Nova postagem, finalmente

Como meus milhares de fiéis leitores já devem ter percebido, o blog está sofrendo de um déficit estrutural de postagens. Na última semana, tive que viajar a trabalho. Depois disso, outros compromissos e a preguiça me impediram de postar algo novo. E, como meus milhares de fiéis leitores também já devem ter percebido, a nova postagem é uma empulha. Ao invés de uma charge nova ou um texto analisando a atual conjuntura, temos uma enrolação, como outras que já tivemos neste blog. A diferença, como vocês perceberão a seguir, é que esta será uma enrolação bem ilustrada, com ares de notícia e divulgação cultural.

No domingo, dia 9 de novembro, eu estive na feira do livro pintando uma ilustração de humor, em painel de 1,30 x 1,00 m, com o tema “livro”. O painel, ao final da tarde, foi colocado em um “livro” gigante, onde se encontravam as pinturas do Hals, Rodrigo Rosa, Edgar Vasques, Moa, Rafael Sica, Bier, Lancast e Eugênio Neves, artistas que me antecederam. A estas alturas, também já se encontram no livrão o desenho do Santiago e o do Uberti . O do Rafael está sendo pintado hoje (12/11) à tarde.


A pintura ao vivo dos painéis e o livrão fazem parte do evento O Riso é Livro, patrocinado pela Caixa Econômica Federal. Os visitantes da Feira do Livro poderão folhar o livrão, receber cartões postais com cartuns e interagir com o artista que estiver pintando no dia. E o felizardo artista poderá tomar alguns capuccinos, chás gelados, receber a visita dos amigos (como eu recebi do Guga e da Têmis, do Bier, do Uberti, do Pedro Alice, do Moa e do Zé Antônio) e dos curiosos visitantes da Feira. Eu aproveitei o copo do primeiro de vários capuccinos que tomei para fazer um desenho de aquecimento. Um menino que se interessou pela pintura, o Arthur, acabou ficando com o souvenir.


Mas não foi apenas o Arthur e outros visitantes que ganharam alguns mimos. Eu ganhei a camiseta do evento, alguns conjuntos de cartões postais e dois belíssimos livros patrocinados pela Caixa, Memória Viva de Porto Alegre, em parceria com o Museu Hipólito José da Costa, e Corpo e Alma, de Orlando Brito.


A última grande notícia do dia me foi dada pelo Moa, via celular: Palmeiras 0 x 1 Grêmio. Dá-lhe Tricolor!


E depois, ainda participei de um coquetel que contava com a presença do mestre Ziraldo. Durante o coquetel, combinou-se um encontro no tradicional Tutti Giorni, nos altos do Viaduto da Borges, onde eu e o Hals pudemos dar uma de papagaios-de-pirata ao lado do grande Zira, com o multimídia Cláudio Levitan ao fundo, enquanto degustávamos uma Mãe Joana dunkel. O que é a Mãe Joana? Bem, quando o blog estiver parado novamente, eu escrevo uma postagem-enrolação sobre ela...

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"O que muda na mudança" ou o que Tancredi Falconeri acharia da eleição de Barack Obama.

O que muda na mudança,
se tudo em volta é uma dança
no trajeto da esperança,
junto ao que nunca se alcança?

(Carlos Drummond de Andrade)

Uma das frases mais famosas da literatura mundial encontra-se em “O Leopardo”, obra-prima de Tomasi di Lampedusa (que, por sinal, originou um belo filme de Luchino Visconti, com Burt Lancaster e Alain Delon nos papéis principais): é aquela dita pelo personagem Tancredi Falconeri ao seu tio, o Príncipe Fabrizio Salina: “Se nós não estivermos lá, eles fazem uma república. Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude”. Tancredi, jovem impetuoso, havia se incorporado aos exércitos que lutavam pela unificação da Itália, enquanto seu velho tio mantinha-se fiel à dinastia Bourbon do Reino das Duas Sicílias. Apesar disto, Salina percebe e se orgulha da perspicácia de seu sobrinho: os tempos haviam mudado e a decadente aristocracia (“Nós”), se quisesse sobreviver, precisava se adaptar a eles, integrando-se com a ascendente burguesia (“Eles”). Ele mesmo não se vê com estrutura para participar desta integração, mas entende que o sobrinho seria a ponte entre os velhos e os novos tempos, garantindo a preservação dos interesses de sua classe.
O livro de Lampedusa me veio à lembrança em meio à euforia mundial pela vitória de Barack Obama (Sim, Obama é pop!! Até os porteiros de prédio e os garis brasileiros comemoraram sua eleição. Sem contar, a grande festa popular que tomou conta de várias cidades africanas) e, ao longo da última semana, o diálogo entre Tancredi e Salina ficou martelando em minha cabeça devido às incontáveis vezes que me perguntaram: o que o mundo pode esperar do governo Obama? Sem sombra de dúvidas, esta eleição tem um peso simbólico muito grande, principalmente quando se leva em conta a história de segregação racial que os Estados Unidos possuem. No entanto, se saímos do campo do simbólico e entramos no da Realpolitik, as coisas se tornam um pouco mais complicadas.
Tradicionalmente, os Democratas têm uma visão mais cosmopolita da política internacional e dão uma ênfase maior ao multilateralismo. Porém, não podemos esquecer que os governos existem para defender os interesses de seus Estados e que os interesses de uma potência imperial como os Estados Unidos estão em toda a parte e envolvem o mundo inteiro. Desta forma, convém lembrar que foi no governo do democrata John Kennedy que ocorreu a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba; que foi no governo de Lyndon Johnson – o mesmo que assinou a Lei dos Direitos Civis dos negros norte-americanos, em 1964 – que os EUA se afundaram de vez no atoleiro do Vietnã e que o outro lado do Soft Power da era Clinton traduziu-se em intervenções militares na Somália e no Sudão. Assim, será que as expectativas geradas pela eleição de Obama em lugares como o continente africano, por exemplo, se traduzirão em resultados concretos?
Já foi dito inúmeras vezes – inclusive pelos representantes do governo brasileiro em diversos fóruns internacionais – que uma efetiva liberalização do comércio mundial, com a conseqüente extinção dos subsídios agrícolas nos países centrais, faria mais pelos países pobres do que qualquer pacote de ajuda humanitária. É notório que os EUA são um dos Estados com mais barreiras comerciais – tarifárias e não tarifárias – no mundo. Um governo do Partido Democrata, tradicionalmente protecionista, estaria disposto a eliminar progressivamente tais barreiras em nome do bem-estar do mundo como um todo? O novo presidente assumirá o governo dos EUA em meio a uma enorme crise internacional e a história nos mostra que, em momentos como este, há uma tendência a um maior fechamento das economias nacionais. Pensando em questões que interessam a vários dentre os países chamados “emergentes”, em especial ao Brasil, num momento em que o desemprego atinge níveis preocupantes nos EUA, estaria Obama disposto a enfrentar os sindicatos de trabalhadores – tradicional base social de apoio do Partido Democrata – do decadente setor siderúrgico norte-americano e retirar as barreiras protecionistas contra o aço importado? Ou enfrentar os produtores agrícolas do “Corn Belt” e retirar os subsídios ao etanol de milho, abrindo espaço para o nosso etanol de cana? Sinceramente, parece-me muito difícil que isto ocorra. Assim, não creio que venhamos a ter mudanças muito significativas na política externa norte-americana no próximo governo, com exceção de algumas questões pontuais como a diminuição das tropas no Afeganistão e no Iraque e a busca de uma saída honrosa para os EUA nesses conflitos, mas nada que altere de forma mais contundente a maneira como se dá a inserção norte-americana no mundo.
No âmbito da política doméstica, creio ser um equívoco – ou, no mínimo, excesso de otimismo - acreditar que a eleição de Barack Obama vira a página dos conflitos raciais nos EUA e anuncia uma nova era “pós-racial”, leitura esta que tem sido feita por boa parte da mídia, inclusive a brasileira. Uma análise mais acurada do mapa eleitoral dos EUA nos mostra algumas questões que devem ser objetos de reflexões mais profundas: 1- Um dos fatores que contribuíram para a vitória de Obama foi a mudança do perfil demográfico do país, com o aumento considerável do número de negros e de hispânicos. A candidatura de um negro à presidência e o trabalho de milhares de voluntários convencendo esses setores a se alistarem para votar e a saírem de casa no dia das eleições para fazê-lo estimularam a participação eleitoral desses segmentos, em que a abstenção é tradicionalmente grande (o número de hispânicos que foram às urnas aumentou 25% em relação a 2004 e o de negros 14%); 2- Entre o eleitorado branco, Obama obteve 43% dos votos, com este índice aumentando para 54% entre os mais jovens. Assim, apesar da vitória obtida por Obama em alguns distritos eleitorais majoritariamente brancos, a tal da “América profunda” – a base social por excelência dos Republicanos -, branca, anglo-saxônica e conservadora continua a ter um peso bastante grande na política norte-americana e estes setores não deixaram e não vão deixar de lado a clivagem racial; 3- O conservadorismo de boa parte da sociedade norte-americana se fez sentir em alguns dos plebiscitos estaduais que ocorreram paralelamente às eleições presidenciais: na Califórnia, na Flórida (estados onde Obama venceu) e no Arizona, os eleitores optaram pela proibição da união civil dos homossexuais. Logo, parece que os “ventos da mudança” não se refletiram no posicionamento em relação à questões morais.
Por fim, é importante lembrar que Obama é o legítimo representante daquela classe média negra que se formou e se fortaleceu nos últimos anos, devido a algumas décadas de políticas de ação afirmativa. Os filhos e netos da geração que lutou pelos direitos civis na década de 1960 tiveram a oportunidade de estudar nas melhores universidades norte-americanas (Obama é de Harvard) e formaram uma espécie de elite negra que, hoje, reivindica a construção de uma “sociedade pós-racial”, em que os méritos individuais sejam levados em consideração ao invés da cor da pele. A vitória de Obama é a vitória destes setores. Mas será que é a vitória dos milhões de negros pobres dos EUA para quem a questão racial é uma barreira a mais, que se soma às barreiras de classe?
De fato, a imagem que os norte-americanos têm de si mesmos e a imagem que o mundo tem dos EUA mudou com a eleição de Obama. Mas será que a sociedade norte-americana realmente mudou? Obama é a nova versão do sonho americano. O sonho de que qualquer criança nascida naquele país pode ser o que quiser, inclusive presidente dos EUA. Mas será que este sonho pode, de fato, ser sonhado por todos? Ou a eleição de Obama é o equivalente político do mito liberal do self-made man, a exceção que legitima a regra? Não tem jeito: aquele diabinho que fica soprando coisas em meus ouvidos vem me dizendo nos últimos dias: “lembre de Tancredi, lembre de Tancredi!”. E eu penso em Tancredi e também nos versos de Drummond...
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Caricaturas de Liberati



Amy Winehouse

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Daniel, esse amigo supremo

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Para não dizerem que não falei de Obama


Para falar, tenho que fazer uma revelação, bem pessoal: eu fiz um curso de meditação. Precisava dormir melhor, eliminar tensões, segui conselhos. Não aprendi o suficiente para meditar, confesso. Fui péssimo aluno. Mas ficou algo das lições do professor, formado no Oriente. A principal é a necessidade de sermos extremamente seletivos com os diversos apelos simbólicos de uma sociedade que te exige atenção o tempo todo. Aprendida a lição, coloquei logo em prática o ensinamento e chutei o curso, selecionando outras opções de informação. Ainda tenho insônias constantes e dificuldade de relaxar, mas consigo me desligar de muitos convites cotidianos à compra de diversos produtos. Sou péssimo consumidor. Talvez isso explique o meu descaso com essas eleições americanas.

Foi impressionante a quantidade de espaço dedicado a elas pela nossa mídia. Minutos e mais minutos nas TVs, páginas e páginas nos jornais, durante infinitos meses, e eu ali alheio. Claro que houve momentos em que quase fui seduzido. O título no Globo “A casa onde Obama perdeu um poodle” é um convite quase irrecusável. Mesmo assim, continuei alienado naquela fartura de informações, sem saber de algo tão fundamental e decisivo. Afinal, como se chamava o cachorrinho? E a casa? Paciência.

Ontem me rendi. Acompanhei a apuração. Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas que esperavam Obama em Chicago para um pronunciamento como eleito. Muitos choravam quando anunciada sua vitória. Gritavam ou portavam slogans: Change, we can believe in. Yes, we can. Belo. E que coisa mais simbólica. Acredito em mudanças. Acredito que a necessidade histórica leva a elas, assim vem acontecendo há muitos milênios. Imaginar que após a primeira eleição do último presidente, em sua caminhada rumo ao Capitólio para a posse, sua limosine teve que correr, com o povo atirando ovos... Elegeram um presidente mestiço, que fala em unir o país. É um grande passo.

E a questão do simbólico, do professor zen-budista, reapareceu na minha cabeça ontem. Claro, me tirando um tanto mais do sono, aumentando minhas tensões. Pensei em nossas últimas eleições municipais, impossível não associar algumas coisas. Estas também foram bem marcadas pelo simbólico. Aqui talvez com outro slogan: No change. Reelegeram até o Kassab. Mas naquele simbólico da massa esperando o Obama fiquei mais detido, imaginando coisas. Voltei a ler a nossa rígida e parcial legislação eleitoral. Algo que soma às minhas atuais variadas preocupações. Li mais uma vez o Código Eleitoral, art 242, caput, citado na Resolução n° 22.178, em seu Art 5°, do TSE: “A propaganda, qualquer que seja a sua forma ou modalidade, mencionará sempre a legenda partidária e só poderá ser feita em língua nacional, não devendo empregar meios publicitários destinados a criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais”. Impressionante a preocupação dos nossos legisladores com os “estados mentais” do nosso povo. Quantos receios. Não que eu ache que na democracia americana existam mais oportunidades para a catarse coletiva. Tal evento em Chicago nada prova em contrário, mas fica o exemplo em nossa legislação dos reais temores de nossas elites. O que acham que fariam se tomados pela emoção? Votariam errado? Apoiariam um líder, como na terra de Obama aconteceu, que deu uma esculachada geral em uns soldadinhos ingleses? Maior perigo. Teríamos que conviver com esta cara em notas do nosso dinheiro por séculos. Seu nome em ruas, cidades. Coisa de terceiro mundo, né?

Por favor, é só um desabafo irônico, não quero criar artificiais estados emocionais em nosso povo. Não tenho como concorrer com nossa mídia, que para eleger um presidente com a cara do Nosferatu, um dos seus últimos quadros possíveis, conseguiu criar um falso alarme com a febre amarela, levando milhares a se vacinarem desnecessariamente, com mortes registradas por esse alarmismo. É concorrência desleal. Nem quero adiantar aqui o meu descrédito por uma verdadeira mudança nos EUA com Barak Obama. Não vale lembrar agora que seu consultor para política externa é Zbigniew Brzezinski, quem vem desenhando há muito os desafios da expansão do império americano, e que teve na família Bush bons e fiéis seguidores. Na verdade esse papo todo é para dizer que se votasse nos EUA teria escolhido Cynthia McKinney. Who? Ah, claro, ela foi candidata nestas eleições, pelo partido verde, sem espaço nas regras democráticas americanas. É uma ex-congressista atuante, com propostas de mudanças reais e possíveis para aquele país e o mundo. Corajosa, enfrentou no Congresso de lá o Rumsfeld, cobrou do governo americano suas responsabilidades no 11 de setembro, defende os governos progressistas da América Latina, inclusive cita Cuba como um exemplo de democracia. Enfim, bem diferente do que pensam nossos verdes, que gostam mais de serem vistos como símbolos, posando para fotos com militares, almejando saírem na revista Caras, convidados para o curral vip de vários eventos, e sob o aplauso de todo o Leblon.
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