logo para ele, que assiste ao seu inimigo que não sabe separar sequer combatentes de civis, ou adultos insurgentes de mulheres e crianças.

4 O quarto subtexto é a gratuidade do ataque taleban à equipe de médicos e assessores, o que reforça a característica de barbárie dos atos do inimigo.

Idéia 4 Os registros do Diário da Guerra Afegã trazem milhares de relatos de mortes em postos de controle, em estradas, dos invasores e da polícia afegã. Assim como os explosivos caseiros respondem pela maior parte de mortes de militares invasores, os assassinatos em postos de controle avultam entre os principais responsáveis pelas mortes de civis. Os invasores chamam essa barbárie de “escalation of force”, que começa no medo do que não se conhece (uma família afegã num carro é um potencial atacante) e culmina com civis metralhados, muitas vezes dentro de ônibus. Gratuidade?

5 Infere-se da foto, da chamada de capa e da leitura do texto que a violência de fundamentalistas muçulmanos é pior que qualquer outra.

Idéia 5 As contagens variam, mas todas convergem para cifras abismantes. No Iraque morreram até agora, após a invasão de 1991 por Bush pai, do bloqueio econômico e dos bombardeios entre 2001 e 2003, e pela invasão e posterior carnificina de Bush filho em 2003, mais de 1.350.000 civis. Exilados, contam-se por volta de 4.500.000, mais da metade fora do país. Desde a invasão russa de 1980-1989 até agora, após nove anos de invasão dos EUA-OTAN, morreram no Afeganistão estimados 3.000.000 de civis.

Mas a violência dos fundamentalistas muçulmanos é inimaginável: assim reza a grande mídia obediente aos desígnios e aos dólares do governo e das corporações que o elegem e mantêm. Consegue ser pior que a brasileira.

Fato que, este, sim, é um feito memorável!

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Guerras ocidentais X mulheres muçulmanas

Tradução: Caia Fittipaldi

5/8/2010, Marwan Bishara, Al-Jazeera, Qatar
http://blogs.aljazeera.net/imperium/2010/08/05/western-wars-vs-muslim-women

Marwan Bishara é jornalista, editor-chefe e analista político da rede Al-Jazeera [1]

A imprensa ocidental transborda de matérias sobre os maus tratos dos Talibãs às mulheres no Afeganistão e no Paquistão, e desperta incontáveis vozes de apoio, muito menos às mulheres do que à guerra que, como se diz, assegurará “futuro mais promissor aos direitos das mulheres”. Essa semana, a matéria de capa da revista Time promove exatamente esse tema.

Se as guerras ocidentais algum dia tivessem feito alguma coisa para ‘libertar’ as mulheres orientais, as muçulmanas seriam as mulheres mais ‘libertadas’ do mundo – depois de séculos de intervenções militares por exércitos ocidentais. Não são, nem serão, sobretudo quando qualquer ‘liberdade’ venha necessariamente associada ao mando ocidental.

O Afeganistão conheceu sua quota de intervenção militar por britânicos, russos e norte-americanos, e até agora, ninguém libertou uma única muçulmana. De fato, relatos de grupos feministas confiáveis locais demonstram que as condições de vida das mulheres afegãs pioraram muito desde a invasão pelos EUA, há quase uma década.

As normas sociais dos Talibã talvez afrontem modernos valores ocidentais, mas de modo algum podem ser sumariamente trocadas por valores ocidentais implantados, muito menos a tiros (ou a peso de bombas de fósforo).

Se, como insiste o general Petreaus, os soldados dos EUA devem “viver” com os afegãos, para conseguir derrotar os guerrilheiros, devem também esperar hostilidade cada vez maior contra os invasores estrangeiros e seus valores.

A carga do homem branco?[2]

Os mesmos argumentos da civilização pró-ocidente que têm sido usados há séculos para justificar as mais sangrentas guerras coloniais no oriente são reaproveitados hoje para manipular a opinião pública que sempre resiste contra todas as guerras e induzi-la a apoiar a escalada militar na Ásia Central.

A velha fantasia dos homens ocidentais, de ‘salvarem’ mulheres veladas das garras de seus opressores e raptores, está sendo explorada para promover a ideia de que a guerra ‘libertará’ as mulheres veladas da ‘maldição’ de terem de conviver com ‘terroristas barbudos’, assim como a mesma guerra também ‘libertará’ os EUA do ‘terrorismo’ dos mesmos barbudos.

À luz de tão pesada overdose de moralismo, foi particularmente embaraçoso para os líderes norte-americanos constatar que seus aliados são perfeitamente competentes para construir acordos com os mesmos grupos de barbudos aterrorizantes, que chegam para parlamentar, é claro, com suas barbas e suas práticas sociais.

Ano passado, o governo Obama condenou publicamente o presidente do Paquistão Asif Ali Zardari, por reconhecer as leis da Xaria no pequeno vale do rio Swat. Para o governo Obama, seria “rendição” aos Talibã. O mesmo governo Obama também condenou o presidente do Afeganistão Hamid Karzai, por ter assinado lei que admite o estupro nos casamentos da minoria xiita que vive no país.

Ninguém se lembrou de lembrar-se que até há bem pouco tempo, o estupro conjugal foi legal na Grã-Bretanha e nos EUA, onde ainda é legalmente considerado crime menor que o estupro não-conjugal em vários estados.

Os que buscam solução militar para problemas sociais falham sempre ao não fazer distinção ente o Islã e os Talibã, ou entre aspectos culturais e religiosos da vida na Ásia Central. E falham sempre, também, porque jamais explicam como, afinal, alguma mulher poderá alcançar algum direito, por meios militares.

Afinal de contas, a grande maioria dos paquistaneses e afegãos já votaram contra os Talibã – e no caso do Paquistão elegeram um partido secular liderado por uma mulher ocidentalizada, a falecida Benazir Bhutto, supostamente assassinada pelos Talibã. De fato, os fundadores do Paquistão eram tão seculares quanto muitos de seus equivalentes ocidentais.

Os últimos meses mostraram que o governo do Paquistão é capaz de fazer frente aos Talibã, quando entenda necessário. E quando a televisão paquistanesa mostrou o chicoteamento de uma jovem de 17 anos, houve indignação nacional, dos mais de 170 milhões de paquistaneses.

Por décadas, paquistaneses e afegãos foram vítimas de Talibã de estilo medieval, de mujahedeen e de senhores-da-guerra apoiados e armados pelos EUA através dos serviços de inteligência do Paquistão e da Arábia Saudita.

De fato, durante grande parte do século 20, todas as intervenções militares diretas ou apoiadas por países ocidentais, no Oriente Médio expandido, visaram a derrubar regimes seculares na região – do Irã de Mossadegh ao Egito de Nasser, passando pelo Iraque de Hussein, e para não falar de Najibullah, no Afeganistão soviético.

A carga da mulher branca

Ironia, que outros conservadores não veem, é o conservador britânico Cyril Townsend publicar, no jornal panárabe dos sauditas Al-Hayat, em artigo que levava o título “Direito das mulheres no Afeganistão”, que as soldadas britânicas lutam para que também no Afeganistão as mulheres tenham respeitados os seus direitos.

E nem uma linha de explicação sobre por que, 18 anos depois de meio milhão de soldados de EUA e Grã-Bretanha tanto terem guerreado para libertar o Kuwait e proteger sua aliada, a Arábia Saudita, as mulheres sauditas, até hoje, são proibidas de votar e de dirigir carros.

Tolices semelhantes apareceram em 2001, enunciadas pelas primeiras-damas Laura Bush e Cherie Blair, de apoio à “guerra para libertar as mulheres do Afeganistão”, quando de fato só faziam promover a guerra de seus respectivos homens e outros, e nunca, em tempo algum, promoveram algum direito de alguma mulher.

A revista Time seguiu a mesma toada, essa semana, com lembrete para que não se esquecesse o suplício das mulheres afegãs. Richard Stengel, editor-gerente da revista, escreveu que não publicara a matéria nem exibira aquela imagem “para apoiar nem o esforço de guerra dos EUA nem os que são contra a guerra”. Pode ser. Mas a matéria e a capa contribuíram para justificar a guerra em círculos humanitários ‘civilizados’ e nada fizeram para criticar a guerra naqueles mesmos círculos.

Um século depois de o poeta inglês Rudyard Kipling ter pela primeira vez invocado “A carga do homem branco”1 para explicar a invasão e a ocupação das Filipinas pelos EUA, Washington e Londres continuam a tentar justificar suas ações militares de intervenção e ocupação, servindo-se das mesmas falsidades requentadas.

É escandaloso que depois de as mentiras sobre “A carga do Homem Branco” terem sido desmascaradas, ao preço do sangue de milhões de homens e mulheres, novas doses gigantescas da mesma violência ainda apareçam justificadas sob o pretexto de alguma “carga” sobre ombros de algum homem ou mulher.

E é exatamente isso que se vê, quando tantos advogam que se bombardeiem incansavelmente culturas que não conhecem, até que se tornem culturalmente semelhantes ao Ocidente.

Essa perigosa escatologia espera construir sobre o que destrói e pode acabar destruindo sociedades muçulmanas inteiras, arrastada pela fantasia de que, pela morte e pelo sangue, o ocidente alcançará a liberdade que fantasia para outros, sem assegurá-la sequer às suas mulheres.

A guerra é o abuso máximo

Como principais vítimas do abuso do poder, as mulheres ocidentais vivem em posição única, da qual podem denunciar e rejeitar, mais que todas as mulheres, o maior e mais completo abuso, o abuso dos abusos, o abuso destrutivo, pelo homem ocidental, do poder patriarcal: a guerra.

Quanto às mulheres muçulmanas, não há qualquer espaço nessa guerra para ouvir o que pensem, suas esperanças ou aspirações. A voz delas está sendo progressivamente calada, pelo som ensurdecedor das bombas e explosões.

As mulheres orientais foram as primeiras vítimas civis das guerras ocidentais. Quantas viúvas, mães, irmãs e filhas enlutadas o ocidente ainda terá de produzir, antes de aprender a rejeitar todas as guerras de agressão, e de aprender a ver o que é, de fato, a suposta ‘missão civilizadora’ do Ocidente? Depois de décadas de guerras, o Iraque e o Afeganistão são hoje nações de viúvas – até agora são cinco milhões de viúvas, e o número não para de aumentar.

Os maus tratos contra mulheres não são limitados por culturas ou fronteiras. Paradoxalmente, a violência contra mulheres, em famílias de veteranos de guerra, nos EUA, é de três a cinco vezes maior do que na média das famílias norte-americanas. Essa, sim, é, literalmente, uma Carga da Mulher Branca.

Muitas mulheres alistam-se no serviço militar para alcançar plena igualdade no campo dos direitos. Há mais mulheres soldadas em combate no Iraque e no Afeganistão, do que jamais antes em todas as guerras. Penso mais nas mulheres que resistem ao mundo masculino das guerras, muito mais do que penso nas mulheres que se engajam nele.

Seja como for, homem algum jamais fez guerra para libertar mulher alguma. Bem diferente disso, segundo Martin Van Creveld, historiador de guerras, os homens fazem guerra para fugir de suas esposas e famílias, à caça de êxtase e transcendência. Não se pode dizer que seja causa propriamente feminista.



[2] Orig. The White Man's Burden é título de um poema do inglês Rudyard Kipling, publicado originalmente na revista popular McClure’s em 1899, com o subtítulo “The United States and the Philippine Islands”. H á uma ambiguidade no título, talvez mais clara em inglês que em português, e no modo como o poema (que teve várias versões) foi construído, que permite várias interpretações [a carga que pesa sobre os ombros do homem branco, e por extensão, a tarefa ‘civilizatória’ que lhe caberia; ou a carga representada pelo homem branco invasor e colonialista, que pesa sobre outros ombros, dentre outras intepretações]. Efeito dessa ambiguidade, o poema tem servido como ‘referência poética’ tanto para os que combatem o racismo eurocêntrico quanto para os que partilham as ambições ocidentais de dominar o mundo em desenvolvimento [NT, com informações de http://en.wikipedia.org/wiki/The_White_Man's_Burden].

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Coalizão de forças



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O cansaço político do conservadorismo no RS

by Marco Aurélio Weissheimer.

Esgotamentos políticos não ocorrem pode decreto, é certo. Mas é certo também que o Rio Grande do Sul vem sendo comandado nos últimos anos por representantes de um campo político conservador que revela sinais eloqüentes de decadência, decadência esta que vem sendo embalada por um discurso puramente gerencial e por uma retórica vazia de um diálogo que nunca acontece. Nesta terça-feira, começa a propaganda eleitoral no rádio e na televisão. É quando o debate político-eleitoral começa a ir para às ruas de modo mais significativo. É quanto, também, os discursos que embalam os diferentes projetos políticos começam a tomar forma e a apontar o que cada candidatura representa. E, cabe lembrar elas sempre representam um setor da sociedade. Não caem do céu e tampouco representam os anjos.

Há quatro anos, a maioria do eleitorado gaúcho optou pela proposta de um “novo jeito de governar”, apresentado pela candidatura da tucana Yeda Crusius. Representante do campo político que, no Brasil, abraçou as teses do Estado mínimo e das privatizações como fator de desenvolvimento da economia, Yeda Crusius chegou ao Palácio Piratini com a bandeira contábil do déficit zero. Determinou um corte linear de 30% no orçamento de custeio de cada secretaria e limitou brutalmente as funções do Estado, especialmente na área social. Foi um governo marcado pelo autoritarismo, pela repressão aos sindicatos e movimentos sociais, pelas denúncias de corrupção e pela extraordinária capacidade de criar conflitos dentro de sua própria base de apoio. A relação caótica da governadora com seu vice, Paulo Feijó, e a gravação que este fez de uma conversa escabrosa com o então chefe da Casa Civil, César Busatto, são dois símbolos marcantes desse “novo jeito de governar”.

Mas Yeda Crusius não realizou todas essas proezas sozinha e é fundamental registrar isso como indício do esgotamento político citado acima. Sua vitória só foi possível graças a uma coalizão de forças centralizada pelo PMDB, partido que, nos quatro últimos governos, esteve no Palácio Piratini em três deles – dois diretamente, com Antonio Britto e Germano Rigotto, e um, como principal força política de apoio, o governo de Yeda Crusius. Essa coalizão de partidos que oscilam do centro à direita governou o Rio Grande do Sul, portanto, em 12 dos últimos 16 anos. Um fator importante que explica essa hegemonia é a repetição de um truque que, com algumas variações, consiste em apresentar um candidato supostamente dissidente que representaria algo de novo em relação a este próprio campo político. Foi assim com Rigotto, que se apresentou como algo diferenciado em relação a Antonio Britto, aliando a isso a promessa de uma pacificação para uma suposta guerra que estaria acontecendo no Estado. Uma “guerra”, lembre-se, entre dois projetos políticos, com símbolos e propostas bem definidos na história recente do Estado.

De um lado, temos governos que apostaram na privatização da CRT, de parte da CEEE, do Banrisul (que acabou interrompida) na extinção da Caixa Econômica Estadual, na guerra fiscal para atrair empresas como a GM e a Ford, na “pacificação” e, agora, no déficit zero. Temos aí 12 anos de governo e um balanço que nunca foi feito por essas forças políticas e pelos grandes meios de comunicação do Estado que, na maioria das vezes, trabalharam como parceiros desses projetos, desempenhando inclusive protagonismos diretos como foi o caso da RBS no processo de privatização da CRT.

De outro lado, há um intervalo de quatro anos neste período, representado pelo governo Olívio Dutra. Alguns dos símbolos das apostas deste governo: Fórum Social Mundial, criação da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), implementação do Orçamento Participativo Estadual, incentivo dos sistemas locais de produção ao invés de priorizar a concessão de grandes benefícios fiscais para algumas grandes empresas multinacionais.

Trata-se de um resumo esquemático, sem dúvida, e repleto de lacunas, portanto. Mas é importante mencionar esses símbolos e realizações para lembrar que se trata de projetos políticos em disputa, liderados por diferentes setores da sociedade que tem história e, supostamente, responsabilidade por seus atos e escolhas. Ocorre que, no Rio Grande do Sul, o governo Olívio Dutra continua sendo lembrado, por seus adversários político-midiáticos, pela “expulsão” da Ford, pelo “caos” na segurança pública, pela “partidarização” do Estado. E os governos Britto, Rigotto e Yeda são acompanhados por um curioso fenômeno: ao final de cada um deles, um braço político destaca-se do Executivo e se apresenta como sendo oposição ao governo do qual participou ativamente até então.

O mesmo ocorre agora com as candidaturas de Yeda Crusius (PSDB) e José Fogaça (PMDB). O PMDB teve um papel central no governo tucano: ele foi, entre outras coisas, o avalista político da governadora Yeda, quando ela enfrentou o processo de impeachment na Assembléia Legislativa. Foi o PMDB também, com a participação direta de lideranças como o senador Pedro Simon e o deputado federal Eliseu Padilha, que evitou a desintegração do governo por ocasião do episódio da gravação da conversa entre o vice Paulo Feijó e o ex-chefe da Casa Civil, César Busato (quando este, lembre-se, afirmou que partidos da base do governo utilizavam estatais para fazer caixa para campanhas políticas).

E o truque é repetido: Fogaça abandona a prefeitura de Porto Alegre e apresenta-se como o “candidato do diálogo”, uma alternativa à truculenta Yeda Crusius. Alternativa para quem? Para os mesmos setores que sustentaram o governo Antonio Britto, o governo Fernando Henrique Cardoso, o governo Rigotto e, agora, o governo Yeda. Fogaça é a aposta do PMDB que, em nível nacional, apóia Dilma Rousseff. Uma escolha que, se dependesse exclusivamente do PMDB gaúcho, talvez não acontecesse. Crítico dos “outros PMDBs” nacionais, o “velho MDB” do senador Simon não esconde suas simpatias pela candidatura do tucano José Serra. Trata-se, sem dúvida, de uma afinidade ideológica que ajuda a identificar a evolução das posições e dos governos na história recente do Rio Grande do Sul. A contradição central aí não é da candidatura de Dilma Rousseff e tampouco da candidatura de Tarso Genro ao governo do Estado.

Mas, com a repetição, os truques começam a perder força. A imagem apática de José Fogaça no debate realizado na TV Bandeirantes, e a eletricidade meio que enlouquecida de Yeda Crusius são um símbolo eloqüente de um esgotamento. Não há nada que garanta, é claro, que esse truque não vai funcionar mais uma vez. Talvez a mudança política qualitativa no cenário nacional, com o êxito do governo Lula acabe convencendo a maioria do eleitorado gaúcho que está na hora de virar a página e abrir um novo ciclo político na história do Estado. Há algumas regiões e empresas do Estado que já experimentam resultados positivos resultantes dessa escolha: a cidade de Rio Grande é uma delas, com o desenvolvimento de um pólo naval; a Semeato, fábrica de tratores de Passo Fundo, que saiu do buraco graças ao programa Mais Alimentos do governo federal. Há muitos outros exemplos. A própria governadora Yeda, ironicamente, falou de um deles no debate da Band, que é o fortalecimento da agricultura familiar no Estado. Não é casual que Yeda precise se referir regularmente a obras e projetos do governo Lula como sendo realizações de seu governo. É o que tem para dizer, além do discurso do déficit zero.

Os projetos, seus símbolos e realizações, podem ser bem identificados. É preciso apenas levantar o véu de mistificação que cobre o Estado há alguns anos, tecido pela retórica conservadora que promete paz onde não há guerra, que olha para o Estado como um apêndice de seus negócios privados e que acena eternamente com o novo que sempre se repete como velho. A repetição do truque indica, de fato, que essas forças não tem nada de verdadeiramente novo para oferecer ao povo do Rio Grande do Sul.



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