Drops Pós-Eleitorais - Parte II: Más Companhias.

Gabeira e seu candidato a vice-prefeito, Luís Paulo Corrêa da Rocha (PSDB), que foi vice-governador do estado do Rio de Janeiro, na “inesquecível” gestão de Marcello Alencar.

A edição de "O Globo" do último sábado, dia 15/11, trouxe uma notícia muito reveladora para aqueles que acreditaram - apesar de todas as evidências em contrário - que a candidatura de Fernando Gabeira à prefeitura do Rio de Janeiro representava uma alternativa à "política tradicional", que ele era, efetivamente, um candidato "independente" e "fora das estruturas partidárias convencionais" e que estava disposto a fazer um governo - caso fosse eleito - com uma "equipe de técnicos competentes e sem vínculo partidário". Na coluna "Panorama Político" foi noticiado que José Serra - o mesmo que conseguiu que o PSDB investisse R$ 1 milhão na campanha à prefeitura do candidato do PV - estava convencendo Gabeira a se candidatar ao governo do Rio de Janeiro, em 2010, pois precisa de um palanque forte no estado. Imediatamente, lembrei-me da quadrinha popular que foi cantada em várias capitais do Brasil, quando - através do grande "acordão das elites" que foi o "Golpe da Maioridade" - Pedro II pôde assumir o trono brasileiro com apenas 15 anos:

Por subir Pedrinho ao trono
Não fique o povo contente
Não pode ser boa coisa
Servindo com a mesma gente.
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Caricaturas de Liberati


Nietzsche e Brecht

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Pílulas de quarta-feira


Bravo juiz De Sanctis! E que agenda cheia esta semana para o caso Daniel Dantas. TRF, STJ, com várias derrotas para o banqueiro. Um interessante estudo é acompanhar a quantidade de notícias publicadas ao longo das últimas duas semanas para demonizar o juiz e o delegado. Que fato novo havia? Nada. Apenas a agenda da defesa de Dantas que pautou a mídia. O tom da continuidade da campanha já foi dado pela Folha Online com o título:“Juiz desiste da promoção para continuar no caso Daniel Dantas”. Interpretam seus reais objetivos, logo falarão de obsessão, podem apostar. E que história é essa de gravação de reunião de delegados que vai parar na imprensa para ela insinuar que houve de fato uma irregular gravação no STF? Quem gravou? Quem distribuiu? Com que propósito? Já está virando comédia.

Acreditem, li a coluna de Clovis Rossi nesta terça-feira e quase não me irritei. Na verdade outro sentimento foi mais forte. Percebi claramente como os jornais ficaram velhos e que muito em breve estarão mortos. Qual a importância de comprar um amontoado de papel para ler uma opinião de direita se há várias de graça na internet? Colunas e artigos morreram no papel. Que há de diferente em seu texto? Fazer uma mera provocação a Lula, Cristina Kirchner e Hu Jintao por terem assinado um documento do G20 que defende a economia de mercado? Deveriam ter cruzado os braços e decretado a revolução socialista mundial ali? A única relevância na leitura estava no final do texto, no PS com pedido de desculpas pela coluna de domingo, onde disse que Vladimir Herzog era terrorista. Ficou ainda mais claro o “já era”. Onde eu poderia de pronto postar um comentário para dizer que terroristas foram os que o assassinaram, depois de bárbara tortura? E ainda tiveram o atrevimento de inventar um suicídio. E lembraria também que a empresa que paga ao colunista foi cúmplice desses torturadores naquela época. Clovis Rossi, nunca mais!

Para avisar que volta a pauta do STF a decisão sobre a Lei de Imprensa, Cláudio Lembo lembra de John Milton, poeta inglês renascentista, que em 1644 publica Areopagítica, um manifesto de influência liberal na defesa da liberdade de expressão, contra decisões do parlamento que censurou um de seus livros. Interessante, copiei e em breve vou colar em algum lugar do blog a frase de Milton: “Dai-me liberdade para saber, para falar e para discutir livremente, de acordo com a consciência, acima de todas as liberdades”. Pessimista que sou, será uma forma de já preparar campanha para quando a justiça garantir ao cartel midiático toda a liberdade para fazer golpismo, enquanto a internet, da senzala, terá a severa vigilância de nossos juízes.

O blogueiro viaja nesta quarta e só volta no domingo. Estará sem internet, celular, GPS... Será orientado apenas pelas estrelas, se não chover.
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Entendendo Mendes

Quando Gilmar Mendes tomou posse da presidência do STF, em 23 de abril último, estranhei o tamanho da festa na Corte. Toda a república estava presente. Vários ex-presidentes, empresários, donos da mídia, até o Pelé compareceu. Foram cerca de 4.800 convidados, servidos das melhores bebidas, salgados, canapés e boa música, a cargo de orquestra da Universidade de Brasília. Tamanha demonstração de importância, que segundo O Globo custou R$ 76 mil, aguçou minha curiosidade sobre este homem que disse na posse que para aperfeiçoar o judiciário era necessária a “diminuição dos custos e a maximização dos recursos”. Como é tema recorrente em seus discursos, — segundo a mesma reportagem, Mendes, em sua posse no CNJ criticou os gastos excessivos do judiciário e defendeu uma melhor gestão de recursos — entendi que o STF fazia ali uma maximização. O dinheiro investido teria retorno garantido. E o fato me fez perguntar a amigo jornalista, experiente profissional, quem era afinal o tal Gilmar Mendes, que até então pouco havia me dado conta da existência. A resposta precisa é impublicável, mas em uma versão livre foi dito que era alguém que tinha muitos negócios na República, com muita troca de interesses com os que ali estavam em sua festa.

Entendi um pouco melhor da explicação do amigo quando a reportagem de capa da Carta Capital, de 6 de outubro, mostrou o empresário Gilmar Mendes e seus negócios no Instituto Brasiliense de Direito Público (IDP), com contratos conseguidos pela boa influência política, até mesmo para a compra de um terreno para sua sede, adquirido por 20% de seu real valor.

Agora, na última edição da mesma revista, entendo o que faltava. Gilmar Mendes é autêntico representante de nosso passado colonial, atuando como coronel na política da cidade de sua oligarca família, Diamantino (MT), de forma muito distinta da de um guardião do estado de direito. Há fatos muito graves apurados pela reportagem. E demonstram que os valores republicanos do ministro não valem muito em sua terra. Entre tantos casos narrados, fiquei consternado com o acorrido em 14 de setembro de 2000, quando a estudante Andréa Paula Pedroso Wonsoski registrou um boletim de ocorrência em delegacia da cidade contra o irmão de Mendes, candidato a prefeito pelo PPS. Diz o BO que a jovem afirmou ter sido repreendida pelo candidato um dia antes e ameaçada por seus cabos eleitorais, irados por denúncia feita em rádio de troca de cestas básicas por votos. 32 dias depois, após participar de um protesto estudantil contra o abuso do poder econômico nas eleições municipais, Andréa desapareceu. Seu corpo só foi encontrado em 2003 e apenas em 2005, depois da insistência de sua mãe em apurar o caso, o exame da ossada descobriu que foi morta com um tiro na nuca. O caso está arquivado na Vara Especial Criminal de Diamantino e a polícia nunca conseguiu esclarecer o crime. A justiça ali nunca foi feita. Lá a legislação parece que é outra.
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Lisboa, 13 de dezembro de 1968: do outro lado do Atlântico, os versos de "Pátria Minha" expressaram toda dor de um país.

Vinicius de Moraes foi uma figura ímpar na cultura brasileira. Diplomata de carreira e poeta consagrado, jamais abriu mão da vida boêmia, da paixão pelas mulheres e da carreira como compositor/músico de MPB, para desagrado de um bom número de colegas seus da ala mais conservadora do Itamaraty. No livro que escreveu sobre ele (Vinicius de Moraes: O Poeta da Paixão, Cia. das Letras, 1994), José Castello conta que, em dezembro de 1968, Vinicius estava em Portugal para uma série de shows, quando, no dia 13, começaram a chegar do Brasil notícias truncadas e desencontradas sobre a decretação do Ato Institucional n° 5. Preocupado com o destino de vários amigos seus, tentou contatar, sem sucesso, alguns deles como Rubem Braga, no Rio de Janeiro, e Otto Lara Resende, que era adido cultural em Lisboa. À noite, mesmo abalado e preocupado com os acontecimentos do outro lado do Atlântico, Vinicius dirigiu-se ao teatro para o show que faria com o violonista Baden-Powell e com a cantora Márcia. Naqueles dias, Portugal vivia o efêmero período da chamada “Primavera Marcellista” em que a ascensão de Marcello Caetano ao poder, no lugar do velho ditador António de Oliveira Salazar, havia acendido as esperanças de que poderia ocorrer uma liberalização do regime. No entanto, tais esperanças demonstraram-se se infundadas e Portugal só se livraria daquela ditadura que durava quase meio século, em abril de 1974, com a Revolução dos Cravos. Naquele 13 de dezembro, já que o Brasil era o tema recorrente nos noticiários portugueses, a TV estatal portuguesa – a RTP – envia uma equipe para fazer um tape do show. Sem temer a presença da mídia portuguesa e, provavelmente, de agentes da temida polícia política salazarista, a PIDE, Vinicius interrompe o show, antes de começar a interpretar o “Canto de Ossanha”, e diz "Eu hoje gostaria de dizer a vocês umas palavras de muita tristeza. No meu país foi instaurado, hoje, o Ato Institucional n° 5. Pessoas estão sendo perseguidas, assassinadas, torturadas. Por isso, quero ler um poema". A seguir, abriu um exemplar de sua "Antologia Poética" e - enquanto Baden Powell dedilhava o no violão o Hino Nacional brasileiro - leu os versos de “Pátria Minha" (publicados originalmente em 1949), para êxtase da platéia:

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria (...)


Como ressalta José Castello, a leitura desse poema ficou tão marcada na memória dos portugueses como “uma das mais bem-acabadas expressões que puderam conhecer do amor à liberdade”, que na noite seguinte à Revolução dos Cravos (1974) que derrubou a famigerada ditadura salazarista-marcellista, a RTP retirou o tape do show de Vinicius de seus arquivos e o reprisou. Os ventos da liberdade que, naquele instante, sopravam em Portugal demorariam ainda alguns anos antes de atravessarem o Atlântico e chegarem ao Brasil.
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