Israel e a fórmula mágica da paz
Dando mais um novo exemplo ao mundo de como está empenhado na paz mundial, o Exército israelense atacou na madrugada de 31 de maio barcos da Frota "Free Gaza", que tentavam levar 10.000 toneladas de ajuda humanitária (entre materiais de construção, medicamentos, alimentos, e materiais de necessidade básica) para a Faixa de Gaza, onde 1,5 milhão de habitantes sofrem com o bloqueio que Israel impõe sobre o território para atingir o governo islâmico do Hamas.
A ação gerou contestações ao redor do mundo, tanto por meio de discursos de chefes de Estado e da ONU, quanto com revoltas em diversos países se opondo ao ataque israelense. Já o ministro das Relações Exteriores de Israel, Avigdor Lieberman, disse que as pessoas a bordo do navio invadido não estavam em missão de paz e são terroristas.
A cineasta brasileira Iara Lee era uma dessas supostas "terroristas" dentro das embarcações atacadas por Israel, e disse que a ação foi um "Apocalypse Now total", em referência ao filme de 1979 sobre a guerra do Vietnã. Costurados em roupas íntimas, cartões de memória das câmeras da cineasta sobreviveram aos confiscos do Exército Israelense, sendo que neles há filmagens do ataque. Tais imagens adquirem extrema importância, uma vez que são das poucas não violadas por Israel.
Em uma entrevista à BBC Brasil, Iara Lee afirma que operador de internet do barco foi morto com um tiro na cabeça.“Ele estava na sala de operações, perto da ponte, por onde entraram os atiradores de elite. O corpo dele foi encontrado com um tiro na cabeça”. Ainda de acordo com a cineasta, "Nos barcos pequenos, eles usaram balas de borracha, gás lacrimogêneo e armas de choque. Mas no nosso barco, eles chegaram usando munição de verdade [...] Nossa contabilidade é de que 19 pessoas morreram. Ainda há gente desaparecida, não sabemos o que aconteceu com eles. E ainda há feridos muito graves, praticamente morrendo, que não conseguimos retirar do hospital em Tel Aviv [...] Pessoas que estavam no barco contaram ter visto soldados atirando corpos no mar".
Coincidentemente, na edição de maio da Caros Amigos, o jornalista José Arbex Jr. publicou um artigo tratando sobre a política internacional de Israel. A análise de Arbex é de apenas alguns poucos dias antes do ataque israelense sobre o grupo de ajuda humanitária, e já enfoca os problemas que o governo Obama enfrenta por conta da postura permanentemente bélica do Estado sionista no que tange suas questões fronteiriças. Entitulado "Israel abre uma avenida para a catástrofe" publicamos aqui um trecho desse artigo:
"As crescentes tensões entre os governos dos Estados Unidos e Israel atingiram, nos últimos meses, um nível sem precedentes desde 1956, quando Israel resolveu atacar o Egito, em operação conjunta com a Inglaterra e a França, sem prévio conhecimento da Casa Branca, para tomar o controle do Canal de Suez. Elas são o reflexo de uma perigosíssima tormenta que se prepara no Oriente Médio e na Ásia central, envolvendo o conjunto dos países árabes e islâmicos, incluindo Afeganistão, Paquistão, Irã e, claro, Estados Unidos, Rússia e Israel. Exagero? Longe disso. Com a palavra o vice-presidente estadunidense Joseph Biden, durante uma visita a Israel, em 10 de março, ao advertir o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu, segundo relata o jornal Yediot Aharanoth, um dos mais influentes em Israel:
"A coisa está começando a ficar muito perigosa para nós. O que vocês estão fazendo aqui cria novas ameaças à segurança dos nossos soldados que combatem no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão. Criam-se riscos novos para nós e para a paz regional'. A advertência ganha maior significado quando se recorda que Biden é um fervoroso defensor de Israel. Em outubro de 2006, o então senador pelo Partido Democrata chegou a afirmar que o apoio dos democratas ao Estado judeu 'vem de nossas vísceras, atinge o coração e vai até o cérebro. É quase genético.'
Biden criticava a política de implantação de novos assentamentos israelenses nos territórios palestinos ocupados, em especial no setor oriental (árabe) de Jerusalém. No momento mesmo em que o vice-presidente iniciava sua visita a Israel, Netanyahu anunciava a instalação de 1.600 novas casas para judeus ultraortodoxos no bairro de Ramat Shlomo, em Jerusalém Oriental, além da construção de 112 novos apartamentos em Beitar Illit, na Cisjordânia. Irritado, Biden afirmou que 'dado que muitos, no mundo muçulmano, veem uma clara conexão entre as ações de Israel e a política dos Estados Unidos na região, qualquer decisão que agrida os direitos de palestinos em Jerusalém Leste terá impacto direto na segurança pessoal dos soldados americanos que combatem o terrorismo islâmico'.
"A coisa está começando a ficar muito perigosa para nós. O que vocês estão fazendo aqui cria novas ameaças à segurança dos nossos soldados que combatem no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão. Criam-se riscos novos para nós e para a paz regional'. A advertência ganha maior significado quando se recorda que Biden é um fervoroso defensor de Israel. Em outubro de 2006, o então senador pelo Partido Democrata chegou a afirmar que o apoio dos democratas ao Estado judeu 'vem de nossas vísceras, atinge o coração e vai até o cérebro. É quase genético.'
Biden criticava a política de implantação de novos assentamentos israelenses nos territórios palestinos ocupados, em especial no setor oriental (árabe) de Jerusalém. No momento mesmo em que o vice-presidente iniciava sua visita a Israel, Netanyahu anunciava a instalação de 1.600 novas casas para judeus ultraortodoxos no bairro de Ramat Shlomo, em Jerusalém Oriental, além da construção de 112 novos apartamentos em Beitar Illit, na Cisjordânia. Irritado, Biden afirmou que 'dado que muitos, no mundo muçulmano, veem uma clara conexão entre as ações de Israel e a política dos Estados Unidos na região, qualquer decisão que agrida os direitos de palestinos em Jerusalém Leste terá impacto direto na segurança pessoal dos soldados americanos que combatem o terrorismo islâmico'.
As advertências de Biden refletem as conclusões de um relatório apresentado no final de 2009 pelo general estadunidense David Petraeus ao Comando Unificado das Forças Armadas dos Estados Unidos. Segundo o relatório, 'cresce entre os líderes árabes a percepção de que os Estados Unidos não conseguirão enfrentar Israel, que os países cobertos pelo Centcom – quase todos árabes – começam a perder a fé nas promessas dos Estados Unidos; que a intransigência do governo de Israel no conflito Israel-Palestina está pondo em risco a autoridade dos Estados Unidos na região.' Centcom é a sigla em inglês de Comando Central, uma instância de controle das Forças Armadas estadunidenses, criada em 1983, para monitorar uma vasta área que compreende o Oriente Médio e a Ásia Central."
Ataque israelense sobre a Faixa de Gaza em dezembro de 2008. Apenas alvos militares, correto?...
O programa Sem Fronteiras, da Globo News, exibido em 03 de junho, também discutiu sobre esse recente ataque de Israel. O programa pode ser assistido nesse link: Mundo condena ataque de Israel aos barcos com ajuda humanitária.
Entre os entrevistados, está Chris Khamis, do Palestinian Solidarity Campaing. Abaixo, a entrevista que ele concedeu ao jornailista Sílio Boccanera.
Sílio Boccanera - Essa missão dos barcos foi uma provocação, já que Israel havia dito que não daria permissão a ela?
Chris Khamis - Não, a provocação é Israel manter um cerco e um bloqueio medievais que proibem que chegue comida e material de construção. Isso é provocação. Isso é interpretado por muitos como um crime de guerra, já que é uma punição coletiva para as pessoas mais velhas e a população geral em Gaza. Essa é a provocação. O que as pessoas fizeram ao ir até lá foi tentar encontrar um caminho para vencer esse bloqueio, esse cerco medieval, que mantém 3/4 da população de Gaza abaixo da linha de pobreza.
Essa era uma missão humanitária para dar fim a algo que não deveria mais estar acontecendo no mundo hoje.
SB - Por que não aceitar a oferta de Israel de receber as doações e Israel mesmo distribuir?
Chris Khamis - Bem, por uma série de razões. A ajuda não tinha que quebrar nenhum bloqueio, tinha que ser liberada, mesmo havendo necessidade de se controlar o que entra e sai, em vez de deixar os palestinos de Gaza à própria sorte para desenvolverem a região e comércio, etc., que é o objetivo de um processo de paz.
Além disso, porque muito do material, principalmente no navio turco maior, era de construção, para reconstruir as casas que foram bombardeadas durante os ataques a Gaza no fim de 2008 e início de 2009. Esse Material não seria liberado porque não havia sido liberado no passado, então ele não passaria de jeito nenhum.
SB - E sobre o bloqueio? Israel diz que distribui comida e remédios para as pessoas em Gaza. Qual a verdadeira situação por lá?
Chris Khamis - É só ouvir o que a ONU diz. O que Israel libera é 1/4 do necessário. A comida é racionada aos pouquinhos, mantendo as pessoas famintas e liberando o mínimo para não morrerem de fome. Mas eles não estão liberando medicamentos suficientes, então as pessoas estão ficando doentes e morrendo por isso. Definitivamente não é o suficiente.
Chris Khamis - Não, a provocação é Israel manter um cerco e um bloqueio medievais que proibem que chegue comida e material de construção. Isso é provocação. Isso é interpretado por muitos como um crime de guerra, já que é uma punição coletiva para as pessoas mais velhas e a população geral em Gaza. Essa é a provocação. O que as pessoas fizeram ao ir até lá foi tentar encontrar um caminho para vencer esse bloqueio, esse cerco medieval, que mantém 3/4 da população de Gaza abaixo da linha de pobreza.
Essa era uma missão humanitária para dar fim a algo que não deveria mais estar acontecendo no mundo hoje.
SB - Por que não aceitar a oferta de Israel de receber as doações e Israel mesmo distribuir?
Chris Khamis - Bem, por uma série de razões. A ajuda não tinha que quebrar nenhum bloqueio, tinha que ser liberada, mesmo havendo necessidade de se controlar o que entra e sai, em vez de deixar os palestinos de Gaza à própria sorte para desenvolverem a região e comércio, etc., que é o objetivo de um processo de paz.
Além disso, porque muito do material, principalmente no navio turco maior, era de construção, para reconstruir as casas que foram bombardeadas durante os ataques a Gaza no fim de 2008 e início de 2009. Esse Material não seria liberado porque não havia sido liberado no passado, então ele não passaria de jeito nenhum.
SB - E sobre o bloqueio? Israel diz que distribui comida e remédios para as pessoas em Gaza. Qual a verdadeira situação por lá?
Chris Khamis - É só ouvir o que a ONU diz. O que Israel libera é 1/4 do necessário. A comida é racionada aos pouquinhos, mantendo as pessoas famintas e liberando o mínimo para não morrerem de fome. Mas eles não estão liberando medicamentos suficientes, então as pessoas estão ficando doentes e morrendo por isso. Definitivamente não é o suficiente.
O graffiteiro britânico Banksy bombardeando o muro
de mais de 700 km com o qual Israel vem cercando a Cisjordânia.
SB - Sobre o incidente com os barcos, Israel diz que os soldados foram atacados quando desceram nos barcos. Qual sua opinião?
Chris Khamis - Em primeiro lugar, é preciso haver uma investigação própria para isso. Não deve ser liderada pelos israelenses. Há um passado de distorções de fatos em vez de um olhar próprio, então vamos ver o que se verifica observando as filmagens. Não digo que eles foi falsificado, mas sempre que os israelenses dizem algo eu busco por verificações.Mas digamos que isso foi verdade e vimos os soldados chegando. Se você está num barco como esse no meio da noite e se depara com comandos armados até os dentes descendo sobre você...
SB - Você não os recebe com flores.
Chris Khamis - Tal qual eu ouvi alguém na BBC falar algo não tão bom assim, mas "O que vocês esperavam? Que oferecessem uma xícara de chá?". Então, você se defende. Tem o direito de se defender. Ainda mais quando você está em mar aberto, sem quebrar qualquer regra.
SB - Em águas internacionais.
Chris Khamis - Em águas internacionais. Então, eles tinham o direito de se defenderem. Esse é o problema. É preciso se perguntar o que acontece para se ter um pensamento tão psicótico? Israel acha que não se sujeita às regras de outros países? Que pode simplesmente descer dentro de um barco fortemente armada e esperar que ninguém reaja, como seres humanos geralmente fazem?
Se Israel atacou o barco, então houve a auto-defesa. Eles têm o direito de se defenderem no barco.
Chris Khamis - Em primeiro lugar, é preciso haver uma investigação própria para isso. Não deve ser liderada pelos israelenses. Há um passado de distorções de fatos em vez de um olhar próprio, então vamos ver o que se verifica observando as filmagens. Não digo que eles foi falsificado, mas sempre que os israelenses dizem algo eu busco por verificações.Mas digamos que isso foi verdade e vimos os soldados chegando. Se você está num barco como esse no meio da noite e se depara com comandos armados até os dentes descendo sobre você...
SB - Você não os recebe com flores.
Chris Khamis - Tal qual eu ouvi alguém na BBC falar algo não tão bom assim, mas "O que vocês esperavam? Que oferecessem uma xícara de chá?". Então, você se defende. Tem o direito de se defender. Ainda mais quando você está em mar aberto, sem quebrar qualquer regra.
SB - Em águas internacionais.
Chris Khamis - Em águas internacionais. Então, eles tinham o direito de se defenderem. Esse é o problema. É preciso se perguntar o que acontece para se ter um pensamento tão psicótico? Israel acha que não se sujeita às regras de outros países? Que pode simplesmente descer dentro de um barco fortemente armada e esperar que ninguém reaja, como seres humanos geralmente fazem?
Se Israel atacou o barco, então houve a auto-defesa. Eles têm o direito de se defenderem no barco.
Embarcação atacada pelo exército israelense
SB - Vamos olhar um pouco para frente, não a solução final para o conflito entre palestinos e israelenses, mas para as consequências imediatas desse incidente. O que você acha que vai acontecer?
Chris Khamis - Depende da resposta da administração Barak Obama e também de que forma a União Européia se pronunciará, já que eles sempre exercem a influência que eles têm. Muito depende disso.
Barak Obama está numa situação difícil frente a um dos seus grandes aliados, a Turquia. Ela se pronunciou e condenou a ação de forma bem contundente, assim com a OTAN, o que Israel fez.
No mesmo programa da Globo News ainda foram entrevistados Warren Hodge (Instituto Interncional da Paz), Peter Demant (USP) e Richard Landes (Boston University). Este, ao defender a ação israelense, chegou a afirmar que "Basicamente, o que aconteceu foi que os israelenses cairam numa emboscada feita por gangues de jihadistas e, digamos que 12 foram mortos, e isso desviou a atenção do mundo.[..] O que o Hamas quer fazer é importar armas de grande porte e o Irã está feliz em poder enviá-las em barcos de ajuda humanitária. Na verdade, o que esse fato nos revela é que Gaza não está passando fome. É uma fantasia que foi criada."
Nova York, janeiro de 2009, cartaz a favor do bombardeio israelense sobre Gaza:
"Que civis inocentes? Eles elegeram o Hamas!"
Tendo em vista esse último comentário, assista ao vídeo-reportagem (em inglês) feito pela rede Al Jazeera, em 06 de janeiro de 2009 (em meio aos ataques israelenses na virada de 2008 para 2009), sobre essa "fantasia criada" e a situação das crianças de Gaza.
Entenda mais sobre o sionismo com o artigo de João Bernardo publicado no Passa Palavra. Leia no link
De Perseguidos a Perseguidores: a Lição do Sionismo.
O inferno dos tucanos

Este modesto blog cantou a pedra na última quarta ao ironizar o "suposto dossiê" contra Serra, com revelações sobre sua filha Verônica. Disse que se era para derrubar Serra, o nome principal seria outro, o de Ricardo Sérgio de Oliveira. Pois bastaram poucas horas para a comprovação de nossas suspeitas, ao aparecer no noticiário o nome do ex-tesoureiro de Serra e FHC, personagem que sempre causou comoção ao ser citado na frente de tucanos. Um resumo do resumo do que foi dito por Nassif, Paulo Henrique Amorim e Leandro Fortes:
1) Nos preparativos da atual campanha, rumores diziam que Serra preparava um dossiê contra Aécio, forma de pressioná-lo a aceitar as imposições do tucanato paulista. O grupo mineiro de Aécio correu para defendê-lo, usando o seu veículo, o Diário de Minas, para contra-atacar Serra. Lá, o repórter Amaury Ribeiro Jr, que já tinha um farto material sobre as privatizações da era FHC, recebeu incentivo e verba para viagens para completar sua apuração..
2) A guerra Serra-Aécio arrefeceu e Amaury saiu do Diário de Minas com material para um livro sobre o tucanato. Os bastidores da política sabiam do material, mas a luz vermelha acendeu quando circulou a informação de que o repórter iria divulgá-lo antes das eleições.
3) Começou uma aloprada manobra dos tucanos para se anteciparem ao estouro da bomba, usando sua mídia para acusar a candidata Dilma de preparar um dossiê, uma forma de desviar o foco e fazer fumaça para esconder suas vísceras expostas. Recente reunião urgente do alto tucanato na casa de FHC certamente tratou do assunto.
4) Foi confirmado que Amaury Ribeiro irá publicar sua reportagem, que daria um livro de 14 capítulos, na internet, logo após a Copa.
O mundo desabou em Serra e no tucanato por inteiro. Algumas reflexões inevitáveis, em cima dos fatos:
a) O nome de Ricardo Sérgio de Oliveira sempre esteve associado a grandes falcatruas no período das privatizações. A mídia sempre soube e em parte publicou suas manobras, que renderam fortunas em comissões. Mas nunca fez uma verdadeira reportagem para seguir um fundamento básico da apuração jornalística para crimes de colarinho branco: seguir o dinheiro. É o que Amaury agora faz.
b) A divulgação da reportagem de Amaury Ribeiro Jr. não apenas derruba a candidatura de Serra, mas o próprio tucanato e, por consequência, a mídia que durante anos olhou para o outro lado, clara atitude de conivência com os crimes.
c) O desespero dos envolvidos os levarão a reações extremadas, inclusive contra aliados. Cabe a candidatura de Dilma a maior serenidade possível no momento, mas firmeza em apontar a podridão do tucanato que virá à tona.
d) Amaury Ribeiro Jr já seria o vencedor do Prêmio Esso deste ano se o prêmio não fosse julgado pelo cartel da mídia tucana.
e) Serra só chega a presidência via um golpe. Vamos ficar atentos.
A introdução do livro de Amaury Ribeiro Jr:
Os porões da privataria
Quem recebeu e quem pagou propina. Quem enriqueceu na função pública. Quem usou o poder para jogar dinheiro público na ciranda da privataria. Quem obteve perdões escandalosos de bancos públicos. Quem assistiu os parentes movimentarem milhões em paraísos fiscais. Um livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., que trabalhou nas mais importantes redações do país, tornando-se um especialista na investigação de crimes de lavagem do dinheiro, vai descrever os porões da privatização da era FHC. Seus personagens pensaram ou pilotaram o processo de venda das empresas estatais. Ou se aproveitaram do processo. Ribeiro Jr. promete mostrar, além disso, como ter parentes ou amigos no alto tucanato ajudou a construir fortunas. Entre as figuras de destaque da narrativa estão o ex-tesoureiro de campanhas de José Serra e Fernando Henrique Cardoso, Ricardo Sérgio de Oliveira, o próprio Serra e três dos seus parentes: a filha Verônica Serra, o genro Alexandre Bourgeois e o primo Gregório Marin Preciado. Todos eles, afirma, tem o que explicar ao Brasil.
Ribeiro Jr. vai detalhar, por exemplo, as ligações perigosas de José Serra com seu clã. A começar por seu primo Gregório Marín Preciado, casado com a prima do ex-governador Vicência Talan Marín. Além de primos, os dois foram sócios. O “Espanhol”, como (Marin) é conhecido, precisa explicar onde obteve US$ 3,2 milhões para depositar em contas de uma empresa vinculada a Ricardo Sérgio de Oliveira, homem-forte do Banco do Brasil durante as privatizações dos anos 1990. E continuará relatando como funcionam as empresas offshores semeadas em paraísos fiscais do Caribe pela filha – e sócia — do ex-governador, Verônica Serra e por seu genro, Alexandre Bourgeois. Como os dois tiram vantagem das suas operações, como seu dinheiro ingressa no Brasil …
Atrás da máxima “Siga o dinheiro!”, Ribeiro Jr perseguiu o caminho de ida e volta dos valores movimentados por políticos e empresários entre o Brasil e os paraísos fiscais do Caribe, mais especificamente as Ilhas Virgens Britânicas, descoberta por Cristóvão Colombo em 1493 e por muitos brasileiros espertos depois disso. Nestas ilhas, uma empresa equivale a uma caixa postal, as contas bancárias ocultam o nome do titular e a população de pessoas jurídicas é maior do que a de pessoas de carne e osso. Não é por acaso que todo dinheiro de origem suspeita busca refúgio nos paraísos fiscais, onde também são purificados os recursos do narcotráfico, do contrabando, do tráfico de mulheres, do terrorismo e da corrupção.
A trajetória do empresário Gregório Marin Preciado, ex-sócio, doador de campanha e primo do candidato do PSDB à Presidência da República mescla uma atuação no Brasil e no exterior. Ex-integrante do conselho de administração do Banco do Estado de São Paulo (Banespa), então o banco público paulista – nomeado quando Serra era secretário de planejamento do governo estadual, Preciado obteve uma redução de sua dívida no Banco do Brasil de R$ 448 milhões (1) para irrisórios R$ 4,1 milhões. Na época, Ricardo Sérgio de Oliveira era diretor da área internacional do BB e o todo-poderoso articulador das privatizações sob FHC.
(Ricardo Sergio é aquele do “estamos no limite da irresponsabilidade. Se der m… “, o momento Péricles de Atenas do Governo do Farol – PHA)
Ricardo Sérgio também ajudaria o primo de Serra, representante da Iberdrola, da Espanha, a montar o consórcio Guaraniana. Sob influência do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, mesmo sendo Preciado devedor milionário e relapso do BB, o banco também se juntaria ao Guaraniana para disputar e ganhar o leilão de três estatais do setor elétrico (2).
O que é mais inexplicável, segundo o autor, é que o primo de Serra, imerso em dívidas, tenha depositado US$ 3,2 milhões no exterior através da chamada conta Beacon Hill, no banco JP Morgan Chase, em Nova York. É o que revelam documentos inéditos obtidos dos registros da própria Beacon Hill em poder de Ribeiro Jr. E mais importante ainda é que a bolada tenha beneficiado a Franton Interprises. Coincidentemente, a mesma empresa que recebeu depósitos do ex-tesoureiro de Serra e de FHC, Ricardo Sérgio de Oliveira, de seu sócio Ronaldo de Souza e da empresa de ambos, a Consultatun. A Franton, segundo Ribeiro, pertence a Ricardo Sérgio.
A documentação da Beacon Hill levantada pelo repórter investigativo radiografa uma notável movimentação bancária nos Estados Unidos realizada pelo primo supostamente arruinado do ex-governador. Os comprovantes detalham que a dinheirama depositada pelo parente do candidato tucano à Presidência na Franton oscila de US$ 17 mil (3 de outubro de 2001) até US$ 375 mil (10 de outubro de 2002). Os lançamentos presentes na base de dados da Beacon Hill se referem a três anos. E indicam que Preciado lidou com enormes somas em dois anos eleitorais – 1998 e 2002 – e em outro pré-eleitoral – 2001. Seu período mais prolífico foi 2002, quando o primo disputou a presidência contra Lula. A soma depositada bateu em US$ 1,5 milhão.
O maior depósito do endividado primo de Serra na Beacon Hill, porém, ocorreu em 25 de setembro de 2001. Foi quando destinou à offshore Rigler o montante de US$ 404 mil. A Rigler, aberta no Uruguai, outro paraíso fiscal, pertenceria ao doleiro carioca Dario Messer, figurinha fácil desse universo de transações subterrâneas. Na operação Sexta-Feira 13, da Polícia Federal, desfechada no ano passado, o Ministério Público Federal apontou Messer como um dos autores do ilusionismo financeiro que movimentou, através de contas no exterior, US$ 20 milhões derivados de fraudes praticadas por três empresários em licitações do Ministério da Saúde.
O esquema Beacon Hill enredou vários famosos, entre eles o banqueiro Daniel Dantas. Investigada no Brasil e nos Estados Unidos, a Beacon Hill foi condenada pela justiça norte-americana, em 2004, por operar contra a lei.
Percorrendo os caminhos e descaminhos dos milhões extraídos do país para passear nos paraísos fiscais, Ribeiro Jr. constatou a prodigalidade com que o círculo mais íntimo dos cardeais tucanos abre empresas nestes édens financeiros sob as palmeiras e o sol do Caribe. Foi assim com Verônica Serra. Sócia do pai na ACP Análise da Conjuntura, firma que funcionava em São Paulo em imóvel de Gregório Preciado, Verônica começou instalando, na Flórida, a empresa Decidir.com.br, em sociedade com Verônica Dantas, irmã e sócia do banqueiro Daniel Dantas, que arrematou várias empresas nos leilões de privatização realizados na era FHC.
Financiada pelo banco Opportunity, de Dantas, a empresa possui capital de US$ 5 milhões. Logo se transfere com o nome Decidir International Limited para o escritório do Ctco Building, em Road Town, ilha de Tortola, nas Ilhas Virgens Britânicas. A Decidir do Caribe consegue trazer todo o ervanário para o Brasil ao comprar R$ 10 milhões em ações da Decidir do Brasil.com.br, que funciona no escritório da própria Verônica Serra, vice-presidente da empresa. Como se percebe, todas as empresas tem o mesmo nome. É o que Ribeiro Jr. apelida de “empresas-camaleão”. No jogo de gato e rato com quem estiver interessado em saber, de fato, o que as empresas representam e praticam é preciso apagar as pegadas. É uma das dissimulações mais corriqueiras detectada na investigação.
Não é outro o estratagema seguido pelo marido de Verônica, o empresário Alexandre Bourgeois. O genro de Serra abre a Iconexa Inc no mesmo escritório do Ctco Building, nas Ilhas Virgens Britânicas, que interna dinheiro no Brasil ao investir R$ 7,5 milhões em ações da Superbird. com.br que depois muda de nome para Iconexa S.A…Cria também a Vex capital no Ctco Building, enquanto Verônica passa a movimentar a Oltec Management no mesmo paraíso fiscal. “São empresas-ônibus”, na expressão de Ribeiro Jr., ou seja, levam dinheiro de um lado para o outro.
De modo geral, as offshores cumprem o papel de justificar perante o Banco Central e à Receita Federal a entrada de capital estrangeiro por meio da aquisição de cotas de outras empresas, geralmente de capital fechado, abertas no país. Muitas vezes, as offshores compram ações de empresas brasileiras em operações casadas na Bolsa de Valores. São frequentemente operações simuladas tendo como finalidade única internar dinheiro nas quais os procuradores dessas offshores acabam comprando ações de suas próprias empresas… Em outras ocasiões, a entrada de capital acontecia através de sucessivos aumentos de capital da empresa brasileira pela sócia cotista no Caribe, maneira de obter do BC a autorização de aporte do capital no Brasil. Um emprego alternativo das offshores é usá-las para adquirir imóveis no país.
Depois de manusear centenas de documentos, Ribeiro Jr. observa que Ricardo Sérgio, o pivô das privatizações — que articulou os consórcios usando o dinheiro do BB e do fundo de previdência dos funcionários do banco, a Previ, “no limite da irresponsabilidade” conforme foi gravado no famoso “Grampo do BNDES” — foi o pioneiro nas aventuras caribenhas entre o alto tucanato. Abriu a trilha rumo às offshores e as contas sigilosas da América Central ainda nos anos 1980. Fundou a offshore Andover, que depositaria dinheiro na Westchester, em São Paulo, que também lhe pertenceria…
Ribeiro Jr. promete outras revelações. Uma delas diz respeito a um dos maiores empresários brasileiros, suspeito de pagar propina durante o leilão das estatais, o que sempre desmentiu. Agora, porém, existe evidência, também obtida na conta Beacon Hill, do pagamento da US$ 410 mil por parte da empresa offshore Infinity Trading, pertencente ao empresário, à Franton Interprises, ligada a Ricardo Sérgio.
(1)A dívida de Preciado com o Banco do Brasil foi estimada em US$ 140 milhões, segundo declarou o próprio devedor. Esta quantia foi convertida em reais tendo-se como base a cotação cambial do período de aproximadamente R$ 3,2 por um dólar.
(2)As empresas arrematadas foram a Coelba, da Bahia, a Cosern, do Rio Grande do Norte, e a Celpe, de Pernambuco.
Assinar:
Comentários (Atom)






