Teoria do Caos

Agora há pouco ouvi na Rádio Gaúcha o repórter Rodrigo Alguma Coisinha falando sobre a posse de Obama, diretamente de Washington. O repórter narrava a intensa movimentação que houve na cidade no dia de ontem. Durante um show em homenagem ao novo presidente estadunidense, havia tanta gente, de tantos lugares, que os serviços de telefonia móvel entraram em pane. A cidade virou um caos, concluiu o intrépido repórter.

Ouvindo tal barbaridade, fiquei me perguntando: se Washington ficar sem celular por algumas horas é o caos, qual adjetivo deveria ser usado com relação à Gaza, por exemplo?

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Que o mundo puna os criminosos




As últimas notícias neste domingo relatam sobre o cessar-fogo em Gaza, com o início da retirada das tropas invasoras de Israel. Saem deixando um rastro de sangue, exemplos da mais horrenda barbárie, como a utilização de novas armas de mutilação de corpos, como os explosivos de metal denso inerte, tecnologia do horror da máquina de destruição americana, cedida a Israel. Junto deste possível final de capítulo, infelizmente sem solução definitiva à vista, descobrimos que o mundo repudia o sionismo e a limpeza étnica que esta política pratica contra a população palestina. Foram muitos os protestos por todo o planeta. Foi na internet, muito mais que na mídia tradicional, que lemos, tomamos conhecimento dos fatos, e da história desta triste realidade.

Em raro momento da mídia tradicional, foi reprisado na Globonews esta semana a entrevista com dois acadêmicos brasileiros, especialistas em Oriente Médio. Paulo Geiger, professor de história judaica e Arlene Clemesha, historiadora formada pela USP, com livro publicado sobre as relações entre marximo e judaísmo. Acima o vídeo.

Vale conhecer a professora Arlene. Ainda muito jovem, tem um longo trabalho acadêmico, como podemos ver pelo seu vasto curriculum Lattes, três livros publicados e uma didática maravilhosa para que muitos possam entender com clareza o conflito, como pode ser visto aqui em uma outra entrevista.

Em tempo: sugiro a leitura de post do Altamiro Borges sobre matéria da Folha que passou despercebida, sem destaque na capa. Informações da agência Reuters dizem que “os EUA estão contratando um navio mercantil para levar centenas de toneladas de armas da Grécia a Israel ainda neste mês”. Entre eles, novos matérias explosivos. Apesar da negativa do Pentágono, “um comando da Marinha americana confirmou que o carregamento de 325 contêineres de seis metros cada deve ser levado em duas viagens do porto grego de Ashdod, que fica a 38 quilômetros da Faixa de Gaza”. Com isso, uma evidente e criminosa prova do envolvimento dos EUA no genocídio. Que o mundo tome conhecimento e puna seus criminosos.
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Um final mais realista para "A Favorita".

Nas últimas semanas, o que ocupou corações e mentes de norte a sul do Brasil não foi a crise financeira internacional e muito menos o ataque israelense a Gaza. Indiscutivelmente, o que andou na cabeça e nas bocas - sendo a pauta principal das conversas nos salões de beleza, nas praias e nos botequins – foi a expectativa geral sobre qual seria o destino de Flora no capítulo final de “A Favorita”. Por isto, este humilde blog – sempre atento aos mais profundos anseios, sentimentos e aspirações do povo brasileiro – não poderia se omitir diante de uma questão tão relevante – ouso dizer essencial – quanto esta. Assim, venho a público externar a minha decepção, quiçá indignação, com o final da novela, pois, mesmo sabendo que ela é uma obra de ficção e, portanto, dada a licenças literárias, esperava eu que o autor mantivesse um mínimo de compromisso com o que acontece no mundo real. Mas não foi isto que ocorreu, já que rolou um clássico “happy end”, com os bons sendo premiados e os maus castigados. Por conta disto, resolvi soltar a minha verve literária – e jornalística – e apresentar aqui o que seria um final mais realista para a recém-finda novela global.

Depois de aporrinhar o núcleo dos personagens bonzinhos a novela inteira, Flora é presa quando tenta assassinar Donatela e Zé Bob. Porém, devido ao golpe que deu na empresa dos Fontini, ela é levada para a carceragem da Polícia Federal, sob as acusações de sonegação fiscal, evasão de divisas e crime contra a economia popular. Lá, ela conhece um rico banqueiro, preso em uma das operações com nomes esquisitos da PF, que logo se apaixona por ela. Graças à influência deste ilustre personagem, um douto ministro do STF concede habeas-corpus para os dois pombinhos que, ao saírem da prisão, fogem imediatamente para a Europa. Depois de envenenar o namorado – com uma cápsula de cianureto diluída em uma taça de Château Lafite-Rothschild 2003 - e ficar com sua fortuna, Flora faz uma operação plástica na Suíça e retorna ao Brasil com documentos falsos, adquirindo, logo ao chegar, uma grande fazenda nos arredores de Triunfo, rapidamente ampliada com a grilagem de terras públicas. Tendo se tornado uma das maiores produtoras de açúcar e álcool de São Paulo, ela é eleita presidente da seção paulista da UDR (União Democrática Ruralista), filiando-se a seguir ao DEM, partido pelo qual se candidata à prefeitura de Triunfo. Com uma campanha milionária e assistencialista – ela adota a alcunha de “Evita Perón Caipira” – e tendo “Beijinho Doce” como jingle de campanha, Flora se elege com uma votação consagradora. Depois de alguns meses à frente da administração daquela progressista cidade, ela começa a ganhar projeção nacional após ser elogiada em crônicas escritas pelo Jabor e pelo Mainardi que a descrevem como uma “administradora moderna, dinâmica, antenada com os novos tempos e que não compactua com as forças do atraso”. Com isto, ela acaba sendo escolhida como uma das coordenadoras da campanha presidencial do José Serra e no comitê eleitoral acaba conhecendo FHC, o mais cobiçado viúvo do pedaço, com quem inicia um ardente affair. Ah, e para não perder a pontaria, de vez em quando, ela pratica tiro ao alvo contra alguns camponeses sem-terra que insistem em invadir suas propriedades. Afinal, quem é que se importa com esta gentinha?
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Modelitos para instrumentos voadores


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“Vergonha para vós! Vergonha para Israel!”

Li os vários comentários no blog da Cora Rónai sobre o texto de sua última coluna no Globo. Há excelentes análises, que denunciam as várias contradições da jornalista em seu perverso e confuso raciocínio. Mas, pouco da polêmica ali se pode imaginar resolvida apenas pela lógica. Como contrapor a insanidade de quem chega ao cúmulo de criticar a mídia como patrocinadora de propaganda pró-Palestina? Ou a soberba dos que se acham o “povo escolhido”, que creditam toda a crítica ao antissemitismo de uma sociedade inculta. Estava refletindo quando li hoje a carta de André Nouschi ao embaixador de Israel na França, datada em 3 de janeiro e traduzida agora no Resistir. Nouschi é judeu, historiador renomado, tem 86 anos e combateu o nazismo na segunda grande guerra. Nada como uma boa esculachada de quem detêm verdadeiramente o saber:


Carta ao embaixador de Israel em França

por André Nouschi [*]

3 de Janeiro de 2009


Senhor Embaixador:

Para vós é shabat, que devia ser um dia de paz mas que é o da guerra. Para mim, e desde há vários anos, a colonização e o roubo israelense das terras palestinas exaspera-me. Escrevo-vos pois a vários títulos, como francês, como judeu de nascimento e como artesão dos acordos entre a Universidade de Nice e a de Haifa.

Não é mais possível calar diante da política de assassinatos e de expansão imperialista de Israel. Vós vos conduzis exactamente como Hitler se conduziu na Europa com a Áustria, a Checoslováquia. Desprezais as resoluções da ONU tal como ele as da Sociedade das Nações e assassinais impunemente mulheres e crianças; não invoqueis os atentados, a Intifada. Tudo isso resulta da colonização ILEGÍTIMA e ILEGAL. QUE É UM ROUBO.

Vós vos conduzis como ladrões de terras e virais as costas às regras da moral judia.

Vergonha para vós: Vergonha para Israel! Cavais a vossa tumba sem vos dar conta. Pois estais condenados a viver com os palestinos e os estados árabes. Se vos falta esta inteligência política, então sois indigno de fazer política e vossos dirigentes deveriam ir para a reforma. Um país que assassina Rabin, que glorifica seu assassino, é um país sem moral e sem honra.

Que o céu e que o vosso Deus leve à morte Sharon o assassino. Haveis sofrido uma derrota no Líbano em 2006. Sofrereis outras, espero, e enviais à morte os jovens israelenses porque não tendes a coragem de fazer a paz.

Como os judeus que tanto sofreram podem imitar os seus carrascos hitlerianos? Para mim, desde 1975, a colonização recorda-me velhas lembranças, aquelas do hitlerismo. Não vejo diferença entre vossos dirigentes e os da Alemanha nazi.

Pessoalmente, vou combater-vos com todas as minhas forças como o fiz entre 1938 e 1945 até que a justiça dos homens destruísse o hitlerismo que está no coração do vosso país. Vergonha a Israel. Espero que o vosso Deus lançará contra os seus dirigentes a vingança que eles merecem. Tenho vergonha como judeu, antigo combatente da II Guerra Mundial, por vós. Que o vosso Deus vos maldiga até o fim dos séculos! Espero que sejais punidos.

André Nouschi
Professor honorário da Universidade.

[*] Historiador, 86 anos, originário de Constantine (Argélia). Foi combatente da France Libre e é autor de um livro sobre o nível de vida das populações rurais de Constantine durante o período colonial até 1919 (PUF, 1961). Este livro foi saudado na altura pelo ministro do Governo Provisório da República Argelina (GPRA) e historiador argelino Ahmed Tafiq al-Madanî como "a gota de água que se oferece ao viajante após a travessia do deserto". Foi professor na Universidade de Tunis e é professor honorário da Universidade de Nice. Algumas obras de André Nouschi .


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