Em 1923, o jornalista Isaac F. Marcosson escreveu no New York Times, em tom de admiração, que "Mussolini é o Roosevelt latino que primeiro age e só depois procura saber se é legal. Ele tem sido de grande ajuda para a Itália".4 A Legião Americana, que, durante quase toda a sua história, tem se destacado por ser uma grande e generosa instituição, foi fundada no mesmo ano em que Mussolini tomou o poder, e, em seus primeiros tempos, buscou inspiração no movimento fascista italiano. "Não se esqueçam", declarou naquele ano o comandante nacional da Legião, "de que os membros do Partido Fascista são para a Itália o que a Legião Americana é para os Estados Unidos."5
Em 1926, o humorista americano Will Rogers visitou a Itália e entrevistou Mussolini. Ele disse ao New York Times que Mussolini era "um tipo de carcamano". "Eu estou muito entusiasmado com essa figura." Rogers, a quem o National Press Club havia informalmente apelidado de "embaixador itinerante dos Estados Unidos", escreveu a reportagem para o Saturday Evening Post. Ele concluiu: "O governo ditatorial é a melhor forma de governo que existe: quer dizer, desde que você tenha o ditador certo."6 Em 1927, o editor do Literary Digest fez uma pesquisa perguntando: "Existe escassez de grandes homens?" Dentre os grandes homens apontados para refutar a pergunta, o mais votado foi Benito Mussolini - seguido de Lenin, Edison, Marconi e Orville Wright (um dos inventores do avião), com Henry Ford e George Bernard Shaw empatados em sexto lugar. Em 1928, o Saturday Evening Post glorificou ainda mais Mussolini, publicando uma autobiografia do Duce em oito capítulos. A série recebeu um acabamento especial e virou um livro que entrou para a história como um dos maiores adiantamentos já pagos a um editor americano.
E por que não haveria o americano médio de pensar que Mussolini era um grande homem? Winston Churchill o havia chamado de o maior legislador vivo do mundo. Sigmund Freud enviou a Mussolini uma cópia de um livro que escrevera junto com Albert Einstein, com a dedicatória "Para Benito Mussolini, de um velho que saúda o Governante, o Herói da Cultura". Os titãs da ópera, Giacomo Puccini e Arturo Toscanini, estavam entre os primeiros acólitos fascistas de Mussolini. Toscanini foi um dos primeiros membros do círculo do Partido Fascista de Milão, que conferia a seus integrantes uma aura de autoridade e precedência semelhante à dos membros do Partido Nazista nos tempos do Putsch da Cervejaria. Toscanini foi candidato ao parlamento italiano numa chapa fascista em 1919 e só foi repudiar o fascismo 12 anos depois.7
Mussolini era um herói especial dos muckrakers - aqueles jornalistas liberais progressistas dedicados a denunciar corrupções e escândalos e a defender os interesses do homem comum. Quando Ida Tarbell, a famosa repórter cujo trabalho ajudou a derrubar a Standard Oil, foi enviada à Itália em 1926 pela revista McCall's para escrever uma série sobre a nação fascista, o Departamento de Estado dos Estados Unidos temeu que aquela "radical bastante vermelha" pudesse escrever apenas "violentos artigos anti- Mussolini". Tais receios eram infundados. Ida foi cortejada pelo homem que ela chamou de "um déspota com covinhas" e louvou sua atitude progressista com relação aos trabalhadores. Igualmente atraído ficou Lincoln Steffens, outro famoso muckraker, que talvez seja vagamente lembrado nos dias de hoje como o homem que retornou da União Soviética declarando: "Estive no futuro, e funciona." Pouco depois daquela declaração, ele fez outra a respeito de Mussolini: Deus havia "criado Mussolini a partir de uma costela da Itália". Conforme veremos, Steffens não via nenhuma contradição entre seu gosto pelo fascismo e sua admiração pela União Soviética. Até Samuel McClure, o fundador do McClure's Magazine, o lar de tantos muckrakers famosos, apoiou o fascismo depois de visitar a Itália. Ele o saudou como "um grande passo adiante e o primeiro novo ideal de governo desde a fundação da República americana".8
Enquanto isso, quase todos os jovens intelectuais e artistas italianos mais famosos e admirados eram fascistas ou simpatizantes (a mais notável exceção foi o crítico literário Benedetto Croce). Giovanni Papini, o "pragmático mágico" tão admirado por William James, estava profundamente envolvido nos vários movimentos intelectuais que criaram o fascismo. Seu A história de Cristo - um tour de force turbulento, quase histérico, relatando sua aceitação do cristianismo - causou sensação nos Estados Unidos no início da década de 1920. Giuseppe Prezzolini, frequente colaborador do New Republic que um dia haveria de se tornar um respeitado professor na Universidade de Colúmbia, foi um dos primeiros arquitetos literários e ideológicos do fascismo. F. T. Marinetti, o fundador do movimento Futurista - que na América era visto como um companheiro artístico do Cubismo e do Expressionismo -, foi instrumental para fazer do fascismo italiano o primeiro "movimento jovem" bem-sucedido do mundo. O establishment educacional americano estava profundamente interessado nos avanços da Itália sob o notável "mestre-escola" Benito Mussolini - que, de fato, havia sido professor.
Talvez nenhuma instituição de elite na América tenha se acomodado ao fascismo tanto quanto a Universidade de Colúmbia. Em 1926, ela criou a Casa Italiana, um centro de estudos da cultura italiana e cenário para palestras de acadêmicos italianos preeminentes. Era a "genuína casa do fascismo na América" e uma "escola para os ideólogos fascistas que despontavam", de acordo com John Patrick Diggins. O próprio Mussolini havia contribuído com alguns móveis barrocos para a Casa Italiana e enviado ao presidente da universidade, Nicholas Murray Butler, uma foto autografada agradecendo sua "grande e valiosa contribuição" para a promoção do entendimento entre a Itália fascista e os Estados Unidos.9 Butler, pessoalmente, não era um defensor do fascismo para a América, mas acreditava que estava de acordo com os melhores interesses do povo italiano e que havia sido um sucesso muito real que merecia ser estudado. Essa distinção sutil - o fascismo é bom para os italianos, mas talvez não o seja para a América - era feita por uma grande variedade de destacados intelectuais liberais, posição muito parecida com a de alguns liberais que defendem o "experimento" comunista de Fidel Castro.
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