Impávida clava forte

"A cantora Vanusa virou motivo de risos. Atire a
primeira pedra quem nunca confundiu a parte do
‘Ouviram do Ipiranga’ com a do ‘Deitado eternamente’"

Quem não conhecia a cantora Vanusa, ou não se lembrava dela, agora já a conhece e tem motivos para dela não mais se esquecer. Ela fez seu triunfal ingresso, ou retorno, à fama com uma interpretação do Hino Nacional que circula amplamente na internet. Para os poucos que ainda não viram o vídeo, feito durante uma cerimônia na Assembleia Legislativa paulista, a cantora, cuja voz arrastada, de tonalidades sonambúlicas, já fazia suspeitar de algo errado desde o início, a certa altura se atrapalha de vez e faz a melodia descasar-se sem remédio da letra, e a letra por sua vez livrar-se da sequência em que foi composta, a terra mais garrida estranhando-se com o sol do Novo Mundo, o gigante pela própria natureza irrompendo em lugar que nunca antes frequentara. O braço forte ganhou reforços, e virou braços fortes. O berço esplêndido transmudou-se em versoesplêndido. E, na mais estonteante estocada na estabilidade das estrofes, entoou: "És belo és forte és risonho límpido se em teu formoso risonho e límpido a imagem do Cruzeiro" – assim mesmo, não só deslocando ou pulando palavras, como terminando abruptamente na palavra "Cruzeiro", desprovida do socorro do "resplandece".

A performance de Vanusa passa de computador a computador para fazer rir. Este artigo tem por objetivo defendê-la. Que atire a primeira pedra quem nunca confundiu os versos de ida ("Ouviram do Ipiranga" etc.) com os da volta ("Deitado eternamente em berço esplêndido"). Que só continue a ridicularizar a cantora quem nunca removeu os raios fúlgidos para o lugar do raio vívido, ou vice-versa. Vanusa disse que estava sob efeito de remédios, daí seus atropelos. Não há dúvida, pelo andar hesitante de seu desempenho, e pelo tom resmungado da voz, de que estava fora de controle. É pena. Fosse deliberada, e interpretada com arte, sua versão do hino teria dois altos destinos. Primeiro, iria se revestir do caráter de uma variação, interessante por ser uma espécie de comentário à composição tal qual a conhecemos. Não seria uma variante tão bela como aGrande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro, de Gottschalk, mas teria seus encantos. Segundo, assumiria a feição de uma leitura crítica do hino. Serviria para mostrar, com a insistente troca de palavras e de versos, como a letra é difícil, e extrairia um efeito cômico – deliberadamente cômico – das confusões que pode causar na mente de quem a entoa.

O inglês Lewis Carroll (1832-1898), autor de Alice no País das Maravilhas, criador do Chapeleiro Maluco e da festa de desaniversário, levou seu gosto pelo absurdo para a criação de um poema feito de palavras inventadas que se alternam com outras existentes, e cuja bonita sonoridade contrasta com o enigma de um significado impossível de ser alcançado. O poema chama-seJabberwocky, e jabberwocky, em inglês, passou a significar um texto brincalhão, composto em linguagem inventada, mas parecendo real, sonora e sem sentido. Uma tradução do Jabberwockypara o português, do poeta Augusto de Campos, começa assim: "Era briluz. As lesmolisas touvas / Roldavam e relviam nos gramilvos. / Estavam mimsicais as pintalouvas / E os momirratos davam grilvos".

Não. Não é que o Hino Nacional seja exatamente um jabberwocky. Não há nele palavras inventadas. Mas a combinação dos raios fúlgidos com o penhor dessa igualdade, do impávido colosso com o florão da América e do lábaro estrelado com a clava forte tem tudo para produzir um efeito jabberwocky para a multidão de brasileiros com ouvidos destreinados para os preciosismos parnasianos. A presença de palavras familiares no meio de outras estranhas, como no jabberwocky, confere a certeza de que caminhamos num terreno conhecido – no nosso caso, a língua portuguesa; no do jabberwocky original, a língua inglesa. Ao mesmo tempo, o inalcançável significado das palavras nos transfere para um universo em que a realidade se perde numa nebulosa onírica. Já houve, e ainda deve haver, movimentos para mudar a letra do Hino Nacional.Não, por favor, não – seria uma pena. Seu caráter jabberwocky lhe cai bem. Se à sonoridade das palavras se contrapõe um misterioso significado, tanto melhor: o hino fica instigante como encantamento de fada, e impõe respeito como reza em latim. Vanusa devia aproveitar a experiência e a reconquistada fama para aprimorar uma versão cara limpa, sem voz arrastada nem tons sonambúlicos, de sua interpretação. Ela explicita como nenhuma outra o charme jabberwocky da letra de Osório Duque Estrada.


Roberto Pompeu de Toledo

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Arte do Dia - "Goela Abaixo"

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Elocubrações Teológicas.

"O Limbo dos Poetas e Heróis" - Ilustração de Gustav Doré para "A Divina Comédia", de Dante Alighieri.

A minha lembrança mais remota da palavra “limbo” vem dos gibis do Thor: era para lá que Lóki, o traiçoeiro irmão adotivo do Deus do trovão era comumente banido, quando aprontava alguma. Mais tarde, lá pelos nove ou dez anos de idade, preparando-me para a primeira comunhão, lembro-me de ter perguntado à catequista para onde iam as almas daquelas pessoas boas que não haviam sido batizadas ou dos bebês que morriam pagãos: foi só então que conheci a definição católica para o limbo. Já na adolescência, naquele momento em que minha inocente mente juvenil começou a ser influenciada pelo comunismo ateu e apátrida (hoje percebo a lógica que houve nesta transição: simplesmente troquei a fé em um judeu barbudo pela fé em outro judeu barbudo!), comecei a achar que o limbo era o lugar mais interessante do edifício celestial. Afinal, como definiu Tomás de Aquino, no século XIII, o limbo seria um lugar de felicidade natural, porém sem a presença do Todo-Poderoso. Pareceu-me o lugar perfeito: lá não existiriam os sofrimentos do inferno (embora, convenhamos, de vez em quando um perversãozinha infernal é algo bem interessante!) e nem a angústia das pobres almas do purgatório que, por terem cometido pecados leves, ficam ali aguardando a misericórdia divina para subir aos ceús (uma sensação similar a que sinto, como torcedor do Vasco, na expectativa de subir para a série A!). Além disto, não seria aquele porre que deve ser o céu com anjos assexuados e todos os carolas que encheram a nossa paciência durante a sua passagem pela vida terrena. Assim, havia chegado a uma conclusão: se houvesse vida após a morte, o tal do limbo era o melhor lugar para se ir. Porém, em 2007, a festa acabou: após ouvir o parecer de uma comissão de doutos teólogos, o Papa Bento XVI afirmou que o limbo era uma mera hipótese teológica e decretou o seu fim. Ora, segundo a tradição medieval, as almas daqueles que viverem antes do advento do Cristo – como Platão e Socrátes – e que portanto não conheceram a sua palavra estavam neste interessante lugar (Em “A Divina Comédia”, Dante arrumou uma vaguinha no limbo até para infiéis muçulmanos como Averrois e Saladino). Por isto, com a sua extinção pelo Sumo Pontífice, algumas perguntas começaram a martelar na minha cabeça:
a) para onde foram todas estas almas, que durante milênios curtiram a tranquilidade do Limbo?
b) A monarquia celestial pagou-lhes alguma indenização por esta expropriação indevida ou elas simplesmente foram jogadas na rua da amargura?
c) Será que Platão aceitou liderar o Movimento dos Sem-Limbo e decidiu combater esta decisão arbitrária do Primeiro-Ministro do Todo-Poderoso?
Sem sombra de dúvidas, estão são questões fulcrais para o futuro da humanidade... Porém, nesta história toda, o que mais me chocou foi o fato de poucas vozes terem se levantado contra tal arbítrio. Uma das poucas foi a do crítico literário norte-americano Harold Bloom, que escreveu um artigo de protesto no “New York Times”, pois havia combinado com seu falecido amigo, o escritor Anthony Burgess, que este o esperaria no limbo com uma garrafa de brandy Fundador. Ou seja, o tal de Ratzinger, além de ser um reacionário de primeira, ainda toma decisões que atrapalham o reencontro de velhos companheiros!

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E por falar em fé, volta e meia, zapeando em busca de alguma coisa que preste na televisão, dou uma parada no programa do Missionário R.R. Soares, da Igreja da Graça. E não hesito em dizer: o cara é um craque em vender seu peixe, um verdadeiro Sílvio Santos (com quem tem uma certa semelhança física) da fé! Voz mansa, jeito bonachão e conciliador, o missionário nem de longe lembra a postura agressiva de alguns de seus congêneres que, por conta disto, muitas vezes acabam espantando possíveis futuros fiéis. Enfim, R.R. Soares é um gênio do marketing religioso e deveria ser estudado como um “case” nas faculdades de Comunicação!

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Trilha Sonora do dia: “Heavy Metal do Senhor”, do Zeca Baleiro.

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Melô do Sarney



Video clip da Banda AUDAX - Promessas Esquecidas
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Chalita vai ao PSB com a benção de Aécio e para ser o plano B de Geraldo Alckmin

Do Blog do Fernando Rodrigues

O tucano e geraldista Gabriel Chalita está entrando no PSB. Essa é a informação conhecida. O bastidor é mais apimentado.

Chalita conversou reservadamente com Aécio Neves para receber a benção do tucano mineiro a respeito da troca da canoa tucana pelo PSB paulista. Foi abençoado. Ontem (16.set.2009), bateu o martelo com o principal cacique do PSB, o governador de Pernambuco Eduardo Campos.

Geraldo Alckmin tem em Chalita um de seus mais fortes puxadores de votos na região metropolitana da capital paulista. Em 2008, Chalita foi o mais bem votado vereador na cidade de São Paulo, com 102.048 votos.

Alckmin esboçou no final de 2008 um desejo de ele próprio pular para o PSB. Não deu certo. Lula não se animou em vê-lo num partido de sua base. O petista detesta Alckmin. Credita ao tucano alguns ataques que considera além do aceitável na disputa presidencial de 2006.

Mesmo assim, Alckmin estava determinado a sair do PSDB no final do ano passado. Achava que não teria espaço no partido para ser candidato a governador em 2010, pois não se dava com José Serra. Por essa razão o próprio Serra ficou com medo de ter um candidato como Alckmin fora do PSDB em 2010. Trouxe Alckmin para seu secretariado estadual e acorrentou o antigo adversário à sigla.

Alckmin sabe o que se passa. Não tem mais como sair do PSDB. Resolveu então mover pedras importantes no tabuleiro de 2010. Se Serra acabar mudando de ideia mais adiante e não deixá-lo ser candidato ao Palácio dos Bandeirantes, Alckmin terá uma excelente opção dentro do PSB para apoiar na disputa pelo governo estadual paulista: Gabriel Chalita.

Ainda mais agora que Aécio Neves também está ciente da estratégia e já deu seu nihil obstat para a entrada de Chalita no PSB. Aliás, se tudo der errado para Alckmin e Aécio no PSDB, Chalita pode tranquilamente subir em São Paulo no palanque presidencial da petista Dilma Rousseff. Seria um tucano avançado no campo adversário, com o objetivo de minar as chances de vitória de Serra na disputa pelo Planalto.

Como se observa, o jogo entre os tucanos ainda está longe de ser um jogo jogado.

Comentário do Blogueiro: Na política, não existe espaço para os inocentes. Uma mexida no tabuleiro do xadrez, por mais despretensiosa que pareça, sempre procura esconder o verdadeiro jogo. E o caso de Chalita é exemplar.

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