Entendendo a mente de um psicopata "anti - Americano"


Vamos entender um pouco do sentimento Anti-Americano" embutiodo nesta cultura alienado do "politicamente correto".

1 - Antiamericanismo e maniqueísmo


Os atentados terroristas nos Estados Unidos e o ataque que este país lidera contra o Afeganistão alçaram o sentimento antiamericano pari passu ao pensamento maniqueísta. Somos constrangidos a nos posicionarmos entre o bem e o mal. Mas quem representa o bem e o mal nesta história? Acaso os Estados Unidos estão livres das acusações que imputam a Osama bin Laden e os que lhe apóiam? Os Estados Unidos não padecem do mesmo pecado que atribuem aos seus inimigos? Acaso o terrorismo de Estado não é uma prática comum dos americanos, observável em vários momentos da história? Qual o direito dos Estados Unidos invadirem um país – e não é a primeira vez – a não ser o direito ilegítimo fundado na força militar? Façamos um exercício insano: imaginemos que algum terrorista brasileiro ataca a pátria americana e o governo local não o entregue às autoridades americanas. Teria os Estados Unidos o direito de invadir o nosso país?

Coincidentemente, o 11 de setembro foi também o dia em que o governo Salvador Allende foi deposto por um golpe de militar, com o apoio direto dos Estados Unidos. Era o ano de 1973. Aliás, esta nação, cuja arrogância é própria dos impérios de todos os tempos, procurou de todas as formas evitar a posse do presidente Salvador Allende, eleito democraticamente dentro das regras da tão apregoada democracia representativa. Há 31 anos o comandante do exército chileno, René Schneider, foi assassinado em Santiago, com um tiro de revólver. O episódio teve a participação dos americanos, inclusive com o envio de metralhadoras, com numerações raspadas, entregues aos oficiais chilenos por funcionários do governo dos Estados Unidos.

Ora, temos motivos suficientes para não aceitar que os Estados Unidos expressem o bem contra o mal. A não ser que abdiquemos da capacidade de pensar de forma crítica. Em política, todo maniqueísmo é um atentado ao bom senso e à dialética. Mesmo o inferno dantesco não se enquadra em categorias fixas e estáticas: quem lê a obra de Dante observa que o inferno tem várias escalas, obedecendo a uma certa hierarquia quanto ao pecado praticado.

Na época da guerra fria também predominava o maniqueísmo. Os bons, a depender da ótica ideológica, estavam de um lado; os maus do outro. Ambos os lados oprimiam o pensar crítico. Assim a esquerda era satanizada e a direita canonizada – a depender da posição política dos contendores. Chegou-se ao absurdo da não admissão da crítica interna, sob o argumento de que isto fortalecia o inimigo. Constrangiam-nos a aceitar, de forma acrítica, regimes políticos ditatoriais, pelo simples e obtuso argumento de que expressavam o socialismo. Quem escapava a essa dualidade cega corria o risco de tornar-se maldito e ser definido como alguém que fazia o jogo do imperialismo e da direita – o oposto também é verdadeiro, basta lembrarmos da caça às bruxas que, à maneira da inquisição, caracterizava os críticos como objetivamente alinhados aos comunistas.

O passado parece oprimir nossos cérebros. Se, de um lado, os americanos exigem alinhamento incondicional, de outro, Osama bin Laden expressa a mesma exigência ao tentar caracterizar os EUA como a besta a ser combatida pelos mulçumanos. Parece claro que a maioria dos espíritos sensatos não caem nessa armadilha e não aceitam o enquadramento incondicional. Pesquisas publicadas nos jornais apontam que os Estados Unidos não tem o apoio da população brasileira, a despeito da retórica do governo FHC. Por sua vez, o Taleban e Osama bin Laden também não conseguem a unanimidade no mundo oriental: basta ver os conflitos internos nos países de maioria mulçumana.

Contudo, um fator chama a atenção: o antiamericanismo exacerbado induziu muitos a desenvolver um sentimento de alegria, implícita ou explícita, diante dos atentados terroristas em solo americano. Houve quem expressasse na grande imprensa tal contentamento. Outros, mais reservados, expõem-no nas pequenas rodas de amigos. Outros agem de forma hipócrita e mal conseguem disfarçar o que sentem. Vítimas, culpados ou inocentes? Discussões filosóficas são feitas para definir a natureza dos mortos.

Acima das retóricas entre o bem e o mal, não podemos concordar que o sentimento anti-Estados Unidos, com toda a carga crítica que lhe é adjacente, legitime a ação do terrorismo e alimente a alegria diante da tragédia que, gostemos ou não dos americanos, ceifa vidas humanas. A racionalidade exige que nos portemos com espírito crítico, sem aceitar os fundamentalismos dos espíritos transtornados – ainda que sejam de esquerda.

A guerra americana no Afeganistão é a face inversa do terrorismo praticado na América do Norte: é terrorismo de Estado. Ambos os terrorismos são execráveis. Por que se alegrar diante da demonstração desmedida e pungente da violência? Acaso a vida é menos importante que as nossas idéias e posições políticas-ideológicas?


Espaço Acadêmico


2- O "Anti-americanismo" como ideologia



A noção de ideologia que as esquerdas marxistas usavam, ao menos antes de Antonio Gramsci, não era a de “concepção de mundo”. Havia toda uma explicação da mercadoria, do fetichismo e da reificação, aliás, muito interessante, que estava na base do que seria a ideologia em nossa sociedade. Mas, no frigir dos ovos, a noção de ideologia era a de “falsa consciência”. Ideologia, no limite, era o que nublava a visão de todos. Pois bem, se assim é, acho que podemos utilizar tal noção, com algum jogo de cintura, para o antiamericanismo que alimenta alguns cérebros de escolarizados no Brasil.

O escolarizado tem a chance de ver muito mais da cultura americana do que aquilo que ele quer ver ou é ensinado a ver por intelectuais que, por razões diversas – inclusive comerciais –, não querem sair de seus dogmatismos. Mas ele não vê. E se vê, diz que não vê. Quando um moço ou uma moça de 17 ou 18 anos entra no curso de ciências sociais ou de filosofia, por exemplo, da USP, ele já ganhou um bocado de idéias antiamericanas no cursinho, e é o que possui para “encontrar sua turma” na universidade estatal. O professor do cursinho que destila algum antiamericanismo assim age pela razão de que é um modo de, estando em uma estrutura um pouco endurecida, ter a sensação de que pode exercer um mínimo de rebeldia. Na universidade, diante de uma mudança brusca de ambiente e de projetos de vida, o estudante jovem tem facilidade de assimilar os discursos que se aproximam daquilo que ele ouviu dos “professores críticos do cursinho” ou do “colégio”. Então, o discurso antiamericanista o “integra” no ambiente universitário – ele não se sente um “deslocado” ou, como se dizia no passado, um “alienado”. Além disso, ele pensa, por exemplo, coisas assim: “mas se aquela professora, tão erudita, fala mal dos Estados Unidos, ela deve estar certa.” E daí para diante, adeus ao pensamento verdadeiramente crítico. Ele vai seguir a tal professora erudita. Ele tem o conforto de que ela não é do PSTU, que ele condena, pois são “malucos”, mas ele acredita que ela também sairia na rua com uma faixa “Queremos o Exército Brasileiro Fora do Haiti” (do PSTU) ou coisas assim.

Mas nem todos são antiamericanos por razões desse tipo. Há razões que se não são mais sofisticadas, ao menos são um pouco mais complexas.

Alguns não enxergam outra coisa por razões de ressentimento. Afinal, é duro ver que se é subdesenvolvido e que o desenvolvido, aquele que está acima de nós e que gostaríamos de tomar como espelho, comete crimes tão bárbaros quanto os nossos. Gostaríamos de ver os Estados Unidos como um Império do Bem, como ele se apresenta nos filmes em que os americanos derrotam os nazistas. Não gostaríamos de ver os Estados Unidos como um país que faz algo que nós, os subdesenvolvidos, fazemos. Por exemplo, gostaríamos que o Vietnã não tivesse sido o espelho do que fizemos com o Paraguai, naquela guerra em que nossos soldados mataram crianças, estupraram meninas e atiraram em velhos. Mas é. Então, ficamos tristes. Pois podemos nos perdoar, pois afinal nós somos incultos e subdesenvolvidos, mas não podemos perdoar os que são e dizem ser mais desenvolvidos que nós.

Há até um mecanismo psicológico de defesa, para ainda encontrar salvação. Os Estados Unidos fizeram o Vietnã e agora não estão sabendo lidar com o Iraque; então, pensamos assim: são desenvolvidos tecnologicamente, não são desenvolvidos “mentalmente”. A filosofia, as artes e a cultura em geral ficam para a Europa, segundo esse nosso pensamento reconfortante. Assim, todas as vezes que alguém mostra que para a guerra no Afeganistão e para a invasão do Iraque todos os países ricos contribuíram, inclusive com tropas, fingimos que não escutamos isso, que não é verdade. Pois os americanos precisam ser os culpados e tem de ser maus e, para tal, para serem maus, tem de ser burros – é assim que os ideologizados pensam. Colocam a Europa no pedestal da cultura e, então, não aceitam que ela seja tão responsável quantos os Estados Unidos pelo que ocorre no Iraque. Há um tipo de iluminismo de “baixo clero” em quem advoga isso, que o faz associar a cultura espiritual à bondade e a tecnologia à maldade. Isso nos ajuda a nos manter antiamericanos. É claro que isso tudo é ideológico na base, pois o maior engodo, nesse caso, é associar os Estados Unidos a um país sem cultura erudita ou em segundo plano frente aos europeus. E mais ideológico ainda é achar que todos esses erros que levam, por exemplo, para a guerra, tenha a ver com “os americanos”, como se todos os estadunidenses concordassem com o governo que possuem atualmente.

O caso do Vietnã ainda é um elemento que explica muita coisa. Ao menos para a minha geração, que ainda possui alguns cabeças duras antiamericanos, o tema do Vietnã deveria ter ensinado algo. Mas parece que não ensinou. Vemos o Vietnã, mas nos recusamos a entender corretamente como é que a guerra acabou. Vários da minha geração acham que acabou por causa de que os comunistas venceram. Mas não foi assim. Ela acabou por causa do povo americano, principalmente dos jovens. A guerra do Vietnã foi perdida “em casa”. Ou melhor, foi ganha, pois poderia ter sido ainda pior. Nunca conseguimos entender os Estados Unidos, pois tomamos Coca Cola, vamos no McDonalds mas nos recusamos a olhar os Estados Unidos por dentro, nos recusamos a olhar para a cultura americana enquanto a cultura mais auto-crítica do mundo. E aí, ao invés de assistirmos com olhos críticos o que o cinema americano fez sobre o Vietnã, como o “Franco Atirador” (The Hunter) por exemplo, preferimos achar que o filme é ... francês! Que se trata de uma crítica européia aos Estados Unidos. E com tudo o mais é assim: não lemos a filosofia deles, a literatura, etc. Achamos que sabemos tudo. E, não raro, terminamos uma graduação, fazemos mestrado e doutorado, e continuamos desinformados, achando que a nação mais poderosa do planeta é formada por uma sociedade inculta. Mesmo que essa sociedade tenha as maiores e mais livres universidades do mundo, os maiores jornais, o maior número de livrarias, o maior número de lançamento de romances de boa qualidade do mundo; bem, tudo isso não faz os cabeças duras mudar de idéia. Mesmo que na avaliação da UNESCO os Estados Unidos, hoje, com mais de 50% da sua população – que não é pequena – na universidade, consiga ultrapassar os europeus em vários quesitos de performance intelectual (a interpretação de textos é uma delas!), ainda assim achamos que eles estão montados sobre a ignorância. “Não são críticos” – nos ensinam os professores afrancesados e, infelizmente, carcomidos das áreas de ciências humanas e filosofia de nossas universidades estatais e, também, em muitas particulares.

Não conseguimos engolir filmes autocríticos americanos, pois eles mostram o que não suportamos: a alta capacidade da cultura americana de rever seus valores e, no entanto, não subverter a democracia. Isso agride o senso comum nosso, dogmatizado. Uma parcela grande de nossa esquerda, pensa assim, de modo dogmático. Os que não pensam, tem medo de dizer que não pensam assim e serem tomados como “de direita”, e então perderem “seu público”. Até mesmo intelectuais que passam por sofisticados, escorregam em algum momento, e se revelam antiamericanos, ou no mínimo desinformados sobre o que é viver nos Estados Unidos e o que é o trabalho lá, o povo de lá etc. É incrível como isso existe até mesmo no meio jornalístico!

Precisamos reverter isso. Deveríamos começar a nos perguntar coisas do tipo: como que Monteiro Lobato, mesmo tendo simpatias pelo comunismo, era um “amante da América”. Ou então: “como que americanistas como Anísio Teixeira foram os que ergueram nossas principais instituições de pesquisa em educação?” E ainda: como que Paulo Freire é lido nos Estados Unidos, tendo seu Pedagogia do Oprimido alcançado lá sua vigésima edição, e aqui no Brasil vivemos inventando “novos teóricos” (agora vigostikianos, não é?) para nos ensinar a alfabetizar? Quando pudermos olhar para os brasileiros que não foram anti-americanos e vermos o quanto contribuíram para nossa pátria, iremos entender o que há de profundamente errado com a ideologia um pouco imbecil que andamos espalhando entre os nossos jovens, contribuindo para o que temos visto por aí de analfabetismo político.



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O BORIS CASOY DA RBS

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Existe algo que vaza copiosamente na televisão brasileira, além de áudios reveladores: é a baba raivosa da RBS TV (afiliada da Globo), emissora do conglomerado mafiomidiático da famiglia Sirotsky, no sul do Brasil. E o escoadouro oficial de tais mucos peguenhentos atende pelo nome de Lasier Martins. Trata-se do "comentarista político" do telejornal exibido à hora do almoço pela estação gaúcha, embora ele possa ser visto, também, elogiando salames e rapaduras em reportagens de aluguel feitas no interior do estado.
Dizer que Lasier Martins não tem vergonha na cara seria pura perda de tempo, visto que, em sua faina diária, a sabujice é de seu mister. Ocorre, porém, que este lacaio das oligarquias guascas utiliza uma concessão pública de radiodifusão para destilar o ódio que seus patrões nutrem pelo governo Lula.
Como você verá no vídeo abaixo - também em exibição no blog RS Urgente -, Lasier Martins ultrapassou todos os limites da sem-vergonhice.
Má-fé, mentira e indignação seletiva foi o cardápio servido pelo histrião no Jornal do Almoço do último dia 14. Seja forte, pois.
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ADEUS, FILHA
Lionel Michaud chora em frente ao necrotério de Porto Príncipe, onde caminhões despejaram
centenas de corpos. Entre os mortos está sua filhinha de 10 meses: ela e a mãe morreram
soterradas em casa


Com a força de trinta bombas atômicas, o grande terremoto que
sacudiu o Haiti destroçou a capital, Porto Príncipe, causou um número
ainda "inimaginável" de mortos, vitimou brasileiros e deixou o país,
já paupérrimo, mais arrasado do que nunca

Quando o mundo acabou no Haiti, às 4 e 53 da tarde de terça-feira, o mais terrível foi que, por algum tempo, os mortos viveram. Com a força infernal de trinta bombas atômicas, o terremoto aconteceu no pior lugar possível. Seu coração de terrível poder, o epicentro, praticamente coincidiu com as ruas e encostas esquálidas de Porto Príncipe, a capital. Pouca coisa resistiu. Os casebres, os prediozinhos precários, os escassos edifícios mais imponentes. O topo da catedral, com suas duas torres, desapareceu. O arcebispo morreu. O Congresso ruiu, com o presidente do Senado lá dentro. Hospitais, escolas, hotéis. Uma universidade inteira tragou 1 000 viventes. No palácio presidencial, em pomposo estilo francês, foi como se uma foice gigante tivesse ceifado o prédio, na horizontal, e ele se reacomodasse, alguns metros mais abaixo. "Estou andando sobre corpos", disse Elisabeth Préval, a mulher do presidente, depois de escapar do choque mortífero que tudo engolfou. Zilda Arns, uma campeã da humanidade na luta para salvar crianças da desnutrição, não conseguiu escapar, da mesma forma que quase duas dezenas de militares brasileiros da força da ONU no Haiti. O prédio de cinco andares ocupado pelos funcionários civis da ONU também veio abaixo, com mais de 200 pessoas dentro, entre as quais o segundo no comando, o carioca Luiz Carlos da Costa.

Quantos morreram? Talvez 50 000. Ou 100 000. Quem se arriscaria a calcular? "Inimaginável", definiu René Preval, o presidente sem teto – perdeu o palácio e a residência particular –, abrindo os braços, no meio da rua, perplexo. Os vivos vagavam como almas penadas, sem ter casa para onde voltar ou, tendo, sem coragem para entrar nela. Os que iam morrer pediam um socorro que não vinha. Na primeira noite, os gritos eram muitos, constantes, lancinantes. Aos poucos, foram diminuindo. "Hoje, quinta-feira, não escuto mais ninguém", disse a VEJA o coordenador de uma entidade assistencial, Jean Claude Fignole. "Os escombros ficaram em silêncio. Os que continuam vivos estão muito fracos para gritar. Alguns apenas ainda estão com os celulares acesos."

FORÇA SOBRENATURAL
O palácio presidencial, construído em 1918, antes e depois da tragédia: como uma foice gigante
que desfechasse um golpe na horizontal


Ah, os celulares. Quando a terra tremeu, a luz acabou, a água sumiu e ergueu-se uma nuvem de cimento parecida com a vista em Nova York no 11 de setembro de 2001. As comunicações se evaporaram. Mas, com o mesmo padrão aleatório típico dos terremotos – aqui um prédio intacto, acolá um que parecia Hiroshima bombardeada –, alguns celulares continuaram funcionando. O grande terremoto do Haiti foi transmitido pelo Twitter, em doses de dramática concisão. "O centro virou poeira e escombros", tuitou no primeiro momento Frederic Dupoux. Depois: "Corpos por toda parte, não vi nenhuma ambulância nem nenhum serviço médico em lugar nenhum".


HOLOCAUSTO
O corpo abandonado da menina,
com as ruínas de uma igreja ao
fundo: ninguém sobrou para chorá-la

Os sobreviventes só tinham as mãos nuas para tentar ajudar os soterrados. Se conseguiam arrancá-los aos escombros, não tinham como transportá-los – as ruas estavam obstruídas por destroços e carros abandonados na hora do pânico. Se os transportassem, não tinham onde socorrê-los: os hospitais estavam em ruínas. Se obtivessem, enfim, algum socorro, faltava tudo. Feridos se alternavam com os que já haviam chegado mortos às poucas e precárias clínicas ainda abertas. Em frente ao necrotério, em total colapso, a mais dantesca das cenas: sobreviventes caminhavam na ponta dos pés, equilibrando-se sobre um tapete de mortos, tentando reconhecer parentes. Nenhum país estaria preparado para enfrentar uma catástrofe do tamanho da que devastou o Haiti – pelas primeiras avaliações da Cruz Vermelha, cerca de 300 000 pessoas precisavam de absolutamente tudo, de abrigo a água e comida. Somando-se todos os afetados pelo desaparecimento do pouquíssimo que tinham, chegava-se a um número dez vezes maior. No total, um terço da população haitiana, uma proporção de flagelados inconcebível até em tempos de guerra.

Habitualmente, o Haiti já vive em estado de emergência. A miséria é endêmica, a agricultura é de subsistência e a principal atividade econômica para as massas parece ser o microcomércio de rua. Descrever o Haiti como o país mais pobre das Américas – e o marco zero da aids também – não dá ideia nem aproximada da realidade. As peculiaridades da história haitiana descortinavam um futuro glorioso, mas redundaram em promessas terrivelmente frustradas. O Haiti foi o único país onde escravos trazidos da África conseguiram fazer uma rebelião bem-sucedida. Eles trabalhavam nas plantações de cana, que, como no Brasil colonial, produziam riqueza para poucos e sofrimento para muitos. A rebelião teve episódios terríveis, com matanças sucessivas dos blancs, os colonos franceses, e inspirou terror em outros países escravocratas. Teve também um herói convulsionado, Toussaint Louverture, que professava ideais libertários e escrevia a Napoleão Bonaparte como "o rei dos negros falando ao rei dos brancos". Ele terminou preso, exilado e morto na França, mas a independência foi alcançada pouco depois, em 1804, por Jean-Jacques Dessalines, que imediatamente se declarou imperador e iniciou uma linhagem de dirigentes desastrosos.


PRIMEIROS SOCORROS
A escavadeira recolhe corpos e socorrista espanhol consegue tirar criança das ruínas: com 70% da cidade destruída e os poucos serviços públicos em colapso completo, tudo é difícil para os sobreviventes

Fraco, com a economia desorganizada, sem herdar instituições nem criar as suas próprias, o Haiti sofreu intervenções estrangeiras sucessivas e o flagelo da dinastia Duvalier. Papa Doc e depois seu filho, Baby, foram os absurdamente perversos e corruptos ditadores que criaram um reinado de terror baseado nos tonton macoutes, seu esquadrão da morte particular, e em misteriosos poderes ocultos, na tradição do vodu. Governantes ruins, ladrões e insufladores da violência das massas destruíram os sopros de esperança na era pós-Duvalier e empurraram mais haitianos para a única saída, a fuga para o exterior, onde conseguem fazer o básico que seu país lhes nega: estudar e trabalhar, seja nos museus de Nova York, onde parecem formar uma sorridente corporação de guardas, seja nos hospitais do Canadá – há mais médicos haitianos em Montreal do que em Porto Príncipe. A falência geral acabou por produzir a intervenção da Organização das Nações Unidas, último recurso para salvar os haitianos de si mesmos. A missão, honrosa em sua essência, com participação majoritária do Brasil, traduzida no número de baixas sofridas pelo Exército nacional, conseguiu certa estabilização. No Haiti, isso significava um estado ruim, mas menos desastroso do que seria se nada tivesse sido feito. Até que a maior de todas as catástrofes, produzida nas entranhas da terra, aconteceu. Das superstições criadas à sombra do vodu, a mais conhecida é sobre os vivos que trazem os mortos de volta para escravizá-los. São os zumbis. No dia em que o fim do mundo despencou sobre o Haiti, as fronteiras entre vida e morte, como na lenda, se afinaram.

Como tudo o mais, o cemitério principal de Porto Príncipe entrou em colapso. Os corpos insepultos se acumulavam, famílias chegavam a pé carregando seus mortos e não tinham onde deixá-los. Estranhamente, o portão estava intacto. Sobre ele, a inscrição em francês:"Souvennons-nous que tout est poussière". Tudo era mesmo poeira no Haiti.

PORTO HIROSHIMA
Cena de bomba atômica em Porto Príncipe: haitianos não tinham casa para voltar
e vagavam pelas ruas, com medo e sem assistência. A lista de carências
é alarmante: faltam abrigo, água, luz, comida e remédios para todos


O TAPETE DE MORTOS
A cena dantesca se repetiu por todo canto: corpos amontoados como lixo, rodeados por moscas. Parentes de desaparecidos equilibravam-se sobre as vítimas em busca de rostos conhecidos

Diário do desastre

Este é o dramático relato de Diego Escosteguy, o repórter de VEJA
que narra a destruição e o desespero enfrentados pelos haitianos


PARA CONTAR A HISTÓRIA
Tragédia nas ruas e escombros da igreja Sacré Coeur (acima), onde estava Zilda Arns,
e o seminarista Bourgouin Meltone: "Ela era uma pessoa iluminada"

"Escrevo este relato no chão de Porto Príncipe, a cidade que acabou e agora recende a morte e sofrimento. À minha frente, está o outrora agradável Hotel Villa Creóle – na verdade, metade dele.

A parte que resta está servindo como ambulatório para tratar feridos do terremoto. O cheiro pútrido dos corpos que se estendem pelas ruas e jazem nos escombros obriga-me a usar uma máscara cirúrgica. Não adianta muito: a náusea é inevitável. A cada cinco ou dez minutos, ouço o barulho dos helicópteros que chegam e se vão – espera-se, aqui embaixo, que carreguem comida e água, tudo de que os haitianos mais precisam neste momento. Esse é um doce som. Há um bem pior, que ressoa desde que cheguei aqui, no começo da manhã: são os gritos agudos de dor que partem do ambulatório e da calçada, onde feridos padecem, sem anestésicos nem esperança, ao lado de voluntários abatidos pela impossibilidade de fazer mais e pela certeza de que nada além da morte aguarda esses infelizes abandonados à própria sorte.

‘Aaaaahhh’, grita uma voz de criança, silenciando todos que estão perto do ambulatório.

Eu e o fotógrafo Gilberto Tadday pousamos de helicóptero num aeroporto inteiramente ocupado pela solidariedade do mundo: havia aviões americanos, franceses, espanhóis, mexicanos. Do lado de fora, o caos. Haitianos gritavam por ajuda, por notícias dos familiares. Em alguns, já se notava raiva – e não mais desespero. As ruelas cinza de poeira e terra são bordejadas por filas indianas de homens, mulheres e crianças em busca de comida, água, remédio. Pela janela do carro, alguns nos pediam ajuda.

Dos prédios desabados, fragmentos de concreto caíam constantamente nas calçadas, tal qual flocos acinzentados de neve, pousando sobre o monturo de tijolos, dejetos e restos humanos nas calçadas. Não é difícil compreender por que já começam a se perceber tumultos nas ruas. No que costumava ser um posto, vimos uma briga por galões de gasolina. A frustração está dando lugar à fúria. Chega-se rápido à violência. ‘Ninguém vem nos ajudar. Precisamos de tudo para sobreviver’, diz, revoltado, Adolph Fanfan, de 25 anos. Ele perdeu um irmão, um tio e uma prima.

Chegamos com dificuldade à perigosa região onde a missionária Zilda Arns morreu. Lá, na tradicional Igreja Sacré Coeur, que desabou quando ela conversava com fiéis, sobraram tijolos, corpos – e uma solitária imagem de Jesus Cristo em frente ao altar. Um esqueleto de telhas vermelhas e algumas colunas de tijolos mantêm em pé a igreja. Dentro, cadeiras brancas de plástico, perfeitamente alinhadas, esperando uma missa que nunca virá. Uma construção menor, atrás da igreja, também desabou. Encontrei quatro voluntários tentando levantar os grossos pedaços de concreto, sem nenhuma ferramenta – e sem sucesso. Perguntei o que procuravam. ‘Cerca de vinte pessoas’, respondeu um deles. A força terrível do cheiro de corpos decompostos paira sobre tudo.

Estava lá o seminarista Bourgouin Meltone, um articulado jovem de 28 anos. Ele conhecia Zilda Arns. ‘Eu conversava com ela aqui’, diz Meltone, olhando para a torre de tijolos. ‘Ela era uma pessoa iluminada.’ O seminarista estava em outra paróquia quando o terremoto começou. O arcebispo Joseph Serge Miot morreu ao lado dele. Conta o haitiano: ‘Corri para cá e ajudei a retirar alguns sobreviventes. Era tarde para ela’.

O que era possível fazer com as mãos, os haitianos já fizeram. ‘Sem equipamentos, não temos como fazer mais nada, mais nada’, diz Tol Polyte Wolking, um estudante de 23 anos. Ele teve sorte. Seu casebre resistiu à força dos tremores. Mas ele ainda procura vítimas na rua onde Zilda Arns morreu. Além da igreja, havia uma moradia para seminaristas e uma escola infantil. Ao nos aproximarmos da escola, Polyte retirou sua camiseta vermelha, molhada de suor, cobriu o nariz com ela e apontou para a pilha cinza de tijolos. ‘Lá’, murmurou o haitiano, falando para si mesmo, ‘eles ainda estão lá dentro’.

Pouco antes de terminar este relato, a terra tremeu mais uma vez. Um haitiano me disse: ‘O senhor tem que sair daqui. O resto do hotel pode desabar’. Levantei-me e fui embora, tentando não olhar para trás."


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Revista Veja

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O Dia em que O Mundo Acabou

ADEUS, FILHA
Lionel Michaud chora em frente ao necrotério de Porto Príncipe, onde caminhões despejaram
centenas de corpos. Entre os mortos está sua filhinha de 10 meses: ela e a mãe morreram
soterradas em casa


Com a força de trinta bombas atômicas, o grande terremoto que
sacudiu o Haiti destroçou a capital, Porto Príncipe, causou um número
ainda "inimaginável" de mortos, vitimou brasileiros e deixou o país,
já paupérrimo, mais arrasado do que nunca

Quando o mundo acabou no Haiti, às 4 e 53 da tarde de terça-feira, o mais terrível foi que, por algum tempo, os mortos viveram. Com a força infernal de trinta bombas atômicas, o terremoto aconteceu no pior lugar possível. Seu coração de terrível poder, o epicentro, praticamente coincidiu com as ruas e encostas esquálidas de Porto Príncipe, a capital. Pouca coisa resistiu. Os casebres, os prediozinhos precários, os escassos edifícios mais imponentes. O topo da catedral, com suas duas torres, desapareceu. O arcebispo morreu. O Congresso ruiu, com o presidente do Senado lá dentro. Hospitais, escolas, hotéis. Uma universidade inteira tragou 1 000 viventes. No palácio presidencial, em pomposo estilo francês, foi como se uma foice gigante tivesse ceifado o prédio, na horizontal, e ele se reacomodasse, alguns metros mais abaixo. "Estou andando sobre corpos", disse Elisabeth Préval, a mulher do presidente, depois de escapar do choque mortífero que tudo engolfou. Zilda Arns, uma campeã da humanidade na luta para salvar crianças da desnutrição, não conseguiu escapar, da mesma forma que quase duas dezenas de militares brasileiros da força da ONU no Haiti. O prédio de cinco andares ocupado pelos funcionários civis da ONU também veio abaixo, com mais de 200 pessoas dentro, entre as quais o segundo no comando, o carioca Luiz Carlos da Costa.

Quantos morreram? Talvez 50 000. Ou 100 000. Quem se arriscaria a calcular? "Inimaginável", definiu René Preval, o presidente sem teto – perdeu o palácio e a residência particular –, abrindo os braços, no meio da rua, perplexo. Os vivos vagavam como almas penadas, sem ter casa para onde voltar ou, tendo, sem coragem para entrar nela. Os que iam morrer pediam um socorro que não vinha. Na primeira noite, os gritos eram muitos, constantes, lancinantes. Aos poucos, foram diminuindo. "Hoje, quinta-feira, não escuto mais ninguém", disse a VEJA o coordenador de uma entidade assistencial, Jean Claude Fignole. "Os escombros ficaram em silêncio. Os que continuam vivos estão muito fracos para gritar. Alguns apenas ainda estão com os celulares acesos."

FORÇA SOBRENATURAL
O palácio presidencial, construído em 1918, antes e depois da tragédia: como uma foice gigante
que desfechasse um golpe na horizontal


Ah, os celulares. Quando a terra tremeu, a luz acabou, a água sumiu e ergueu-se uma nuvem de cimento parecida com a vista em Nova York no 11 de setembro de 2001. As comunicações se evaporaram. Mas, com o mesmo padrão aleatório típico dos terremotos – aqui um prédio intacto, acolá um que parecia Hiroshima bombardeada –, alguns celulares continuaram funcionando. O grande terremoto do Haiti foi transmitido pelo Twitter, em doses de dramática concisão. "O centro virou poeira e escombros", tuitou no primeiro momento Frederic Dupoux. Depois: "Corpos por toda parte, não vi nenhuma ambulância nem nenhum serviço médico em lugar nenhum".


HOLOCAUSTO
O corpo abandonado da menina,
com as ruínas de uma igreja ao
fundo: ninguém sobrou para chorá-la

Os sobreviventes só tinham as mãos nuas para tentar ajudar os soterrados. Se conseguiam arrancá-los aos escombros, não tinham como transportá-los – as ruas estavam obstruídas por destroços e carros abandonados na hora do pânico. Se os transportassem, não tinham onde socorrê-los: os hospitais estavam em ruínas. Se obtivessem, enfim, algum socorro, faltava tudo. Feridos se alternavam com os que já haviam chegado mortos às poucas e precárias clínicas ainda abertas. Em frente ao necrotério, em total colapso, a mais dantesca das cenas: sobreviventes caminhavam na ponta dos pés, equilibrando-se sobre um tapete de mortos, tentando reconhecer parentes. Nenhum país estaria preparado para enfrentar uma catástrofe do tamanho da que devastou o Haiti – pelas primeiras avaliações da Cruz Vermelha, cerca de 300 000 pessoas precisavam de absolutamente tudo, de abrigo a água e comida. Somando-se todos os afetados pelo desaparecimento do pouquíssimo que tinham, chegava-se a um número dez vezes maior. No total, um terço da população haitiana, uma proporção de flagelados inconcebível até em tempos de guerra.

Habitualmente, o Haiti já vive em estado de emergência. A miséria é endêmica, a agricultura é de subsistência e a principal atividade econômica para as massas parece ser o microcomércio de rua. Descrever o Haiti como o país mais pobre das Américas – e o marco zero da aids também – não dá ideia nem aproximada da realidade. As peculiaridades da história haitiana descortinavam um futuro glorioso, mas redundaram em promessas terrivelmente frustradas. O Haiti foi o único país onde escravos trazidos da África conseguiram fazer uma rebelião bem-sucedida. Eles trabalhavam nas plantações de cana, que, como no Brasil colonial, produziam riqueza para poucos e sofrimento para muitos. A rebelião teve episódios terríveis, com matanças sucessivas dos blancs, os colonos franceses, e inspirou terror em outros países escravocratas. Teve também um herói convulsionado, Toussaint Louverture, que professava ideais libertários e escrevia a Napoleão Bonaparte como "o rei dos negros falando ao rei dos brancos". Ele terminou preso, exilado e morto na França, mas a independência foi alcançada pouco depois, em 1804, por Jean-Jacques Dessalines, que imediatamente se declarou imperador e iniciou uma linhagem de dirigentes desastrosos.


PRIMEIROS SOCORROS
A escavadeira recolhe corpos e socorrista espanhol consegue tirar criança das ruínas: com 70% da cidade destruída e os poucos serviços públicos em colapso completo, tudo é difícil para os sobreviventes

Fraco, com a economia desorganizada, sem herdar instituições nem criar as suas próprias, o Haiti sofreu intervenções estrangeiras sucessivas e o flagelo da dinastia Duvalier. Papa Doc e depois seu filho, Baby, foram os absurdamente perversos e corruptos ditadores que criaram um reinado de terror baseado nos tonton macoutes, seu esquadrão da morte particular, e em misteriosos poderes ocultos, na tradição do vodu. Governantes ruins, ladrões e insufladores da violência das massas destruíram os sopros de esperança na era pós-Duvalier e empurraram mais haitianos para a única saída, a fuga para o exterior, onde conseguem fazer o básico que seu país lhes nega: estudar e trabalhar, seja nos museus de Nova York, onde parecem formar uma sorridente corporação de guardas, seja nos hospitais do Canadá – há mais médicos haitianos em Montreal do que em Porto Príncipe. A falência geral acabou por produzir a intervenção da Organização das Nações Unidas, último recurso para salvar os haitianos de si mesmos. A missão, honrosa em sua essência, com participação majoritária do Brasil, traduzida no número de baixas sofridas pelo Exército nacional, conseguiu certa estabilização. No Haiti, isso significava um estado ruim, mas menos desastroso do que seria se nada tivesse sido feito. Até que a maior de todas as catástrofes, produzida nas entranhas da terra, aconteceu. Das superstições criadas à sombra do vodu, a mais conhecida é sobre os vivos que trazem os mortos de volta para escravizá-los. São os zumbis. No dia em que o fim do mundo despencou sobre o Haiti, as fronteiras entre vida e morte, como na lenda, se afinaram.

Como tudo o mais, o cemitério principal de Porto Príncipe entrou em colapso. Os corpos insepultos se acumulavam, famílias chegavam a pé carregando seus mortos e não tinham onde deixá-los. Estranhamente, o portão estava intacto. Sobre ele, a inscrição em francês:"Souvennons-nous que tout est poussière". Tudo era mesmo poeira no Haiti.

PORTO HIROSHIMA
Cena de bomba atômica em Porto Príncipe: haitianos não tinham casa para voltar
e vagavam pelas ruas, com medo e sem assistência. A lista de carências
é alarmante: faltam abrigo, água, luz, comida e remédios para todos


O TAPETE DE MORTOS
A cena dantesca se repetiu por todo canto: corpos amontoados como lixo, rodeados por moscas. Parentes de desaparecidos equilibravam-se sobre as vítimas em busca de rostos conhecidos

Diário do desastre

Este é o dramático relato de Diego Escosteguy, o repórter de VEJA
que narra a destruição e o desespero enfrentados pelos haitianos


PARA CONTAR A HISTÓRIA
Tragédia nas ruas e escombros da igreja Sacré Coeur (acima), onde estava Zilda Arns,
e o seminarista Bourgouin Meltone: "Ela era uma pessoa iluminada"

"Escrevo este relato no chão de Porto Príncipe, a cidade que acabou e agora recende a morte e sofrimento. À minha frente, está o outrora agradável Hotel Villa Creóle – na verdade, metade dele.

A parte que resta está servindo como ambulatório para tratar feridos do terremoto. O cheiro pútrido dos corpos que se estendem pelas ruas e jazem nos escombros obriga-me a usar uma máscara cirúrgica. Não adianta muito: a náusea é inevitável. A cada cinco ou dez minutos, ouço o barulho dos helicópteros que chegam e se vão – espera-se, aqui embaixo, que carreguem comida e água, tudo de que os haitianos mais precisam neste momento. Esse é um doce som. Há um bem pior, que ressoa desde que cheguei aqui, no começo da manhã: são os gritos agudos de dor que partem do ambulatório e da calçada, onde feridos padecem, sem anestésicos nem esperança, ao lado de voluntários abatidos pela impossibilidade de fazer mais e pela certeza de que nada além da morte aguarda esses infelizes abandonados à própria sorte.

‘Aaaaahhh’, grita uma voz de criança, silenciando todos que estão perto do ambulatório.

Eu e o fotógrafo Gilberto Tadday pousamos de helicóptero num aeroporto inteiramente ocupado pela solidariedade do mundo: havia aviões americanos, franceses, espanhóis, mexicanos. Do lado de fora, o caos. Haitianos gritavam por ajuda, por notícias dos familiares. Em alguns, já se notava raiva – e não mais desespero. As ruelas cinza de poeira e terra são bordejadas por filas indianas de homens, mulheres e crianças em busca de comida, água, remédio. Pela janela do carro, alguns nos pediam ajuda.

Dos prédios desabados, fragmentos de concreto caíam constantamente nas calçadas, tal qual flocos acinzentados de neve, pousando sobre o monturo de tijolos, dejetos e restos humanos nas calçadas. Não é difícil compreender por que já começam a se perceber tumultos nas ruas. No que costumava ser um posto, vimos uma briga por galões de gasolina. A frustração está dando lugar à fúria. Chega-se rápido à violência. ‘Ninguém vem nos ajudar. Precisamos de tudo para sobreviver’, diz, revoltado, Adolph Fanfan, de 25 anos. Ele perdeu um irmão, um tio e uma prima.

Chegamos com dificuldade à perigosa região onde a missionária Zilda Arns morreu. Lá, na tradicional Igreja Sacré Coeur, que desabou quando ela conversava com fiéis, sobraram tijolos, corpos – e uma solitária imagem de Jesus Cristo em frente ao altar. Um esqueleto de telhas vermelhas e algumas colunas de tijolos mantêm em pé a igreja. Dentro, cadeiras brancas de plástico, perfeitamente alinhadas, esperando uma missa que nunca virá. Uma construção menor, atrás da igreja, também desabou. Encontrei quatro voluntários tentando levantar os grossos pedaços de concreto, sem nenhuma ferramenta – e sem sucesso. Perguntei o que procuravam. ‘Cerca de vinte pessoas’, respondeu um deles. A força terrível do cheiro de corpos decompostos paira sobre tudo.

Estava lá o seminarista Bourgouin Meltone, um articulado jovem de 28 anos. Ele conhecia Zilda Arns. ‘Eu conversava com ela aqui’, diz Meltone, olhando para a torre de tijolos. ‘Ela era uma pessoa iluminada.’ O seminarista estava em outra paróquia quando o terremoto começou. O arcebispo Joseph Serge Miot morreu ao lado dele. Conta o haitiano: ‘Corri para cá e ajudei a retirar alguns sobreviventes. Era tarde para ela’.

O que era possível fazer com as mãos, os haitianos já fizeram. ‘Sem equipamentos, não temos como fazer mais nada, mais nada’, diz Tol Polyte Wolking, um estudante de 23 anos. Ele teve sorte. Seu casebre resistiu à força dos tremores. Mas ele ainda procura vítimas na rua onde Zilda Arns morreu. Além da igreja, havia uma moradia para seminaristas e uma escola infantil. Ao nos aproximarmos da escola, Polyte retirou sua camiseta vermelha, molhada de suor, cobriu o nariz com ela e apontou para a pilha cinza de tijolos. ‘Lá’, murmurou o haitiano, falando para si mesmo, ‘eles ainda estão lá dentro’.

Pouco antes de terminar este relato, a terra tremeu mais uma vez. Um haitiano me disse: ‘O senhor tem que sair daqui. O resto do hotel pode desabar’. Levantei-me e fui embora, tentando não olhar para trás."


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Que se enterre o que é autoritário


O secretário Vannuchi e Lula
O terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos precisa ser analisado minuciosamente pelo Congresso

Nesta edição, VEJA traz uma reportagem sobre um assunto que, desde o fim do ano passado, está presente no noticiário e ao qual você, leitor, talvez não tenha prestado atenção suficiente: a crise detonada pelo lançamento do terceiro Programa Nacional de Direitos Humanos. Sim, já estamos no terceiro programa. O primeiro foi lançado em 1996 e o segundo, em 2002, ambos no governo de Fernando Henrique Cardoso. A ideia de ter um programa desses, atuali-zado de tempos em tempos, surgiu depois que o Brasil presidiu o comitê de redação da Conferência Mundial de Direitos Humanos, realizada em Viena, em 1993, que legou uma orientação nesse sentido aos países participantes. A primeira versão, com 228 itens, propunha basicamente ações capazes de proteger índios, negros, crianças, detentos ou pessoas submetidas a trabalho forçado, entre outros grupos. Uma de suas consequências foi a criação da Secretaria Nacional de Direitos Humanos. Seis anos depois, em 2002, o segundo programa trazia 518 metas, mais específicas e detalhadas. Incluía melhorar a vida de dependentes químicos e portadores do vírus HIV, por exemplo.

O terceiro plano, feito sob os auspícios do secretário Paulo Vannuchi e assinado pelo presidente Lula, elevou o número de ações programáticas para 523. O catatau conta com seis eixos, 25 diretrizes e 82 objetivos estratégicos. Como só quem participou de sua confecção o leu antes, as reações foram surgindo ao longo dos dias que se seguiram ao seu lançamento. Descobriu-se que foram contrabandeadas para o programa propostas estarrecedoras, inconstitucionais. Uma delas revoga a Lei da Anistia, de 1979, conquista da sociedade brasileira que permitiu o retorno ao estado de direito depois de duas décadas de regime militar. Outra contém claras ameaças à liberdade de imprensa. Uma terceira limita o papel da Justiça nos conflitos entre proprietários e invasores de terras – o que favorece estes últimos e representa um atentado contra o direito à propriedade. E por aí vai. A maneira como o programa foi elaborado está errada, evidentemente. Ninguém ouviu os reais interessados. Espera-se, agora, que o Congresso tenha a sabedoria de dividir esse calhamaço em partes a ser analisadas minuciosamente, visto que tanto aprová-lo como rejeitá-lo por inteiro renderiam grandes problemas mais à frente. Que se acate o que é direito humano, de fato, e se enterre o que não passa de proselitismo, revanchismo e tentação autoritária.



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